Oblivion

15 Derrota.


Notas iniciais
Olá, pessoal! Bem-vindos a mais um capítulo de Oblivion! Espero que gostem!

Holding my last breath

Safe inside myself

Are all my thoughts of you

Sweet raptured light

It ends here tonight

My Last Breath — Evanescence

+

-Gasshō…

-Agora, sim, princesa…

Conforme Haiako olhava firmemente nos olhos azuis penetrantes do homem, ela finalmente podia sentir sua energia espiritual sufocante e elétrica. As auras que emanavam de ambos, azul e vermelha, dançavam juntas ao se encontrar, emitindo sons de eletricidade com raios que faiscavam em tons vibrantes de púrpura.

O sorriso do homem supostamente chamado Gassho a enojava, e os pelos de seus braços se arrepiavam com sua voz.

Realisticamente, ela sabia que deveria retirar o máximo de informações que pudesse de Gasshō, antes que Aizen Sōsuke inevitavelmente chegasse. Como Katsuo e Mitsuko fugiram em tempo hábil, eles já deveriam estar relatando o ataque à Hasegawa Mei.

Haiako ainda não sabia quem ele era e, apenas reconheceu seu nome no efêmero momento no qual suas energias espirituais se conectaram de forma tangível.

“Chega dessa brincadeirinha, é hora de voltarmos para casa.”

As palavras ditas por ele ecoavam na mente da morena. Voltar para casa? Onde era casa? Pela primeira vez, chegou tão perto de seu passado a ponto de quase tocá-lo, e ela não desistiria agora.

-Opa, opa, opa. — Ele continuou, ao observar os pés da mulher ensaiando para se movimentarem. — Essa coisa no seu bolso. Ela tem algum tipo de rastreador, né? Ou você quebra, ou eu mato essa menina de vez.

O denreishinki. Claro. Ele não a permitiria carregar um dispositivo de rastreamento. Por isso, de modo a preservar a segurança de Hasegawa Mei — e por sua vontade pessoal de descobrir mais sobre si -, ela o retirou lentamente de seu bolso, e o partiu ao meio, com uma das mãos, arrancando um sorriso do homem.

-Boa garota.

A espada vermelha de Gasshō brilhava em uma cor de sangue, e era como se não fosse feita de metal mas, sim, de uma substância fluida, que se movia em espirais.

-Bonitona, né? Acho que você também não deve lembrar o que ela faz, hehe. — A voz debochada do moreno de olhos claros parecia afrontar a mulher, que o olhava com o cenho franzido. Haiako queria dar o primeiro passo, mas temia que Hasegawa não resistisse a uma luta de ambos, uma vez que a loira, deitada sobre a grama e as agulhas dos pinheiros, já mostrava em seu corpo desacordado os sinais de dor e sufocamento.

Agora que podia sentir sua reiatsu, ela pensou ter compreendido o nível de seu oponente. Por isso, seu próximo movimento seria crucial. Transferiu sua Zanpakutō, que estava empunhada por ambas as mãos, para a sua lateral, com a lâmina virada para o homem, como se estivesse preparando-se para atacá-lo.

-Eu não preciso me lembrar. Eu só preciso acabar com a sua raça. — Se ela se mostrasse extremamente interessada no que ele tinha a dizer, apenas o daria aberturas para afetá-la emocionalmente, e Haiako sabia como o emocional era essencial para se vencer uma batalha. Então, decidiu quebrar a expectativa.

Vendo o olhar confuso de Gasshō, Haiako movimentou sua lâmina em direção ao homem, com velocidade o suficiente para que ele pudesse se colocar em guarda e se tentar se defender de seu ataque.

-Eu já sei como você luta, princesa. — Posicionou sua espada à sua frente, esperando o ataque da mulher, com as pernas posicionadas uma em frente a outra.

Veremos.

-Hadō número 54, Haien! — Acompanhando o movimento de sua espada, Haiako utilizou um de suas técnicas mais comuns, e uma onda de energia roxa abrasada surgiu a sua frente, de forma comprida e contínua, expandindo-se em uma lâmina feita de reiatsu, que foi lançada velozmente em direção a Gasshō, o qual se mostrou surpreso, e tentou bloquear a lâmina de energia que se expandia em sua direção. Quando esta atingiu sua espada, seu corpo titubeou para trás, desviando o Hadō para as laterais, e obliterando as árvores mais próximas atrás de si em chamas púrpuras. Neste breve segundo, o verdadeiro movimento de Haiako se fez presente.

Meu Haien deveria ter obliterado ao menos parte da espada mas, em vez disso, é como se tivesse sido repelido. Ela não é um objeto físico?”, ela pensou, repleta de dúvidas, sem interromper sua estratégia, confabulando maneiras de descobrir mais sobre aquela estranha espada e seu verdadeiro poder.

Enquanto o homem bloqueava seu Kidō, a mulher se movimentou em grande velocidade até ele, desferindo um chute circular em direção ao seu tronco, atingindo o calcanhar em sua costela direita, exposta. Assim, não esperando o golpe, Gasshō foi lançado para longe, pelo mesmo caminho previamente aberto pelo Haien.

Aquela pequena e destrutiva distração não havia sido suficiente para retirá-los completamente do alcance de Hasegawa, mas reduziria os efeitos sobre o corpo da mais nova.

-Filha da…

-Chega. Agora você irá responder o que eu quero saber.

Ele riu, enquanto pressionava sua costela com a mão esquerda, com o corpo levemente abaixado. Mostrando os dentes, cuspiu sangue misturado com saliva.

-O que você quis dizer com voltar para casa? — Ela perguntou, em um tom imperativo, conforme apontava sua Zanpakutō para ele, com uma das mãos.

-Você já vai descobrir. — Gasshō recuperou sua posição, e reergueu seu corpo grande, ajeitando os cabelos. Então, foi sua vez de atacar.

Ambos se enfrentavam com suas espadas, meio a ataques e bloqueios equilibrados. O incomum som do contato de suas lâminas, um ruído abafado, o qual evidenciava o fato da espada do homem não ser de metal, ecoava por toda floresta, e Haiako tentava decifrá-lo por meio do contato com sua reiatsu.

-Se está tentando ler a minha reiatsu, pode desistir. Já aprendi há muito tempo a me esquivar de você.

-O que é você? Você parece um Shinigami, mas isso não pode ser uma Zanpakutō. — Entre golpes, ela falava, com dificuldade e dentes cerrados ao tentar se defender.

-Shinigami? Eu? Não fale besteiras. Eu nunca me rebaixaria a esse nível, ao contrário de você!

Eu preciso ser mais rápida. Não consigo ler os sentimentos de sua reiatsu, e ele parece querer jogar comigo. A qualquer momento, alguém vai chegar. Eu vou ter que arrancar dele à força.

O cheiro de seiva e terra úmida impregnava o ar.

Haiako se movia entre os pinheiros como uma sombra, seu corpo aparentava ser leve como uma pena, e seus pés encontravam apoio nos troncos ásperos, impulsionando-a de um lado para o outro, como se fizesse parte do vento. Perdendo-a de vista, a única coisa que Gasshō podia ver ou ouvir era o farfalhar de folhas e o ranger distante da madeira, vindo de todas as direções. Então, emergindo das sombras, em uma velocidade explosiva, Haiako desceu, sua lâmina cortando o ar como um relâmpago.

Ele, por sua vez, maior e mais pesado, mantinha firme sua posição, sem muito espaço para se mover. Instintivamente, levantou o braço, bloqueando o ataque com sua lâmina, sentindo a força da mulher vibrar pelos seus músculos. E, então, ela voltava às árvores, alternando entre golpes de Zanjutsu e Hakuda.

Haiako deduziu que, enquanto permanecesse no chão, poderia se aproveitar da vantagem de sua agilidade e do terreno acidentado e irregular. O homem girou o corpo, tentando identificar de onde ela viria em seguida, enquanto a mulher surgia e desaparecia em meio aos troncos, utilizando-os como parte da luta.

Então, mais um golpe, seguido de outro, e outro. Cada um de um ângulo diferente, explorando qualquer abertura, qualquer ponto cego. Era como se estivesse sendo caçado. Gasshō tentava contra-atacar, mas seu corpo e sua espada eram muito grandes e pesados, tornando-se uma barreira contra ele mesmo.

O homem titubeou, conforme ela surgia novamente entre as sombras, desferindo um corte rápido e curto, que o atingiu no braço direito, desprovido da armadura dourada. Assim, mostrando-lhe os dentes, ele deixou claro que não mais permitiria aquilo.

O homem notou a vantagem de Haiako no terreno e, quando ela se preparava para se impulsionar novamente, a surpreendeu.

Com um movimento bruto, aproveitou o próximo golpe da mulher para não apenas bloqueá-lo, mas para empurrá-la para trás com um desvio forçado. Ao mesmo tempo, girou sobre os próprios pés, desferindo um chute contra o tronco de Haiako, que bloqueou com os braços.

As raízes da árvore atrás da pequena mulher tremeram com o impacto de seu corpo, quebrando a fluidez do campo de batalha. Haiako pousou, com leveza no chão, mas seu ritmo já não era mais o mesmo, atordoada.

Gasshō sorriu. Agora era a vez dele ser o caçador.

Caminhou com passos pesados e agarrou com a mão esquerda a gola do Shihakushō de Haiako, trazendo-a rispidamente para si. Então, seus pés cravaram-se no chão, e, num único impulso, ergueu-se com velocidade, arrancando-a do solo e carregando-a pelo ar como uma presa.

Os dois passaram de maneira veloz pelos altos pinheiros, revelando o céu azul sobre suas cabeças. A morena, por sua vez, com a palma da mão, afastou com força o braço do homem de si, desvencilhando-se dele. Tomou uma distância segura, enquanto olhava com as sobrancelhas franzidas.

Assim, os lábios de Gasshō se abriram em um sorriso torto.

-Eu vou ter que repetir? Não importa se você aprendeu um truque ou outro com esses merdas. Eu conheço você, Kikuchi. — Disse seu nome em um tom de deboche, com um sorriso nos lábios.

-Meu nome. — Ela falou, com dificuldade. — Por que você está tão interessado nele?

-Eu sei exatamente quem te deu esse nome. E aí, como foi finalmente encontrá-lo?

Haiako abaixou sua espada. Com os olhos arregalados, engoliu a seco as palavras que ouviu, e sentiu calafrios.

-O que você quer dizer com isso?

Gasshō começou a circular em volta da mulher, utilizando uma base de energia espiritual sobre os pés. Ele soltou uma risada baixa, arrastada, como um trovão distante prestes a se aproximar. Havia algo de cruel nela, e Haiako, por sua vez, apenas rotacionava o corpo, acompanhando-o com o olhar.

-Era uma vez uma garotinha amedrontada… Ela possuía um dever, mas era covarde demais para fazê-lo. Então, a garotinha covarde e assustada fugiu, com a ajuda de uma mulher poderosa.

-E eu sou a garota?

-A mulher poderosa, por sua vez, não a ajudou pela bondade de seu coração. — Gasshō continuou, ignorando-a. — A verdade é que a garotinha, além de covarde e assustada, era estúpida. E a mulher se aproveitou de sua ingenuidade para enviá-la a um mundo criado para destruí-la, alimentar-se dela.

-Estou farta do seu joguinho, o que você…

Novamente, ele riu.

-Pensei que você quisesse saber a origem do seu nome.

-Este nome me foi dado…

-Por um homem. Haha… A mulher poderosa… a mesma que te ajudou a fugir… era conhecida por Kikuchi. E quem te deu esse nome… heh, será que devo dizer, ou te torturo mais um pouquinho?

Haiako sentiu-se zonza. Um zumbido agudo, acompanhado de uma dor de cabeça, a atingiu novamente, e tudo parecia girar. Ela sabia onde ele queria chegar, mas por que Aizen lhe daria o nome da mulher que supostamente a havia ajudado a fugir?

-Por que eu estava fugindo, Gasshō?

Gasshō se aproximou lentamente da morena, por trás, com passos silenciosos e palavras pausadas, calculadas, como quem saboreasse uma vitória antecipada.

-Por que você é uma mulher patética, que não aguentou a pressão de seus deveres. E eu vim te colocar de volta em seu lugar.

-Você está errado. Isso tudo só pode ser alguma coincidência distorcida. O homem que me deu este nome não me conhecia até o dia em que nos encontramos.

-E deixa eu adivinhar: ele deve ter feito você acreditar que se importava, que te amava. Hah! Nem você pode ser tão burra assim. É só jogar um pouquinho de afeto, como um osso a um cão faminto, e você dá a pata pra qualquer um. Acorda, princesa! Toda a família dele foi criada para manter você sob controle. Se alimentar de você! E o mais patético é saber que você caiu direitinho no papinho deles.

A morena arqueou as sobrancelhas, desfazendo a própria posição de guarda. Os braços, antes firmes, agora pareciam dormentes, pesando ao lado do corpo. Um aperto frio se alojou em seu peito, como se dedos invisíveis envolvessem seu coração, apertando-o lentamente.

-Mas calminha, eu vim te ajudar. — Notando a confusão da mulher, ele se aproximou ainda mais. — Vou te levar de volta para casa, e você não vai mais ser enganada. Vou te levar para onde você pertence de verdade. — Agora, empunhava sua espada. — É uma pena, mesmo, eu sei… Mas você mereceu.

Próximo o suficiente para que seu hálito esquentasse a orelha de Haiako, ele se curvou, o corpo pairando como uma sombra sobre ela. Com movimentos lentos e, de certa forma, carinhosos, afastou os longos e esvoaçantes cabelos de sua nuca, expondo sua pele ao frio. Então, ele proclamou, sílaba a sílaba, se deliciando com a inquietação que semeou nela.

-Você não sabe por quanto tempo eu procurei você, princesa. Heh… Realmente… é muito fácil te manipular.

Gasshō levantou sua espada rubra, a energia quente emanando de sua lâmina, enquanto a mulher a sua frente permanecia desestabilizada. Assim, com um único movimento, rápido, curto e direcionado à cintura de Haiako, ele atravessou o ar e, também...

A carne da mulher.

Haiako, em um movimento impulsionado somente por seu instinto, se afastou ao sentir a aproximação da energia espiritual de Gasshō. Com o Shunpō, ela conseguiu se distanciar antes que a espada do homem pudesse cortar os céus por completo. Seus dedos encontraram o tecido encharcado pelo calor úmido do próprio sangue, espalhando-se lentamente pelo Shihakushō. O mundo ao seu redor pareceu vacilar por um instante, como se a realidade oscilasse entre o choque e a dor ardente que agora pulsava em sua cintura.

Não… essa espada… não é feita de metal. Reiatsu? Não, é densa demais, o corte é muito irregular, quase ardente… Eu nunca… vi algo assim.

Conforme ela havia previsto, no primeiro momento em que se desestabilizou emocionalmente, ele a atacou. Como ele poderia levá-la para casa, se estava tentando matá-la?

Não somente, olhando para o homem sorridente a sua frente, ainda segurando a própria cintura, com as sobrancelhas franzidas e os olhos semicerrados, ela percebeu que a vantagem que ele possuía sobre ela era abismal. Lutando contra ele, bloqueando seus ataques e o vendo bloquear os seus, não identificou uma diferença técnica evidente. Seus movimentos fluíam instintivamente, como se seu corpo já conhecesse aquele ritmo de batalha há muito tempo. Cada golpe era devolvido sem hesitação, como se estivesse presa a um ciclo de violência ensaiada.

Ainda assim… não havia sentido nada vindo de sua espada, até agora. Finalmente, ao sofrer aquele ferimento, ela pôde sentir o que a incomum lâmina fluida de seu inimigo tentava dizer a ela.

Da espada de Gasshō, um ódio afundava em seu peito como se estivesse preso a pedras em um lago profundo, consumindo-a e fazendo-a esquecer quaisquer outros sentimentos que pudesse ter. Aquele poderoso ódio tomou conta de tudo, e ela não conseguia separar se ele vinha de Gasshō… ou de si mesma.

Contudo, agora ela havia sido forçada a encarar a verdadeira diferença entre eles. Aquilo que, sem sombra de dúvidas, traria a sua derrota: apesar de desejar profundamente descobrir mais sobre seu passado, só agora ela havia percebido que não estava pronta para isso. Poucas palavras, as quais ela não sabia sequer o significado ou a veracidade, quase a custaram a vida. Mas uma coisa era certa: aquele homem, quem quer que ele fosse, sabia muito bem como mexer com ela.

Então, se ergueu, sem tirar os olhos dele, sentindo o sangue escorrer por sua coxa e pelo pé.

-Algo ainda não faz sentido. O que eu fiz para você?

O sorriso irônico do homem sumiu. Aquele que debochava e brincava com a morena, agora a encarava com um olhar vazio. O canto de sua boca se levantou, quase imperceptível, mas carregado de um desprezo profundo.

-Você me humilhou. Chegou a hora de retribuir o favor.

Imediatamente ao dizer sua última palavra, os céus enublaram, finalmente se adequando ao frio do inverno que os assolava. As nuvens negras que preenchiam o espaço sobre as suas cabeças acompanhava, agora, o silêncio entre os dois. Cada palavra que saía dos lábios do homem gerava mais perguntas que respostas, e a morena sentia-se sufocada.

Assim, a energia espiritual vermelha e elétrica que emanava de Gasshō se expandiu. Em seu olhar, era claro: ele carregava um inexplicável ódio pela mulher, e estava atrás de seu sangue.

Haiako, por sua vez, ainda que quisesse entender o seu passado, não possuía razão o suficiente para lutar contra Gasshō, nenhum verdadeiro ódio que a fizesse se sentir motivada a matá-lo. Ela sabia que deveria estar furiosa, mas aquele homem, por mais cruel e sádico que pudesse ser, parecia, de certa forma, distante. Como um sonho melancólico do qual não se pode lembrar ao acordar.

Sentiu suas mãos tremerem, os pelos arrepiarem, e não sabia identificar se era pelo frio, ou pela pressão espiritual da presença à sua frente. Contudo, não havia mais tempo para digerir as palavras proferidas pelo homem. Gasshō avançou, agressivo, cortando o ar com sua espada, a qual deixava um brilho residual vermelho no ar.

Haiako bloqueava seus ataques, agora com maior dificuldade. Ainda assim, se mantinha recuada, analisando os movimentos violentos do homem, em uma tentativa de decifrá-lo. Com um golpe descendente, a grande katana fluida parecia vibrar, ansiosa para se encontrar com a lâmina de Haiako. Ela desviou, girando o corpo para o lado e, antes de recuperar a postura, Gasshō disparou, com o punho esquerdo, um soco direto contra o seu abdômen, forçando-a a recuar, segurando a própria barriga.

Não permitindo que ela tivesse espaço para contra-ataque, Gasshō girou o corpo, lançando um chute lateral preciso na direção das costelas da mulher. Haiako ergueu o antebraço, evitando o impacto direto, mas a força do homem a fez deslizar pelo ar.

Contudo, em seguida, seu corpo se movimentou instintivamente, forçando-a a reagir, e bloqueando o próximo golpe de Gasshō com a lâmina estremecendo em suas mãos, aproximando-se do homem com poucos centímetros de fôlego. Ali estava sua oportunidade.

Agora que estava face a face, perto o suficiente para sentir sua respiração ofegante, a mulher aproveitou-se do contato e da força que exercia com sua Zanpakutō contra a espada do homem. Então, rapidamente libertou uma de suas mãos do cabo de sua espada, e concentrou seu poder no punho livre, sem tempo para recitar encantamentos.

-Hadō número 63… Raikōhō!

De sua mão esquerda aberta, surgiu em espiral uma orbe eletrizante de energia amarelada, a qual emanava raios descontrolados. Era como se a palma de sua mão fosse o próprio céu, descarregando sua energia elétrica destrutiva sobre a terra. A orbe amarela se transformou em um raio potente e, caso estivesse distante de seu alvo, seu Hadō seria lançado em uma única direção, assim como faz um relâmpago. Contudo, ambos possuíam apenas palmos de distância entre seus rostos. Assim, com um tapa imprevisível, a mulher o atingiu em cheio, na face, e Gasshō, sem tempo hábil para recuar, sofreu os efeitos de uma explosão extremamente concentrada.

A morena se distanciou, com dificuldade. Gasshō recuou com um rosnado, os olhos arregalados, e, pela primeira vez, a máscara de arrogância em seu rosto se quebrou, dando lugar a uma fúria crua e incontrolável. O homem, se ajoelhou, cobrindo o próprio rosto com uma das mãos, escondendo o ferimento eletrizante de queimadura que havia sido provocado em parte do lado direito de seu rosto, da bochecha ao olho.

-Sua vagabunda

Haiako sorriu, mas sua breve vitória duraria pouco.

Gasshō ergueu-se com um estalo grotesco dos músculos, cada fibra de seu corpo tremendo com sua fúria. Respirava pesadamente, como um cão enraivecido e, sem dar brecha para Haiako recuperar o fôlego, ele arrancou a mão do rosto, revelando a queimadura viva e pulsante que deformava parte de sua feição. Seu olhar, agora tomado por um ódio quase primitivo, cravou-se nela como lâminas invisíveis.

Sua espada fluida e ameaçadora serpenteou em sua mão antes de disparar num corte feroz, como se fosse a extensão de seu próprio ódio.

Sem perder tempo, a lâmina vermelho-sangue deslizou em sua direção em um arco curvo, cortando na horizontal de maneira fluida. Haiako desviou, desajeitada, no último momento, sentindo o vento do golpe roçar a pele de seu abdômen através das roupas. Agora que estava tomado por uma fúria venenosa, Gasshō era aterrorizante, extremamente rápido e certeiro. E ele não parou por ali.

Sua katana se comportava como uma extensão de seu corpo: rápida, versátil e impiedosa. A cada golpe desferido, era como se Gasshō não manejasse a lâmina — mas fosse, ele mesmo, a lâmina.

Foi então que Haiako percebeu. Em meio ao turbilhão dos ataques, defesas desajeitadas e desviadas das investidas violentas, seus olhos captaram a cintilação sutil de sua reiatsu, pulsando ao redor do homem e se entrelaçando à katana vermelha. Não era apenas uma arma. Não era uma Zanpakutō, nem mesmo um artefato forjado.

O material que compunha aquela lâmina ameaçadora vibrava com a mesma essência de Gasshō, como se sua alma tivesse sido moldada, dividida e forçada a assumir a forma de uma espada viva. Algo que apenas Haiako, habituada a decifrar emoções ocultas no fluxo de reiatsu alheio, poderia perceber. A simples presença daquela arma parecia corromper o próprio ar ao redor e, diante disso, Haiako compreendeu que enfrentava algo muito mais profundo e perigoso do que havia imaginado.

Afinal, aquela espada… Era a própria alma de Gasshō.

Mas como aquilo era possível?

O homem inverteu a direção da lâmina, buscando um corte ascendente em direção ao queixo da mulher, que saltou para trás, como única alternativa. Inesperadamente, ele já se movimentava novamente, e deslizou a perna estendida pelo céus, sobre a base de reiatsu que o mantinha suspenso, acertando os pés de Haiako, fazendo com que sua posição defensiva se desfizesse, obrigando-a a erguer os braços.

Naquele momento, ela sabia: o próximo corte seria brutal.

Ele era imprevisível.

Vamos, mova-se!”, ela gritava consigo mentalmente, sem efeito. Seu corpo não respondia aos comandos de sua mente. Estava assustada com sua constatação, e o homem era rápido demais, cruel demais.

Ao invés de prosseguir com o golpe de sua espada, ele sorriu com os olhos arregalados, as orbes azuis destacando-se no rosto queimado, e aproveitou o impulso para se movimentar rapidamente até ela, dobrando seu joelho e desferindo um soco reto contra seu peito, misturando brutalidade e precisão. O som do impacto estalou de forma inconfundível, acusando a fratura no esterno de Haiako.

Assim, ela cambaleou, com todo o corpo vibrando em dor pelo choque violento.

-Ainda na defensiva? Vamos lá, me ataque novamente! Torne isso um pouco mais divertido. Quero ver se você vai ter tanta sorte de novo.

O corpo da mulher falhava, e ela focava em manter a reiatsu sob seus pés sólida o suficiente para não despencar dos céus. Haiako já não conseguia manter o ritmo da luta. Seus braços tremiam, os reflexos não acompanhavam a velocidade de Gasshō, que sorria um sorriso largo, feliz em encontrar rachaduras em sua defesa.

Ela hesitou, segurou sua Zanpakutō, em posição de guarda. Ainda assim, algo a impedia. Por que seu coração estava tão incerto sobre aquela batalha? Suas sobrancelhas arquearam, e ela oferecia apenas o silêncio à provocação do homem.

-Ótimo. Então eu vou ter que te obrigar.

Merda.

A sequência de ataques que misturavam Zanjutsu e Hakuda com perfeita sintonia se iniciou novamente, e a mulher bloqueava um golpe, apenas para sentir o outro se aproximar rápido demais, de forma imprevisível. Então, a katana vermelha-sangue desceu em um golpe diagonal violento, forçando-a a se defender, com um choque que tremeu seu corpo e a desequilibrou por um instante.

Ele luta como eu?”, ela pensou, referenciando ao fato do homem também mesclar ataques corporais com a luta entre espadas de uma forma estranhamente semelhante à dela, enquanto o corpo resistia a força do homem sobre si. Até então, Haiako pensou que estivesse lutando de igual para igual, sem que ambos liberassem seus poderes. Será que havia calculado tão incorretamente a diferença entre eles, ou sua falha em se defender apropriadamente era fruto de sua instabilidade emocional?

Eu preciso… de você...”, ela sabia que precisava liberar sua Zanpakutō, mas como? Após tantos anos negligenciada e ignorada, a alma de sua lâmina a proibiu de dizer seu nome. Ótimo, o momento não poderia ser melhor.

Mas não havia mais tempo para calcular estratégias.

Em seguida, Gasshō ergueu seu pé, em um movimento seco e direto, mirando o joelho da mulher.

O impacto gerou um estalo grotesco.

O osso cedeu com a força de seu chute, dobrando a articulação ao lado contrário.

O grito de Haiako rasgou os céus, em um som involuntário e agudo, antes que seu corpo tombasse para o lado. A mulher segurou os próprios lábios com a mão trêmula, forçando-se a calar o próprio grito, e os olhos lacrimejando de dor.

Gasshō a observou cair, concentrando sua energia abaixo do corpo para que não despencasse do céu, e os dedos tremendo, ao tentarem segurar a perna ferida. Quando seus olhares se encontraram, a mulher sentiu tudo aquilo que sua mente havia se esquecido. Era como se aquele sonho apagado aos poucos voltasse à superfície, a dando pequenas dicas de quem havia sido em sua vida passada. Então, olhando para ele, profundamente em seus olhos azuis como o mar, ela sentiu…

Ódio, tristeza, medo, incredulidade, mágoa e… luto?

Por que ela sentia tanto luto ao olhar para ele? E por que se sentia tão impotente, incapaz de se defender ou lutar de forma apropriada? Não… inadmissível. Ela não poderia se permitir desistir assim.

A mulher se levantou, erguendo sua lâmina, concentrando o fluxo de reiryoku para suas pernas, e ignorando o insuportável peso do próprio corpo. E o homem, por sua vez, apenas a olhava, sem urgência: apenas com fascínio.

Ela avançou, a dor queimando seus membros, mas…

Antes que pudesse atacar, Gasshō deslizou para seu lado.

Rápido demais.

Próximo demais.

Um impacto cortante rasgou sua pele.

O golpe veio horizontal e limpo, sua lâmina larga abrindo um corte profundo do flanco direito até quase o centro do abdômen, rasgando quaisquer tecidos de carne, gordura, músculos e órgãos que encontrou em sua frente. A dor veio um segundo depois, cega, ardente, insuportável.

Haiako engasgou. Sua espada escorregou dos dedos manchados de sangue, caindo do céu em espiral, e atingindo o grande e curvo rio que passava abaixo de si, tantos metros abaixo, em volta da floresta de pinheiros. Instintivamente, a mulher tentou pressionar sua ferida, mas era grande demais, o sangue jorrava de forma rápida e irregular, e ela já não possuía forças para estancar o ferimento.

O homem caminhou até ela, ainda com uma expressão vazia em seu rosto e, sem hesitação, agarrou com a mão firme e grotesca as bochechas da morena, em uma pegada que lhe machucava os ossos, forçando-a a se aproximar de si, com os pés suspensos ao ar.

-Eu costumava ter medo de você… Não consigo me lembrar o porquê. — Ele disse, em tom de escárnio, enquanto movimentava o rosto da mulher ao seu bel-prazer. — Você perdeu tudo aquilo que te fazia ser especial.

A última frase acendeu uma faísca dentro do coração da mulher. Fraca e falha, mas ela estava ali: uma voz masculina sussurrada, aveludada e sibilante preencheu seus ouvidos, arrastando os esses, assim como uma serpente.

Mostre-o…”, a voz dizia, provocante.

Eu não consigo…”, ela respondia.

-Sinceramente, princesa… É um desperdício.

Realmente, era um desperdício. Kikuchi Haiako, a respeitada 3º Posto, suas valiosas lições de guerra, sua experiência… Forjada pela perda daquilo que tinha de mais valioso em sua vida… tudo inútil, dada a sua impotência diante daquele homem.

Seus músculos não respondiam, sua reiatsu oscilava, sua mente em branco.

Em seu peito, o coração martelava, mas não sentia mais ódio, nem medo, nem luto. Agora, só restava a vergonha que escaldava seu rosto. Seus ossos quebrados, seus cortes profundos… muitos outros Shinigamis estariam vendo os últimos segundos de suas vidas. Todavia, apesar de gravemente ferida, aquilo ainda não era o suficiente para matá-la.

Gasshō posicionou sua espada nas costas, a qual parecia se conectar automaticamente com seu corpo, sem amarras necessárias para mantê-la naquele estado.

-Você não faz ideia do quanto eu desejei te ver de joelhos outra vez.

Ele sorriu, olhando para o rosto melancólico da morena, ainda segurando-a pela bochecha. Abaixo de seu olho esquerdo, a maçã do rosto estava roxa, levemente inchada, assim como os lábios entreabertos, vermelhos e ensanguentados, com o líquido rubro escorrendo pelo queixo e pescoço. Descendo o olhar, observou o Shihakushō frouxo, revelando um decote profundo, e o osso entre seus seios, fraturado. A serpente tatuada estava quase irreconhecível, tamanho o hematoma que a cobria.

Enxergou o tecido de seu Shihakushō, brilhante e molhado pelo sangue em diversos pontos e, com a mão livre, afrouxou o cordão dourado que prendia a obi tradicional azul em sua cintura, fazendo com que o kosode negro se soltasse, revelando o abdômen ensanguentado, e cobrindo-lhe precariamente os seios. Abaixo da obi, uma faixa branca e fina amarrava seu hakama no lugar, e segurava, também, a bainha azul-índigo de sua espada.

-Mas eu devo dizer… — Ele continuou, lambendo os lábios, cruel e abusivo. — Você ainda é uma bela visão. Se ao menos você se lembrasse… nós poderíamos ter nos divertido mais.

Gasshō afastou sua mão para trás, endurecendo os dedos.

Então, a última coisa que a mulher viu.

Ele golpeou seu ventre, abaixo do umbigo. Mas não era um soco.

Seus dedos afundaram.

Primeiro, veio a sensação gelada. Depois, a dor, se é que fosse possível sentir mais dor.

Seus lábios se abriram em um grito mudo, enquanto os dedos do homem rompiam seu ventre, afundando profundamente, até que atingissem a carne rígida de seu útero, segurando-o com firmeza.

-Huh? Vejo que você ainda está do mesmo jeitinho que te deixei.

O calor molhado do sangue escorria por entre suas pernas, e o homem aproximou os lábios do ouvido da morena, em um sussurro tão baixo e secreto, que mesmo ela teve dificuldades para ouvir.

Um sussurro cruel.

Um sussurro que mudaria tudo.

Então, ele a soltou.

O corpo da mulher despencou em queda livre. De seus olhos, escorriam lágrimas involuntárias, conforme a visão do homem, de pé, a olhando sorridente, ficava mais e mais distante.

Seu corpo irresponsivo cortava o ar em grande velocidade, e tudo escurecia a cada segundo que se passava, até que…

Seu corpo se chocou contra a superfície da água, a qual parecia concreto.

E afundou.

+

Neste Mundo, não havia dor.

Seus ferimentos não existiam.

Nem mesmo suas roupas tocavam mais seu corpo, e apenas uma névoa de energia escura preservava seu pudor.

Quando Haiako abriu os olhos, o Mundo negro a envolvia por completo. Sentiu-se envergonhada, mas acolhida. Todo aquele Mundo a abraçava.

Ela reconheceu o seu Mundo Interior.

A Alma de sua Zanpakutō.

Mas algo estava diferente: ao contrário de tantas outras vezes que se encontrou naquele lugar, ela não sentiu medo. Nem ao menos apreensão.

Se sentiu aliviada.

O local também parecia diferente: em vez de um vasto abismo sem fim, ele se parecia como…

Um infinito campo de crisântemos vermelhos. O céu era negro, com grandes nuvens vermelhas, como se refletissem o carmim daquelas flores que a enchiam os olhos, e o ar era adocicado, frio.

Seu coração estava calmo.

Ainda assim, o fôlego lhe escapava levemente, e ela se via respirando mais profundamente para compensar a falta de ar.

Então, a voz sibilante e arrastada novamente ecoou, movendo as flores como vento; e abrindo espaço entre os crisântemos, ziguezagueando pelos caules e folhas, uma serpente surgiu.

Seu familiar corpo negro e cabeça triangular, com escamas que brilhavam em um azul cintilante, e os olhos ofídicos de cor fúcsia, se aproximavam da mulher com lentidão.

Haiako caminhou de encontro com a serpente, agora maior que a última vez em que visitou este Mundo, e o chão sob seus pés era confortável, como um gramado verde e macio. Ela se ajoelhou, estendendo as mãos, e permitindo que a serpente se aconchegasse em suas palmas em formato de concha.

-Eu tentei não machucar ninguém. Tentei enterrar, tentei seguir em frente.

-De quê servirá o bem-estar destes seres, se custar a sua vida?

-Pensei que deixando meu passado para trás, eu finalmente pudesse ter um futuro.

-E agora, não haverá futuro.

Haiako engasgou, colocando sua mão sobre os lábios ao tossir. Quando observou sua palma, viu água e sangue mesclados. Não somente: agora notou o próprio corpo molhado e os longos cabelos pingando, encharcados.

-Estou morta?

-Não, mas você está se afogando. Neste ritmo…

A voz masculina ficou turva, inaudível.

-Talvez seja o melhor… estou cansada de sentir tanto medo, tanta mágoa. Eu só quero sentir paz, ao menos uma vez. — Ela sorriu, olhando em volta. — Por que este Mundo está assim?

-Eu não tenho poder sobre as escolhas do seu coração. Em seus momentos finais, a beira do esquecimento, seu coração enxerga esse Mundo como um campo de crisântemos vermelhos.

-Diga-me… você sabia? Disso? — Ela indagou, referenciando o sussurro final de Gasshō em seus ouvidos.

-Minhas memórias parecem estar atreladas às suas. Apenas me lembro daquilo que você se lembra. Ainda assim… eu não me sinto novo neste Mundo. Sei que estamos conectados além dos limites de nossas memórias.

-Eu costumava pensar que era sua culpa. Afinal, ele foi tirado de mim no dia em que nos conhecemos.

A serpente subiu pelos braços da mulher, até seus ombros e nuca, repousando a cabeça em seu clavícula, como se a abraçasse. Assim, Haiako segurou o próprio ventre, com os olhos cheios de lágrimas. Aquilo que Gasshō havia tomado da mulher… seu bem mais precioso…

-Eu tentei lhe dizer… sempre te protegi, e sempre irei te proteger. A qualquer custo. Eu nunca te machucaria.

-Tenho tanto medo…

-De que?

-De descobrir que tipo de mulher eu era para merecer… — Ela apertou a própria barriga, se abraçando. — isso.

Mais uma vez, a mulher tossiu, agora mais intensamente, e no peito um peso ardente a apertava. Os crisântemos moviam-se com um vento que ela não parecia sentir, e o céu, agora que ela o olhava mais intensamente, tremia com pequenas ondas, assim como fazia a água ao ser atingida por um objeto qualquer.

-Estamos ficando sem tempo… — Ela disse para a serpente.

-Me deixe protegê-la novamente.

-Eu tenho medo do que virá para a superfície.

-Estarei com você até o final, independentemente do que acontecer.

Mais uma vez, ela sorriu, melancolicamente.

-Agora que eu sei o que ele fez comigo… como eu faço isso sem sucumbir ao meu próprio ódio? Ele tirou… tudo de mim. Eu sinto que… se eu acordar… vou queimar tudo com o meu ódio.

-Eu não tenho essa resposta. Não posso te prometer que ficará tudo bem.

-Você promete que ficará comigo?

-Até o seu último suspiro.

Ela acenou, conformada.

-Por favor… me acorde.

+

Haiako abriu os olhos, submersa em um rio cristalino e escuro de corrente leve. Abaixo de si, sentia as pequenas pedras arredondadas contra seu corpo, e seus sentidos voltavam pouco a pouco.

Então, acima de si: o enxergou. O ser mais lindo que já havia visto em toda sua vida, de quem ela não imaginava sentir tanta saudade. De cabelos brancos lisos e longos, olhos de íris ofídicas fúcsia e córneas negras, dos quais desciam lágrimas finas e pretas, e lábios sorridentes, ele estendia sua mão para a mulher.

Em suas vestes, um kamishimo hitatare preto como um abismo cintilava com um brilho sutil azulado, e era adornado com ouro brilhante. De suas costas, uma névoa negra era emitida, gerando sombras que se assemelhavam a serpentes dançantes.

Haiako estendeu sua mão, tocando nos dedos frios e esguios do homem. Ela sorriu, ao sentir seu corpo sendo suspenso com delicadeza, conforme o homem a carregava para a superfície. A claridade branca do céu nublado lhe incomodava os olhos, mas o homem lhe segurava o rosto, suavizando sua vista.


O ar fresco lhe veio como um choque. Gelado, machucou seus pulmões, e cristalizou as gotículas em sua face. Respirou ofegante, arrastando-se com dificuldade pela margem do rio de pedras redondas, agora sozinha. Em sua frente, sua Zanpakutō a esperava. A lâmina brilhante, manchada de sangue seco, e o cabo azul trançado absorviam a luz branca do sol escondido pelas nuvens.

A cada centímetro que se aproximava, a voz de Gasshō ecoava em sua mente.

Como você se sentiu…

As pedras arranhavam-lhe a testa, os braços e o abdômen exposto.

Quando descobriu…

O vento frio em contato com sua pele molhada era congelante.

Que fui eu…

Então, sua mão alcançou o cabo de sua Zanpakutō, segurando-o firmemente.

Quem tirou sua capacidade…

Ela sentiu o homem se aproximar de si, descendo vagarosamente do céu, e repousando os pés a sua frente, ao lado de sua espada.

De ter filhos?

Seu corpo emanou lentamente uma onda de energia espiritual, que percorria seu corpo como algo fluido, com vida própria, preenchendo seus ferimentos e fazendo o papel de sua carne, articulações e ossos. Agora, precisava focar em manter sua reiatsu densa e concentrada o suficiente junto a si, de modo a sustentá-la de pé. Haiako sabia que aquilo iria requerer mais do que seu corpo poderia aguentar.

O sangue que saía de suas feridas profundas se espalhava pela água em grande velocidade. Ainda que sua reiatsu tentasse firmar seu corpo, não era possível amenizar a gravidade dos ferimentos causados pela espada de Gasshō. Precisava correr contra o tempo.

Parado, com as mãos nos bolsos, o homem a repreendeu, pisando firme e lentamente em sua cabeça.

-Você não presta nem para morrer…

A mulher soltou uma risada rouca, baixa e psicótica, a testa ainda pressionada contra as pequenas pedras, enquanto Gasshō franzia o cenho, confuso com a reação da morena.

Foi aí que ambos sentiram.

Duas presenças colossais, as quais Haiako prontamente identificou, entraram no Mundo dos Vivos, sendo emitidas como ondas que irrompiam pelo ar.

-Oh? Parece que seu resgate chegou, princesa. Mas não se preocupe, eu irei finalizar isso bem rapidinho.

Novamente, ela sorriu.

Então, trouxe sua Zanpakutō para si. Em sua mente, toda a sua vida passava como um filme, desde o momento em que abriu os olhos na Soul Society, o momento em que se apaixonou pela primeira vez, e o momento em que perdeu o presente mais precioso que havia recebido do Universo.

Como toda a sua vida, dali em diante, foi moldada pelo luto.

Como se manteve distante de todos que amava, incapaz de se abrir e se doar por completo.

Ela uniu todos os momentos de sua vida, todos os sentimentos, toda a perda, arrependimento e mágoa, e unificou em uma única e avassaladora emoção: o ódio.

Sucumbiu àquela emoção, se doou verdadeiramente à sua autodestruição. Ela não deixaria Aizen e Kyōraku a impedirem de buscar o que era seu. Assim, Haiako proclamou para si.

-BasseyoDokuhebi*.

+

-Você consegue senti-la? — Shunsui repousava sua mão esquerda sobre sua katana e sua wakizashi, enquanto os pés flutuavam no céu de Naruki sobre uma base sólida de energia espiritual. Com os olhos semicerrados, o homem de cabelos cacheados escondia a face sob seu sugegasa, o chapéu de palha que sempre o acompanhava, e ele parecia nervoso, tocando o polegar com cada um dos outros dedos em movimentos ritmados. Utilizando reikaku, expandiu sua mente para perceber cintilações e possíveis energias espirituais ao seu redor.

O céu estava escuro, imponente, e as nuvens carregadas e o ar gelado desencorajavam a presença de qualquer ser que ali ousasse permanecer. O olhar de Aizen era afiado, escaneando cada centímetro possível daquela cidade, a começar pelo canal que cortava as cidades de Naruki e Karakura, onde Haiako havia sido vista pela última vez.

-Temo que não. — Ele ajeitou os óculos nos olhos, antes de cruzar os braços abaixo das mangas de seu haori de capitão. Então, ele fechou os olhos, encarando o vazio negro a sua frente. Concentrou-se, com uma expressão séria e o cenho franzido, até que pudesse enxergar as almas presentes em toda aquela cidade.

Ao seu espírito altamente treinado, as almas humanas assemelhavam-se a pequenas e frágeis chamas azuis, dispersando-se por entre os prédios, ruas e praças. Por sua vez, as almas dotadas de reiatsu, brilhavam com um fulgor mais intenso. Em Naruki, estas últimas eram mais raras que em Karakura — fato este que ele conhecia há muito tempo.

Olhando para a cidade vizinha, Karakura, Aizen sentiu-se inquieto. Ele não deveria estar ali, expondo-se desnecessariamente, nem mesmo deveria estar no Mundo dos Humanos. Seu maxilar travou, os músculos pulsando, resistentes. Era acostumado a planejar milimetricamente cada um de seus passos, prever e controlar a aparência do mundo ao seu redor, e dobrá-lo a suas vontades.

Contudo… como utilizar a Kyōka Suigetsu em uma situação completamente imprevisível? Como decidir o que mostrar, se nem mesmo ele saberia o que encontraria? E, por fim, como fazê-lo sem prejudicar seus próprios planos?

Seu reikaku não percebia a presença de Haiako, apenas enxergava a energia fraca e insignificante de Hasegawa Mei, em meio a floresta, onde a Cidade de Naruki se encontrava com o horizonte. Considerou deixá-la ali para morrer, e focar no que realmente importava. No entanto, se ele a havia sentido, então era o mesmo para o homem ao seu lado.

Haiako… em que você se envolveu agora?

O arrepio que subia sua espinha e lhe atingia a nuca era estranhamente familiar. Em seus olhos, ele podia vê-la, nos seus últimos momentos juntos, todos aqueles anos atrás, encarando-o. Enxergando suas falhas. Finalmente, algo que há muito tempo não sentia: uma única gota de suor, em contrapartida ao frio cortante, desceu pela lateral de sua face. Por um breve momento, ele a odiou.

Odiou sentir tudo aquilo novamente.

Todo aquele medo.

-Está tudo muito quieto, e a Haiako-chan sumiu do mapa… isso não pode ser um bom sinal. Mas a garota da qual aqueles rapazes nos falaram, deve estar bem ali, não é? — Kyōraku disse, interrompendo o silêncio apreensivo.

-Sim, mas não por muito tempo. Devemos nos apressar para socorrê-la, e esperar que ela possa nos informar mais.

-Sim, sim… Vamos lá.

Os dois corpos desapareceram no céu nublado, em direção a jovem Hasegawa, que segurava os últimos fios de sua vida em meio a floresta da qual Haiako a deixara. Conforme eles cortavam o vento, em velocidade, Shunsui parecia querer retomar a conversa anterior, enquanto Aizen considerava dispersá-lo com sua Zanpakutō, de modo a encontrar a mulher sozinho e preparado. Ainda assim, olhou para o lado, sobre seus óculos falsos, curioso com o que seria dito.

-Sabe… tem uma coisa que ainda está martelando aqui. Parece até besta, frente a situação atual. — Ele introduziu, em seu tom leve e informal. Aizen apenas ofereceu o silêncio necessário para que ele continuasse. — Eu não sabia que você havia feito parte do esquadrão do Velho Yama.

-Entendo. — Ele suspirou. — Meus primeiros anos como Shinigami, e meu treinamento inicial, foi na Divisão 1. Foi um período valioso, e sou extremamente grato ao Capitão Geral por sua confiança e ensinamentos, mas eu sempre almejei fazer parte do 5º Esquadrão, mesmo antes de entrar na Academia.

-E por que isso?

Agora, ele entraria em um território perigoso. Precisava dar a quantidade suficiente de informação, sem revelar demais, e sem se esquivar demais. Kyōraku era um homem perspicaz, e perceberia se ele tentasse desviar do assunto.

-Obana Danjirō. — Aizen respondeu, sem rodeios, fazendo com que Kyōraku finalmente erguesse o chapéu de palha sobre seus olhos, permitindo sua expressão de surpresa ser vista.

-Sério? Você não é muito novo para saber quem foi aquele homem?

Aizen ofereceu um riso suspirado.

-A grande reputação do primeiro capitão da Divisão 5 dificilmente morreria com ele, não é mesmo? Mas é verdade, eu não o conheci, não pessoalmente. Somente ouvi suas histórias. Histórias de como ele criou alguns dos mais poderosos e secretos Kidōs, e como suas técnicas eram invencíveis. Kidōs e os fundamentos da reiatsu, sempre foram conceitos que muito me atraíram. É uma grande conquista pessoal poder seguir seus passos.

-Você é realmente muito interessante, não é mesmo?

-Parece surpreso com isso, Shunsui.

-Bem, talvez um pouco. — Ele riu, sem graça.

Mais uma vez, silêncio. Então, Kyōraku, com uma voz baixa e incomumente séria, disse:

-Você não acha que ela está morta, acha, Sōsuke?

Surpreso, com as sobrancelhas arqueadas, ele voltou a olhar para frente, e respondeu:

-Diga-me: você já lutou contra ela?

-Não, nunca. E você, teve essa “sorte”? — Kyōraku retrucou.

-A Haiako é surpreendentemente resistente. — O mais novo continuou, desviando da pergunta original, enquanto o vento lhe cortava os cabelos. — Não muito rápida, essa é uma de suas falhas, mas ela compensa isso em força, estratégia e furtividade. Faz sentido encontrarmos sinais de sua luta em meio à floresta, ela se aproveita de locais acidentados para surpreender o inimigo, mesmo antes de treinar com a Onmitsukidō. Tenho certeza de que não será derrotada… não facilmente, ao menos. — A última frase, no entanto, não era uma certeza e, sim, apenas uma esperança, a qual estava por um fio, cada vez mais frágil com o passar do tempo e a ausência de sinais da mulher.

-Estou surpreso... Você parece saber muito mais do que eu imaginava sobre ela. Eu sempre me perguntei o porquê da ascensão tão rápida dela. Agora entendo que você foi a razão. O Velhote sempre pareceu te respeitar, especialmente no seu exame de admissão de capitão.

-É verdade que ele depositou grande confiança em mim ao aceitá-la na Primeira Divisão, mesmo quando eu era meramente um Tenente. Mas a ascensão de Haiako foi seu próprio mérito, sua própria conquista. Eu odiaria que ela pensasse o contrário, e perdesse a confiança em si… compreende?

-Minha boca é um túmulo… Mas ainda me preocupo por não poder sentir sua pressão espiritual.

-Também não estou particularmente tranquilo. Quando ela desaparece dessa forma…

-Certamente quer esconder algo de nós.

Interrompendo sua movimentação, repousando os pés no solo, Aizen e Kyōraku se depararam com a jovem Hasegawa, deitada inconsciente sobre as costas, com os cabelos curtos e loiros cobrindo-lhe a face. Era possível notar suas roupas rasgadas e a expressão facial de quem lutava para se manter viva. Sua respiração era profunda, vagarosa e falha.

Aizen também percebeu, ao escanear o corpo da mulher, a quantidade anormal de sangue que molhava suas roupas, ainda que não houvesse ferida evidente. Seus lábios estavam roxos, e o pescoço carregava marcas de dedos do que ele rapidamente concluiu ser um estrangulamento. Olhou para os lados novamente, penetrando seu olhar aguçado por entre as árvores da floresta, agora mal iluminada, devido ao céu nublado e escuro. Ninguém encontrou, então concluiu que Haiako a deixara ali, isolada, para que não sofresse com os efeitos espirituais de sua batalha.

Mas pôde sentir, em sua alma, os resquícios de um combate que havia ocorrido ali. Alguns pinheiros a sua esquerda, reduzidos a pó, ainda queimavam em uma cintilância roxa quase imperceptível, a qual identificou ser advinda de um Haien explosivo. No mesmo caminho de destruição, sentiu uma reiatsu diferente. Algo quente, invasivo. Uma energia residual que dançava e rodopiava no espaço, como se a atmosfera de kishi do Mundo dos Vivos a rejeitasse, tentasse eliminá-la. Ainda assim…

Não era a primeira vez que a sentia.

Aizen nunca se esquecia de uma energia espiritual e, aquela, cujos traços ainda tão efêmeros e frágeis, estava gravada em sua alma, mesmo que não soubesse identificar seu dono. E sentir aquela reiatsu mais uma vez o trouxe sentimentos que preferiu enterrar por muitos anos. A perda, a ausência…

A solidão da criança que perdeu sua família.

-Ali está a garota. — Disse Kyōraku.

-Irei curá-la. Assim que recuperar a consciência, tentamos descobrir o que houve aqui, certo?

-Ceeerto. Vou ficar de olho.

Aizen acenou. O próximo passo era crucial: Kanzen Saimin, a hipnose completa dos cinco sentidos, que o permitiria controlar a situação até que… até que encontrasse Haiako, a qual não estava sob seu efeito. Kyōraku, no entanto, bem como seus subordinados, já haviam sido expostos a Kyōka Suigetsu em momentos pregressos.

Todavia, os Shinigamis possuíam um sentido além: o reikaku, a habilidade de identificar reiatsu à distância, de sentir suas cintilações e, em raros casos, de se conectar com os sentimentos que ela transmite. Pouco explorado naqueles de menor patente e pouco treinamento, mas extremamente e especialmente aguçado em Shunsui, ele sabia que o tempo era crítico até que o reikaku do homem percebesse que algo estava errado. Poderia controlar sua visão, tato, olfato, audição e mesmo o paladar… mas não poderia evitar que ele sentisse a mulher. Ao menos, não por muito tempo. Conhecido por lutar com um equilíbrio impecável entre os sentidos e a habilidade de ler reiatsu, era imperativo que fosse cuidadoso com o que mostraria a Shunsui.

-Mas você notou também, não é? Tem vestígios dela por aqui... essas árvores não caíram por acaso, e se eu pudesse adivinhar, diria que a Haiako-chan às atingiu com um Haien. O que me intriga é só uma coisa: contra quem, afinal, ela estava lutando? Não consigo reconhecer, mas está claro que não é um Hollow.

De fato: sua companhia não poderia ser pior.

Com o olhar sério e as sobrancelhas franzidas, ele afastou o haori de capitão de suas pernas, e ajoelhou-se perante a mulher que ele julgava ser indigna de seu esforço. Com uma das mãos, procedeu a utilização de seu Kaidō: apenas o suficiente para que ela acordasse, mas não o suficiente para que ela se curasse por completo e se tornasse mais uma variável a ser controlada. Enquanto sua mão esquerda era iluminada pela orbe verde da magia de cura, a qual se formava com traços de energia esverdeada que surgiam do ar, a mão direita alcançou a própria Zanpakutō, retirando-a da bainha, e direcionando a lâmina para si, horizontalmente.

Então, olhando o homem de kimono rosa por cima do ombro e dos óculos, o qual utilizava de seu reikaku para escanear a região, ele proferiu mentalmente as palavras que, há muitos anos, não precisava dizer em voz alta.

O comando que afogava todos ao seu redor nas águas de sua ilusão. As verdadeiras palavras que os faziam uivar para a lua refletida no lago.

Shizumero*

Kyōka Suigetsu.

Agora que havia, com maestria e segredo, liberado sua Zanpakutō, prosseguiu com a cura de Hasegawa, que acordava lentamente, perante suas habilidades. Certificou-se de que Kyōraku, sob o efeito de sua Kyōka Suigetsu, não o ouvisse, ou sequer visse que a mulher estava recuperando sua consciência. Os cinco sentidos do homem eram, agora, seus.

Precisaria tomar cuidado para que Shunsui ouvisse somente o que ele determinasse.

-Hasegawa-kun… Você está bem?

-Capitão… Aizen… Que bom… que você…

-Hasegawa-kun. — Ele a interrompeu, seriamente, ainda que não abandonasse o tom gentil de sua voz. — Eu preciso de você. Preciso que me diga o que houve.

A jovem acenou, com um sorriso fraco em seus lábios secos e cortados.

-Um homem… nos atacou.

Então, conforme a força retornava para seu corpo, sua voz se tornava um pouco mais assertiva a cada palavra, respeitando as pausas que sua respiração ofegante exigia. Hasegawa revelou a Aizen, que agora repousava a mão grande sobre a testa da garota, sobre o homem que as atacara, e como ele parecia conhecer Haiako. Como ele a impediu de chamar ajuda e, por último, em uma tentativa forçada de se lembrar das exatas palavras, ela disse:

-Ele… disse algo sobre o nome dela. Kikuchi… o que foi, mesmo? Parecia nervoso, com ódio… Como se aquele nome não fosse realmente dela. Era como se… a Kikuchi-san tivesse roubado esse nome de alguém.

Aizen arregalou os olhos, discretamente apertando seu maxilar.

-A Haiako-san se colocou em risco para me salvar, Capitão Aizen… nós precisamos ajudá-la. A energia que senti daquele homem… O ódio que emanava dele… Eu a senti, também, com dificuldades de enfrentá-lo. E agora… não sinto mais nada nela.

-Não se preocupe, Hasegawa-kun. Você fez muito bem. Estou orgulhoso. Agora, descanse. Você ficará bem.

Kikuchi. O nome que ele havia dado para Haiako. Se este homem misterioso do passado de Haiako também conhecia esse nome…

Então ele, também, deveria conhecer aquela mulher.

Se isso fosse verdade, Aizen sabia estar muito mais conectado à Haiako do que um dia pensou. Todavia, precisava descobrir, o mais rápido possível, qual a verdadeira natureza dessa conexão. Precisava eliminar quaisquer dúvidas…

E comprovar sua teoria.

Pela primeira vez em toda uma vida… ele soube exatamente onde procurar pelo passado de Haiako.

O homem de cabelos castanhos e curtos fechou os olhos, o maxilar tenso sob a pressão de emoções conflitantes. A preocupação latejava em sua mente, insistente, mas era sufocada pela raiva ardente que ameaçava romper a máscara de serenidade que ele forjava.

Eu a senti, também, com dificuldades de enfrentá-lo. E agora… não sinto mais nada nela.”, foram as palavras de sua subalterna. Engoliu a seco, tentando conter não apenas a raiva, mas também a confusão que corroía sua mente. Em seu âmago, Aizen era tudo menos calmo: havia nele um desprezo profundo, um ódio silencioso que borbulhava sob a superfície, ansiando por escapar. E a cada uma de suas crises, que não eram poucas, Haiako era a lembrança viva de quão tênue era o fio que separava sua razão do descontrole absoluto.

A preocupação rodopiava em sua mente, mas era sufocada pela raiva ardente que ameaçava romper sua máscara de serenidade. Agora, só uma coisa importava: salvar Haiako das mãos descontroladas deste homem desconhecido. Esperava, apenas, que ele não houvesse revelado para a mulher tudo aquilo que Aizen guardava em segredo sobre o próprio passado.

Kyōraku, por sua vez, ouvia uma versão diluída da verdadeira conversa entre Aizen e Hasegawa:

“-Hasegawa-kun… Você está bem?”

-Capitão… Aizen… que bom, finalmente você chegou…

-Sim, minha jovem… estou aqui por você. Iremos lhe curar. Diga-me, nós precisamos da sua ajuda: O que aconteceu com vocês?

-Nós fomos atacadas… Não sei por quem, apenas senti… o ódio vindo de sua reiatsu... Ele parecia buscar a Kikuchi-san, especificamente…

-Como assim? Vocês conversaram diretamente?

-Não… mas a forma que ele a olhava, a perseguia… Capitão Aizen, a Kikuchi-san fez o possível para me salvar, me proteger. Precisamos fazer o mesmo por ela. Sinto que ela esteja em grande perigo… Há um tempo já não sinto mais sua reiatsu, mas senti o quanto ela sofreu.

-Não se preocupe, Hasegawa-kun. Nós iremos salvá-la. Estou orgulhoso de você. Agora, descanse. Tudo ficará bem.”

Então, Aizen levantou-se, envolvendo a jovem com os próprios braços, antes de apoiá-la sobre seus ombros, auxiliando-a a se erguer.

-Você consegue atravessar sozinha, Hasegawa-kun?

-Capitão Aizen! Eu não posso ir agora. Precisamos ajudar a Kikuchi-san.

-Hasegawa-san. — Kyōraku a interrompeu, com uma voz mais séria e baixa que o normal, e ainda repousando sua mão esquerda sobre os cabos de sua Zanpakutō e wakizashi. Ele estava com a face voltada para o horizonte, com seu olhar escondido por trás de seu chapéu. — Se essa ameaça é, realmente, como você nos descreveu, o Capitão Aizen e eu precisaremos interferir. Você entende, não é? O melhor que você pode fazer, agora, é retornar para a Soul Society e concluir seu tratamento.

A jovem acenou, melancolicamente, ainda apoiada em Aizen, compreendendo que não suportaria os efeitos de uma luta na qual ambos os comandantes fossem protagonistas. Mal tinha saído viva de sua breve interação com o homem que a atacara e, além disso, Haiako parecia determinada a não lutar perto da jovem. A loira, então, se desvencilhou delicadamente de seu capitão, curvando-se em agradecimento, antes que pudessem abrir o Senkaimon para o seu retorno.

Após a loira atravessar os portões brilhantes que momentaneamente iluminaram a densa floresta de pinheiros, Kyōraku pareceu ser atraído por um objeto no chão, a alguns metros de distância.

-Sōsuke, veja só. — Ele disse, abaixando-se para recolher o dispositivo quebrado sobre o gramado.

-Isso é?

-Sim. É o denreishinki da Divisão 5. Está quebrado ao meio, pelo visto ela mesma o quebrou. A tela não está rachada.

-É como suspeitamos. Ela propositalmente não quer ser encontrada… Isso vai deixar as coisas um pouco mais difíceis, até para nós.

-O que quer dizer?

-Acho que minha percepção de energia espiritual perde, apenas, para a sua. — O gentil capitão e suas mentiras disfarçadas de modéstia. — E, mesmo assim, se nenhum de nós consegue senti-la, existem apenas duas opções.

-Sim, sim. Eu te entendo. Ou ela está muito longe daqui, ou se tornou impossivelmente boa em esconder a própria presença.

-Em qualquer um dos casos, o tempo é, agora, nosso maior inimigo.

As palavras trocadas pelos dois homens, quase que de maneira ensaiada, foram interrompidas por uma explosão de reiatsu densa e sombria, penetrando em seus corações tal qual uma doença. Ela não era visível, nem tátil, e parecia estar longe, mas se fez extremamente presente e avassaladora, antes de sumir por completo.

-Haiako-chan… — O mais velho disse, para si.

Aizen guardou sua espada, afastando-se gradativamente de Kyōraku. Então, comandou a sua Zanpakutō que assumisse sua forma, posicionando-a ao lado do capitão da Divisão 8. A partir dali, seguiria seu caminho separadamente. Apesar de suas mentiras, ele sabia que encontraria Haiako muito antes de Shunsui e, assim, decidiria como controlar a situação.

Ouviu o homem proclamar orientações para a ilusão formada por sua Kyōka Suigetsu enquanto se movia pelas árvores, até utilizar do Shunpō para se posicionar no céu. Na linha do horizonte, após a fronteira da cidade, um rio se encontrava com a densa floresta de pinheiros. O céu negro fazia com que suas águas refletissem uma cor obscura, não sendo mais possível enxergar nada além de nuvens escuras. A reiatsu sentida há pouco já havia desaparecido, mas ele sabia que havia sido emitida daquele local.

Era ali que ele deveria ir.

E, em sua mente, imaginou todas as coisas horríveis que faria com aquele que ousou tocar um dedo em Haiako.

+

Notas finais
*Basseyo… Dokuhebi: Puna-os, Víbora. *Shizumero... Kyōka Suigetsu: Submerja, A Flor no Espelho, a Lua na Água. Muito obrigada por terem lido! No link abaixo, vocês encontram uma breve análise acerca da minha escolha da frase de liberação da Zanpakutō de Aizen, não deixem de conferir! https://www.tumblr.com/akaikikuchi/782818854886916097/an%C3%A1lise-cap%C3%ADtulo-15-oblivion?source=share Até a próxima!