Oblivion

5 Magnetismo.


Notas iniciais
Uhuuuuul, mais um capítulo, pessoal! Esse está maiorzinho né hehe Não deixem de comentaaaaaar, quero muito saber o que vocês acharam!

Reasoning lets go

And I am propelled into you

My skin widening…

Anilah — Warrior

+

Em uma varanda de cedro, largas escadas levavam à porta, enquanto os crisântemos que abraçavam a casa queimavam e rompiam a harmonia da paisagem impecavelmente verde. Uma pequena mesa redonda com a armação de ferro negro retorcido em flores e tampo de vidro martelado transparente guardava um lenço de tecido branco, amassado e esquecido com algumas manchas de sangue. Sentada na cadeira do mesmo material, Kikuchi Haiako encarava o horizonte com um rosto inexpressivo e um coração ansioso. A vista a sua frente, no entanto, passava despercebida pelos seus olhos, os quais eram guardiões de memórias importantes.

Memórias essas que a transportavam para os seus primeiros dias no 1º Esquadrão, pouco tempo depois de ter sido selecionada pelo próprio Capitão Geral. O, até então, 3º Posto, Okikiba Genshirō, nunca demonstrou ressentimento pela sua substituição na Divisão do Crisântemo, e sempre a tratou com grande respeito e amistosidade. Eram dias felizes em uma divisão que a acolheu, desde os treinamentos e ensinamentos do Velho Yama, às festas mensais de chá que uniam todo o esquadrão — e outros importantes Shinigamis. Servir o Capitão dos Capitães era, afinal, uma grande honra vivenciada por aqueles destinados a se tornarem grandes líderes, assim como Kyōraku Shunsui, importante amigo o qual conheceu nestas mesmas festas.

Kyōraku, afinal, entendia a pressão e as expectativas impostas sobre alguém escolhido pelo Capitão Geral, e Haiako sentia um acalento no peito em todas as oportunidades de conversar com o homem. Sua presença trazia conforto e leveza. Sim, ela havia pensado, e mais de uma vez, na possibilidade de se deixar levar pelo momento. Haiako realmente precisava da distração mas, sua mente, em constante estado de alerta, a impedia de seguir aquilo que seu corpo desejava.

Mas isso não era tudo: em todos os seus momentos de intimidade com os homens que passaram em sua vida, ela não podia deixar de comparar. Sexo sem amor, conexão, e até mesmo uma pitada de medo e incerteza, não eram páreo para… ele. Nenhum homem conseguiu, de forma bem sucedida, tirar Aizen de sua mente. E Haiako não queria se desapontar com a relação platônica perfeita que possuía com Kyōraku.

Ao relembrar os bons momentos, e mesmo as dificuldades de ser uma 3º Posto no 1º Esquadrão, Haiako deixou um sorriso sereno escapar de seus lábios acompanhado de um suspiro. Este, no entanto, foi interrompido pela imagem daquele que insistia em rastejar por sua mente e que, enfim, revirou sua vida de cabeça para baixo, mais uma vez.

Por que agora? Ela se perguntou.

Ser parte do 5º Esquadrão não era, por definição, algo ruim. Os jovens Shinigamis a admiravam, e sair das sombras de Yamamoto Genryūsai a permitia ser uma verdadeira líder, e aplicar seus conhecimentos em campo. Não, não era somente uma transferência que a abalava. Era ele. Após uma fria rejeição, a qual demorou anos para ser superada, ele a tirava novamente de sua órbita e, apesar do ressentimento e da mágoa, não conseguia evitar: seu caminho parecia inevitavelmente se cruzar com o dele.

Haiako olhou para o céu, como se estivesse em súplica. Ela precisava de respostas.

Os longos cabelos da mulher repousavam em seu ombro esquerdo, presos em uma trança folgada que terminava apenas na metade de seu comprimento, e amarrados com uma corda fina que possuía pequenas miçangas circulares azuis e fúcsia na ponta, enquanto alguns fios de sua franja caíam em seu rosto na altura do queixo. Suas vestes negras de Shinigami eram abertas nas costas bronzeadas e com músculos levemente definidos, com mangas coladas aos braços. Na mão direita, a manga era contínua e se encerrava como uma luva que cobria apenas os dedos anelar e médio, e a manga do braço esquerdo envolvia apenas os punhos, como de costume. Em vez da faixa branca regular usada pela maioria dos Shinigamis, Haiako utilizava uma faixa mais larga azul índigo sem amarração, com uma corda semelhante à do seu cabelo prendendo-a em sua cintura.

Este cordão, por sua vez, também serviria de apoio para guardar a bainha e a espada da mulher, a qual, no momento, ela segurava com firmeza em ambas as suas mãos, sobre as coxas. Os ornamentos do cabo de sua Zanpakutō, assim como muitos outros detalhes de suas vestes, eram de um azul profundo e hipnotizante, e a guarda da espada formava um círculo dourado.

O céu da madrugada trazia consigo os primeiros raios de uma claridade branca que iluminava toda a paisagem, e apontava o final de uma noite em claro. Nos últimos dias, mantendo uma distância segura dos olhos observadores de Aizen Sōsuke, Haiako experimentava breves lapsos de cansaço seguidos de sangramentos leves no nariz, os quais ela se recusava em examinar junto ao 4º Esquadrão. Por quaisquer que fossem os motivos, ainda que incertos, seus instintos recomendaram-na fortemente a manter segredo sobre tais sintomas. Algo dizia, no entanto, que a alma de sua espada estava querendo se comunicar.

Agora não, por favor, ela pensava. Aguente mais um pouco, e eu farei valer a pena.

Apesar de ter conseguido ocupar-se de atividades estritamente administrativas, era esperado que o 3º Posto trabalhasse com maior proximidade do Capitão e Tenente para treinar as equipes e delegar missões no Mundo dos Vivos e, por isso, inevitavelmente, Haiako teria de sair de seu isolamento.

Pois bem, vamos acabar logo com isso.

+

— Kikuchi-san! Bom dia! — Os jovens membros da 5ª Divisão a saudavam com sorrisos calorosos e reverências.

— Bom dia, rapazes! — Enquanto caminhava pelos longos corredores do Esquadrão em direção ao campo principal de treinamento de Kidō, cumprimentava seus companheiros e subordinados com grande carinho. Qualquer um que a visse não acharia que nada de errado estava ocorrendo, uma vez que Haiako mantinha uma postura ereta e enérgica, e um sorriso constante. Sua personalidade magnética e bom humor, apesar do grande profissionalismo e rigidez nos ensinamentos, eram a máscara perfeita para esconder o que se passava em seu coração.

—Tá sumida, sensei! — Katsuo Einosuke era um rapaz de cabelos pretos ondulados que ultrapassavam por pouco seu queixo em comprimento, mantidos presos por uma tiara preta simples, olhos verde-água com pequenos pontos castanhos, pele oliva, corpo alto e esguio, e uma pequena, mas funda, cicatriz que atravessava seu lábio inferior, além das vestes usuais de Shinigami. Einosuke se formou recentemente na Academia e via Haiako como uma mentora e exemplo a ser seguido, sempre brilhando os olhos ao olhar para ela. Ao encontrá-la, agora na sala principal de treinamento de Zanjutsu (ainda vazia pelo horário), mostrou-se positivamente surpreso em vê-la, e se levantou prontamente com uma reverência e sorriso nos lábios, como uma criança feliz. Apesar da altura e postura intimidadora do jovem, ele era uma alma ingênua e bondosa.

—Katsuo-kun! Estava mesmo buscando encontrá-lo.

—Eu, sensei? — O mais jovem disse, gaguejando pelo nervosismo, pois já sabia do que a mulher se tratava.

—Só tem você aqui, não é mesmo? — Ela riu e acenou para que o rapaz descansasse de sua posição reverente e ficasse confortável. — Em nosso último encontro, passei a você algumas técnicas importantes de comunicação com o seu eu-interior para acelerar o processo de formação da sua Zanpakutō. — Ao entrar na academia, os estudantes recebem a Asauchi: uma katana sem nome e sem alma. Comunicando-se com seu âmago e, por meio de treinos constantes, é possível inserir a essência da própria alma na espada, formando uma Zanpakutō. Assim, se conhece, inicialmente, sua Shikai: a extensão do poder do Shinigami na espada. Era um dos objetivos de Haiako transformar o maior número de Shinigamis do 5º Esquadrão em detentores de uma Zanpakutō funcional e, para isso, acompanhava seus alunos de perto com algumas técnicas de meditação. Até o momento, seus esforços estavam sendo bem sucedidos.

—Bom, professora Kikuchi… — O jovem abaixou a cabeça, envergonhado. — Devo admitir que não estou entendendo bem as instruções. Vários de meus colegas estão revelando os nomes de suas Zanpakutōs, e eu sinto que estou ficando para trás. Quanto mais confuso fico, menos entendo. Acho que não sou tão bom quanto eles.

A mais velha suspirou. Os raios de sol entravam pela ampla janela do recinto, deixando a madeira do chão com um brilho dourado, e imprimindo na parede a sombra saturada do biombo de bambu que separava a área de treinos em duas: a maior, destinada às aulas de habilidades com a espada e, a menor, destinada ao uso do professor, com uma mesa e almofada.

—Venha, sente-se comigo. — Prontamente, o rapaz a acompanhou, e ambos sentaram de frente para o outro em posição de meditação, com as espadas ainda embainhadas em seus colos. Haiako aproximou-se dele a ponto de poder tocar seus ombros sem estender os braços por completo, e pediu para que ele fechasse os olhos e enchesse seus pulmões de ar lentamente, soltando no mesmo ritmo. Ainda com as mãos nos ombros de Einosuke, o que causou um estranho arrepio no jovem, e rubor nas bochechas, ela continuou. — Vê como meu Poder Espiritual sai de minhas mãos e chega em seu corpo? — Ele acenou, ainda com os olhos fechados. — Pois bem. O que você está sentindo é a nossa troca de energia, como um leve formigamento em seus ombros. Coloque suas mãos em meus ombros também, Katsuo-kun. Neste breve momento, nossas energias buscam entrar em equilíbrio, e fluem livremente, e o formigamento irradia por todo o seu corpo. — “Uau”, o mais jovem proferiu. — Nossos corações buscam comunicar-se, e consigo sentir sua alma mais claramente do que antes.

—Eu… não consigo sentir a sua alma de forma clara. — Einosuke franziu as sobrancelhas, esforçando-se para decifrar a energia de sua mentora, que emanava apenas um vazio, como se um muro a protegesse dos olhos alheios. — Só consigo ver… uma parede escura.

—E isso também requer muito treino, haha. Não é fácil me decifrar, e logo você aprenderá, também, a se proteger melhor. No entanto, eu não sou sua lâmina. Ela, sim, está ansiosa para lhe mostrar sua alma.

Silenciosamente, na entrada do lugar, Hinamori Momo se aproximava, observando os dois com um sorriso doce nos lábios. Encostou no batente da porta de correr, curiosa com os métodos de sua subordinada. Atrás de si, Aizen Sōsuke a acompanhava, vestindo seu Haori impecavelmente branco e costumeiros óculos, e apertou o ombro da jovem Tenente com sua mão calorosa, se mostrando presente por meio de um aceno carinhoso. Ela o olhou com admiração, podendo sentir o aroma que emanava dos cabelos limpos do homem.

O coração da garota acelerava sempre que se via de frente para seu capitão, e o brilho em seus olhos demonstravam seu carinho. Aizen, por sua vez, tratava todos os seus subordinados com o mesmo senso de cuidado e gentileza. No entanto, tinha seus motivos para agir de forma individualmente amorosa com Hinamori Momo, ainda que essas ações se equilibrassem em uma linha tênue — e doentia — entre a admiração paternal e o desejo físico da mais jovem. Exatamente como ele queria.

Ainda assim, os olhos do homem eram atraídos para Haiako como um ímã, o que fez a jovem Tenente também voltar suas atenções para ela, ainda que com uma estranha sensação de inquietude e amargor no peito.

—Katsuo-kun, se liberte da pressão que você sente. Sua Zanpakutō não é apenas uma ferramenta de trabalho, e você não está em uma corrida contra seus companheiros. Eles já perceberam algo que você ainda não compreende: a Zanpakutō é, entre outras coisas, uma extensão de nosso coração, de nosso próprio poder. Sinto sua energia e posso ver que seu coração é puro e repleto de vontade de proteger. — O jovem abriu os olhos lentamente, com um olhar determinado, e ambos se soltaram, voltando a colocar as mãos sobre os joelhos. — Essa mesma troca de energia e comunicação de nossos corações é o que você deve fazer consigo. Olhe para dentro, medite, veja a cor de sua energia espiritual e como ela se move por sua espada. Observe seus detalhes e converse com ela. Pergunte seu nome. Encontre uma amiga e talhe-a em sua lâmina. — Enquanto proferiu as últimas palavras, Einosuke segurou com firmeza a espada embainhada. Haiako, por sua vez, evitava tocar a sua. Detalhe esse, quase imperceptível para todos, mas que não escapou dos olhos cirúrgicos de Aizen.

—Sim, sensei! Agora entendo bem! Não irei te decepcionar. — A mulher o respondeu com um sorriso acolhedor, e um aceno que o liberou da lição. Agora, não mais envolvidos pelo momento, os dois perceberam a presença orgulhosa de seus superiores, que os olhavam com bondade.

—Capitão Aizen, Tenente Hinamori! — A 3° Posto e o jovem falaram, juntos, apesar da voz da mulher ter falhado em meio a frase. — Katsuo-kun, você está liberado. Volte até mim apenas com o nome de sua Zanpakutō. Então, iremos testá-la. — Agora, Haiako o dispensava com um aviso sério, e o rapaz se retirou do recinto rapidamente, ansioso para colocar o treino em prática.

—Que ótimo vê-la em ação, Kikuchi-san! Foi, realmente, um método lindo! Você tem dado aulas individuais para nossos membros?

—Ah, não, Tenente Hinamori, haha… — Ela soltou um sorriso amarelo, acompanhado de um riso baixo e sem jeito. — Apenas para alguns alunos com maiores dificuldades em se comunicarem com seu poder.

—Bom, eu achei incrível! Fico muito feliz em ver seu carinho e dedicação com nossos colegas. Não é mesmo, Capitão Aizen?

—Certamente, Hinamori-kun. — O homem, com uma voz grave e passos leves, preencheu a sala de treinamentos com sua presença. — Me pergunto como você aprendeu um método tão intimista e eficaz. — Aizen se posicionou de frente para a janela, com as mãos para trás e um sorriso contente no rosto. Sua mente pairava sobre memórias reconfortantes, e ainda podia sentir a energia espiritual de Haiako fluindo por todo o seu corpo. Eles, no entanto, não estavam apenas sentados, como Einosuke e a mulher, e o contato havia sido um pouco mais… íntimo.

Haiako, então, olhou para Aizen, que estava de costas para as duas mulheres. Ele sabia exatamente onde ela aprendera, ou melhor, quem a ensinara tal técnica. Ela, por sua vez, não conseguiu evitar as memórias vívidas que invadiram sua mente. A mulher poderia respondê-lo de forma seca, ou até mesmo excessivamente formal, uma vez que estavam na presença de Hinamori. Em vez disso, decidiu surpreendê-lo.

—Aprendi com o senhor, Capitão Aizen. Os princípios que conheço sobre controle de Poder Espiritual, você me ensinou. Nossas aulas eram muito… estimulantes.

—Vocês… já trabalharam juntos? — A mais jovem perguntou, com hesitação e surpresa.

—Sim, Hinamori-kun. A 3° Posto Kikuchi e eu nos conhecemos há muitos anos, mesmo antes de eu me formar na Academia Shinigami. Considero-a uma velha amiga, com grande inteligência e preparo. Por isso solicitei sua transferência, uma vez que seu conhecimento em muito pode nos ajudar. — Aizen elevou as apostas, mostrando a Haiako que, não importa o que ela dissesse, ele estaria no controle da situação. Afinal, ela não iria mais longe a ponto de revelar as particularidades da relação pregressa de ambos, e o homem já havia previsto que parte de seu passado viria à tona com a presença de Haiako. Na verdade, ele contava com isso.

—Há tanto tempo assim…? Entendi, o destino é realmente uma caixinha de surpresas! — Uma sutil agulhada atingiu o peito de Hinamori, a qual ela disfarçou com um sorriso amarelo. Haiako, por sua vez, se manteve em silêncio, olhando para o horizonte como uma forma de evitar encarar qualquer um de seus superiores presentes. Abusado, a mulher de cabelos longos pensou, enquanto desviava do olhar de Hinamori.

—O tempo realmente passa voando! Bom, o dia apenas começou, e tenho que delegar algumas equipes para monitoramento no Mundo dos Vivos. Capitão Aizen, tenho sua permissão?

—Sim, Kikuchi-san. Fique à vontade. — Conforme Haiako se retirava do local, após reverenciar aos seus superiores, Aizen a acompanhava com o olhar, escaneando-a dos pés à cabeça. As vestes da mulher, que mostravam por completo suas costas e evidenciavam suas ancas, certamente não passariam despercebidas.

Em silêncio, a mais nova observava seu capitão. Por que só agora estava ouvindo a história dos dois?

Haiako se dirigia à sua sala com o coração acelerado. Uma velha amiga? Que sensação estranha

+

magnetismo

subst. masc.

1- Figurado: atração forte e inexplicável exercida por uma pessoa sobre outra, que emanaria de alguém ou de algo; fascínio.

O sol, agora, brilhava com intensidade no céu azul. Sobre telhados ocre da 8ª Divisão, um homem repousava tranquilo, com seu chapéu de palha cobrindo os olhos. O Shihakushō, entreaberto no peitoral, era coberto pelo haori de capitão e pelo kimono rosa-floral, mas as camadas de tecido não provocavam calor.

Haiako-san… Você está bem?— Perdido em meio a pensamentos conflitantes, Kyōraku se perguntou. O último encontro com a mulher havia deixado dúvidas pairando sobre sua mente, especialmente após o que quase ocorreu. Apesar de Haiako tê-los impedido de ir mais adiante, o homem não conseguia parar de imaginar vividamente até onde eles iriam, e o fato dela ter se distanciado abruptamente apenas servia de combustível para estes cenários imaginários.

Ainda com os olhos fechados sob seu chapéu, Kyōraku maquinava o próximo encontro, e até mesmo ensaiava suas frases e reações. Conhecidamente conquistador, ele amava todas as mulheres igualmente, e seu charme e físico maduro, bem como boa lábia, quase sempre o levavam longe, apesar de serem prazeres momentâneos. Mas essa situação era diferente, mais perene: a cada flerte, cada conversa e cada sentimento compartilhado junto a uma xícara de chá ou copo de saquê, um burburinho afetava seu peito.

Magnetismo.

Era a palavra que ecoava nos lábios do homem. Ele se sentia inexplicavelmente atraído, como se as ações de seu corpo não fossem verdadeiramente suas mas, sim, controladas por uma força inexplicável e muito maior que sua razão. A curva dos lábios carnudos da mulher, anteriormente perigosamente próximos aos seus, juntamente a sua respiração ofegante, o assombravam. As ancas largas e cintura fina ainda queimavam suas mãos.

Mas seus devaneios duraram pouco. Com um forte golpe em seu rosto, acompanhado de um grito, Kyōraku foi forçado a abrir os olhos.

—Preguiçoso! Você sabe quantos incêndios tive que apagar por você estar com essa sua bunda grudada aqui? — Nanao Ise, Tenente da 8ª Divisão, o surpreendeu com uma pisada na cabeça, com força o suficiente para apenas atordoá-lo.

—Nanao-chan… Não precisava ser tão agressiva. Assim você parte meu coração!

—Pare de drama. Seu esquadrão está esperando por você.

—Ok, ok… Certeza que não quer se juntar a mim? Tá quentinho aqui! — Mesmo suas costumeiras brincadeiras pareciam pouco naturais para si. A Tenente, por sua vez, o retribuiu com mais um chute.

—Se enxerga, velhote! Agora, vá trabalhar! Estou cansada de cuidar desse Esquadrão sozinha.

—Que cruel, Nanao-chan! Mas por você, eu faço tudo! — O mais velho se levantou do telhado, e desceu em um passo calmo e expressão séria, contrariando seu tom jocoso. Nanao, no entanto, sentia que algo estava diferente no homem que há tantos anos conhecia e trabalhou lado a lado, desde sua infância. Uma certa melancolia podia ser observada nas entrelinhas de suas brincadeiras. — Quando vou vê-la novamente, Haiako-san?

+

Naquele mesmo dia, no final da tarde, assolada por pensamentos conflitantes de desejo, dever e mágoa, Haiako estava sentada a sua mesa, com o suor do dia quente e agitado escorrendo por sua bochecha. Em uma situação comum, dificilmente o ritmo acelerado de sua rotina a deixaria cansada, no entanto, seus recentes sintomas a deixaram um tanto quanto fragilizada, especialmente emocionalmente. Por isso, suas mãos e cotovelos sobre a mesa serviam de apoio para uma cabeça confusa, que apontava para uma forte dor de cabeça.

O computador em sua frente, branco e com um lírio desenhado na parte traseira, símbolo do 5º Esquadrão, mostrava importantes nomes e cidades em todo o mundo. Cada nome, muitas vezes em duplas ou trios, estava relacionado a uma região de monitoramento no Mundo dos Vivos. Haiako decidiu realizar a delegação baseado no nível de experiência dos membros e no número de aparições Hollow na cidade, fazendo com que Shinigamis menos experientes pudessem ser designados a áreas mais calmas.

Como sempre, pôde ouvir as vozes de alguns poucos membros da divisão pelo corredor. Três, ela havia calculado, pelas energias espirituais solitárias, e conseguiu, também, identificar as identidades de cada um: a 7º Posto Hasegawa Mei, uma mulher alta e experiente, com cabelos loiros lisos e curtos; Aoyama Mitsuko, um rapaz de estatura mediana, pele negra e cabelo com cachos curtos e fechados; e o jovem Katsuo Einosuke. Todos eles, em meio às suas conversas e risos, se direcionaram para a sala do capitão.

—Capitão Aizen! Estamos bem, e você? — Os três bradaram energicamente, como se estivessem respondendo a um cumprimento de Aizen, causando um arrepio em Haiako. Uma frequência aguda também atingiu seus ouvidos, e seu coração acelerou com a possibilidade que invadiu sua mente.

Quando ele...? Estou tão distraída assim? Não, eu tinha certeza de que estava sozinha aqui. O que é isso? Os pensamentos da mulher a ensurdeciam. Ainda assim, pôde ouvir uma conversa completa entre seus subordinados, os quais riam e respondiam ao seu capitão com extrema educação, conversando sobre os treinamentos e expectativas de serem designados para o Mundo dos Vivos. A voz de Aizen, no entanto, não podia ser ouvida. Nem mesmo sua presença era percebida pela mulher.

—Foi muito bom ver você, Capitão Aizen! Obrigada pelos sábios conselhos! Você sempre sabe exatamente o que nos dizer. — Hasegawa despediu-se, seguida dos outros dois membros. Haiako aproveitou a deixa para sair de sua sala e investigar aquele estranho sentimento que acionava seu instinto de batalha.

Ao sair, se deparou com um corredor vazio, enquanto seus subordinados caminhavam para fora da instalação em silêncio, no escuro completo. A respiração da mulher ficava mais pesada a cada segundo, enquanto suas suspeitas se confirmavam.

Chegou, enfim, à frente da sala de Aizen. Abriu, vagarosamente, a porta de correr de madeira inscrita com o numeral japonês "5" e, ao se ver no interior, o que presenciou a causou uma forte vertigem.

A sala vazia, sem qualquer sinal da presença de Aizen — física e espiritualmente -, dava lugar apenas à mulher, que olhava o solitário crisântemo no pequeno vaso da mesa. Nem mesmo o aroma do homem, que já estava gravado em sua mente, estava presente.

—Com quem eles estavam conversando? — Ela deixou as palavras saírem de seus lábios, em um volume baixo e sussurrado.

Com o corpo exausto, sua cabeça doendo, e uma leve tontura, Haiako pensou: é isso. Preciso vê-lo.

+

Sem hesitação, e em alguns minutos de caminhada, Haiako estava em frente aos aposentos de Capitão. O dia já havia se encerrado e o céu noturno era iluminado pela lua e pelas estrelas, os quais deixavam-na com uma aparência solitária, enquanto seu punho estava levantado para bater na porta. Respirou fundo e fechou os olhos, deu dois toques na madeira, e esperou o retorno com o coração acelerado e adrenalina no sangue.

Quando a porta se abriu, Haiako mordeu os lábios e, cabisbaixa, após um suspiro em preparação, disse:

—Me desculpe. Eu preciso conversar com você.

Magnetismo

+

Notas finais
Hummm Haiako foi ver um capitão em seus aposentos, à noite... Quem será? :B Até o próximo capítulo!! Espero vocês ansiosamente! Mais uma vez, não se esqueçam de comentar!