Oblivion

16 Sem piedade.


Notas iniciais
A conclusão da luta entre Gasshō e Haiako. Um capítulo repleto de simbolismos e do que, futuramente, se mostrarão ser Foreshadowings importantes! Uma boa leitura a todos.


I don't eat, I don't sleep, I don't eat

I let it consume me

How do I break you

Before you break me?

Lingua Ignota — Do You Doubt Me Traitor?

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O tempo estava contra ela. Ao liberar a Zanpakutō, Haiako sentiu — como uma sombra — a presença de Aizen e Kyōraku: suas reiatsu estavam próximas; logo iriam percebê- la. Não podia arriscar permanecer ali. Estava exausta; e o reiryoku já não sustentaria seu corpo por muito mais tempo.

- Isso é… a liberação de uma Zanpakutō? — Gasshō a questionou, afastando- se vagarosamente da mulher, visivelmente curioso e cauteloso.

Haiako se levantou, apoiando- se na lâmina de sua espada contra o chão, ajeitando suas vestes. Puxou a parte superior do traje — o kimono negro de mangas largas — e o deixou cair pelos ombros, revelando por baixo o kosode branco, colado ao corpo e manchado de sangue, o qual ela amarrou improvisadamente abaixo de seu hakama. De pé nas margens do rio, a água lhe molhava os pés, correndo por entre o tecido de suas tabi, e o céu repleto de nuvens emitia sons de trovões imponentes. Em sua língua, um gosto metálico e amargo.

Sua espada também estava diferente. Seu cabo azul vibrante, agora assumia a forma de algo fluido e preto que lhe abraçava a mão, como se fosse somente um com ela. Todavia, o mais curioso era a forma de sua lâmina: agora, completamente negra, possuía um formato retorcido e curvado, assemelhando- se a uma serpente rígida e imóvel. Ela emitia uma névoa residual igualmente escura que evaporava pelo ar, e lhe envolvia o braço, tal qual um vapor quente de água quando entra em contato com o vento gelado de inverno.

Lembrou- se da última vez em que a liberou, onde apenas a cor do metal se alterava, mas o restante mantinha suas características originais. Agora, era como se sua shikai possuísse vontade própria, e se movesse com intenção e sentimento, buscando se unir à mulher.

- Alguma coisa está diferente… — Haiako proclamou para si, com as sobrancelhas franzidas. Conforme segurava sua Zanpakutō, Dōkuhebi, horizontalmente, uma sensação estranha lhe atingia a mão. Um formigamento inédito, um sentimento que ela somente identificava como aceitação. Pela primeira vez, empunhou sua lâmina com certeza no coração. A névoa negra dançava ao seu redor, como se estivesse regozijando- se.

Então, a voz sibilante da alma de Dōkuhebi se comunicou secretamente com a morena, em uma melodia que somente ela ouviria.

"O que você sente… É a nossa unificação.

Ela sorriu com o canto dos lábios, ainda olhando para sua espada, enquanto a segurava à sua frente. Este sorriso logo se extinguiu, dando lugar apenas a um olhar frio, quase morto. A garganta engasgada da mulher a impediu de respirar adequadamente.

Em resposta, o homem alto de cabelos negros e olhos azuis impacientemente demonstrou descontentamento ao ser ignorado, aproximando- se da morena com passos pesados e apressados.

- Você está surda? Eu perguntei se…

- Não, eu lhe ouvi perfeitamente. — Haiako o interrompeu, rispidamente, levantando o olhar em direção a Gasshō, de maneira devagar, enquanto cortou o ar ao apontar sua espada para ele, impedindo- o que avançasse mais, cauteloso quanto a nova forma de seu poder. Sua voz era baixa, sussurrada, mas também, carregada.

- Eu não acredito que você trocou os seus poderes por essa imitação barata. Parabéns, princesa. Eu finalmente…

- Cale- se. — Novamente, a mulher o interrompeu, colocando o dedo indicador de sua mão esquerda sobre os lábios, fazendo com que a face do homem assumisse uma expressão enfurecida, de olhos arregalados e boca crispada. — Veja bem… — Ela continuou, agora olhando sobre seu ombro, para trás, e apontando o indicador para a mesma direção. — Você também os sentiu, certo?

Ele respondeu com o silêncio, curioso.

- Pois bem. Aqueles dois irão nos encontrar a qualquer momento. Você quer continuar a diversão, não é?

Gasshō riu, de maneira debochada.

- Olhe para você. Acha que está em qualquer condição de se divertir comigo? Seus órgãos estão lutando para não caírem da ferida que deixei em sua barriga.

- Vamos fazer um acordo. O que acha?

O homem sinalizou para que ela continuasse.

- Nós iremos embora daqui. O mais longe possível, sem que nos detectem. Então, eu lhe mostro o quão capaz eu sou.

- Heh, você é engraçadinha, né? E o que acontece quando eu ganhar de você?

- Você me leva. Não é o que deseja? Por baixo dessa fachada… de toda essa violência desperdiçada… é isso, não? Quer apenas me levar de volta, para onde seja. Pois bem, eu cedo. Sem truques. Que dificuldade haveria nisso? Afinal… olhe para mim.

- Tentador... — Com um muxoxo, ele balançou a cabeça negativamente. — Para onde você sugere irmos?

- Espere. Não tão fácil. Tem uma condição…

- Hahaha, essa vai ser boa.

- Quando sairmos daqui, você me dirá tudo o que eu quiser saber. Você responderá todas as minhas perguntas.

Gasshō parou para pensar, sem tirar os olhos da pequena e decidida mulher à sua frente, com ferimentos graves, vestes ensanguentadas, e um assustador sorriso nos lábios. Algo havia mudado.

- E se eu me negar?

- Encerramos aqui. Trarei os dois capitães até este lugar… e a luta acabará. Tenho certeza de que você já sentiu a mediu de cada um deles. Eu lhe asseguro: você nunca mais terá uma chance como essa.

Ele franziu as sobrancelhas, contrariado. Olhou para os lados, certificando- se de que ninguém se aproximava, e Haiako enxergou através daqueles vibrantes olhos azuis: por algum motivo, ele não podia ir embora sem ela. Então, Gasshō acenou.

- É um acordo. — A mulher devolveu o aceno para o homem, demonstrando tomar a liderança da situação. — Siga- me.

O corpo da morena desapareceu, acompanhado de um som estático e, logo em seguida, o homem a seguiu. Os únicos vestígios de suas presenças naquele local eram o kimono negro do shihakushō e a obi tradicional de Haiako, que repousavam no chão, vagarosamente sendo lavados de seu sangue pela corrente de água do rio.

Conforme corria pela mata, buscando afastar- se o máximo pelo maior tempo que lhe fosse possível, ela sentia a energia espiritual de Gasshō a acompanhar, alguns metros atrás. Entre seus passos apressados, ela mesclava saltos por entre as árvores, utilizando os troncos para se impulsionar. A cada toque de seus pés contra a madeira, ela sentia a dor de seus ferimentos pulsar mais intensamente, mas não havia escolha: se quisesse descobrir suas verdadeiras origens, precisava certificar- se de que Aizen e Kyōraku não a encontrariam.

Além disso, o que raios aqueles dois estavam fazendo juntos?

Não. Não importa”, ela pensou, enquanto balançava a cabeça, os tirando de sua mente. Não queria pensar neles, especialmente em Aizen. Afinal, foi quando estavam juntos que descobriu…

Que não podia ter filhos.

O pensamento veio cortante, latejante. Quando se lembrou, não se perdoou por ter esquecido, nem por um segundo sequer.

Sim, estava decidido: se pensasse em Aizen, iria desabar. Seu coração não era forte o bastante para encará- lo.

Ela precisava focar em Gasshō. O verdadeiro culpado por tudo.

Seu sangue ferveu, e uma sensação de sufocamento lhe assolou a garganta. Precisava se parabenizar: ela estava sendo muito mais fria que o esperado, mesmo que sua vontade fosse de dizimar aquele homem e qualquer outro ser que se aproximasse dela.

"Tem certeza disso…? O poder desse homem ainda é um véu fechado para nós. E você, tão apressada, se afasta da única chance de escapar.Dōkuhebi a alertou, sibilante.

Não percebe? Ele não entende perfeitamente como Shinigamis lutam. As vezes que tive maior vantagem sobre ele, foram as que utilizei de kidō para atordoá- lo. E não apenas isso: ele ignora quem eu sou. Quem quer que eu fosse antes da memória me ser arrancada… possuía um poder distinto do que tenho agora. Além disso… sinto que não há muito além do que vimos na superfície daquele homem. Estamos em vantagem. E nem comecei a dizer o que acontece quando Sōsuke e Shunsui me encontrarem.

Eu confio em seu julgamento. Confie, então, em meu poder.

Karakura e Naruki estavam distantes, mas não fora do alcance de um olhar potente. Em Kyōto, Haiako já havia sentido ecos de energia espiritual em ambas as cidades — provas de que seu reikaku captava o que outros ignoravam. Se ela percebia reiatsu detalhadamente de uma distância tão grande, precisava assumir que Aizen e Kyōraku também poderiam. Por isso, manteve a rota ao norte.

Conhecia o Japão como a palma da sua mão e, mesmo movimentando- se em meio às matas fechadas, não se perdia.

Forçou o corpo até o limite, cada passo medido. Seu Shunpō não era impecável e extremamente polido, mas suficiente. Corria contando o tempo, calculando mentalmente o espaço, sua velocidade. A floresta passava em borrões — províncias e cidades eram apenas marcos mentais. Gasshō vinha atrás, em silêncio. Por precaução, ela seguia por terra.

Duas horas depois, a tarde já pesava. Impaciente e convencido de que estavam a sós, Gasshō parou abruptamente, rachando o solo abaixo de si em pequenos pedaços. Em torno deles, mais árvores coníferas compunham a paisagem, com um verde profundo e escuro.

- Já chega. — Ele proclamou. — Duvido que nos encontrarão aqui. Ninguém nos seguiu.

Em seguida, Haiako repousou os pés delicadamente sobre o chão, permanecendo de costas. Precisava ser estratégica: qualquer coisa que perguntasse, certamente seria respondida com meias- verdades, ou mesmo mentiras, desenhadas para desestabilizá- la. Não era possível prever, devido a natureza errática de Gasshō. Por isso, ela se preparou, em silêncio e introspecção, cabisbaixa. Com a mão direita, segurou com firmeza sua Zanpakutō, a qual não saiu do modo liberado — caso o homem decidisse realizar um ataque surpresa — e respirou fundo…

- Então, princesa, me diz o que você quer saber, antes de eu te levar comigo.

Afinal, Haiako sabia haver uma única chance de descobrir o que queria, sem ser derrotada.

- Já estou ficando impaciente de ser ignorado por você.

E essa chance era…

Atacar primeiro.

Utilizou o Shunpō para posicionar seu corpo inesperadamente atrás do homem, cuja grande espada ainda estava conectada às suas costas. Então, com um único movimento, quase imperceptível ao olhar, tamanha sua velocidade, cortou o espaço horizontalmente com sua Zanpakutō. A lâmina negra e retorcida deixou sua névoa residual pelo caminho que fez em direção ao flanco do homem, que envergou o corpo, preenchendo prazerosamente o corte que penetrou suas costas.

Surpreso, as pernas de Gasshō falharam, atingido por uma velocidade não antes mostrada pela mulher. Era esse o poder de sua liberação? Não. Havia algo mais. Impiedosamente, os próximos golpes de Haiako vieram, um após o outro, rápidos e superficiais, com cortes diversos em seus braços e pernas, enquanto ele ainda nem ao menos havia tocado os joelhos ao chão. Então, novamente atrás de Gasshō, apontou à sua frente as palmas das mãos com os braços esticados, sem soltar sua espada — segurando- a apenas com o polegar.

- Hadō número 73… Sōren Sōkatsui!

De suas mãos, a energia azul- claro foi lançada rapidamente, como uma onda avassaladora, gerando uma luz que acendeu até mesmo os céus, atingindo o homem em cheio, sem tempo de desviar por completo, queimando- lhe as costas e as vestes que as cobriam.

Das chamas azuis, Gasshō cambaleou. Ele podia sentir suas costas ardentes e esfumaçadas sangrando ininterruptamente, e ainda era possível ver traços da névoa negra envolvendo seu corpo. Todavia, Haiako já não podia mais ser vista. O homem, agora de pé, olhou para os lados, ferozmente, apertando os dentes afiados como presas. Seu torso exposto revelava a continuação das tatuagens tribais que iniciavam em suas mãos, e as linhas pretas grossas formavam bonsais desfolhados, carpas decompostas, e imagens que se assemelhavam a yōkais — ainda que, em suas costas, as tatuagens estivessem, agora, desfiguradas.

Ele rosnava, seu peito arfando. Cada exalação saía quente, pesada, com os olhos arregalados enquanto movimentava seu corpo desajeitado para diferentes direções, procurando a mulher. Então, com um som rouco e selvagem saído de sua garganta, ele se esforçou para segurar o cabo de sua espada rubra.

- Apareça! Eu vou destruir você, sua maldita!

Dos céus, Haiako desceu, envolta em ódio e escuridão, sua voz emitindo um grito primal. Sua espada traçou um arco veloz em direção ao homem que, por instinto, levantou seus braços, defendendo- se da investida. A força aplicada pela morena, ao atingir a lâmina fluida do homem, disparou ondas de choque que poderiam ser sentidas em todas as cidades das proximidades, fazendo com que os moradores se perguntassem se a sensação poderia ser predecessora de um terremoto. As árvores tremeram e o chão, abaixo dos pés de Gasshō, se partiu em forma de cratera, obliterando a parte macia do solo, composta majoritariamente por matéria orgânica.

- É só isso que você tem para oferecer, desgraçada? — Ele gritou, cuspindo sangue, sendo confrontado pelo silêncio de uma mulher completamente diferente daquela com a qual lutara momentos antes.

Do ar, o Shunpō da mulher a colocou em frente a ele, com mais ataques sequenciais, dos quais ele tentava defender, ao recuperar a compostura. Então, enquanto suas espadas se tocavam, a morena se desvencilhou, girando o corpo rapidamente, e aplicando um chute circular para trás, atingindo o braço dominante dele. O impacto afastou o braço de seu tronco, dando a Haiako a chance que buscava.

Segurou sua Zanpakutō com ambas as mãos, impulsionando o corpo para trás. Então, movimentando apenas os braços, perfurou o estômago do homem em um corte visceral e irregular, uma vez que sua espada possuía, agora, a lâmina retorcida. Gasshō rosnava, o espaço insuficiente para contra- atacar. Quando sentiu a guarda tocar seu tronco, e a lâmina completamente exposta do outro lado de seu corpo, Haiako finalmente o respondeu, com um riso baixo.

- Não… Não é só isso. Não me diga que você ainda não percebeu?

Mais uma vez, ele arregalou os olhos azuis. Cego pelo ódio de ter sofrido aqueles ataques, ele não havia percebido: em seu corpo havia múltiplos cortes causados por aquela espada estranha. Então, olhou para baixo e, com a mão esquerda, tocou as mãos da mulher, visualizando com clareza a Zanpakutō que o perfurava.

E foi ali que ele sentiu: sua energia espiritual escorria pelas costas, braços e pernas em forma de calor, um fluxo denso. O que ele pensou escorrer de suas feridas não era seu sangue mas, sim, sua reiatsu.

- Esta é a minha Dōkuhebi. A minha víbora suga o veneno de sua alma, lentamente, purificando- a. Sua reiatsu é suja... — Ela sussurrava, sem olhar nos olhos de seu inimigo. Então, como quem quisesse fazê- lo sentir na pele as próximas palavras, ela finalmente fixou seu olhar repleto de ódio nos olhos azuis do homem. — Deixe que eu assuma para você o fardo de carregá- la.

Ainda segurando a espada da mulher, ele respondeu, sorrindo.

- Não tínhamos um acordo, princesa?

A névoa negra da Zanpakutō rodopiava lentamente em torno de Gasshō, buscando penetrar cada ferida infligida, e parecia voltar para a lâmina, absorvida. Em um movimento rápido, Haiako retirou sua espada, afastando- se e arrancando sangue do homem, que caiu, ajoelhado. Da nova ferida, ele podia sentir um fluxo ainda maior de reiatsu jorrando de seu corpo.

- Acordo? — Ela disse, enquanto limpava a lâmina ensanguentada de Dōkuhebi nas mangas de seu kosode branco, sujando- o mais. — Não me faça rir. Que garantia eu tenho de que você não iria mentir para mim? Além disso, se o seu objetivo era me matar, eu precisava ter alguma vantagem, não? Eu apenas equilibrei o jogo.

- Justo… Devo dizer que estou surpreso. — Gasshō a encarava fixamente, com um sorriso de canto de boca. — Você não é mais a garotinha medrosa que eu conheci. Gosto mais dessa nova versão. Mas por que você demorou tanto para me mostrar o seu poder?

Haiako permaneceu em silêncio por um breve instante, a respiração ainda pesada, os ombros subindo e descendo em ritmo irregular. Quando respondeu, sua voz saiu baixa, rouca pelo esforço — mas firme, fria.

- Eu observo meu inimigo, busco entender a extensão do que irei enfrentar… Geralmente sequer preciso dela. Somente precisei ativar minha Zanpakutō uma única vez com o fim de derrotar um oponente… — Seus olhos não desviavam dos dele, mesmo com o sangue escorrendo pela lateral do rosto. — Mas admito que errei no cálculo. Subestimei o quanto você resistiria.

- Que pena. Acho que agora você perdeu sua chance… Deveria ter me matado quando pôde, princesa.

A morena balançou a cabeça, com as sobrancelhas franzidas. Estava no limite de seu corpo, sua alma, e seu coração. Em breve, tudo desabaria, e as falas desafiadoras daquele homem a empurravam cada vez mais perto do precipício.

- O que você fez comigo… — Ela permaneceu em sua postura de luta, e apontou sua espada para o homem. Hesitante, ela continuou. — Como desfazer? — Seria ela capaz de recomeçar, finalmente conquistar os sonhos mais profundos da sua alma… e se sentir completa?

Em resposta, ele gargalhou, em escárnio, ao passo que tossia sangue e segurava o próprio abdômen perfurado, em uma tentativa falha de impedir que mais sangue e reiatsu jorrassem.

- Você acha mesmo que eu seria tão desleixado assim?

- Como você fez isso? — Ela, agora, caminhava em círculos ao redor dele. A respiração de Haiako era pesada, e o suor escorria vagarosamente de sua testa. Ela conseguia sentir as batidas de seu coração ficarem mais lentas com o passar do tempo, e sabia que seu corpo ferido estava cedendo.

Seu tempo está acabando. Você não irá sobreviver assim.”, a voz sibilante de Dōkuhebi demonstrava preocupação.

Só mais um pouco… Eu não posso parar agora.”, Haiako, por sua vez, mostrava- se resistente. Em seu peito, uma dor que superava qualquer outra física que pudesse ter. Seus pensamentos estavam confusos, barulhentos, e seus olhos entreabertos transpareciam as emoções envenenadas que sentia.

- Eu vou te mostrar, haha… Já já. — Gasshō respondeu.

Com dificuldades, ele se levantou. O corpo curvado, agora, ficou ereto, evidenciando sua estatura e porte. O homem suspirou profundamente, enchendo o peito de ar, e erguendo sua espada ao céu. Haiako o olhava com uma expressão curiosa, colocando- se em guarda, um pouco distante, já fora do círculo de solo desintegrado, no qual o homem se encontrava no centro.

- Acho que você já deve ter percebido… — Ele continuou. — Nossas espadas não são iguais.

Então, ele fechou os olhos, com a cabeça para trás e o pescoço hiperestendido. Quando, finalmente, ele soltou o ar de seus pulmões, a espada vermelha como sangue, fluida e em constante movimento, começou a se desfazer, como gotas rubras que se desprendiam. Cada uma dessas gotas, ao tocar sua pele translúcida, brilhava como uma centelha viva antes de ser absorvida, fundindo- se silenciosamente ao seu corpo. Mesmo a beleza etérea de Gasshō fazia com que o subconsciente de Haiako se contorcesse em ódio e nojo.

Logo, a grande espada que ele segurava desapareceu por completo. Nenhuma grande alteração se mostrava em seu corpo, que ainda carregava as feridas incuráveis que Haiako havia causado. Contudo, os olhos, agora abertos, de Gasshō, se mostravam diferentes. As íris, anteriormente azuis, adquiriram uma coloração púrpura vibrante e hipnotizante. Não somente a aparência mas, também, a expressão que eles carregavam.

- O meu verdadeiro poder não é uma farsa, como o seu. — Gasshō suspirou, como se estivesse aliviado. — Veja bem, Kikuchi, o que você observa?

- Vejo através de você, Gasshō. — A voz soou baixa, cadenciada. — Sua lâmina não engana. É a sua própria alma que carrega no fio, certo?

- Parece que você também ficou mais inteligente. Sim, princesa. Minha habilidade é dividir minha alma em fragmentos, e moldá- los à minha vontade. Não como reiatsu. É a minha verdadeira alma solidificada.

- E qual a relação entre esse poder…

- Eu já ia chegar lá. — Agora, o homem de cabelos negros estendeu o braço direito, seus músculos e tatuagens evidentes e expostas pelas vestes queimadas e rasgadas. Na extremidade de seus dedos, uma pequena flecha de energia vibrante vermelha se formava, rodopiando sob seu comando, aumentando com o passar dos segundos. Ao mesmo tempo, era possível ver as veias de Gasshō saltando sob seu pescoço, e sua expressão facial era de desconforto, ainda que tentasse encobri- la com o lábio crispado.

Ela observou, com cautela. A alma dele não se moldava rápido, e cada mudança parecia exigir, além de força e energia, tempo. Bom sinal.

Outra coisa lhe chamou a atenção: a dor. Ou, ao menos, o desconforto que aquela habilidade o trazia.

Por fim, seus olhos desceram até as feridas causadas no corpo de Gasshō. Ao reabsorver a própria alma, os ferimentos causados por kidō e por sua Zanpakutō anteriormente à liberação se curaram em alta velocidade. Aquelas causadas pela shikai, contudo, permaneciam vivas e pulsantes, recusando- se a se cicatrizar.

Assim, ela soube: ele podia se recompor ao reabsorver a própria essência — mas não contra ela. Contra Dōkuhebi, o corpo dele sangraria até secar.

Ela ainda possuía a vantagem. Ou ao menos, era o que pensava.

Logo, a flecha se tornou uma lança, tão grande como o próprio homem. Assim, com Haiako dobrando levemente os joelhos, colocando- se pronta para desviar de qualquer ataque, Gasshō continuou:

- Manipular a minha alma é a coisa mais entediante sobre meus poderes, sabe? Dá pra fazer algumas coisinhas bem legais, mas não é tão impactante, né? A parte divertida é o que eu consigo fazer quando ela entra em contato com o corpo do meu inimigo.

Foi tudo o que disse. Como um trovão inesperado, Gasshō lançou o artefato em sua mão, com velocidade o suficiente para que Haiako apenas conseguisse girar a própria face, com os olhos arregalados. Não esperava a rapidez com a qual ele atacaria, nem mesmo a agilidade do golpe. Seu movimento instintivo permitiu que apenas um pequeno e superficial corte fosse causado na maçã de seu rosto.

Logo em seguida, o homem surgiu, escondido pelo rastro de sua lança, a qual já segurava novamente com a mão esquerda, com o punho direito fechado e direcionado ao estômago da morena, que já aguardava o próximo ataque, ansiosa. Os olhos de Haiako brilharam com antecipação selvagem, e um sorriso torto e doentio mostrava a sua sede de revanche. Cada golpe que recebeu, cada momento de dor em sua vida… seriam devolvidos com crueldade dobrada.

A luta se transformou em uma brutal disputa de Hakuda. Mesmo com o corpo menor e consideravelmente mais ferido, a morena resistia em combate com força impressionante, sustentando- se apenas pela própria reiatsu. Mãos, joelhos, pernas, pés e cotovelos viraram as armas mais utilizadas por ambos, em uma troca que só podia ser descrita como uma demonstração de ódio puro e genuíno que eles nutriam um pelo outro.

A proximidade de Gasshō e a velocidade de seus golpes tornava difícil o uso da lâmina Dōkuhebi, forçando Haiako a concentrar- se na defesa e contra- ataque corporais, mas não importava. Naquele momento, apenas a vontade de causar dor ocupava a mente da mulher.

O cheiro de grama e terra úmida se misturava a respingos de sangue, enquanto Haiako e Gasshō rolavam, cada golpe trocado carregado de urgência. Seus corpos se chocavam de forma desequilibrada contra si e contra as árvores, às vezes desajeitados, outras vezes precisos, por puro instinto. A respiração pesada fazia a visão de ambos oscilar, e a brisa carregava o aroma metálico do sangue fresco.

Gasshō agarrou o braço de Haiako com força brutal, tentando prendê- la abaixo de si, mas ela se contorceu, retirando o peso dele de cima. Sua mão se fechou num punho, e ela acertou o cotovelo na lateral da cabeça do homem, desorientando- o.

A morena não esperou sua reação. Haiako desferiu um soco poderoso, firme e decidido contra o queixo do maior, provocando um impacto que fez sua cabeça sacudir violentamente para trás. O som do golpe ecoou pela floresta e, por um minuto, era como se a luta se encerrasse.

Mas ela não tinha acabado com ele.

Sem conceder espaço para recuperação, ela ergueu seu joelho bom com precisão e cravou- o no estômago do adversário, desferindo um golpe seco que arrancou um gemido contido, fazendo seu corpo se curvar sob a dor cortante que tomou seu fôlego. O peito de Gasshō subia e descia de forma acelerada, a respiração entrecortada, mas, mesmo cambaleante, seus olhos ainda fixavam os dela com uma determinação feroz.

O golpe na têmpora veio quase como um reflexo, o braço da mulher girando num arco não perfeito, mas o suficiente para fazer a cabeça dele pender, desequilibrando o pescoço e fazendo com que ele perdesse os sentidos, revirando os olhos como orbes completamente brancas. Seus olhos lacrimejavam, os dentes cerrados rangiam.

- O que…

Ela batia repetidamente. Então, soco após soco, o estalo seco das juntas de seu dedo atingindo imprecisamente e brutalmente os ossos da face do homem, ela descarregou a emoção envenenada de seu peito, cada golpe interrompido pelo som de seus gritos.

- Você…

E mais.

- Fez…

E mais. A pele dos seus punhos cedia com os golpes, abrindo soco a soco. Agora, ela chorava, como nunca antes se permitiu, e as lágrimas escorriam em abundância e intensidade, ardendo contra os cortes de seu rosto. Se não parasse imediatamente, o mataria.

- Comigo?!

De repente, em um instante de lucidez, em uma situação que só pode ser descrita como um último instinto de sobrevivência de alguém prestes a se apagar, o homem recuperou a consciência.

Gasshō recuou com um estalo de reiryoku, utilizando o Shunpō como último recurso, cravando as mãos no chão para se impulsionar para trás. Os dedos sujos de terra, os jika- tabi deslizando violentos pela grama molhada, deixando um sulco aberto atrás de si. O movimento foi rasteiro e rápido, como de um animal encurralado criando espaço para atacar. Sangue pingava de toda a sua face, e os ferimentos abertos lhe enfraqueciam com o passar dos segundos.

Só quando alcançou a distância que queria, ergueu o tronco de uma vez, girando os ombros com força. O braço bom puxou sua lança vermelha para trás, que pulsava com o mesmo tom vivo e denso do sangue que escorria de seu ferimento.

Gasshō lançou a lâmina mais uma vez, em um ato desesperado, e ela desapareceu em meio à floresta, sem atingir a mulher, que, ajoelhada, desviou. De certa forma, Haiako também esteve inconsciente. O frenesi de ódio e violência, acompanhados de seu choro, lentamente se dissiparam, conforme ela, ainda ajoelhada, hiperventilava para auto regular suas emoções, olhando as próprias mãos trêmulas e ensanguentadas.

Após se acalmar, com uma expressão fria no olhar, enquanto seu inimigo ainda se recuperava, Haiako iniciou seu próximo passo. A morena retomou a distância em um salto ágil, girando o corpo no ar com absoluto e perfeito controle de seu momento, aproximando- se. Em pleno giro, desferiu um golpe rápido contra o pulso de Gasshō, formando mais um corte do qual ele não conseguiria se recuperar. Quanto reiryoku ele possuía para resistir a tanta perda de reiatsu? O golpe limpo o surpreendeu, enquanto a morena pousou no chão com leveza.

Ela sorriu. Não um sorriso sincero, mas uma reação involuntária do canto de seus lábios ao ver a situação deplorável daquele homem. Gasshō já percebia algo estranho em seu corpo, e olhava fixamente para o próprio pulso, enquanto sua energia espiritual caía exponencialmente, as mãos tensionadas.

- Huh? Você demonstra desprezo pelos Shinigamis, mas o seu corpo segue os nossos princípios.

Ainda encarando o próprio pulso ensanguentado, ele a respondeu.

- O que… você fez?!

- Os Shinigamis possuem saídas de energia espiritual em seus pulsos, por onde elas fluem mais fortemente. Era só um teste, mas… — Haiako riu, enquanto limpava os punhos ensanguentados na própria roupa, seu coração ainda acelerado. — Imaginei que, se o seu corpo funcionasse da mesma maneira, eu poderia cortá- lo com minha Dōkuhebi, e o vazamento de reiatsu de sua ferida seria exponencial. Pelo visto, eu estava certa.

Gasshō sentiu a própria visão turva. Com suas outras feridas e, agora, essa nova em um ponto tão crítico, ele finalmente sentiu com intensidade os efeitos da perda de reiatsu. Além disso, o efeito anticoagulante fazia com que o sangue escorresse ininterruptamente, o suficiente para deixar mesmo um homem da estatura e porte dele, zonzo.

- Então… não é tão misterioso quanto gosta de parecer. — Os olhos dela se estreitaram. — Shinigami você não é, certamente. Mas o nosso sangue corre em você. — Um breve silêncio. Ela inclinou a cabeça, quase em admiração. — Separar a própria alma, moldá- la como metal… isso, sim, eu nunca havia presenciado.

Ele a olhou, tentando segurar o próprio corte, ainda que reiatsu e sangue escapasse por seus dedos, ambas pingando no chão, e a névoa negra da espada da mulher o penetrasse sem se importar com os limites que ele tentava colocar. As sobrancelhas negras franzidas do homem emolduravam seu olhar coberto de sangue que saía de seu supercílio, conforme ele apertava os lábios em uma linha fina, sem palavras para respondê- la. Seu maior foco era manter o corpo em um estado de homeostase, reduzindo a própria emissão de reiatsu, e ele respirava profundamente, soltando o ar pela boca devagar.

- Não adianta. — A morena avançou, a lâmina baixando como se o gesto fosse natural. Também carregava o peso da batalha, mas quando viu Gasshō imóvel, sustentando a própria reiatsu, deixou a guarda ceder. — O veneno não se cala. — Sua voz era baixa, firme. — Dōkuhebi força o reiryoku a escapar… mesmo no silêncio da sua pressão espiritual. — Ela apoiou a mão no abdômen ainda aberto, o corpo clamando contra o tempo. Respirou, contida, e prosseguiu. — Enquanto houver sangue e poder em você, eles vão escorrer. Até que reste apenas um corpo seco. Vazio.

- Então, chegamos a um… impasse…

- Eu posso desfazer a qualquer momento, Gasshō. Com um comando, eu suspendo os efeitos.

- Mas eu vou ter que responder suas perguntas?

- Não. Eu não confio em você.

- O que, então?!

- Você terá que me mostrar. De onde eu sou, para onde você quer me levar. Quem exatamente você é, e o que fez comigo.

- Tsc. — Com um muxoxo, ele riu. Ambos baixaram a guarda: sabiam que não poderiam lutar mais, e um empate técnico os separava da decisão final. Após pensar um tempo, o homem se sentou sobre a grama, também segurando a própria barriga com os braços, e as pernas cruzadas. Haiako o acompanhou, ajoelhando- se formalmente a uma distância segura, com as mãos ainda sobre sua Zanpakutō. Então, ele quebrou o silêncio. — Keisuke.

Ela arqueou uma das sobrancelhas.

- Meu nome. Gasshō Keisuke.

A morena desviou o olhar, balançando a cabeça negativamente. Seria aquilo um erro? O mero som da voz dele causava arrepios de desprezo.

- Ah, vamos lá. Não me dê o tratamento do silêncio… princesa. — Ele tossiu, cuspindo sangue.

Haiako fechou os olhos, suspirando. Estava cansada de joguinhos, e o ar que adentrava seus pulmões ardia. Queria gritar, chorar… e dormir. Principalmente dormir. Será que estava prestes a desmaiar?

Preciso. Continuar. Acordada.

- Qual a sua origem? — Ela rebateu, com sua voz sussurrada e baixa.

- Sabe, faz muito sentido que aquela mulher tenha te enviado para a Soul Society. Afinal, existe uma barreira natural para nos isolarmos de vocês. Nós somos o segredinho sujo dos Shinigamis.

Ela deixou o tronco ereto. Segredo sujo? Haiako tentou se lembrar de tudo o que já havia estudado sobre a história da Soul Society, da Seireitei e dos Três Mundos. Nada lhe recorria, a não ser algo que ouvira vagamente há muitos anos.

Isolados? Isso explicaria a completa exclusão de seu passado. Mas apenas um local poderia ser considerado verdadeiramente… isolado.

- Do que você está falando, Gasshō Keisuke?

- Ah, verdade. Minhas palavras valem muito pouco para você. Confesso que sinto saudade quando não era assim, e você realmente confiava em mim, princesa. — O moreno apoiou o corpo sobre os cotovelos no chão, aparentemente tentando descansar. — Beleza. Deixa eu te mostrar.

Os olhos incrivelmente azuis se fecharam, e ele suspirou vagarosamente, claramente desconfortável pela sensação do ar em seus pulmões. Sua reiatsu vermelha incandescia, contida a superfície de sua pele, e mesclava com a névoa negra de Dōkuhebi, que preenchia suas feridas.

Então, os olhos de Haiako brilharam.

Uma a uma, borboletas negras surgiam do céu, descendo em direção ao homem, e pousando suavemente por todo o seu corpo. Os detalhes fúcsia das asas brilhavam com o reflexo da luz suave vespertina.

Em breve, as borboletas também flutuavam lentamente em direção a mulher, que estendeu os dedos de forma delicada para recebê- las, seus lábios entreabertos e as sobrancelhas tristes. No peito de Haiako, emoções conflitantes dançavam, causando- lhe um aperto. Medo e confiança. Pertencimento. Incerteza.

O vento assobiava por entre as árvores, e o cenário se tornou algo etéreo, mágico. Centenas de borboletas os cercavam e, agora, a reiatsu azulada de Haiako também vibrava. Aqueles seres misteriosos estavam acordando algo oculto em sua alma.

- Borboletas… Infernais. — Haiako olhou para a grama sob si, e as gotas de sangue que a pintavam. O ar escapou de sua boca, esvaziando os pulmões. Era como se o próprio chão tivesse aberto um buraco, e ela caísse, sem nunca encontrar o fim.

- Você já deve ter notado. A conexão. Todos nós nos conectamos com elas… E todos nós temos uma que nos acompanha perpetuamente.

Quando Gasshō disse suas últimas palavras, as borboletas infernais que cercavam Haiako se afastaram. Logo, apenas uma permaneceu, diretamente em frente aos seus olhos, com suas asas vagarosas comandando o passar dos segundos. A mesma borboleta de asas danificadas que a acompanhou em outros momentos.

De fato. Desde a batalha em Kyōto, e nas muitas outras vezes em que visitou o Mundo dos Vivos sozinha, ela não sabia nomear o sentimento que lhe atingia ao estar ao lado de uma Borboleta Infernal. Mas essa palavra… parecia adequada. Conexão.

Haiako piscava com a mesma velocidade do bater das asas: em câmera lenta, como se estivesse hipnotizada.

- E… sobre o seu… probleminha. Foi mal, Mayahime. Eu queria dizer que não foi nada pessoal mas, na verdade, foi sim. Foi muito pessoal. Sabe… você disse algo sobre minha reiatsu ser… suja. — Gasshō respirava com dificuldade entre as frases. Completamente imersa no desconhecido, Haiako sequer ouviu o nome proferido e sussurrado por ele. — Não é mentira. Minha alma é bem perigosa. Tudo que entra em contato com ela… é corroído.

Mas Haiako ainda não o ouvia. Seu corpo estava irresponsivo, os olhos pesados, as mãos já haviam soltado a própria Zanpakutō, e ela só conseguia enxergar a borboleta a sua frente.

Acorde!”, a voz de Dōkuhebi suplicava, repetidamente. Logo, o espírito se materializou, ainda que Gasshō não pudesse vê- lo. O homem- serpente, cujos cabelos brancos e longos faziam voltas no chão, segurava os ombros de Haiako, tentando despertá- la, mas nada surtia efeito. Era como se ela dormisse com os olhos abertos.

- Todo o reiryoku que eu atinjo… desaparece. Pode ser um órgão, um membro… Sem reiatsu, o que sobra dos seres de konpaku? O que diferencia você de uma alma inútil?

Minha amada, por favor… Por favor, acorde!”, o espírito de olhos negros de cobra gritava em um bradar silencioso, como a forma que gritamos em nossos sonhos, ecoando pelo interior do coração da mulher. O kamishimo hitatare de Dōkuhebi, originalmente preto, brilhava intensamente em uma incandescência azulada, e as joias douradas que o adornavam também se acendiam. Materializada, a imagem da Zanpakutō suplicava, sem sucesso, para que a morena saísse de seu transe.

- O que aconteceria se, em seus órgãos, não houvesse mais reiryoku?

A palavra final calou a floresta.

Um som veloz, cortante, finalmente tirou a mulher de seu estado hipnótico. Então, Haiako olhou para baixo. Do meio de seu peito, um buraco jorrava sangue, vivo e quente. A imagem de Dōkuhebi se dissolveu, e a lâmina negra e retorcida de sua Zanpakutō voltava ao normal.

Ao olhar para frente, Gasshō sorria. Na mão do homem, sua lança, anteriormente jogada aos confins da floresta, havia retornado, em velocidade monstruosa, perfurando o coração da mulher com precisão. Não houve tempo para pensar, reagir, ou qualquer outra ação que não fosse cair para frente.

Mas o homem não a deixou atingir o chão. Rapidamente, ele se aproximou, impedindo- lhe a queda.

Haiako caiu nos braços de Gasshō, e ele a posicionou de forma que estivesse confortavelmente deitada em seu colo. Em uma ação contraditória, Gasshō acariciava os cabelos longos e ondulados da mulher, desfazendo com os dedos os pequenos nós que encontrava pelo comprimento.

O brilho lentamente se apagava dos olhos da mulher, mesmo que ela ainda não estivesse morta. Mas estava próxima.

Muito próxima.

- Pensei que iria me satisfazer vendo- lhe assim. Não me orgulho de te atacar de forma tão baixa. Mas tenho que admitir, princesa… Você quase me matou. Eu provavelmente não aguentaria mais um golpe. Parece que eu a subestimei… — Ele suspirou, com alívio. — É engraçado: seus poderes sempre foram aqueles de uma serpente. Linda, linda, linda... Perigosa. E, agora, seus poderes de Shinigami possuem um formato semelhante. Nada tinha me preparado para isso.

Enquanto ele falava, Haiako via, com a visão turva e escurecida, cenas breves dos momentos que a traziam mais tristeza e arrependimento. O único pensamento coeso que conseguiu formular foi o quão vazia sua vida havia sido. À beira da morte, só conseguia ver os seus fracassos. Suas derrotas. Suas perdas.

E, mesmo elas, agora, pareciam tão pequenas, insignificantes, comparadas àquele dia. A voz e, com ela, a própria presença de Gasshō surgia e desaparecia, conforme visões desconexas de ordem preenchiam o olhar da mulher.

Ao longe, sua antiga casa surgia, simples, tradicional, janelas amareladas tremeluzindo, chamando- a silenciosamente.

Ela sabia que estava deitada no colo de Gasshō, sentindo suas mãos deslizar pelos cabelos e rosto, enquanto sua consciência escorria, fragmentada. Ainda assim, a visão era quase tangível.

Viu- se entrando na casa, vestida de um awase carmim, uma espada escondida entre as vestes, e um som inaudível escapou de seus lábios: “Não entre… volte…”.

O amarelo se tornou sangue, estalos atravessando seus ossos, e um grito rouco rasgou o silêncio. Apertou os olhos, tentando fugir da lembrança, e se viu saindo da casa, apenas de roupas íntimas, tropeçando no frio.

Então Aizen surgiu, Shihakushō negro, passos silenciosos sobre a varanda. A casa se desfez; a visão se esvaiu.

Olhos amarelados, tristes e profundos, a encaravam de perto — mas não eram dele e, sim, de um garoto pequeno com cabelos castanhos e ondulados. Um sorriso suave se formou no canto dos lábios de Haiako, conforme tentava encontrar a força para sentir em sua mão o calor daquelas bochechas rosadas. Não encontrou, e seus braços permaneceram jogados a grama.

Cada dor, cada falha de sua vida se mostrou insignificante diante daquela perda. O berço eternamente vazio em seu peito. O filho que nunca existiria. Cada memória latejava com um vazio irreparável.

- Sōsuke… — A morena deixou escapar de seus lábios, quase inaudível.

- Você ainda está acordada? Está tudo bem… Vai acabar, em breve…

Haiako olhou para Gasshō, agora de volta a realidade crua. Ele também estava triste?

Engasgada com o sangue, sentiu a lembrança da casa silenciosa, os corredores vazios, e o filho que jamais nascera. A perda, a solidão, o arrependimento… tudo convergiu em um nó de dor dentro dela, travando sua respiração e queimando sua garganta.

Não. Não. Não. Ela não morreria carregando tanta dor. Não sem que ele soubesse. Não sem que ele a perdoasse. Não sem que tudo fosse esclarecido.

Cada lembrança, cada lamento se transformou em raiva contida, em determinação pura. Cada pedaço de dor era combustível. Uma espiral de energia espiritual azul, quase negra, se formou dentro de seu coração.

Um último sussurro escapou de seus lábios. Mais um. Só mais um.

- Hadō número 90… Kurō… Hitsugi.

+

Aizen sentiu um arrepio em sua nuca. Aquela energia espiritual densa, pesada e inconfundível despertou seus sentidos, levando- o rapidamente para a beira de um grande rio sinuoso, cristalino e profundo, cujo som da água percorrendo o caminho entre as pequenas pedras redondas ecoava na clareira ausente de qualquer outro ser. A cena seria pacífica e idílica, se não fosse pelo detalhe que chamava a atenção do capitão.

Próximo a si, avistou uma faixa tradicional azul índigo, cujo tecido havia uma tecelagem minuciosa de flores da mesma cor, em um fio mais brilhante. Jogado, mais ao lado, havia um cordão dourado decorativo, com fios cuidadosamente entrelaçados, os quais possuíam em sua extremidade algumas brilhantes miçangas fúcsia, como um pequeno cacho de uvas rosa.

A delicadeza e beleza daquela faixa tradicional lhe era conhecida, e imaginou como se estivesse em sua frente a pequena mulher de cabelos longos. Contudo, ao vê- la jogada à beira do rio, o coração rígido de Sōsuke se encheu de apreensão. Não somente: a água arrancava do tecido quantias irreais de sangue vivo e grosso impregnado, interrompendo sua beleza, e manchando o próprio rio, diluindo- se em espirais suaves e silenciosas.

O homem apoiou- se em seu joelho esquerdo, de forma a tocar na faixa e tentar sentir ondulações de energia espiritual que não fossem de Haiako. De fato, havia mais uma presença ali e, se antes pensava ter se deparado com um inimigo conhecido, agora teve a certeza de não saber com quem estava lidando. Aizen nunca se esquecia de uma energia espiritual, então sabia ser a primeira vez que sentia aquela reiatsu.

Olhou para o lado, mais a frente, e avistou, também, o kosode negro de Haiako, igualmente manchado de sangue, em maltrapilhos. Apertou os lábios em uma linha, conforme pressionava os dedos da mão contra eles. Mas aquela reiatsu que sentira há pouco, por mais efêmera que fosse, ainda estava presente. Em seu âmago, sabia que Haiako não estava morta, o que o deixava com somente duas alternativas:

“Alguém a levou?… Não há sinais de quaisquer portais abertos. Não é isso… Ela fugiu? Certamente sentiu minha chegada. Se Haiako está em uma luta contra alguém de seu passado, faz pleno sentido que ela queira obter o máximo de informações que lhe for possível. Ela não pode estar longe daqui. Não nesse estado.”

Aizen se levantou, ajeitando a postura e olhando ao seu redor. Kyōraku já se aproximava, acompanhado de uma perfeita réplica do Capitão Aizen Sōsuke. Dali, Aizen podia escutar o que os dois conversavam, uma vez que, ao ativada, Kyōka Suigetsu criava um laço consigo, permitindo- o ver, ouvir e sentir tudo aquilo que suas ilusões presenciavam. Deste modo, sabia que Kyōraku estava a alguns minutos de distância daquele local, fazendo conjecturas acerca do que encontraria.

O inimigo de Haiako, segundo as descrições da jovem Hasegawa Mei, parecia especificamente interessado no nome Kikuchi.

Se ele sabe sobre as Kikuchi… então é possível que saiba sobre mim. Ainda que seja uma chance remota, preciso me preparar. Minha Kyōka Suigetsu não será útil, se eu não puder controlar por completo os parâmetros de seu uso. O que quer dizer que… talvez realmente terei de fazer companhia a Kyōraku, se não quiser arriscar que ele obtenha informações desconexas. O que fazer…?” A mente de Aizen sempre buscava estar diversos passos à frente da realidade, preparando- se para quaisquer situações e suas ramificações. No entanto, aquela situação era irritantemente imprevisível. Não sabia onde estava Haiako, com quem estava, o estado no qual ela se encontrava… nem as informações que obteve.

Aizen levou a mão ao seu rosto, deslocando momentaneamente os óculos para cima ao apertar os olhos, em frustração.

Com os olhos fechados, e sua reiatsu completamente oculta no interior de seu corpo, tentou encontrar a direção para a qual Haiako seguiria, e o caminho se iluminou diante da escuridão de sua visão como feixes de uma luz azul fraca, quase como pegadas de animais em meio a densa floresta que ameaçavam desaparecer com a chuva. Então, se ausentou da clareira, adentrando por entre as árvores, de modo a identificar as origens daquelas pegadas de reiatsu.

Atrás de si, Kyōraku chegava à beira do rio, provavelmente tirando as mesmas conclusões sobre a fuga da mulher. Após analisar de perto aquelas pegas espirituais, e concluir que elas o levariam até Haiako, Aizen retornou, unindo- se à imagem de sua duplicata.

- É, não tem dúvida nenhuma que ela fugiu daqui. — O homem alto de kimono florido suspirou, casualmente, como se comentasse o clima, propositalmente ignorando os próprios sentimentos ao se deparar com as vestes cruelmente ensanguentadas e rasgadas. — Mas por quê, ein? Logo ela… que nunca corre de uma briga.

- Fugir não é, necessariamente, recuar. — Aizen respondeu, com um tom sereno e indulgente. — Seja por estratégia, ou por sobrevivência… Tenho certeza de que ela não nos quer por perto. — O brilho da luz fraca que filtrava pelas nuvens refletia nas ondulações da água, causando movimentações brilhantes nos óculos de Aizen.

O silêncio se estendeu. Kyōraku suspirou, coçou a barba por fazer, e enfim ergueu os olhos cansados.

- Infelizmente… essa não é uma decisão dela.

- Não, não é. Vamos. A energia espiritual residual que ela deixou já está se dissipando.

Os dois homens seguiram pela mata, com velocidade impressionante. Pouco a pouco, eles sentiam as pegadas de reiatsu mais presentes, comprovando estarem no caminho certo. Contra- intuitivamente, apesar de mais frequentes, elas se mostravam mais fracas com o percorrer do caminho. Era possível notar que a mulher tentava esconder a própria presença, mas não possuía energia o suficiente para fazê- lo com êxito, deixando, assim, pequenas marcas de que estava ali.

A reiatsu de quem a acompanhava, contudo, permanecia uma incógnita.

- A energia espiritual da Haiako- chan está cada vez mais fraca. Sōsuke… O que você acha que está esperando a gente?

- Se analisarmos o que Hasegawa nos disse… — Aizen começou a falar, de maneira ponderada e cuidadosa, antes de ser interrompido.

- Não, não isso. Quero uma resposta genuína sua. Você é quem a conhece melhor, não é?

- Eu só espero encontrá- la viva, Shunsui. — Ele respondeu, sem olhar para o mais velho.

Correndo lado a lado, ambos os homens encaravam o caminho à sua frente com seriedade e concentração. A paisagem, um borrão verde sem fim, marcado por pequenos pontos de reiatsu azul deixados pela morena, passava rapidamente, acompanhada do silêncio que eles compartilhavam.

Em contraste com a completa ausência de palavras, a mente de Aizen não lhe dava trégua. Cada centelha azul que se apagava no horizonte parecia repetir o nome Kikuchi, insistindo em retornar à superfície.

Foi assim, naquela fragilidade exposta, que ele se lembrou do dia em que encontrou Haiako no campo de crisântemos — a jovem assustada e solitária em meio a um mar carmim, emitindo ondas de energia espiritual diferentes de qualquer coisa que ele já havia sentido. — e de seu fascínio instantâneo por ela, como se sua própria órbita houvesse sido alterada.

Agora, a simples ideia de que ela poderia não sobreviver, tornava impossível afastar aquela lembrança.

Imerso em seu próprio mundo interior, revivendo anos dentro de si, Aizen foi forçado a se desvencilhar repentinamente das próprias memórias.

O verde profundo e uniforme da mata se conectava com o céu nublado e escuro, quando o horizonte se rompeu em uma explosão violenta e escura. Kyōraku e Aizen cravaram os pés ao chão, instintivamente, e tomaram cobertura atrás das árvores trêmulas, enquanto seus haoris brancos se moviam com o vento provocado pelas ondas de choque.

Então, ambos olharam para a origem daquela energia impressionante: no horizonte, uma parede de um azul escuro tão profundo, que se assemelhava ao preto, erguia- se imponente. No topo, lanças do mesmo aspecto atravessavam aquela parede, a qual formava algo que só poderia ser descrito como um sarcófago massivo.

- Impossível… — Kyōraku possuía seus olhos arregalados, com uma expressão incrédula, e segurava seu sugegasa com a mão esquerda, enquanto a direita se posicionava em guarda, pronta para sacar a Zanpakutō.

Contudo, para Aizen, não era impossível. Na realidade, o homem de óculos precisou esforçar- se para que, naquele momento, Kyōraku não notasse que seus lábios curvaram- se para formar um sorriso. Sim, era mais que possível: Haiako havia executado um Kurohitsugi bem sucedido, e as ondas de sua reiatsu perduravam com intensidade e poderes absurdos.

Não somente: pôde observar que, a outra reiatsu que a acompanhava, havia sido completamente dizimada.

- Vamos, agora! — Kyōraku bradou, como ordem, desaparecendo instantâneamente, enquanto seu Shunpō deixava apenas um som estático no ar.

Aizen não o seguiu de imediato. Pelo contrário, permaneceu poucos segundos olhando aquele horizonte azul- índigo, que se desfazia pouco a pouco, dando lugar novamente ao céu nublado. A magnitude, a força e natureza daquele Kurohitsugi estranhamente azul eram inegavelmente dela. E seu sorriso, ao contrário daquele Kidō impressionante, não se desfazia.

Somente ao se recompor, Aizen prosseguiu, também com um Shunpō. No entanto, ao se deparar com a clareira em meio à floresta, arruinada, seu sorriso desapareceu. As árvores partidas, o solo queimado e esfumaçado, o ar denso e pesado de reiatsu residual… e o corpo imóvel e ensanguentado nos braços de Kyōraku, com as roupas queimadas… deixavam claro: aquele não era um cenário de vitória.

Aproximando- se lentamente, cada passo cauteloso pelo solo despedaçado e solto era usado para reunir as forças necessárias para encarar a mulher. Ainda não havia visto sua face, entretanto, enxergando a forma que Kyōraku a segurava, como uma criança, escondendo a própria expressão no colo de Haiako, o coração de Aizen se tornou como pedra.

- Shunsui. — Ele disse, sem obter resposta do mais velho, que permanecia com o rosto oculto no abraço que acolhia a morena. Enquanto isso, as mãos e lábios de Aizen tremiam, e ele via sua completa inabilidade de se controlar. Assim, ele comandou, a voz imperativa reverberando pela clareia e pelas árvores. — Kyōraku Shunsui!

O homem de cabelos longos levantou o olhar, revelando sua testa manchada pelo sangue da mais jovem. Um olhar confuso, os lábios crispados. O quão estranho era ver aquele homem seguro e bem humorado com tamanha impotência e… medo. Ele conhecia aquele medo. O terror de estar prestes a perder alguém que ama.

- Unohana… Precisamos levá- la para a Unohana.

Aizen se aproximou, agora rapidamente, ajoelhando- se de imediato à frente de Kyōraku e Haiako.

- Não, precisamos ser objetivos. Ela não sobreviverá ser movida. Contate a Capitã Unohana, peça a presença imprescindível dela, e eu iniciarei o processo.

Recompondo a consciência, Kyōraku retirou o próprio kimono, dobrando- o com rapidez e habilidade, e deitou a mulher lentamente, apoiando sua cabeça de forma delicada no apoio suave formado pelo tecido. Em seguida, depositou um beijo leve, um toque quase imperceptível, nos lábios da mulher, antes de levantar- se e acionar apoio pelo denreishinki.

Aquele beijo causou um pesar egoísta em Aizen, que fechou os olhos. Somente após Kyōraku se levantar, ele se permitiu olhar para ela diretamente. Toda a face carregava cortes, ainda que mais superficiais, e hematomas escuros pelas bochechas e lábios. O supercílio também sangrava ininterruptamente, tornando rubra metade do rosto de Haiako. Por todo o corpo, especialmente na região abdominal, cortes profundos e viscerais rasgavam sua pele lisa e, pela forma que a perna estava dobrada, era claro que a articulação do joelho havia sido brutalmente quebrada.

No centro do peito, um buraco escuro, limpo e pulsante, emanando fumaça e energia espiritual. Aquela era a ferida mais crítica e urgente.

Mas Aizen também enxergou além dos ferimentos. Os olhos fechados da mais nova não eram suficientes para interromper as lágrimas que desciam como fios. As sobrancelhas arqueadas, a expressão de sofrimento, e a respiração difícil e úmida, engasgada. Cada detalhe lhe cortava a alma.

Então, para a sua surpresa, ela abriu os olhos, encarando- o profundamente. Imóvel e sem forças para falar, Haiako tentou dizer algo, mas Aizen a interrompeu, repousando a mão quente sobre sua bochecha.

- Não diga nada. Eu irei fazer essa dor passar. — Murmurou, enquanto Kyōraku, de costas, comunicava- se com Unohana.

A mulher ainda engasgava, mas sua teimosia insistiu:

- Meu… amor… c- casa… — Haiako deixou escapar de seus lábios, misturado ao sangue, quase como um som involuntário e arrastado, antes de fechar novamente os olhos, entrando em sono profundo.

Ele sorriu, percebendo que ela não estava em seu juízo perfeito.

- Sim, meu amor. Nós iremos para casa. — Shunsui podia tê-la beijado… mas, ainda inconsciente, ela sabia quem era seu verdadeiro amor.

A orbe brilhante e intensa de energia verde iluminou a palma de suas mãos, que direcionavam- na ao peito de Haiako. O ferimento resistia, e a cura era lenta.

Kyōraku retornou, deparando- se com a cena de Aizen performando Kaidō. Naquele momento, ele não se preocupou em esconder as expressões ou sentimentos do mais velho. Era natural que se sentisse triste, amedrontado e inseguro. Era… natural. E humilhante. Mas esperado.

- Unohana chegará a qualquer momento. A Haiako ficará bem. Ela… vai ficar bem. — Ele se ajoelhou, abaixando o olhar e recolocando seu sugegasa.

Ambos permaneceram ali, em silêncio. Nada havia para ser dito — ainda que as perguntas pesassem no ar. A única coisa verdadeiramente importante era que Haiako sobrevivesse. O restante, descobririam depois.

Mas era evidente: ninguém além dos três estava presente, e restava a dúvida se o homem que atacou Haiako havia fugido, ou realmente tivesse sido derrotado.

Em breve, tão lentamente quanto a ferida da mulher se fechava, o céu derramou sobre eles todas as emoções não ditas, como se chorasse ao ver aquele cenário de dor. A neve caía imaculada, prístina — mas nenhum deles a notou.

Sob a pureza da neve, o destino de Haiako seria traçado.

+

Na escuridão de um mundo oculto,

sobre solo árido e infértil,

abriram- se os olhos azuis de Gasshō.


Sua garganta jorrava sangue,

seus braços e pernas imóveis,

mas um sorriso ainda florescia.


E, na alma, a razão da sátira:

um pedaço lhe faltava,

ecoando no vazio do ser.


No coração da princesa, repousava seu presente amaldiçoado.


Notas finais
Pessoal, esse foi bem demorado pra escrever, mas confesso que fiquei bem feliz com o resultado. Quis trazer alguns detalhes interessantes, que vão ser muito úteis nos capítulos em diante. Espero que vocês tenham gostado de ler tanto quanto gostei de escrever e, como bons fãs da obra de Kubo, tenham se atentado às pequenas e breves informações que proporcionei. Muito obrigada por terem chegado até aqui, e não deixem de me mandar suas opiniões pelos comentários ou pelas mensagens.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.