Oblivion

14 Sōsuke.


Notas iniciais
Oi, gente! Esse capítulo está um pouquinho mais curto que o restante, pois quis mostrar o que está ocorrendo na Soul Society durante a luta de Haiako! Também quis focar mais no mundo e nas memórias de Aizen, e explorar melhor como ele pensa e se relaciona com aqueles à sua volta. Tenham uma ótima leitura! O próximo capítulo já está saindo do forninho!

Meu bem querer

É segredo, é sagrado

Está sacramentado em meu coração

Meu bem querer

Tem um quê de pecado

Acariciado pela emoção

Meu Bem Querer — Djavan


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Quando Aizen acordava, naquele primeiro segundo em que os olhos se abriam com dificuldade, e as memórias ainda não lhe invadiam a mente, ele era apenas… Sōsuke. Os olhos castanhos-amarelados do homem abriram vagarosamente, resistentes, iluminados levemente pela luz fraca do final da madrugada que invadia as cortinas de seus aposentos.

Passava dias sem dormir e, quando o fazia, permitia-se descansar apenas por pouquíssimas horas, acordando antes de toda a Seireitei, se é que realmente descansava. Além disso, nas poucas noites em que passava na Soul Society, sua mente estava sempre em outro lugar. Em outro mundo, era um rei. Neste, um capitão amável.

O homem de cabelos castanhos levemente ondulados se levantou do futon, organizando-o de imediato. Aizen, até mesmo nas pequenas sutilezas de sua rotina, era extremamente cuidadoso e organizado. Seus aposentos, como era padrão entre os capitães que viviam em seus esquadrões, possuíam dois andares. No primeiro, sua área de descanso e trabalho e, no segundo, o banheiro e uma varanda. O chão coberto pela trama de palha oferecia conforto térmico aos pés e, no quarto, as cores neutras prevaleciam, sem conferir muita personalidade ao lugar. Mesmo suas vestes casuais não possuíam detalhes, e ele dormia com um samue de cor ocre.

Subiu as escadas, deparando-se com uma ampla varanda, entreaberta, cuja visão da Seireitei e de sua divisão lhe trouxeram desconforto. Com um suspiro, Sōsuke apertou os olhos, seguindo sua mão até os cabelos que caíam em sua testa, colocando-os para trás e, propositalmente ignorando aquela vista, adentrou o banheiro. Após lavar seu rosto, olhou para o reflexo a sua frente. As vestes entreabertas mostravam o peito e o abdômen definidos, e ele constatou, enquanto passava a mão pelo próprio queixo e bochechas, sentindo os pequenos fios de barba que começavam a crescer, após dois dias, falando consigo:

-Você perdeu peso… — Suspirou. — Aguente um pouco mais.

Saiu do banheiro, com o rosto barbeado e o corpo limpo, e decidiu observar mais atentamente a luz que começava a refletir nas pequenas janelas ao horizonte. Abriu o shōji da varanda por completo, e se debruçou no parapeito de madeira. Deixou o vento gelado lhe atingir as bochechas, despertando seus sentidos. Algo dentro de si, naquele dia, havia o deixado nostálgico.

Ele estava quase irreconhecível. O cabelo para trás, a face livre, sem se esconder atrás de seus óculos, e as roupas informais lhe conferiam um ar mais jovem e menos sério. Apesar de olhar para aquele lugar com um certo desprezo, ainda existiam memórias que o traziam acalento, arrancando-lhe um sorriso dos lábios, enquanto direcionava seus olhos para o céu azul escuro.

Afinal, poderia mesmo alguém ser completamente mau ou completamente bom?

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Turn Back The Pendulum

Cerca de 135 anos atrás*.


-Hana*, onde você está? — Um Aizen Sōsuke mais jovem, em o que parecia uma eternidade atrás, vestindo seu Shihakushō e óculos de grau, vasculhava os cômodos de uma casa tradicional, um a um, procurando por sua companheira. Recentemente formado na Academia Shin’o, ele carregava consigo, além de sua Zanpakutō em uma bainha verde, um pequeno caderno de capa de couro, sem quaisquer indicações do que havia em seu conteúdo, e um ramalhete de hortênsias azuis.

O céu azul de verão possuía poucas nuvens brancas como algodão, e o sol brilhava intensamente através dos papeis translúcidos dos shōji do local. A casa, com um piso de madeira escura polido e limpo, possuía flores coloridas e bem cuidadas em todos os cômodos. Sōsuke não se importava com esses detalhes, e até preferia tons mais sóbrios, mas sabia que Haiako era fascinada com as cores vibrantes das flores que cresciam na mata ao redor da casa. Por isso, ele sempre fazia questão de levá-la flores novas em suas cores preferidas.

Naquele horário, usualmente, ele estaria nos laboratórios da Divisão 12, local o qual ele possuía livre acesso — ainda que os responsáveis não tivessem conhecimento disso, e ainda que seus companheiros pudessem jurar que ele os estivesse fazendo companhia durante todo o dia, ou mesmo visto estudando sozinho na biblioteca. Todavia, algo era diferente. Por algum motivo, o homem havia sentido uma enorme vontade de retornar para sua casa mais cedo.

-Haiako? — Ele continuou, intrigado por sua ausência, e riu de si mesmo, ao abrir as portas de correr do banheiro, quase torcendo para encontrá-la ali. Então, Aizen parou no meio do quarto que ambos compartilhavam, e colocou as mãos ocupadas para trás, suspirando profundamente de olhos fechados, sentindo o aroma doce da mulher. Ele sabia, naquele momento, estar inspirando a paz em seu coração, aproveitando-a, enquanto ela durasse, efêmera.

Em frente ao futon, uma mesa de estudos servia de apoio para alguns livros entreabertos, os quais ele deduziu terem sido utilizados por Haiako. A mulher era estudiosa e dedicada, aprendia novos conceitos em uma velocidade incrível, e o surpreendia com a facilidade com a qual ela absorvia conhecimentos considerados avançados, mesmo para estudantes no último ano da academia. Todavia, a morena não possuía interesse em se tornar uma Shinigami, e até achava a ideia um tanto quanto cômica.

Rapidamente, o homem buscou na cozinha um jarro transparente, o encheu de água, e retornou ao quarto. Retirando a bainha de sua cintura, e posicionando-a encostada na parede, Aizen ajoelhou-se no chão frente à mesa, apoiando o jarro e o caderno em cima dela, e colocou as hortênsias na água, ajeitando-as com cuidado.

A vista do céu azul pela janela aberta acima da mesa, bem como as hortênsias azuis a sua frente, eram incrivelmente inspiradoras. A cor azul, qualquer que fosse o tom, o lembrava de sua pequena mulher. Por isso, abriu seu caderno e, com a caneta e tinta já presentes na mesa, o homem começou a escrever.

Tão imerso em suas palavras, ele não notou o som da porta principal da casa abrindo-se suavemente, ou os passos dos pés descalços de Haiako aproximando-se de si no quarto. Apenas percebeu a presença da mulher quando ela lentamente o envolveu em um abraço por trás, ajoelhada no chão, percorrendo as mãos por toda a extensão de suas costas, terminando com os braços em volta de seu tronco, e o rosto escondido em seu Shihakushō, aspirando o seu cheiro.

Sōsuke fechou os olhos, apreciando aquele silêncio calmo, e acariciou os braços da mulher com as pontas dos dedos que, agora, o beijava o pescoço, repetidas vezes, com um movimento devagar, deslizando os lábios pela pele arrepiada do mais velho.

-Quando você chegou? — Ela perguntou.

-Há pouco. Estive procurando por você, Hana. — Aizen retirou os braços da mulher de si, trazendo-a para sua frente, e a sentou em seu colo, abraçando sua cintura. Agora, pôde observar os detalhes de Haiako, a qual vestia um yukata verde-sálvia, estampado com grafismos que se assemelhavam a leques e flores entrelaçados, e amarrado com uma faixa bege. Os cabelos quase cacheados da mulher estavam presos em um coque alto, com finas mechas caídas contornando seu rosto, e ela possuía um sorriso doce nos lábios avermelhados, que arrepiaram os pelos da nuca do homem. — Onde você estava?

-Eu tenho uma vida quando você não está, sabia? — Ela respondeu, com ironia em sua voz, o que fez Aizen pressioná-la para mais perto de si.

-E no que consiste essa nova vida tão interessante?

-Bem… — Ela continuou, enquanto tirava com os dedos alguns fios de cabelo de Aizen de seus olhos, preparando-o para o que diria a seguir. — Eu sei que você irá descobrir de qualquer forma, então acho melhor lhe contar de uma vez.

-Haiako… — Mais sério, ele disse o nome da mulher em um tom de quem já esperava algo ruim.

-Eu estava no Distrito Leste… em Ryūgon. — O homem a ouvia atentamente. — Eu não planejava ir tão longe, mas fiquei intrigada. Encontrei dois homens não muito longe daqui, e eles estavam acompanhados de uma jovem. Bem jovem.

-Sim?

-Ela estava claramente desconfortável, os dois eram muito mais velhos e falavam essas coisas horríveis a ela. Diziam tudo o que gostaria de fazer com a garota, e a encurralaram entre si, enquanto a levavam para Ryūgon… Para resumir, eu os segui, meus instintos tinham certeza que nada de bom viria deles, e que ela não estava ali por vontade própria. Eles entraram em uma casa vazia e, quando me dei por mim… — Aizen a olhava com as sobrancelhas franzidas. — Bom… nós brigamos. Eu os deixei lá, desmaiados, e a garota fugiu.

-Haiako. — Ele balançou a cabeça em desaprovação. — Eu disse a você para não se envolver com essas pessoas. — Aizen sabia que Haiako, quando quisesse, poderia lutar sem dificuldades com outras pessoas. Ele mesmo a treinava, e atestava suas habilidades tão curiosas.

-Eu não terminei… Foi só depois que eu percebi… Eles eram Shinigamis.

Agora, evidentemente nervoso, Sōsuke a repreendeu, derrubando-a no chão rispidamente ao levantar-se.

-Ai…

-Você perdeu a cabeça? Tem alguma ideia do que poderia ter acontecido com você?! — Ele, agora, a olhava com mais atenção, escaneando os trechos de pele que estavam à mostra. Aizen retirou os próprios óculos, jogando-os de lado, farto de fingir que precisava deles. Então, levantou-lhe a parte inferior do yukata, enquanto segurava-lhe firmemente o tornozelo, revelando as pernas descobertas, e os cortes novos que elas carregavam, ainda que pouco profundos.

-E como você esperava que eu agisse, deixasse que eles fizessem o que quisessem com a menina? Sōsuke, pare, eu estou bem! — Ela respondeu, bradando e se debatendo, enquanto se afastava e tirava as mãos do homem de suas pernas. Ao ouvir o próprio nome, ele suspirou. Quando ela o chamava daquela maneira, o desarmava por completo.

-Sim, Hana. Não é da sua conta o que acontece com essas pessoas. Elas não são dignas da sua interferência. Olhe para você, está feliz com o resultado?

-Eu não dormiria a noite sabendo que os deixei se aproveitarem daquela menina. E isso não é nada, você consegue curar, não é? — Ela disse, apontando para os próprios ferimentos.

-Eu estou tentado a deixá-la assim, apenas para lhe ensinar uma lição.

Haiako sorriu. Então, deitada no chão, apoiou-se em seus cotovelos, olhando para o homem. Sōsuke sabia que não conseguiria deixá-la daquela maneira, e ajoelhou-se ao seus pés, posicionando a palma das mãos sobre as coxas à mostra da morena. De suas mãos, orbes de energia esverdeada iluminavam os olhos de ambos, enquanto ele a curava.

-Os nomes dos que fizeram isso com você. Diga-me. — Haiako balançou a cabeça, revirando os olhos. Sōsuke notou a hesitação na morena, como se ela se perguntasse o que aconteceria com eles.

-Sōsuke, eu os derrotei com muita facilidade. Eu não preciso que você intervenha. — O homem apenas a olhou fixamente, sério e com o cenho franzido. Assim, frente ao olhar do mais velho, ela revelou ambos os nomes, ainda que não tivesse os sobrenomes. Disse, também, que os dois, por meio de gritos orgulhosos, revelaram pertencer ao 11º Esquadrão. Sério e em silêncio, ele utilizava um Kaidō habilidoso que fechava os ferimentos deixando apenas cicatrizes quase imperceptíveis.

Aizen confabulava consigo tudo o que faria com aqueles dois, e seu sangue fervia em imaginar como eles haviam conseguido atingi-la daquela forma, sem danificar suas vestes. Contudo, de fato sentiu uma pontada de orgulho ao saber que a mulher derrotou com as próprias mãos dois Shinigamis proficientes em Zanjutsu.

O homem percebeu Haiako olhando para o lado, para a mesa que antes a havia passado despercebida, e notando as hortênsias no vaso.

-Ajisai*? — Ela disse, sorrindo. — Que lindas… — Aizen ainda não sorria, concentrado nos ferimentos. Então, para chamar sua atenção, lambendo os lábios, Haiako moveu os pés descalços, colocando-os sobre o peitoral do homem, à mostra pelo Shihakushō entreaberto, permitindo-o ver entre suas pernas. Quando ele sentiu os pés da morena contra si, empurrando-o levemente, ele voltou a olhar para ela, bufando.

-Eu preciso confiar que, quando eu sair por aquela porta, você não irá se colocar em risco. Há coisas que você ainda não entende… — Ele se interrompeu, suspirando. — Eu preciso confiar em você, Hana. — Haiako acenou, com as sobrancelhas arqueadas e uma expressão melancólica, e o homem colocou as mãos sobre as pernas da mais nova, acariciando o interior de sua coxa. Em seguida, afastou com carinho suas pernas umas das outras, e beijou a mulher vagarosamente, a começar pelos pés, subindo aos poucos.

Agora, sobre ela, Aizen a beijava o pescoço, e Haiako se permitiu deitar por completo, enquanto sentia os toques carinhosos do mais velho. Com uma das mãos, ele abriu o decote das vestes da mulher, revelando hematomas vermelhos. Então, passou as mãos sobre os lábios, contendo as próprias palavras rígidas. Como ela o fazia sentir tanta paixão e tanto ódio ao mesmo tempo?

-Sōsuke… — Ela o chamou, retirando a mão do homem de seus hematomas doloridos, e colocando-a sobre a própria bochecha, mordendo os lábios carnudos. Novamente, ela usava seu nome estrategicamente para desarmá-lo. Haiako sabia o poder que tinha sobre Aizen. Então, o homem segurou suas bochechas com firmeza, abrindo sua boca com os dedos rígidos, e pressionando seus lábios. Em troca, a mulher o lambia vagarosamente, dando voltas no polegar do mais velho com a língua, e os olhos maldosos encarando-o.

Agora, beijando-se com intensidade, ambos se permitiram entregar por completo um ao outro, esquecendo-se de todo o restante. Por todo o resto da tarde, permaneceram ali, e nada mais existia.

Haiako, nua, após perderem a noção do tempo deitados lado a lado, em um silêncio acolhedor, levantou-se, curiosa com o que o homem escrevia em seu caderno no momento em que ela chegou. Enquanto ela ajoelhava-se à mesa, Aizen levantou o tronco, apoiado no cotovelo, e a observava, sem interrompê-la.

A mulher, segurando o caderno de couro nas mãos, começou a ler para si as palavras escritas por Sōsuke, ao passo que ele lhe admirava o corpo nu, de seios fartos e coxas grossas, com um sorriso nos lábios. Então, depois de prestar muita atenção àquelas palavras, ela as cantou, fazendo a melodia conforme cantava. Baixinho, com uma voz quase sussurrada. A mesma canção que cantava todas as noites para sua amiga, tantos anos depois, e que cantava para si sempre que se sentia sozinha.

Surpreso, o homem se aproximou, agora sentado ao seu lado, para ouvir melhor a melodia que ela havia criado para o poema que a dedicou. Apaixonado por sua voz, ele lhe beijava a pele lisa das costas, acariciando-a com a ponta do nariz.

Naquele momento, contudo, ele não sentiu felicidade. Sentiu-se insuportavelmente nostálgico por antecipação, quase que com uma tristeza avassaladora, e um nó na garganta, que o lembraram de tudo do que ele desistiria. Tudo o que ele deixaria para trás. Não tinha escolha.

Como única alternativa, ele a abraçou, e a tomou novamente para si, com a face escondida em seu pescoço, segurando sua cintura e apertando-lhe as coxas, ancas, e mesmo a barriga, com as mãos firmes, apoiando-a sobre a mesa para tê-la sem olhá-la nos olhos. O sexo e os carinhos da mulher eram, afinal, os únicos remédios para esquecer tudo aquilo que ele não poderia dizer.

Quanto àqueles homens, eles viveriam por muitos anos, seguros e fortes. Aizen fez questão disso. Contudo, não se sentiu derrotado quando nenhum dos dois suportou o processo de Hollowficação em seu estágio inicial.

Ele sabia ser paciente.

Imagem gerada por IA.

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Back to The Present


-Oi oi, Hinamori-kun, bom dia!

-Capitão Aizen! Bom dia! Você já está de pé? — Aizen acenou. A jovem de cabelos pretos, sempre feliz em ver seu capitão, o cumprimentou com um grande sorriso, ao encontrá-lo em frente ao seu escritório.

Agora, o homem estava vestido como de costume, com o haori branco de capitão, exceto pelo incomum detalhe colorido que carregava consigo. Em volta de seu pescoço, um grande e aconchegante cachecol verde-musgo, o qual ele não usava há muitos anos. Contudo, a peça estava bem conservada, uma vez que o homem sempre cuidava bem de seus pertences, e exalava seu cheiro limpo e fragrante.

Conforme ele olhava para a garota, sorria com os lábios apertados, ouvindo-a compartilhar as notícias de sua manhã agitada. Pouco a pouco, alguns fios de cabelos de sua franja caíam-lhe sobre a face e, delicadamente, Aizen os afastou dos olhos da mais nova, passando as pontas dos dedos sobre a testa de Hinamori e, por fim, colocando-os atrás de sua orelha.

Este singelo e inocente toque fez com que ela se calasse imediatamente, com os olhos arregalados e as mãos apertadas junto ao peito.

-Por favor, continue, Hinamori-kun. — Ele disse, com um tom inocente. — Você teve retorno de alguma das equipes no Mundo dos Vivos?

-Si-sim… Até então, está tudo bem. — Ela olhou para o chão, com um sorriso tímido em seus lábios. — Ah… Com certeza o capitão deve estar bem ocupado! Não quero tomar mais de seu tempo… — O homem quase podia ouvir os batimentos da mais nova, e se deliciava secretamente com aquele nervosismo.

-Deixe disso, é sempre um prazer poder conversar com você. — As palavras fluíam de seus lábios de forma automática, a mentira vinha naturalmente e, mais vezes do que gostava de admitir, sentia vontade de rir de si mesmo. Todavia, gerir tantas facetas de suas mentiras e meias-verdades, ao mesmo tempo que controlava os aspectos e seres de todo um mundo rebelde e insubordinado, como o Hueco Mundo, poderia ser cansativo.

Sempre exausto, sempre em alerta, essa era uma consequência de suas mentiras que não deixava uma alma sequer tomar conhecimento, nem mesmo Kaname Tōsen, uma das raríssimas pessoas com as quais ele se permitia revelar mais de si.

Aizen ajeitou os próprios óculos em seus olhos e, em seguida, apertou com as mãos os ombros da jovem tenente. O capitão doce e caloroso tratava todos os seus subordinados com o mesmo carinho, mas com Hinamori, era diferente. Dentre outras coisas, como o homem egocêntrico que era, ele se divertia em vê-la despedaçando-se aos seus pés.

-Nós nos encontramos no almoço, tudo bem? Assim, poderemos conversar melhor, Hinamori-kun!

-Sim, Capitão Aizen! Estou ansiosa! — Os olhos de Momo brilhavam.

A adoração é, realmente, o sentimento mais longe de compreensão.

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Sozinho em seu escritório, sentado em sua ampla mesa de madeira clara, perfeitamente organizada, a visão de Aizen concentrado, com o queixo apoiado em sua mão, era como uma pintura: o céu incrivelmente azul com pouquíssimas nuvens pintava a grande janela atrás de si, ainda que estivesse fechada. No centro da mesa, um pequeno jarro branco, sempre renovado com água fresca, guardava um solitário crisântemo. As pétalas da flor, de um vermelho hipnotizante, destoavam completamente do lugar e, sempre que o homem se perdia em seus pensamentos ao olhar para o crisântemo, eram memórias distantes que o atingiam.

Seus olhos ardiam e, encarando aquela sala vazia, ele se via apenas como um homem cansado e sozinho. O caminho que escolheu para si era inevitavelmente solitário e, frequentemente, especialmente nas últimas semanas, essa solidão o confrontava de forma mais dura.

Enquanto Aizen escaneava alguns papéis sobre a sua mesa, não pensava no Hueco Mundo, ou no caminho que seguiria em seguida: estes planos, extremamente bem arquitetados, encaixavam-se perfeitamente como peças de um dominó que caíam uma sobre a outra. Não… neste momento, ele só enxergava o passado. O movimento de sua caneta, automático e impensado, assinava documentos nada estimulantes, mas ele sabia ser necessário se fazer verdadeiramente presente na Soul Society, ainda que por algumas horas.

Pensava em sua história com Haiako, e tudo aquilo do que ele havia desistido. Em todos os anos que passou ao seu lado e, mais especificamente, na noite em que a deixou. Na frieza em seus olhos, no quão rápido ela se conformou, e no fato de ela nunca mais tê-lo procurado. Pensou também na rispidez de suas próprias palavras, apesar de ter certeza de que aquela era a única forma de mantê-la afastada.

Haiako possuía, desde os primeiros dias em que ele a conheceu, um forte senso do que era certo e errado. Uma perspectiva quase pré-definida de tudo, apesar de não possuir lembranças. Não somente, ela era imprevisível: Aizen notara, afinal, os devaneios, os momentos em que ela parecia sair do próprio corpo e, principalmente, as situações nas quais ela perdia o controle de sua reiatsu.

A questão fundamental sobre a fidelidade de Kaname Tōsen e Ichimaru Gin, era que Aizen conhecia suas verdadeiras naturezas, passados e poderes, por mais secretos que eles pensassem ser. Eles possuíam as próprias razões para seguir Aizen, era fato, mas sua subserviência não era cega.

Haiako, por sua vez, caso fizesse parte de seus planos no passado, o faria apenas por amor, e não por verdadeiramente acreditar em sua causa, sentimento este que o homem sabia bem ser volátil, descontrolado e perigoso. Além disso, sua imprevisibilidade certamente seria um risco para si e, acima de quaisquer sentimentos que ele pudesse nutrir pela morena, arriscar seus objetivos era algo que ele não se permitiria fazer. Por ninguém. Para atingir os seus ideais, ele sacrificaria tudo de bom em sua vida: qualquer afeto, qualquer amizade.

Contudo, os riscos aos seus planos não eram as únicas preocupações que passavam por sua mente. Para Kaname e Ichimaru, especialmente o último, ainda que subservientes, Aizen possuía planos intrincados, caso precisasse impedi-los de arruinar seus objetivos. Os dois entendiam os riscos que corriam, e a possibilidade de morrerem pela causa, e ele não poderia, ou não conseguiria, colocar Haiako em uma situação semelhante.

Por isso, por sua segurança, e pela segurança de seus planos, ele a afastou. A permitiu viver uma vida única e somente sob aquilo que ela acreditava ser o certo e, quando julgasse ser o momento ideal, Aizen mostraria as verdades sobre o mundo no qual ela vivia. Aí, e somente aí, ela poderia tomar uma decisão verdadeira. Isto é, se suas suposições sobre os sentimentos da mulher ainda estivessem corretas.

Todavia, algo havia mudado.

Uma variável que, apesar de óbvia, passou despercebida pelos olhos do homem que a tudo planejava com tanto controle e detalhismo. Não por ser impossível e, sim, por ele não querer acreditar que algo assim aconteceria. O tempo e a distância, afinal, deixavam o coração vulnerável a quem estivesse disposto a entrar, e o de Haiako havia se aberto para…

Aquele homem.

Seu turbilhão de pensamentos e conjecturas foram rapidamente interrompidos. Do lado de fora do shōji de seu escritório, Aizen ouviu batidas rítimicas, como se alguém tentasse imitar uma melodia bem humorada, em vez de bater como uma pessoa normal. Revirou os olhos, não impressionado pelas gracinhas de quem estava à porta, sentindo-se especialmente exausto e sem vontade de colocar um sorriso no rosto. Então, uma voz masculina revelou a presença:

-Oi, oi, Sōsuke! Está aí?

Aizen suspirou, apertando os olhos com as mãos, por baixo dos óculos. Aquela era a última pessoa que ele queria ver.

-Sim, entre, por favor. — Ele se levantou para recepcionar o homem, com a doçura em sua voz.

Kyōraku Shunsui, uma presença incomum nos corredores da Divisão 5, era um homem curioso. Suas vestes indiscretas, aparência relaxada e indisciplinada, bebedeiras constantes, e um gosto peculiar por mulheres que deveriam estar fora de seu alcance, eram o oposto de tudo aquilo que Aizen se mostrava ser, e também daquilo que ele realmente era. Contudo, o mais enfurecedor era entender que Kyōraku, também, era um homem que escondia a própria natureza. Por trás da fachada alegre e sossegada, Shunsui escondia uma personalidade observadora, fria e estrategista. Em sua presença, Aizen precisava ser extremamente cuidadoso e coerente.

O capitão mais antigo caminhou através do shōji, oferecendo-lhe um sorriso despreocupado, e abaixando com o dedo a borda de seu jingasa para cumprimentá-lo. Em seus pés, sem as tradicionais tabi, utilizava somente as waraji, deixando-os à mostra. Além disso, o kimono rosa sobre seus ombros, claramente de um tamanho menor que o homem, acendiam aos olhos de qualquer pessoa. De repente, a imagem de Aizen se tornou mais apagada, e os tons neutros que carregava se mesclavam com seu escritório, enquanto Kyōraku permanecia em destaque, no centro.

-Capitão Kyōraku, a que lhe devo a honra?

O mais velho riu, olhando ao seu redor.

-Não conta pra ninguém, Sōsuke: eu estou evitando o trabalho. A Nanao-chan precisava encontrar com a Hinamori-chan, então eu também aproveitei para dar um pulinho aqui e ver como você está.

Aizen sorriu para ele.

-Nós dois somos extremamente sortudos no quesito tenentes, não é mesmo?

-A verdade é que se não fosse a Nanao-chan, eu estaria ferrado. Admiro muito vocês, que têm paciência com papelada e burocracia. Eu não nasci pra isso.

-Tenho certeza de que você tem seus atributos. — Aizen respondeu, enquanto, de pé, com uma das mãos apoiadas sobre a mesa, olhava para o homem à sua frente. Conforme notava os detalhes da postura de Shunsui, e suas micro expressões, ele percebia que aquela visita inesperada vinha repleta de intenções encobertas.

Aizen notou o quão diferente eles eram, e ponderou sobre a natureza da relação de Haiako e Shunsui. Imaginá-los juntos causava arrepios em sua nuca, e seu estômago revirava. Vê-los juntos era ainda pior, mas essa última parte era sua culpa por tê-la seguido junto a Kyōraku por Sakahone. Era impensável que aquilo que eles tinham era sequer comparável à história que ele teve com a mulher. Ao menos, era disso que ele estava tentando se convencer. Eram momentos como esse, em que seus sentimentos estavam à flor da pele, que ele mais ansiava por mostrar seu verdadeiro lado. Apertou a mandíbula e o maxilar a ponto de sentir seus dentes rangendo silenciosamente.

-Mas… — O mais novo continuou.

-Diga.

-Eu ainda sinto que você não esteja aqui somente para saber como estou.

-Heh, sua formalidade é muito engraçada, Sōsuke. Tudo bem, tudo bem, você me pegou. A gente não teve a chance de conversar depois daquela confusão com as meninas. — Shunsui, de frente para o mais novo, segurava seu jingasa nas mãos, revelando os cabelos cacheados presos e os olhos descobertos, sobre os quais uma única mecha caía.

As meninas? Você não conhece seus limites.”, Aizen pensou, com desdém.

-Minha formalidade vem de um grande respeito por você, Shunsui. E sim, eu imaginei que, após você e Haiako se acertarem, você iria gostar de falar comigo. — Propositalmente, Aizen utilizou o primeiro nome da mulher, com a intenção de provocar sutilmente o homem. — Por favor, sente-se. Posso lhe oferecer um chá?

-Sim, sim… Não tem jeito, está cedo demais para compartilhar uma garrafa de sakê. — Kyōraku se sentou em frente a mesa de Aizen, coçando a própria barba, enquanto o mais novo se direcionava a estante de livros ao lado, a qual guardava em uma de suas prateleiras uma chaleira pronta com água na temperatura correta, e um recipiente hermético de cerâmica com folhas frescas de chá verde. — A Haiako-chan… — Ele continuou, com um riso suspirado, e Aizen quis esganá-lo por chamá-la daquela maneira. — É uma pessoa especial. Ela me contou sobre a amizade que vocês compartilharam.

Certamente ele está me testando. Eu tenho absoluta certeza de que ela não revelou tudo sobre nós. Por mais seguro de si que ele seja, nenhum homem ficaria tão confiante se soubesse a verdade. Agora é apenas uma questão de saber… o quão longe eu posso jogar com ele.

Aizen preparou a bebida tradicionalmente, e ofereceu a primeira dose ao capitão da oitava divisão, enchendo seu copo respeitosamente. Então, sentou-se novamente, agora de frente para o mais velho, antes de respondê-lo.

-É uma longa história, a qual já acabou. Somos bons amigos, e minha admiração profissional por ela está acima de qualquer outra coisa. Por isso eu a chamei para a Divisão 5. — O homem observou Kyōraku bebericar o chá, sem muito ânimo. — Mas você é um homem seguro, e eu posso ver que não é isso que te preocupa.

-Haha, verdade. Você é bem perspicaz, Sōsuke. Sim, sim, a Haiako-chan disse que não há absolutamente nada entre vocês, e nós estamos muito bem. É uma sensação inebriante, não? Estar apaixonado, eu digo. — Aizen notou a tentativa de provocação, e não estava orgulhoso em admitir para si mesmo que havia funcionado. Ele queria ser um homem que estivesse acima deste tipo de sentimento. Ainda assim, duvidava veementemente que Haiako havia dito estar apaixonada pelo homem, especialmente tão cedo em sua relação.

Apaixonada? Ora, ora… É mesmo?

Com um sorriso sereno, ele o respondeu:

-Eu desejo muita felicidade a vocês, Shunsui. Tenho certeza de que você será muito bom para ela… Ela está bem? Após o que aconteceu, eu digo.

Ela parecia muito bem ao meu lado sobre o telhado.

-É sobre isso que eu gostaria de conversar. Você tem notado algo de diferente nela?

-Não posso dizer que notei. — Aizen decidiu preservar sua intimidade, e não compartilhar as próprias preocupações. Descobriria, em seu próprio tempo, como lidar com a mulher. — A Haiako é muito dedicada, eu a vejo muito pouco. Conversamos alguns minutos antes de sua partida para o Mundo dos Vivos, e trocamos apenas formalidades. Mas acredito que ela voltará em poucos dias.

-Aí é que está. Ela me disse que voltaria em semanas. Talvez meses. Fiquei imaginando que utilidade ela teria para você tanto tempo no Mundo dos Vivos.

Genuinamente confuso, Aizen franziu as sobrancelhas.

-Essa não foi a minha ordem. — Ele pressionou os lábios contra os dedos, em indagação, com a mão apoiada na mesa pelo cotovelo. — Ela deveria apenas supervisionar as equipes que delegou, e voltar. Tudo deveria durar, no máximo, dias.

Por qual razão Haiako queria se fazer distante por tanto tempo, mesmo com sua hesitação em liderar missões no Mundo dos Vivos? Seria por terem compartilhado aquele momento íntimo sobre os telhados da Divisão 5, ou por outra razão oculta?

-Veja bem, Sōsuke… eu não sou um homem orgulhoso. Estou genuinamente preocupado com ela, e pensei que você pudesse esclarecer algo. Eu sei que ela te conta coisas sobre si, coisas que sequer eu sei. Mas também sei que eu posso ajudá-la. Eu quero ajudá-la. — Os lábios de Shunsui sorriam, mas não os seus olhos. Sua mão, por sua vez, estava repousada sobre a mesa, batendo os dedos ritmicamente, no que Aizen deduziu ser um ato de regulação de ansiedade.

Que interessante…

A verdade é que Aizen sabia exatamente como o homem estava se sentindo. Amar aquela mulher era inebriante, mas era tudo, menos fácil. Amá-la era trabalho duro, exaustivo. Contudo, no fim do dia, ver seu sorriso, senti-la se doar por completo… o trabalho compensava. Não somente: estar com ela podia ser enlouquecedor, enfurecedor. O sentimento de impotência ao não poder lidar com sua imprevisibilidade, o mistério, os segredos… Então, por mais breve que fosse, Aizen se sentiu… empático por Shunsui.

Ele sentia profundamente em seu âmago, que a conexão que compartilhava com a mulher transcendia qualquer compreensão, viajava pelo tempo e espaço, superando qualquer sentimento que ela pudesse compartilhar com outro homem. E essa conexão lhe conferia a absoluta certeza de que a história da mulher guardava muito mais do que se podia ver. Ainda assim…

Ele poderá ser melhor para ela do que eu jamais conseguirei.

-Devo assumir que você sabe que fui eu quem a encontrou pela primeira vez, certo?

Surpreso, Kyōraku colocou seu copo sobre a mesa, acenando para que o mais novo continuasse.

-Na noite em que fomos ao bar, Haiako apareceu inesperadamente em minha sala. Ela estava confusa, com o olhar vazio, e foi quando eu percebi: estava alucinando, e as ondas de sua energia espiritual falhavam. Suas pupilas se dilatavam e contraíram repetidamente. Este comportamento era muito frequente, muitos anos atrás, quando a conheci. Mesmo naquela época, eu sabia que Haiako, em seu subconsciente, era assombrada pelas memórias de um passado do qual não se lembrava ao acordar. Nesta noite em questão, eu senti o mesmo: a forma com a qual seus olhos se movimentavam assemelhava-se àquela quando sonhamos. Ela estava sonhando.

-Naquele dia, ela estava agindo de maneira estranha, muito antes de toda aquela confusão acontecer. — Kyōraku suspirou profundamente, apertando os olhos com as mãos.

-Eu tenho suspeitas de que, o que quer que esteja acontecendo com ela, está relacionado ao passado que nenhum de nós conhece. Mas, infelizmente, não consigo lhe oferecer mais nada que você já não saiba. Não há uma forma prática de descobrirmos o objeto de suas alucinações.

-Elas passaram batido por mim. Estas alucinações…

-Certamente você notou alguns sinais. Ela acorda quase todas as noites, no meio da noite, suando e confusa, não é mesmo? — Shunsui franziu as sobrancelhas, frente às palavras de Aizen, antes de soltar uma risada contida.

-Parece que eu subestimei a natureza do relacionamento de vocês. Diga-me… em seu período como tenente, todos nós éramos muito próximos. Lembro-me dos primeiros dias de Haiako na divisão do velhote, ainda naquela época.

-Sim?

-Por mais próximos que fossem nossos esquadrões, eu nunca vi vocês dois juntos. Ainda assim, eu sei que você rejeitou a aplicação dela ao 5º Esquadrão.

Shunsui era um homem altamente inteligente, perspicaz e observador, ainda que escondesse sua verdadeira natureza por detrás da sua personalidade animada e despreocupada. Mas Aizen gostava de desafios.

Serviu mais chá a ambos os copos, fazendo com que o mais velho torcesse o nariz, não muito feliz com a escolha da bebida.

-Você tem uma excelente memória! Sim, eu recomendei ao meu capitão… — Ele se interrompeu ao falar sobre Hirako Shinji, pigarreando e abaixando levemente sua cabeça, em uma demonstração cínica de respeito por sua própria vítima. — Eu recomendei a Hirako Shinji que não aceitasse sua aplicação. Sabia que existiam mágoas entre nós, e gostaria que ela fizesse parte de um ambiente que se sentisse confortável, que cultivasse seu crescimento. Por isso, enviei uma carta ao Capitão Geral a recomendando. Afinal, o Esquadrão 1 foi a minha primeira divisão.

Kyōraku enrijeceu a postura. Parecia que não sabia por onde começar: pelo fato de Aizen tê-la recomendado a Yamamoto, ou por ele ter revelado ter servido ao velho em seus primeiros anos como Shinigami. O capitão da quinta divisão, por sua vez, ajeitou os óculos nos olhos, esforçando-se para não demonstrar um sorriso aberto.

-Você a recomendou ao Velho Yama?

-Sim, com a aprovação de Hirako, claro. Em sua aplicação, quando contou sobre seus objetivos futuros, ela mencionou o quanto gostaria de poder ensinar, se tornar uma professora da Academia Shin’o. Pensei que a Divisão 1 seria o melhor caminho para ela e, conforme já sabemos, o Capitão Geral concordou.

-Confesso que você me pegou de surpresa, aí... Ela sabe disso?

-Ela não precisa saber, não é mesmo? Agora que está servindo a Divisão 5 sob o meu comando, posso oferecer mais oportunidades a ela, por seu próprio mérito. O meu antigo capitão era um bom homem… mas eu sei que Haiako precisa de uma liderança forte, que entenda seu potencial.

-Entendo. — O mais velho riu, acanhado, antes de ficar em silêncio. Estava claro que, com poucas palavras, Aizen havia conseguido acabar com toda aquela confiança com a qual o homem havia entrado em sua sala.

Olhando para o horizonte, Kyōraku tampava os lábios com a mão.

-Eu espero não ter lhe preocupado ainda mais.

-Não é isso, haha. Estou apenas um pouco surpreso. — Ele parou para pensar por um minuto, antes de voltar seu olhar para o capitão de óculos, que o olhava com as sobrancelhas arqueadas. — Na verdade, estou um pouco preocupado, também. Sōsuke, a Haiako não pode ser deixada sozinha por tanto tempo.

-Concordo plenamente, Capitão Kyōraku. Hoje mesmo eu irei…

Aizen foi rispidamente interrompido por gritos e sons de pessoas correndo ao lado de fora de sua sala, atordoando também Shunsui. Ambos se levantaram rapidamente, quando Ise Nanao abriu as portas de correr do shoji, acompanhada de Hinamori Momo. As duas possuíam gotas de suor escorrendo pela testa, indicando que correram até o lugar de uma grande distância.

-Capitão! — Nanao clamou, antes de se desculpar a Aizen, que estendeu as palmas das mãos, sinalizando-a que se acalmasse. Os olhos da jovem tremiam, conforme ela olhava fixamente para Kyōraku.

-Nanao-chan, o que aconteceu?

Antes que a tenente de óculos ovais pudesse responder, Hinamori a interrompeu, direcionando-se ao seu capitão, segurando as próprias mãos em apreensão.

-Capitão Aizen, é uma emergência!

Antes que as duas pudessem concluir, e os mais velhos pudessem reagir, Einosuke Katsuo e Aoyama Mitsuko explodiram pelas portas, arfando e correndo de forma que esbarravam entre si, dispensando quaisquer formalidades.

O olhar dos dois exalava desespero, e o mais novo possuía as vestes rasgadas e ensanguentadas, revelando um ferimento na região da cintura. Imediatamente, a intuição de Aizen acendeu como chama.

-Vocês estão bem? O que aconteceu, Einosuke-kun, Aoyama-kun?

-Capitão Aizen! — Katsuo começou, enquanto ofegava. — Nós fomos atacados! A 7º Posto Hasegawa-san…

-Acho que mataram a Mei, Capitão Aizen! A Kikuchi-san estava com a gente, mas nos tirou de lá antes que pudéssemos ver ou fazer qualquer coisa! — Aoyama seguiu, com os olhos marejados.

-Quem os atacou? — Aizen continuou, calmamente e, enquanto se aproximava de Katsuo para verificar seus ferimentos, ouviu Shunsui sussurrar para que Ise Nanao se preparasse para ir ao Mundo dos Vivos.

-Nós não sabemos, capitão. Eu não consegui detectar nenhuma reiatsu vinda dele.

-Eu o senti. — Aoyama interrompeu. — Eu consegui sentir o poder espiritual esmagador que veio daquele ser, quando ele perfurou o corpo da Mei! Nunca me senti tão sufocado, tão aterrorizado na minha vida! Capitão Aizen, por favor! Precisamos ajudá-las!

Aizen cerrou a mandíbula, olhando diretamente para Shunsui, que o devolvia uma expressão apreensiva. Certamente, aquele que os atacara, possuía poder o suficiente para que não fosse sequer sentido por Einosuke Katsuo.

-Expliquem-se melhor. — Kyōraku ordenou. — A Kikuchi-san está lutando com esse “ser”?

-Nós também não sabemos. Ela abriu o Senkaimon e nos empurrou à força. Mas a Hasegawa-san foi atacada de um jeito tão violento e intencional… Não tem chance dele não ter ido atrás delas.

-Eu espero que ela tenha fugido… — Mitsuko olhou para Katsuo, direcionando a fala à ele. — Ela não estava se sentindo bem, o nariz começou a sangrar e disse que foi um Hollow. Eu não acreditei nela. — O mais novo respondeu com o silêncio, cabisbaixo.

Aquelas poucas palavras foram suficientes para que Aizen e Kyōraku se olhassem em concordância.

-Hinamori-kun. Encaminhe o Einosuke-kun e o Aoyama-kun para a Capitã Unohana, e certifique-se de que eles receberão os devidos cuidados.

-Sim, Capitão Aizen!

-De jeito nenhum! A Mei é a minha melhor amiga. Eu não vou deixá-la sem saber o que aconteceu com ela.

-E a Kikuchi-san… a gente não pode deixar ela sozinha. Ela nos salvou!

-Eu compreendo. — Aizen tocou nos ombros dos dois jovens, que estavam de pé lado a lado. — No momento, precisamos confiar que a Kikuchi-san sabe o que deve ser feito. No estado atual de vocês, apenas irão atrapalhá-la. Não há honra em sacrifício sem propósito, vocês entendem?

Eles acenaram, em silêncio.

-Capitão Kyōraku.

-Sim, sim. Vamos lá. Nanao-chan, acho melhor você também ficar fora dessa.

-Sim, Capitão. — Ela respondeu, sem entusiasmo.

Shunsui desapareceu no ar, direcionando-se ao Senkaimon com seu surpreendente Shunpō, e em poucos segundos a sala se esvaziou novamente, tendo todos tomado seus postos.

Aizen confiava em Haiako, sabia de seu potencial. Ainda assim, seu estômago se revirou, causando-lhe um sentimento que há séculos não o atingia. Sequer sabia nomeá-lo.

Mais uma vez, sozinho, ele deixou de ser o capitão, e se tornou… Sōsuke.

A mesma criança amedrontada de todos aqueles anos atrás.

O mesmo garoto indefeso que estava prestes a perder tudo o que amava.

+

*Hana = Flor.

**Ajisai = Hortênsias.

***Agora, estamos em um ponto em nossa história que se passa 5 anos antes da Lore Principal de Bleach. Para referência, em nossa história atual, Kurosaki Ichigo possui apenas 10 anos de idade. O Turn Back The Pendulum desse capítulo se passa 135 anos antes da história, ou seja, 140 anos antes da Lore Principal de Bleach.

Estou trabalhando em uma linha do tempo para vocês!


Notas finais
Aguardo vocês no próximo (e juro que não vai demorar haha) Até mais!