Oblivion

12 Deixar ir.


Notas iniciais
Olá, pessoal! Bem vindos a mais um capítulo de Oblivion. Este, especialmente, eu gostaria de dedicar para o meu mais novo amigo, Gustavo Reis, que tem se esforçado tanto para acompanhar essa história e me presentear com feedbacks tão divertidos. Está sendo uma honra poder ter você como confidente, e compartilhar um pouco do meu mundo! Sem mais delongas, tenham uma ótima leitura!

O doce instinto

Deus indeciso

Eu indefeso

No teu sorriso.

O gosto atípico

E o jeito sério

Teu rosto místico

Mais um mistério.

Mil Razões — Tiago Iorc

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Naquela manhã, Haiako voltou para casa sozinha. Após passar a alvorada ao lado de Aizen, sentados sobre o telhado, compartilhando o mesmo cobertor para se esconderem do frio de início de inverno, seu coração havia ficado pesado. Sim, havia se sentido aliviada ao finalmente poder desabafar sobre o que havia acontecido em seu passado, contudo ela não conseguia tirar a mente dos dedos do homem percorrendo o seu colo, e da expressão nos olhos amarelados dele. “Não faça isso comigo…”, ele havia dito.

Em um único dia, ela havia tido dois momentos de intimidade com o homem, os quais a deixaram confusa e culpada. Confusa, por estar revivendo sentimentos antigos e perigosos. Culpada, por saber: não era justo com Shunsui estar dividida entre passado e futuro.

Ainda assim, algo que Aizen havia dito ficou em sua mente: “Uma vida vivida em mentiras não é uma vida feliz. Confie em mim". Confie em mim? O que ele não estava contando para ela? Mas sim, ele tinha razão. A mentira era algo familiar para Haiako e, apesar dela acreditar que estava protegendo aqueles ao seu redor ao mentir, suas palavras guardadas a sufocavam, corroendo-a por dentro.

Então, ela se lembrou de suas próprias palavras ditas para Tsuki, há muitos anos. "Alguém com a quantidade de segredos que eu carrego… não consegue simplesmente compartilhar uma vida com outra pessoa com essa facilidade”. Mas ela queria.

No tempo certo, ela lidaria com Tsuki. Nada de bom viria ao tentar se aproximar agora da jovem, que certamente ainda carregava muita raiva. Não, era melhor aguardar a poeira baixar. Mas, com outra pessoa, Haiako poderia se redimir.

Resolveu banhar-se com calma e lavar os cabelos, na esperança de acalmar seu coração. Ao sentar-se na banheira de mármore negro, cobriu seu rosto com a água, e fechou os olhos. Deixou sua mente vagar livremente por tudo aquilo que a assombrava na esperança de que a água levasse embora sua angústia e, quando deu por si, passava seus próprios dedos em seu colo nu, percorrendo o caminho da serpente entre seus seios. O olhar de Aizen pairava sobre ela, e sua voz grossa ecoava em seus ouvidos, como uma língua molhada que massageava seus lóbulos. Então, os dedos da mulher desceram, mais e mais, até que…

Até que ela se interrompesse, com tapas nas próprias bochechas para se acordar de seus devaneios. “Como você é patética, Haiako”, ela pensou.

Que a água lavasse, também, seus sentimentos pecaminosos e conflitantes.

Saiu do banheiro e se secou. Arrumou a cama, que horas antes servia de refúgio para Haiako e Shunsui se isolarem do resto do mundo. Quando aproximou os lençois brancos de seu nariz, pôde sentir o cheiro doce e amadeirado dos cabelos de Kyōraku, e teve saudades daquele homem tão amoroso, cuja presença preenchia toda a sua casa. Ela sabia da fama que percorria toda a Soul Society, mas não se importava. Quando os dois estavam juntos, ele se entregava por inteiro, e dava a certeza de que não haviam outras mulheres.

Agora, de corpo limpo, cabelo lavado, vestes novas e casa organizada, ela estava pronta para começar seu dia, que prometia ser extremamente longo. Finalmente, seus subordinados iriam para o Mundo dos Vivos, para que os Shinigamis que lá estavam pudessem retornar. De tempos em tempos, as rondas eram trocadas, de forma que eles pudessem ter experiência em todas as funções. Ao menos, esse era o estilo de liderança de Haiako sobre suas equipes, que buscava não privilegiar ninguém. Todos eram tratados como iguais.

Não era incomum um oficial superior, como o 3º Posto, participar das orientações iniciais no Mundo dos Vivos, guiando os Shinigamis inexperientes em suas novas funções. No entanto, devido aos acontecimentos de seu passado, essa era uma função que Haiako havia conseguido se desvencilhar por muitos anos. Até agora.

Olhou-se no espelho do banheiro, e sorriu suavemente para o próprio reflexo. Seus cabelos limpos e cheirosos caíam soltos sobre os ombros, ondulados e brilhantes. Tudo havia sido pensado para agradar uma pessoa em específico: Havia escolhido roupas diferentes de suas habituais, que possuíam as costas abertas e mangas longas e coladas. Dessa vez, usava um Shihakushō tradicional, como qualquer outro, apenas com um decote maior nos seios. Na cintura, manteve sua obi tradicional azul-índigo amarrada com um cordão de miçangas, a qual evidenciava a cintura fina e as ancas largas. O tecido azul era nobre e macio ao toque, com flores bordadas em um fio de mesma cor, mas com mais brilho. Já o cordão que a amarrava, era feito de fios dourados, os quais se encerravam com pequenas contas de miçangas fúcsia, e caíam por sua cintura.

Mas algo importante estava faltando.

Haiako deixou sua suíte e caminhou até a sala aconchegante repleta de livros. Pôs-se de frente à estante e percorreu os dedos aos diversos títulos. Haviam muitos livros extensos e grandes, com as capas envelhecidas pelo tempo, e as escritas da lombada levemente gastas. Um destes, no entanto, chamou a atenção da mulher, fazendo com que seus dedos parassem de forma hesitante sobre ele.

Um pequeno e fino livro, que não fechava de maneira apropriada. Introdução ao Zanjutsu. Inicialmente, não chamava a atenção, por sua capa preta e gasta, e letras apagadas. Extremamente ordinário e, até mesmo o título e seu conteúdo, eram básicos e introdutórios. Mas ele carregava em si algo muito mais valioso do que técnicas básicas de espada.

Ela retirou cuidadosamente o livro de seu lugar, segurando-o com apreço. Ao abrir suas páginas, as quais não estavam fechadas por completo, duas correntes prateadas separavam as folhas. A mais longa era menos brilhante, com mais marcas do tempo, e alguns acúmulos negros entre os elos. A mais curta, ainda parecia nova, reluzente e sem um arranhão sequer. Ambas possuíam um medalhão preso a elas, os quais se abriam.

Quando Soichiro Izaya fechou os olhos pela última vez, acolhido pelo colo de Haiako, ele havia entregado um fino colar, o qual simbolizava a relação dos dois que nunca viria a se concretizar. Por muito tempo, a mulher não teve coragem de abrir aquele delicado relicário, com medo do que poderia se revelar em seu interior.

Contudo, ele não era o único. Soichiro também carregava sempre, em seu pescoço, um colar que ele havia dito pertencer ao seu pai, antes que ele falecesse. Este, também possuía seu próprio relicário, que sempre era escondido pelas roupas do homem. Antes de se despedir, e antes que Tsuki recuperasse a consciência, Haiako o retirou do pescoço do homem, e o tomou para si.

Agora, ela encarava os dois colares, unidos e parecidos, mas diferentes. Sentiu seus olhos marejarem, mas se recusava a chorar em quaisquer que fossem as situações, então, deixou aquele choro engasgado. Todas as vezes que pensava estar prestes a chorar, a morena enchia seus pulmões de ar, e soltava lentamente, com os olhos fechados. Era a dose de força que ela buscava ao não se permitir mostrar-se vulnerável dessa forma.

Decidiu, de uma vez por todas, abrir ambos os relicários. O de Soichiro, gasto pelo tempo e com algumas marcas de uso, guardava em si as palavras “Dois corações”. Já aquele que deveria ter sido seu, novo e brilhante, dizia: “viraram um só”.

Dois corações viraram um só.

-Como…? Não entendo, ele não poderia ter adivinhado que encontraria alguém para compartilhar isso. — Haiako disse para si. Então, ela percebeu: se o colar que Izaya carregava pertencia ao seu pai, aquele só poderia pertencer… — Claro… — Ela sorriu, e a mágoa em seu coração foi embora.

Atrás de sua porta, alcançou sua longa Zanpakutō, sempre bem cuidada e limpa, que quase tocava o chão ao ser colocada em sua cintura. A cor azul do cabo era vibrante e vistosa aos olhos, combinando com as cores de sua obi. Olhou-se mais uma vez no espelho de corpo ao lado da porta, no genkan, e se achou muito bonita. O decote à mostra, as mangas longas e largas cobrindo-lhe as mãos, a bela faixa ao redor de sua cintura, e os cabelos perfeitamente ondulados.

Ela guardou ambos os colares em seus bolsos, e sabia que agora estava pronta.

Pronta para deixar ir.

+

Uma longa caminhada sob um lindo céu azul, sem nuvens, levou Haiako até os portões do 8º Esquadrão e, em seguida, aos aposentos do capitão. Ela tinha de se explicar para muitas pessoas mas, no momento, decidiu começar por aquela que se importava mais. Bateu suavemente na madeira shōji, e não obteve resposta. Decidiu, então, entrar mesmo assim.

No interior, lembrou-se da primeira noite que havia passado com Kyōraku, com um sorriso em seus lábios avermelhados. Ouviu o som no andar superior, característico de alguém saindo de uma banheira e a água escorrendo pelo seu corpo, e deduziu que o homem estava no banho.

Subiu as escadas, sem cerimônias, afinal, os dois haviam compartilhado intimidades muito maiores que aquela, e dispensavam formalidades. Ao subir, encontrou o homem de costas para si, com o corpo grande e definido nu. Os cabelos cacheados do mais velho, molhados e limpos, grudavam em suas costas, e ele os juntou com ambas as mãos para torcer o excesso de água.

Haiako assistia àquela cena secreta com um de seus braços abraçando o próprio corpo, e o outro levando seu polegar aos dentes, com um olhar lascivo.

Kyōraku era um homem bonito e charmoso, com seu jeito fácil e relaxado, mas aqueles que não o conheciam dessa maneira não faziam ideia de como seu corpo era… incrível. Haiako gostava de homens fortes e altos, de uma maneira não óbvia, assim como… Não. Ela não iria pensar em qualquer outra pessoa que não fosse Kyōraku.

Ao enrolar a toalha branca em sua cintura, Shunsui se virou para o quarto, deparando-se com uma Haiako que o olhava de cima a baixo. No entanto, ele não se assustou, e apenas suspirou profundamente. Não era comum ver Haiako usando aquelas roupas, ou sequer mostrando o decote de seus seios, mas ela estava linda. Os cabelos longos e levemente cacheados exalavam um cheiro limpo e doce, que desarmou o mais velho.

-Sabe, eu acho que invadir os aposentos de um capitão se configura como crime.

-Hm… — Ela sorriu. — Isso significa que você vai ter que me prender, Capitão.

O mais velho se aproximou dela, ainda com gotas de água pingando de seu rosto e cabelos. Sem sorrir, algo incomum para ele, ele se colocou a uma distância da mulher que era suficiente para as pequenas gotas de água caíssem sobre a bochecha da mais nova, e a olhou profundamente com os olhos verde-acinzentados.

Agora, os dois sentiam a respiração sincronizada um do outro. Haiako, com o pescoço hiperestendido, olhava nos olhos de Shunsui, e sua expressão era hesitante.

-Shunsui… Eu vim me desculpar por ontem.

-Haiako…

-Me deixa falar. Eu me arrependo de muitas coisas… mas não quero que nenhuma delas fique entre nós. Tenho um lugar para te levar, se você ainda tiver um pouquinho de paciência comigo.

Ele suspirou, desviando o olhar brevemente.

-É, não tem jeito. Você tá bonitinha demais para eu dizer não.

A mais baixa sorriu, franzindo a glabela.

Após Kyōraku se vestir, e colocar na cintura sua Zanpakutō e sua wakizashi, ambos saíram, lado a lado. O mais velho era guiado por Haiako, que não revelava onde o estava levando. A cena dos dois, lado a lado, era interessante para os Shinigamis que a assistiam. Shunsui era muito mais alto que a mulher, e sua presença atraía olhares por onde andava, uma vez que seu estilo era excêntrico, com o kimono rosa sobre o haori de capitão e o Jingasa de bambu que sempre escondia parte de seu rosto. Kyōraku, assim como Yamamoto, era um dos Shinigamis que mais se assemelhava aos antigos samurais do Japão.

Mas Haiako não passava despercebida ao seu lado. Ao escolher roupas mais tradicionais, ela levava os olhares ao seu colo, rosto e cabelos, que pareciam etéreos. Contudo, quando o mais velho olhava para ela, por baixo de seu chapéu, percebia uma expressão incerta e apreensiva. Assim, os dois seguiram em silêncio, conforme Haiako o levava para o distrito Leste de Rukongai, e Kyōraku reconhecia o caminho pelo qual eles seguiam.

-Estamos indo a Sakahone… não é?

-Huh? Você conhece?

-Sim… Foi aqui onde o Jushirō nasceu. Quando estávamos na Academia, passávamos todos os dias por esse caminho, conversando*. — O caminho de terra batida pelo qual os dois andavam era repleto de grandes árvores em ambos os lados, cujas folhas em tons escuros de marrom caíam pelo chão, revelando o céu sobre suas cabeças. Mesmo com o sol brilhando no ponto mais alto, o dia não era quente, e uma brisa fria os atingia, balançando e derrubando aquelas poucas folhas que ainda se agarravam aos galhos. Kyōraku parecia nostálgico, e sorria para o horizonte.

-É divertido imaginar vocês dois jovens andando por aqui. Quase consigo ver você correndo atrás das suas colegas da Academia. — O mais velho riu.

-Aparentemente, velhos hábitos nunca morrem. — Ele brincou, referenciando o fato de ainda estar, neste momento, correndo atrás de uma mulher. — Ukitake sempre foi um ótimo companheiro. E sua família, enorme e divertida, era daqui.

-Não imagino como seja ser criado em uma casa cheia e divertida.

-Mas essa é a beleza, não? Podemos escolher formar nossa própria família.

Formar a própria família… Com aquela frase, Haiako havia voltado a transparecer a melancolia em seu sorriso sem graça. Há muito tempo, ela se perguntava: como seria ter uma família grande, com filhos e netos? Preferiu afastar os devaneios desse sonho secreto. "Essa vida é inalcançável”, ela pensou.

O Distrito de Sakahone era repleto de casas bonitas e tradicionais, de parede branca e grandes portões de madeira escura. O comércio era forte, e a maioria das pessoas viviam com dignidade e felizes. Muitas crianças brincavam pelas ruas, e todas paravam, impressionadas, para ver os dois Shinigamis que por ali caminhavam. Os adultos também os observavam curiosos, e alguns idosos até mesmo reconheceram o capitão, que há muitos anos havia visitado aquele lugar.

-Senhor Capitão, Senhor Capitão! — Alguns pequenos tentavam chamar a atenção de Kyōraku, que os retribuía com sorrisos e brincadeiras, levantando o chapéu para que as pudesse cumprimentar.

-Kikuchi-san! — Outras jovens garotas brilhavam os olhos ao ver Haiako, e pareciam conhecê-la. As meninas correram em sua direção, sendo recebidas com abraços da morena.

Haiako estava sorridente, com seus dentes brancos, e as pequenas marcas de expressão no canto de seus olhos. Carregava duas meninas novas e magrinhas em seu colo, ainda saudáveis e animadas, e conversava com elas com grande entusiasmo. Shunsui olhava para a mais nova com curiosidade, pois nunca havia a visto perto de crianças, e tinha que admitir: ela era ótima com elas, e agia com naturalidade. O tempo parecia mover-se em câmera lenta, apenas para dar espaço ao sorriso da mais jovem, e ele sentiu como se o vento frio soprasse diretamente em seu coração.

-Oi, meus amores! Que saudade! — Mesmo a voz da mulher parecia diferente, mais serena, e sua linguagem corporal estava quase irreconhecível. — Como vocês estão grandes… estão comendo direitinho? — Ela colocou as crianças no chão.

-Estamos sim, Kikuchi-san.

-É, a gente tá ficando bem forte pra entrar na Academia Shin’o! — Quando a garota mais velha falou, Haiako cruzou os braços e franziu a sobrancelha.

-E seus pais sabem que vocês querem se tornar Shinigamis? — Todas responderam com um “sim” uníssono. — Pois bem! Espero que vocês estudem bastante e fiquem bem fortes para trabalharem comigo!

Enquanto Haiako conversava com as jovens, algumas crianças puxavam Shunsui pelas mãos para participar de uma brincadeira, crentes de que poderiam vencer o capitão em uma partida de ohajiki, a qual elas jogavam com diversas pedrinhas coloridas. O objetivo do jogo era semelhante àquele das bolas de gude, em que os participantes jogavam as pedrinhas umas nas outras, lançando-as com o polegar. Aquele que atingisse mais pedras, e as tomasse para si, venceria o jogo.

-Você é bom nisso. — Disse Haiako, observando o jogo com admiração pelo mais velho, que tomava todas as pedrinhas para si, deixando as crianças agitadas com a derrota. Surpreendendo a ninguém, Shunsui era ótimo com crianças, e até sabia perfeitamente como as consolar ao vencê-las.

-Caaalminha, calminha! Prometo que quando voltar, trago um montão de doces para vocês. — Então, virou seu rosto para a mulher, respondendo-a. — É a minha especialidade, haha!

-Sinceramente, você só tem tamanho.

-Ei, Kikuchi-san! — Uma das crianças puxou a manga do Shihakushō de Haiako, chamando sua atenção, sussurrando. — Você é amiga do Senhor Capitão?

Kyōraku ainda jogava com as crianças, quando ouviu a pequena perguntar a Haiako. Então, ele se virou para as meninas, e colocou a mão ao lado da boca, como se fosse esconder suas palavras, e respondeu no lugar da mulher, em tom jocoso e musical.

-A Haiako-chan é minha namoraaadaa. — Em resposta, Haiako revirou os olhos e sorriu para o homem, balançando a cabeça em desaprovação.

-Kyaaa! Que fofo! A Kikuchi-san é namorada do Senhor Capitão!

-Oi, oi! Vocês não têm nem idade para saber o que significa isso. Agora eu quero todo mundo caçando o seu rumo! Deixem os adultos conversarem. — Apesar de imperativa, a ordem havia sido em tom de brincadeira, e a morena até mesmo ameaçou correr atrás das crianças, afugentando-as com gargalhadas e gritinhos animados.

-Desculpa, acho que deveria ter te falado para vir sem o seu haori

-O Velho Yama mataria nós dois se soubesse disso, heh.

-Venha, é logo ali. — Ainda rindo pelos momentos anteriores, Haiako apontou para uma das casas. Simples, menor, mas de aparência muito aconchegante, era uma típica nagaya que remetia a Era Edo. A sua frente, um pequeno jardim com um gramado verde e saudável, e alguns arbustos de camélias, deixava o lugar ainda mais bonito.

-Você vai finalmente matar a minha curiosidade nessa caminhada misteriosa?

-Em breve… — Haiako bateu no shōji, e chamou a residente da casa. — Senhora Soichiro! — Ao ouvir o nome, Kyōraku se surpreendeu.

-Soichiro, como em…?

-Sim. — A mulher tornou a ficar séria.

Antes que ele pudesse pedir para que Haiako explicasse o que estava acontecendo, o shōji se abriu lentamente, revelando uma senhorinha de cabelos brancos e presos, vestida um kimono verde estampado com bambus e folhagens, mais baixa que Haiako. As marcas ao redor de seus olhos e boca evidenciavam o quão sorridente ela era.

-Não acredito… Haiako-chan! — A senhora, ao avistar Haiako, arregalou os olhos e deu pulinhos de felicidade ou, ao menos, o máximo que ela conseguia se aproximar de dar pulinhos. A mais nova, por sua vez, se curvou em respeito à idosa sorridente. — Nossa, como você está linda!

-Senhora Soichiro, como é bom ver você.

-Meu Deus! E você trouxe… esse é um Capitão? Meu senhor, peço desculpas! — Ela tentou se curvar, com dificuldades, mas foi interrompida por Shunsui que, sem graça, pediu a ela para que não o fizesse, pois não havia necessidade. — Entrem, entrem, por favor! Tomem um chá comigo!

Os dois entraram atrás da senhora, e Kyōraku olhava confuso para a mais nova, que sussurrou “Você já vai entender”. No interior daquela casa iluminada pela luz do dia que atravessava pelas amplas janelas abertas, Haiako se colocou à frente do homem, olhando-o fixamente, e retirou seu chapéu, seguido do kimono, haori, e espadas, deixando-o vestido apenas de seu Shihakushō preto. Então, na ponta dos pés, a mulher passou a mão pelo rabo de cavalo do homem, e o ajeitou sobre os ombros, encerrando com tapinhas leves em sua bochecha. Ele sorriu, conforme a mulher retirava e dobrava cuidadosamente cada peça de sua roupa, tratando-o com carinho e delicadeza, e não conseguiu deixar de tirar os olhos de cada detalhe dela: seus lábios, pescoço à mostra e decote exposto.

Não estava sendo tão fácil assim se conter, e algo sobre aquela situação, por mais inocente que fosse, era estranhamente sexual. Talvez pelo fato dela estar o despindo com as próprias mãos, ou talvez por ter passado a primeira noite longe da morena nas últimas semanas. Shunsui riu, chamando a atenção da jovem, pois, para ele, um homem dessa idade se sentindo constrangido ao ser parcialmente despido na casa de uma velhinha era… cômico.

Em seguida, Haiako também retirou a própria Zanpakutō da cintura, colocando-a ao lado das lâminas de Shunsui, no genkan. Ele, então, compreendeu a verdadeira razão da escolha de roupas da morena: suas vestes mais tradicionais eram um símbolo de respeito à casa daquela senhora, e não eram para impressioná-lo. Novamente, quis rir de si mesmo: sentiu uma pontada de ciúmes daquela senhorinha. "Sinceramente, Shunsui… você não é mais um adolescente pré-pubescente, controle-se”,ele pensou.

Com a ajuda de Haiako, a idosa preparou uma mesa de chá em seu chabudai, posicionado no centro da área social da casa, para os três. A casa não era grande, e possuía apenas dois quartos, mas era confortável, limpa, iluminada e bem arrumada. Shunsui pôde ver, no canto da sala, um mitamaya fechado sobre um pequeno altar, o qual possuía arroz, água, sake, sal e ramos de sakaki em um vaso branco, indicando que aquele local guardava as lembranças de pessoas falecidas. Então, ele ligou os pontos.

-Desde que o Izaya faleceu, a Haiako-chan sempre vem me visitar… — A idosa falava com o homem.

-A senhora é a mãe de Soichiro Izaya, certo?

-Sim, senhor Capitão. Meu filho era um menino muito bom e carinhoso… Eu só sinto muito que somente pude conhecer a Haiako-chan quando ele faleceu.

Enquanto Soichiro conversava com Kyōraku sobre Izaya, e sobre como foi criá-lo sozinha, uma vez que o seu pai havia sido um Shinigami que morreu em batalha, Haiako colocava as louças na mesa, e os servia o chá, como se a casa fosse sua própria.

-Imagino como deve ter sido duro perder o seu filho após perder, também, seu marido. — Haiako continuava em silêncio, e Shunsui, com seu jeito leve e descontraído, deixava a idosa confortável, mesmo ao receber um capitão em sua casa.

-Foi a pior coisa que já passei, senhor Capitão. Mas a Haiako é uma mulher gentil e carinhosa. Ela me visitou todos os anos, quando chegava o aniversário da morte do meu Izaya.

-É mesmo? Eu não sabia… — O mais velho se virou para a jovem, que acenou com um sorriso tímido. Se ele ganhasse dinheiro a cada vez que percebesse que não sabia algo sobre a mulher, estaria mais rico que os Kuchiki.

-Senhora Soichiro… eu vim aqui porque tenho algo para lhe dar.

-Eu estava mesmo me perguntando… ainda faltavam alguns meses para você vir. E ainda trouxe o senhor Capitão… está tudo bem, Haiako-chan?

-Sim, está tudo bem… Na verdade, Senhora Soichiro, é sobre isso que eu gostaria de conversar. — Haiako colocou seu copo sobre a mesa, e pigarreou, nervosa. Shunsui e a mulher olhavam para a mais jovem. — O tempo que passei com Izaya foi muito significativo para mim. Ele me fez perceber que… — Ela hesitou. — Que eu era alguém capaz de ser amada, e isso não era algo que eu acreditava antes.

A idosa sorriu, com os olhos marejados ao lembrar de quão intenso e amoroso seu filho era. Izaya sempre havia sido um rapaz que se apaixonava facilmente, apesar da personalidade esquentada e pavio curto. Shunsui, por sua vez, segurava a mão de Haiako sob o chabudai, ouvindo-a atentamente, e encorajando-a a continuar.

-Tenho certeza que ele ficaria muito feliz em ver a mulher linda e forte que você se tornou.

-Eu queria muito que ele estivesse aqui. Mas eu não fui capaz de salvá-lo e, por carregar essa culpa, eu me distanciei de todos que se importavam comigo.

-Haiako-chan, você precisa saber… eu não a culpo. Você fez o possível. Nós sabíamos, quando o pai do Izaya morreu, que esse era um caminho arriscado. O meu filho sabia disso, e mesmo assim ele escolheu usar seus dons para proteger os mais fracos.

-Ainda assim, Kiyomi. — Chamando-a pelo primeiro nome, Haiako fez com que a velha arregalasse os olhos. — Existe algo que escondi de você.

A mais jovem retirou de seus bolsos os dois colares que carregava consigo, e colocou sobre a mesa. Soichiro Kiyomi apertou os olhos com as mãos enrugadas, tentando confirmar que não estava vendo coisas.

-Isso é…?

-Antes de morrer, o Izaya me disse que queria me apresentar a você. Hoje eu sei que ele estava prestes a me pedir em casamento, antes que tudo acontecesse. Por isso, ele me deu isso… — Ela apontou para o colar mais novo, que era destinado a si. — E eu retirei esse de seu pescoço. — Agora, apontou para o relicário mais antigo. — Nunca parei para pensar no significado, mas sei que esse colar pertencia ao seu ex-marido. Hoje, abri ambos os relicários… — Conforme Haiako falava, ela colocava os colares lado a lado, e os abria com delicadeza. — E encontrei a frase.

-Dois corações viraram um só… Sim, eu me lembro bem disso. — Kiyomi sorriu, segurando as correntes em suas mãos, e passando os dedos de forma nostálgica sobre os elos. A visão daquelas duas peças fez com que ela revivesse os mais lindos e felizes momentos de sua vida.

-Quando eu li, soube na hora: o segundo colar era seu. Isso não pertence a mim… Isso pertence a você, Senhora Soichiro.

Shunsui permanecia em silêncio, respeitando a situação.

-Eu não vejo isso há tantos anos… Dei o meu de presente ao Izaya para quando ele conhecesse uma mulher especial. Achei que tinha se perdido.

Após um tempo de conversa, as duas mulheres se abraçaram, e a mais velha agradeceu a Haiako por ter devolvido algo tão valioso. Ela havia dito que, agora, sentia como se seu marido e filho estivessem consigo. Levantou-se do chão, com um pouco de dificuldade, segurando os colares juntos ao peito, e caminhou até o mitamaya, abrindo as pequenas portas acima do altar, revelando as fotos de Izaya e seu pai.

Ao posicionar os colares abaixo dos porta-retratos, Kiyomi se virou para Haiako e Shunsui. Eles se olhavam, enquanto seguravam as mãos e, vestidos com roupas semelhantes (sem as características que diferenciavam suas posições), e a idosa não podia deixar de lembrar da sensação de se estar frente a frente com alguém que ama mais e, mais especificamente, aquele amor jovem, recém florido.

-Eu sei porque você veio, Haiako-chan. — A senhora sorriu, e Haiako retribuiu, deixando Kyōraku com uma expressão confusa. — Que dádiva é poder… encontrar alguém especial nesse mundo. O meu filho ficaria mais que satisfeito… em vê-los felizes. E eu sou muito grata a você por ainda se fazer presente.

+

Após mais um tempo de conversa regada de chá, Shunsui passou a se sentir particularmente afetuoso por aquela senhorinha solitária. Também sentia uma curiosidade avassaladora: quem era, de fato, aquela mulher ao seu lado? Ele conhecia Haiako há tantos anos e, apenas recentemente, percebeu que não sabia muito sobre ela.

Ela estava agindo de forma carinhosa, mesmo após se despedirem de Soichiro Kiyomi e, agora, com o céu mostrando seus primeiros sinais do final de tarde, eles andavam lado a lado pelo mesmo caminho do qual vieram. Haiako, no entanto, estava com uma expressão diferente, mais serena, e segurava sua mão com os dedos entrelaçados. Ele observou a forma com a qual ela caminhava, seu tom de voz mais doce, e a respiração leve.

Ao caminharem, Haiako se abriu sobre o acontecido pela primeira vez com o homem.

-Acho que fiquei surpreso, apenas. Nós já nos conhecíamos naquela época, e você nunca agiu como se algo do tipo tivesse acontecido com você. Eu entendo que não éramos tão próximos, mas por que você nunca disse nada a sua amiga?

-Você já deve ter percebido que sou ótima em compartimentalizar, heh. — Haiako ficou séria, desviando o olhar do homem e focando no horizonte. — Eu quis protegê-la.

-De que? — Shunsui estava aproveitando a oportunidade rara de saber mais sobre aquela mulher que havia tanto a esconder.

-Da realidade. Kyōraku… — Ela interrompeu seu caminhar, e o homem se colocou à sua frente, com sua mão repousando sobre o cabo de sua Zanpakutō — O Soichiro era um homem forte e enérgico. Ele era da sua altura, você se lembra?

-Desculpa, eu não me lembro dele…

-Bem, mas é verdade. Ele era grande, e musculoso. Engraçado, também e, apesar de ser o completo oposto de mim, eu gostava de sua companhia. Gostava de lutar com ele, e dele não se sentia inferior por eu ser mais forte. Ele era muito confiante. — Enquanto falava, Haiako gesticulava com as mãos. Shunsui, então, se calou, deixando-a monologar, pois percebeu que aquele era um momento importante para a mulher. — E, quando ele morreu… tudo isso se foi. Ele estava magro, tinha perdido peso e até mesmo altura… Era apenas a casca do que um dia foi um homem. Suas bochechas estavam com sangue negro coagulado, assim como seu peito, completamente preto pela hemorragia interna. Eu fiz isso, Shunsui. Não o Hollow: eu. Ver um homem daquele tamanho se tornar nada… e saber que eu fiz isso com ele… — Haiako se interrompeu, quando viu que suas palavras começaram a ficar mais rápidas e emboladas, ao sentir aquelas lembranças negativas tomando conta de si. Após uma pausa, ela suspirou, fechou os olhos, e tornou a olhar para Shunsui, com mais calma. — Mas a Tsuki não se lembra dele assim. A mãe dele não se lembra dele assim. Então eu guardei tudo isso para mim. Me isolei. Na época, me pareceu a escolha certa e, com os anos, foi ficando mais difícil me reaproximar dela.

O homem olhou para o topo das árvores, e apreciou a vista das folhas secas caindo ao redor deles, ainda em silêncio. Ele sentia que aquele era o momento de ouvir e observar, não de falar.

Haiako, por sua vez, aguardava ansiosamente a resposta de Shunsui, com medo de que ele pudesse mudar de ideia com relação a ela. O ar gelado só aumentava a tensão que a mais jovem sentia, então, ela continuou a falar ininterruptamente, em uma tentativa de se aquecer com as próprias palavras, enquanto seus lábios tremiam e suas mãos seguravam o próprio corpo.

-Me desculpe por ter mantido esse segredo de você. Eu sei que posso confiar em você e sei o quão paciente você tem sido comigo. Eu sei como eu tenho sido difícil, e não o culpo se você quiser encerrar isso entre nós por completo. Mas eu estava com medo… de você me olhar de forma diferente.

-Mas eu estou olhando para você de forma diferente. — A morena se surpreendeu, abaixando a cabeça, desapontada. Então, Shunsui colocou a mão em seu queixo, levantando-o delicadamente para que ela pudesse olhar para ele. — É inevitável, não? Hoje eu presenciei uma versão sua que eu não conhecia. Vi você agir de uma forma inesperadamente maternal com aquelas crianças, como se fossem seus filhos. Pude presenciar seu carinho com aquela senhorinha, e tomar a responsabilidade de cuidar dela como sua. Eu já conhecia a sua versão forte e intimidante, mas poder ver você sendo carinhosa, engraçada e comprometida… me sinto honrado.

-Shunsui, não fale assim… Só vai fazer com que eu me sinta pior. — A mão do mais velho deslizou até a bochecha de Haiako, e ela a segurou em retribuição, sentindo o calor contra sua pele gelada.

-Haiako, você passou os últimos 100 anos se punindo. Você tomou como sua a responsabilidade de cuidar da mãe daquele rapaz e lidou sozinha com seu próprio luto.

-Então por que eu sinto que não é o suficiente? Por que eu sinto que mais 100 anos vão se passar e eu ainda vou me sentir…-

-Porque você é boa. Por mais que tente se convencer do contrário, requer bondade para se culpar dessa forma por uma situação que saiu do controle de todos. Então, sim, estou olhando para você de forma diferente. Não sabia que era possível sentir ainda mais admiração e fascínio por você.

-Eu não entendo como você pode ser tão bom para mim.

-Haiako-chan… eu tenho sido muito claro acerca das minhas intenções. Mas eu não posso continuar tentando te convencer de que isso… nós dois… vale a pena. Você precisa perceber sozinha. — A mulher, cabisbaixa, acenou. Ela sabia de suas próprias inseguranças, e algo a impedia de se entregar ao homem por completo, ainda que estar ao seu lado a fizesse feliz.

Kyōraku segurou Haiako em seus braços e ela, em silêncio, se aconchegou no calor do homem, espantando todo o frio que ela sentia. Ainda dentro daquele abraço, ela disse:

-Eu senti sua falta essa noite.

-Huh… — Ele riu. — Talvez não tenha sentido tanta falta. Eu fui até sua casa, mas não a encontrei. — Haiako olhou para o homem, e arqueou uma sobrancelha. Ela havia recebido a indireta.

-Sim, eu estava na Divisão 5, com o Capitão Aizen. Conversamos até o amanhecer. — Neste momento, ela sentiu que o melhor a se fazer era ser sincera. Ao menos, sobre parte da verdade.

-Ah… eu já imaginava. E imagino também que o Sōsuke saiba de tudo isso, certo?

-Sim, eu contei tudo a ele. — Shunsui não parecia satisfeito com a resposta, e fez uma expressão contrariada, franzindo as sobrancelhas. — Menos essa parte. — Haiako continuou, referindo-se à visita de ambos a Sakahone. — Essa parte de mim é íntima e secreta, e eu quis compartilhá-la apenas com você. Shunsui… eu quero ser verdadeiramente sua. — Aquela frase era, mais que tudo, um desejo: ser apenas dele, sem ter seus pensamentos poluídos por mais ninguém.

Com a resposta da mulher, ele sorriu suavemente. Queria beijá-la. Abraçá-la. Tê-la naquele lugar, naquele momento. Shunsui não era um homem possessivo, especialmente quando se tratava das mulheres em sua vida, mas algo nessa situação era fundamentalmente novo para ele.

Então, lentamente, segurando a cintura da mais nova, Shunsui a guiou até a parte de trás de uma das grandes árvores que delimitavam aquele caminho. Ele olhou para os lados, certificando-se de que o lugar continuava vazio, e curvou-se para beijar a morena.

-Shunsui! O que está fazendo?

-A culpa é sua… — Ele alternava suas palavras com beijos leves no pescoço de Haiako, enquanto deslizava as mãos grandes pela cintura, ancas e pernas da mulher. — Você não disse que queria ser minha?

-Shunsui, se alguém nos vir… — Ela dizia, em meio a risadas, enquanto tentava afastá-lo ao empurrar seus ombros, olhando para os lados.

-Então fica quietinha pra mim, vai? — O homem desceu ainda mais o caminho de seus beijos e mordidas leves, finalmente chegando no decote de seios fartos que tentou evitar durante todo o dia, percebendo que seus mamilos estavam eriçados pelo frio. Ao mesmo tempo, seu toque era grosso e forte, apertando a cintura e as pernas de Haiako como se a mulher fosse escapar pelos seus dedos. Ela, rendida por aquele toque, segurou com força as bochechas do mais velho, forçando-o a olhar para ela e beijar seus lábios intensamente.

Rapidamente, aquele momento foi se aquecendo mais e mais, e Shunsui, ainda pressionando a mais nova contra o tronco da árvore, a levantou, enlaçando suas coxas em sua cintura, e apalpando firmemente seus seios sobre o Shihakusō. A adrenalina da possibilidade de serem pegos tornou tudo ainda mais delicioso, e seus beijos longos e molhados eram disfarces para os gemidos que não podiam sair de suas bocas.

Em sua mente, Shunsui concluiu que, já que havia passado todo o dia se sentindo como um adolescente, ele poderia muito bem agir como um. Desamarrando o cordão que envolvia a faixa da cintura de Haiako, o homem fez com que suas roupas se afrouxassem levemente, apenas o suficiente para que ele expusesse os seus seios, e abaixou o hakama da morena até suas coxas, logo acima de seu joelho, sem que a removesse de seu colo. Olhou para aquelas pintinhas que ele adorava nos seios da mais jovem, e as beijou carinhosamente múltiplas vezes. Gostava de pensar que elas eram feitas exclusivamente para os lábios dele.

Parcialmente nua, suspensa pelos braços fortes do homem, apenas com seus seios e nádegas à mostra, a mulher olhava para os lados, nervosa. Caso alguém ali passasse, talvez não os veria, pelas grandes árvores que o escondiam. Ainda assim, temia que pudessem enxergar as vestes características de Kyōraku. No entanto, parte de seu nervosismo era inebriado pelos beijos quentes do homem, que deixavam-na sem ar. O que exatamente estava motivando todo aquele desejo?, ela pensou, deixando-se ser guiada pelo mais velho, como uma forma de saciar o próprio desejo acobertado.

Enquanto Shunsui pressionava sua cintura contra a mulher, sentiu-se tomado por uma vontade avassaladora de possuí-la, e nem mesmo ele conseguia parar suas próprias ações, apesar de também estar se repreendendo pela natureza imprudente daquela situação. Assim, usou uma de suas mãos para tapar a boca da morena, uma vez que já conhecia a forma nada discreta com a qual Haiako demonstrava seu prazer. Levou sua outra mão ao seu próprio hakama, abaixando-o e segurando o membro enrijecido, deslizando-o pela vulva úmida da mulher.

Sem poder falar, ela apenas revirou os olhos por aquela sensação arrepiante, e o homem sussurrou em seu ouvido, enquanto continuava a deslizar seu pênis pelos pequenos lábios e pelo clítoris da morena.

-Você quer? — Shunsui sentiu o líquido lubrificante que pingava da mulher escorrer pela sua mão, e ela apenas acenou, com os lábios fortemente selados. Então, em um movimento lento, como se quisesse sentir cada milímetro do interior apertado de Haiako, o homem se inseriu, enquanto mordia o trapézio da jovem, evitando, também, emitir qualquer som. Felizmente, ele havia acertado em tapar a boca da morena, pois, embaixo de sua mão grande, ela emitia gemidos longos e baixos, fora de seu controle.

Os movimentos se aceleraram, e os dois estavam tomados por um prazer que os transportou para um mundo totalmente diferente, apenas deles. Mesmo se alguém viesse a surgir, nenhum dos dois sequer notaria. Aquele silêncio forçado, os gemidos abafados pela pele um do outro, e o vaivém molhado enquanto Shunsui segurava firmemente as coxas da mulher, esquentaram seus corpos até o clímax, evidenciado pelas respirações pesadas e pela saliva que escorria de um beijo profundo.

Com as pernas trêmulas, o mais velho ainda segurava Haiako em seus braços, com as coxas grossas abraçando sua cintura. Então, ele repousou o queixo barbado sobre o ombro da mulher, e fechou os olhos, enquanto sentia o cheiro que exalava de seu pescoço.

-Fique comigo hoje…

-Você sabe que não posso. Eu preciso ir… — Ela respondeu, sussurrando, enquanto ofegava. Shunsui encostou sua testa na testa de Haiako, e acariciou suas bochechas.

-Quanto tempo vai demorar?

-Alguns dias… talvez semanas.

Os dois se separaram, ajeitando as roupas, enquanto continuavam atentos para não serem vistos.

-Semanas? É mais do que o tempo que temos juntos…

-Eu sei. Mas o Capitão Aizen-

-Sim, sim. Sempre o Capitão Aizen. Se eu não conhecesse bem o Sōsuke, diria que ele está tentando tirar você de mim.

Haiako, agora apropriadamente vestida, colocou ambas as mãos nas bochechas do homem, que precisou se abaixar um pouquinho para ela não ter de levantar tanto os braços.

-Sua, lembra? — Ele acenou. Acariciando-a e ajeitando seus cabelos, que estavam emaranhados por ter sido pressionada contra a árvore, ele suspirou. Queria dizer aquilo que estava em seu peito, lutando para encontrar o caminho entre seu coração e seus lábios. Será que deveria?

-Haiako… eu…

Ela o beijou, interrompendo suas próximas palavras.

-Me diga quando eu voltar. Assim, eu ficarei ainda mais ansiosa para voltar para você.

-Não tem jeito... já estou sentindo sua falta.

+

Na Divisão 5, reunidos sob um céu noturno, um grande número de Shinigamis, divididos em indivíduos, duplas, e até mesmo trios, preparavam-se para deixar a Soul Society. Após treinamento intenso, grande parte dele graças aos esforços de sua 3º Posto, a grande maioria se sentia pronto para encarar suas funções.

Katsuo Einosuke, o jovem alto de cabelos ondulados, estava de pé, sozinho, com os braços cruzados e olhos fixos no céu negro. Ele possuía incerteza em seu olhar, enquanto aguardava ansiosamente pela chegada de Kikuchi Haiako. Olhou para a asauchi embainhada em sua cintura, e lembrou-se das palavras de sua colega, a 7º Posto Hasegawa Mei.

Sob intenso treinamento, autoconhecimento e comunicação com o eu-interior, é possível que um Shinigami insira o próprio poder e alma na lâmina, tal qual uma impressão. No entanto, Katsuo parecia apreensivo: não só ele ainda não havia conseguido realizar tal feito como, agora, a imprevisível Hasegawa Mei havia se envolvido.

O interesse da garota não era, de forma altruísta, ajudar Katsuo. Na verdade, apesar de sua inteligência e habilidades, ela havia deixado de ser uma pessoa necessariamente prestativa, desde seu rebaixamento para o 7º Posto da Divisão 5, ocorrido com a transferência de Haiako. Por isso, sua intenção era pura e simplesmente provar-se poderosa o suficiente ao Capitão Aizen, de modo que não houvesse dúvidas acerca de quem merecia, verdadeiramente, ocupar o 3º assento no Esquadrão de Aizen Sōsuke.

-Katsuo-chan! — A loira de cabelos curtos e olhos grandes se aproximou, acompanhada de Aoyama Mitsuko, um jovem sarcástico e esperto de pele negra e sorriso brilhante. Os dois, amigos de longa data, cumprimentaram Einosuke, que sorriu para eles de maneira tímida. Eles possuíam um plano, que consideravam infalível, para transformar a asauchi do rapaz em uma Zanpakutō.

-Katsuo-kun, tenho uma fofoca fresquinha pra você. — Aoyama sussurrou, dando tapinhas nos ombros do mais alto, enquanto Hasegawa retribuía com risinhos.

-Galera, eu não tô com cabeça. Vocês conseguiram aquilo?

-Claro que sim. Quem cê acha que eu sou? — A loira respondeu. — Mas essa fofoca você vai querer ouvir. Adivinha quem foi vista de mãozinhas dadas com o Capitão Kyōraku em Rukongai hoje? — Katsuo deu de ombros. — Isso mesmo, a sua queridinha. Como se não bastasse enganar o Capitão Aizen, agora ela está atrás do capitão da Divisão 8.

Einosuke franziu as sobrancelhas. De fato, ele tinha uma grande admiração por Haiako, e gostava muito de participar de suas instruções. A última delas, em que se sentou frente a frente com a mulher, a sós, causou um burburinho em seu coração, algo que ele mesmo havia decidido ignorar. Em vez disso, sabia que a melhor forma de ser alguém digno de sua atenção, seria se tornar forte o suficiente para poder andar ao seu lado.

-Para, Hasegawa-san. O que é que ela fez pra você?

-Pra mim? Nada! Assim, nada além de ser uma farsa pretensiosa que sobrevive de favoritismo, enquanto o resto de nós é prejudicado, e você tá ocupadinho demais lambendo o chão que ela pisa pra entender que ela está pouco se lixando para qualquer um de nós. — Hasegawa se aproximava mais de Einosuke a cada palavra, demonstrando ressentimento.

-Caaalma, Mei-san! — Aoyama interrompeu. — Não é hora da gente brigar. Nossa missão agora é fazer o Katsuo-kun treinar bastante e conseguir alcançar a liberação da espada dele, né não?

-É. Porque vai ser eu quem vai te ajudar de verdade, Katsuo. — Ela respondeu, sem tirar os olhos de Einosuke, que engoliu a seco.

Antes que pudessem continuar a conversa, no amplo pátio de piso verde, passando por dentre os grupos de Shinigamis reunidos, Aizen Sōsuke e sua tenente, Hinamori Momo, caminhavam lado a lado. Ambos cumprimentavam seus subordinados de maneira calorosa, com seus sorrisos amplos e olhares acolhedores.

O capitão e sua companheira posicionaram-se em frente aos imensos portões de cor vermelha e detalhes dourados: o Senkaimon. Em ambos os lados dos portões, uma grande construção de tijolos amarelo-ocre formava arcos que delimitavam a área e, em cada lado destes mesmos portões, estava posicionado um membro da Kidō Corps, vestidos de um Shihakushō preto, e seus rostos e cabeças cobertas por um tecido de cor branca.

-Boa noite a todos. — Aizen iniciou, com um cumprimento geral, seguido de Hinamori, e foram retribuído com um “Boa noite” intenso e uníssono. — Primeiramente, eu gostaria de agradecê-los. Nas últimas semanas, vocês passaram por treinamentos e instruções exaustivas para que pudessem realizar a troca de guarda no Mundo dos Vivos. A todos vocês, o meu muito obrigado pelo esforço e trabalho duro. Vocês exercerão uma importante parte no equilíbrio dos nossos mundos, guiando e purificando as almas que encontrarem.

Enquanto Aizen direcionava suas palavras gentis aos seus subordinados, que o olhavam com os olhinhos brilhando, uma furtiva Kikuchi Haiako se aproximava vagarosamente, quase como quem tentasse fingir que estava ali desde o início. Então, posicionou-se ao lado direito de seu Capitão, enquanto Hinamori ocupava o lado esquerdo, e permaneceu com as mãos para trás.

A tenente, que havia percebido sua chegada de antemão, a ofereceu um sorriso aberto, acompanhado de um “Boa noite, Kikuchi-san” sussurrado. Haiako devolveu o sorriso, acenando para a sua superior.

-Agora… — O homem continuou. — A 3º Posto Kikuchi Haiako será responsável por acompanhá-los nos primeiros dias, monitorando suas atividades. Kikuchi-san, por favor, assuma daqui.

-Sim, Capitão Aizen. — Ao responder, o mais velho finalmente olhou para a mulher, surpreendendo-se com a escolha de vestimenta. O Shihakushō, a faixa tradicional, o cordão e a Zanpakutō ornavam perfeitamente entre si e, em sua opinião, uma aparência mais suave evidenciava aquilo que havia de mais belo na mulher. Suas bochechas estavam ruborizadas, e a respiração levemente alterada. Seus cabelos, longos e posicionados sobre seus ombros, possuíam pequenos nós, os quais ele conseguia notar apenas pela curta distância entre ambos. Existiam momentos, como esse, em que ele gostaria de não conhecê-la tão bem.

Aizen sorriu levemente para ela, enquanto estendeu a mão, solicitando que ela tomasse seu lugar. No entanto, a aparência serena da mulher deu lugar a uma posição rígida, e uma voz alta e dominante.

-Atenção, pessoal! Eu designei, pessoalmente, os seus locais e equipes, de acordo com as habilidades que vocês demonstraram nas últimas semanas. Junto a cada um de seus grupos, ao passarmos pelo Senkaimon, haverá uma Jigokuchō que os acompanhará à cidade sob sua responsabilidade. Até que eu chegue ao seu local designado, não o deixe sob qualquer hipótese, e atendam às solicitações de eliminação de Hollows em seus denreishinki. Eu desejo a todos vocês um excelente trabalho, tenho certeza de que vocês estão capacitados e prontos para nos dar orgulho! Eu perguntaria se vocês têm dúvidas, mas certamente todos prestaram bastante atenção, não é mesmo? Pois bem, vamos começar!

Quando Haiako encerrou suas recomendações e instruções, todos os presentes bradaram um “sim” em uníssono, colocando-se em posição de sentido. Os dois membros da Kidō Corps presentes iniciaram a cerimônia de abertura do Senkaimon e, quando este se abriu, toda a noite foi iluminada pela luz branca e intensa que saía pelos portões. Então, 15 borboletas infernais, representando os 15 grupos de Shinigamis presentes, surgiram em meio a luz, cada uma se direcionando ao seu grupo.

Pouco a pouco, cada equipe passou pelos portões. Alguns animados, outros hesitantes, mas todos passavam pelos três oficiais superiores e acenavam com grande respeito. Enquanto Haiako se preparava para atravessar os portões, foi interrompida por seu Capitão, que decidiu caminhar brevemente ao seu lado.

-Você mudou suas roupas. — Ele disse, fazendo com que a mulher olhasse para ele com surpresa e timidez e, após olhá-la de cima a baixo, continuou, de maneira sarcástica e sussurrada. — E vejo que você estava em algum exercício antes de chegar aqui.

-Sim. — Ela o devolveu, de maneira ríspida e apressada, antes que pudesse perceber o que estava respondendo. — Digo… Sim. Mudei minhas roupas.

-Mas não é só isso, não é mesmo? Algo mais mudou desde a nossa conversa. Algo que está fazendo com que você não me olhe nos olhos.

-Capitão Aizen… — Ela cessou seu caminhar, enquanto observava seus subordinados atravessando o Senkaimon, evitando a todo custo olhar para o capitão de óculos brilhantes ao seu lado. — Não sei do que está falando.

-Entendo. Pelo visto, o seu encontro com o Capitão Kyōraku em Sakahone trouxe certos… Resultados.

Ela respirou fundo. Ele estava a seguindo? Ou apenas observando? Ainda assim, o que mais ele sabia e, mais especificamente, o que ele tinha visto? A mulher cerrou os punhos e entesou o maxilar.

-Sim. Muita coisa precisa mudar. Eu preciso voltar a enxergar com clareza aquilo que está na minha frente. — Agora, sim, Haiako olhou para o homem, com uma expressão séria e determinada. Repentinamente, sua seriedade transformou-se em um falso sorriso. — Se não há mais nada a dizer, Capitão Aizen, peço permissão para me retirar.

O sorriso de Aizen, por sua vez, foi verdadeiro, enquanto assistia a silhueta da mulher se distanciar de si. Este sorriso, contudo, transformou-se em um olhar sério e repleto de ressentimento. Algo dentro de si, a cada passo que a morena dava para longe, se contorcia em incertezas. Esse não era um sentimento com o qual o homem estava acostumado.

O último grupo a atravessar o Senkaimon havia sido o de Einosuke. Quando Aoyama e Hasegawa passaram pelos imensos portões, envoltos pela luz brilhante que dividia os mundos, o jovem hesitou em dar seus próximos passos, e olhou para os próprios pés imóveis. Então, ouviu uma voz doce alcançar seus ouvidos.

-Einosuke… Em breve eu estarei com você. Nada de ruim irá acontecer, eu prometo. — Ao olhar para o lado, o rapaz enxergou Haiako, acompanhada de sua própria borboleta infernal. Ela o oferecia um olhar compassivo, e repousou suas mãos pequenas nos ombros do mais novo, com apertadinhas de encorajamento.

Então, mesmo ela desapareceu naquela luz ofuscante.

-Haiako-san… me desculpe. Você não pode me prometer isso. — Sozinho, ele sussurrou para si.

Haiako não sabia que Einosuke havia feito suas próprias promessas.

+

*Nota: Em Thousand Year Blood War, é mostrado o passado de Ukitake em Sakahone, e sua rotina com Kyōraku. É um dos episódios mais lindos do arco novo, e muito emocionante! É por esse caminho, o qual foi mostrado no episódio, que Haiako e Shunsui caminharam.

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Notas finais
Muito obrigada pela leitura! No próximo episódio, teremos a volta de Haiako para o Mundo dos Vivos, mas iremos focar boa parte da leitura na perspectiva de Katsuo Einosuke. Será mesmo que tudo ficará bem?