Oblivion

13 Awakening.


Notas iniciais
Estamos de voltaaaaa!! Que saudade <3 O capítulo de hoje está bem longo e com detalhes, então, sem mais delongas, tenham uma ótima leitura.

I should’ve known

I’d leave alone

Just goes to show

That the blood you bleed

Is just the blood you owe

No Time To Die — Billie Eilish

+

Katsuo Einosuke era um rapaz doce.

Não particularmente ambicioso, a não ser pela sua vontade de ajudar ao próximo, ele decidiu se tornar um Shinigami unicamente por não suportar presenciar as injustiças no Mundo das Almas. Afinal, a pós-vida não era, necessariamente, o paraíso: com um número crescente de almas, e um número de Shinigamis que não se mostrava o suficiente para patrulhar toda Rukongai, a fome e pobreza eram problemas que assolavam não só os vivos mas, também, os mortos.

Crescer em um dos distritos pobres de Rukongai trouxe, dentre outras coisas, um importante senso de justiça. Ao assistir sua família e amigos sofrerem com a falta de recursos por possuírem reiryoku, Katsuo decidiu ser parte da mudança. Ao menos, sentia-se grato por possuir pais e uma irmã que o amavam: a maioria das almas não possuía tal luxo.

Seus anos na Academia Shin’o não haviam sido pacíficos: sua ausência de casa neste período encorajou desordeiros a invadirem a residência de sua família em busca de recursos — e, também, pela gratificação em causar sofrimento. Como resultado, sua irmã mais nova e melhor amiga, uma jovem promissora e de futuro brilhante, faleceu, ao tentar proteger os próprios pais dos abusos daqueles homens.

Os detalhes da vida de Katsuo eram desconhecidos por todos, que o descreviam apenas como um jovem gentil, prestativo e sentimental. Ele sabia não ser o mais forte, ou mais habilidoso, mas possuía algo que o tornava extremamente popular entre seus colegas: um coração de ouro e uma coragem, muitas vezes, estúpida.

Formou-se com sucesso, mas não o suficiente para ganhar um posto de destaque. No exame de aplicação, no qual os formandos expressam o esquadrão de seu interesse, Katsuo já tinha certeza da única opção possível para ele: poucas aulas de caligrafia com o renomado e prestativo Capitão Aizen o fizeram crer que existiam, mesmo que poucos, Shinigamis compromissados com a justiça, a bondade, e o progresso.

As aulas de Aizen viviam abarrotadas, especialmente de mulheres, mesmo que não trouxessem nenhum benefício direto à batalha. Os estudantes apenas gostavam de sua personalidade, e o homem acreditava que uma boa caligrafia era determinante para construir um senso de ordem e organização. A caligrafia, no entanto, não era o único tema trazido por Aizen nas salas de aula. Ele aproveitava, ainda, para construir uma relação de confiança com todos os alunos, ajudando-os em quaisquer outras disciplinas necessárias.

Katsuo também fazia parte, ainda que de maneira secreta, daqueles que achavam o capitão muito bonito. Portanto, quando recebeu a notícia de que sua aplicação à Divisão dos Lírios-do-campo havia sido aprovada pelo próprio Capitão Aizen, quis dar pulinhos de alegria. Claro, ele também possuía uma quedinha pela Tenente Hinamori e seu coração puro. Katsuo apaixonava-se facilmente por qualquer um que lhe oferecesse um sorriso sincero.

Quando estava prestes a completar quinze anos como Shinigami, o 5º Esquadrão havia recebido uma oficial de transferência da Divisão 1. Até então, sua preocupação nunca havia sido em aumentar seu poder, e até mesmo pediu ao Capitão Aizen que o designasse, em parte do seu tempo, aos territórios de agricultura controlados pela Seireitei em diversos pontos de Rukongai. Queria, afinal, auxiliar na distribuição de recursos para aqueles que realmente precisavam. Ainda assim, sentia-se impotente ao ver que nada, de fato, mudava com as suas ações.

Contudo, quando essa oficial em particular se juntou a Divisão 5, ele começou a ver o mundo de outra maneira. Kikuchi Haiako assumiu a posição de 3º Posto, após um pedido do Capitão Aizen. Isso, somente, era o suficiente para despertar curiosidade em qualquer um acerca daquela mulher. Além disso, ela passou a intensificar as instruções de Zanjutsu e Kidō e, por resultado de suas aulas, um número crescente de Shinigamis do esquadrão adquiriu a liberação da Zanpakutō.

“Nós lutamos, acima de tudo, para proteger. Nos tornamos mais fortes para aqueles, que não o podem fazer, não sofram com o que há de pior nesse mundo. Essa é a nossa missão”. Foi a primeira lição da mulher.

Pouco a pouco, Katsuo se interessou pelo conceito de servir e proteger. Também encontrava formas de estar com Haiako a sós, e sentia-se ansioso para as instruções no início de todos os dias. Ele, que não era ambicioso, sentiu o inédito sentimento de querer ser mais, fazer mais. De lutar.

Quando ele atravessou o Senkaimon, se deparou com uma Cidade de Naruki adormecida. A borboleta infernal que acompanhava sua equipe desapareceu em meio a noite, atraída pela luz do luar, deixando-os sozinhos frente a sua missão. Agora, motivado a se tornar alguém digno de andar lado a lado de seus superiores, os quais, em sua opinião, eram aqueles que verdadeiramente tinham o poder de mudar a configuração da sociedade; Katsuo aceitou a ajuda das pessoas que ele nunca imaginou precisar.

Aoyama Mitsuko e Hasegawa Mei eram melhores amigos desde suas infâncias. Apesar de não serem pessoas ruins, eles agiam, frequentemente, de maneira maliciosa. Katsuo sempre se perguntou como duas pessoas tão fofoqueiras poderiam fazer parte da equipe de um capitão tão bondoso e com tanto respeito ao próximo.

Mas, de fato, eles não eram ruins. Só peculiares.

Hasegawa, no entanto, não possuía os sentimentos de admiração que ele tinha por Kikuchi Haiako. Mas o rapaz não a culpava: certamente não deveria ter sido fácil ser rebaixada para dar lugar a alguém que, inicialmente, ela já não era muito fã. Até onde ele tinha entendido, aquele que ocupa o 3º Posto do 1º Esquadrão preside as reuniões mensais entre os demais ocupantes do mesmo cargo. Por isso, Hasegawa já conhecia Haiako de tais reuniões, e já a tratava com certa hostilidade. Afinal, por que alguém na exata mesma posição que ela era tratada com tanta superioridade?

Desnecessário dizer que a transferência de Haiako havia apenas aumentado essa hostilidade. De 3º Posto, para 7º, a desconfiança e hostilidade se transformaram em ódio. Por isso, quando Katsuo se deparou com as dificuldades em atingir a liberação de sua espada, Hasegawa agarrou a oportunidade de se mostrar mais capaz que sua rival — ainda que fosse uma rivalidade unilateral.

-Aqui estamos. — A loira quebrou o silêncio, enquanto a cidade repousava sob seus pés.

-Sim, sim. Tem alguma solicitação no denreishinki? — Aoyama respondeu.

-Não, ainda não. A Cidade de Naruki não tem ocorrências sérias de Hollows há muitos anos. — Então, Hasegawa olhou para Katsuo. — É por isso que cê tá aqui, lindinho. A Haiako te mandou pra cá justamente por você ainda ser meio fraquinho. Como ela espera que você fique mais forte assim?

-Ela certamente teve seus motivos, Mei-san.

-Tsc. E, ainda assim, sou eu quem quase se ferrou na Pesquisa e Desenvolvimento para te ajudar.

-Ah! Deixa eu ver? — Disse Aoyama.

-Sim, tá aqui, olha. — A loira colocou a mão em um de seus bolsos, e retirou um pequeno objeto, semelhante a um comprimido branco, o qual segurava entre o polegar e o indicador. — Você sabe o que é isso, Katsuo-chan?

O rapaz balançou a cabeça para os lados.

-Isso é uma isca para Hollows. Originalmente, era usada por quincies, sabia? Digo, antes da gente limpar a terra da raça deles, heh. O Capitão Kurotsuchi produz algumas dessas para sei-lá-qual-motivo, e a minha amiga na Divisão 12 me deixou entrar escondido para pegar. Agora você entendeu, né?

-A partir do momento que usarmos isso — Aoyama continuou. -, vamos atrair um número grande de Hollows para a nossa localização. Para não afetarmos os vivos, é importante que a gente permaneça no céu, e aja rápido, ou se afaste o suficiente da cidade. Só que a gente está proibido de sair daqui até a Kikuchi-san vir nos monitorar, então lutar no céu é a única opção.

-E isso não vai ser perigoso? — Katsuo perguntou.

-Claro que vai, bobinho. Esse é o ponto. Mas fica tranquilo, o Mitsuko e eu não vamos te deixar morrer.

-Mei-san, eu não estou vendo como isso vai me ajudar a conquistar a Shikai. Eu não quero acabar machucando ninguém.

Ela revirou os olhos.

-É muito simples: uma Zanpakutō é, de uma forma banal, a alma do Shinigami impressa na Asauchi com tanta intensidade, que a espada cria uma alma própria, e compartilha o seu poder. Mas você escolheu dar uma de fazendeiro pelos últimos quase vinte anos, e não se comunicou com a sua espada. Lutando por tempo e intensidade o suficiente, vocês vão se comunicar melhor.

O rapaz, convencido do plano de sua superior, acenou.

-Tudo bem, estou pronto.

-Sim, sim. Lá vamos nós. — A loira apertou seus dedos com pressão o suficiente para que o pequeno comprimido se quebrasse entre eles.

Dentro de si, Katsuo se lembrou das últimas palavras de Haiako, e a melancolia que sentiu ao ouvi-las. Estava se sentindo péssimo por agir em suas costas, mas queria ser forte, digno.

“Kikuchi-san… Você vai sentir muito orgulho de mim. Eu prometo."

+

Haiako caminhava sozinha pelo céu noturno, utilizando uma base de reiatsu sobre seus pés. Ela já havia visitado alguns dos quinze grupos designados ao Mundo dos Vivos, e os orientou em algumas poucas aparições Hollow. A noite, apesar disso, era calma, e ela não precisou se envolver em nenhuma luta, uma vez que elas se encerraram brevemente e sem vítimas ou perdas. Ainda que a parcela inicial de seu trabalho no Mundo dos Vivos estivesse fluindo rapidamente, ela havia decidido estender sua estadia por mais alguns dias.

Enquanto vagava pelo ar sem destino, com o vento frio movimentando seus cabelos e roupas com velocidade, ela pensava em Shunsui. O sorriso do homem a trazia paz, calmaria. Quando Haiako se via abraçada pelo mais velho, não sentia que seus medos e preocupações iam embora, mas sentia que, finalmente, o peso delas ficava mais leve. Como se compartilhar com ele aquilo que a afligia tornasse tudo menos amargo.

Antes de se despedirem, o homem havia demonstrado desejo em falar algo para a mais nova. Ele parecia pronto para dizer as palavras que ela já sabia quais eram, mas será que Haiako pronta para ouvi-las? Talvez sentia medo, pois ao ouvir aquelas temidas palavras, tudo tornaria-se… real.

A parte de si que Haiako havia compartilhado em Sakahone era extremamente íntima. O carinho que ela depositava em Soichiro Kiyomi, a mãe idosa de seu falecido amigo, demonstrava que, abaixo de uma fachada distante e rígida, encontrava-se uma mulher com o desejo de cuidar e de ser cuidada, de reparar os próprios erros, assumir responsabilidade pela própria negligência, e de ser perdoada. Observar Kyōraku com aquelas crianças certamente tinha suavizado seu coração, e ela, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se confortável em mostrar um lado vulnerável de si.

Contudo, uma voz em seu interior insistia em sabotar todo e quaisquer sentimentos de calmaria: frequentemente em sua vida, e agora mais que nunca, Haiako sentia que cada sensação boa não lhe era merecida. Que a qualquer momento, algo terrível aconteceria, ou algum aspecto de seu passado seria suficiente para afastar a bondade de Shunsui.

Por isso, amor era algo… amedrontador. Amá-lo significava que ela teria muito mais a perder.

Não era como se ela não adorasse ter a atenção exclusiva do Capitão Kyōraku, que geralmente era tão disperso com suas investidas em mulheres. Também não era como se ela não tivesse fortes sentimentos por ele. Mas Haiako sentia-se uma fraude: apaixonada por um homem, sem conseguir se esquecer de outro.

Seria certo permanecer com Shunsui dessa forma? Ou seria estupidez desistir de alguém que a fazia tão bem simplesmente por não ter superado outro alguém tão incerto e inconstante?

-Sinceramente, Haiako… — Ela se repreendeu. — Por que você não pode facilitar sua própria vida?

Os olhos e lábios de Aizen Sōsuke eram moradores frequentes de sua mente. Invadiam qualquer linha de raciocínio, qualquer tentativa de enxergar claramente o caminho à sua frente. Por um bom tempo, não foi assim: ela pôde viver uma vida sem a intromissão de seu antigo parceiro. Mas, agora, via-se impossibilitada de escapar do homem. Para piorar, ele parecia causar um efeito completamente inebriante na morena: as dúvidas, questionamentos, ou mesmo as certezas que ela possuía, sumiam na presença de Aizen.

Ao passo que Kyōraku tirava o peso de seus problemas, e a fazia se sentir acolhida; quando estava frente a frente com Aizen, estes mesmos problemas desapareciam por completo. Só havia ele, e todo o resto do mundo se tornava inexistente. Ela nunca pensou que voltaria a se sentir dessa forma e, por isso, sentia-se como uma viciada em recaída.

Precisava ficar só, se ver longe das influências que turvavam seus pensamentos. As coisas que estavam acontecendo consigo requeriam sua atenção indivisível e, por isso, havia decidido permanecer por algumas semanas no Mundo dos Vivos. Ela sabia que sentiria falta de Shunsui, mas…

-Eu preciso fazer algo sobre essa situação. — Ainda pairando pelos céus, ela conversava consigo mesma. Haiako não era uma mulher ingênua, e ela sabia que, caso não colocasse um fim em toda a indefinição de sua relação com Aizen, alguém acabaria se machucando. E, se suas suspeitas estivessem certas, o amor de Shunsui, ou o seu próprio, tornaria tudo mais difícil.

A origem dessa pesarosa conexão, a qual transcendia tempo e espaço, sempre foi curiosa para ela. Ainda que não admitisse, a mulher se perguntava frequentemente por qual razão havia sido Aizen quem a encontrara naquele campo de crisântemos vermelhos, e o porquê daquele jovem tê-la acolhido tão prontamente. Seria toda aquela atração e conexão… unilateral? O jovem, agora um homem, continuava agindo de maneira misteriosa, e era como se apenas Haiako pudesse sentir que havia algo secreto sob aquele olhar gentil e sorriso doce. Esse Aizen, o Capitão Aizen, o líder brilhante e caloroso… não era quem ela conhecia. Será mesmo que ela o conhecia?

Ainda assim, esse mesmo olhar era como um ímã para ela. Isso não havia mudado. E as memórias de seu toque, agora eram mais vívidas que nunca.

-Todos aqueles anos juntos jogados fora, toda aquela dor, e para quê? Sinceramente… Sōsuke. O que você está fazendo? — Com um riso suspirado, ela continuou. — Amigos? Hah, que piada.

Quando deu por si, seu coração a ordenou que parasse repentinamente, e todo o seu corpo congelou.

Ela olhou, então, para uma Kyoto acesa abaixo de seus pés. A noite, já profunda, não impedia a cidade de estar acordada e viva. Ainda assim, em meio a tantas lembranças, ela pensou o quanto aquelas luzes coloridas pareciam tão… mortas. Haiako suspirou vagarosamente, soltando todo o ar pelos seus lábios: na última vez em que se encontrou sobre essa cidade, observando seu movimento e analisando seus próximos passos, o resultado havia trazido cicatrizes emocionais eternas.

Kyoto era a memória viva e imponente de sua incompetência.

À sua frente, ela enxergou o Monte Hiei, onde a cidade acabava, e seus pinheiros frondosos. Toda a floresta estava linda, cheia e escura e, mais de 100 anos depois, já não havia quaisquer sinais físicos ou espirituais de destruição e morte. O Mundo dos Vivos já não mais abrigava coisa qualquer que justificasse toda aquela dor e arrependimento.

Haiako refletiu sobre o quão rápido o tempo passava neste mundo. Em 100 anos, um humano nasce, cresce, gera seus filhos, e morre. Uma vida inteira acontece dentro deste período de tempo que, para os Shinigamis, era tão breve. Então, ela pensou: se sua vida fosse reduzida aos últimos 100 anos, ela não se sentiria orgulhosa da forma que viveu.

A morena balançou a cabeça de maneira lenta, desaprovando os próprios sentimentos. O que passou, passou: não havia como consertar os erros do passado, mas ela sabia que existiam pessoas em seu presente com as quais ela precisava se redimir. Ainda assim… era tudo muito curioso.

Agora, longe da Soul Society, e sozinha com o próprio passado, ela pôde pensar com clareza. Com as sobrancelhas franzidas, e os braços cruzados, lembrou-se do quão íntima Tsuki parecia de Aizen, e como ela descreveu que o homem a enviara uma carta, preocupado.

Haiako posicionou o polegar entre os dentes. Por que Aizen a escreveu? Ou melhor, como ele sabia sobre a Tsuki? De uma coisa ela tinha certeza absoluta: nunca conversou com uma alma sequer acerca do que havia acontecido com Soichiro e Saito, a não ser com a própria mãe do rapaz — alguém que ela também não revelava a ninguém que conhecia.

Lembrou-se, ainda, das palavras de Aizen em seu primeiro dia na Divisão 5, quando ele, arrogantemente, invadiu sua casa. O homem disse que sua transferência era o primeiro passo de… algo. Ele não disse o que, exatamente, mas mencionou que, em breve, ela entenderia suas motivações.

A mulher poderia, e queria, sentir raiva. Há pouco tempo, o fato de sentir-se manipulada como uma marionete daquele homem seria o suficiente para fazer seu sangue ferver. Mas, agora, esse não era o caso. Em vez disso, preocupação e melancolia atingiam seu peito.

“O dano foi permanente?”

“Ninguém vive o que vivemos e sai intacto, Minha Flor. Nem você… nem mesmo eu.”

“Uma vida vivida em mentiras não é uma vida feliz.”

Aquela voz inconfundível ecoava em sua mente com frases que o mais velho havia dito nos últimos dias, arrepiando-lhe os pelos da nuca. Haiako apertou os olhos com as mãos, disfarçando uma dor de cabeça que a assolava. Por que agora? "Sōsuke… o que você está escondendo?”, a morena pensava.

Fato era que, longe do homem, seus pensamentos eram muito mais claros, e ela notou o quão abarrotada de dúvidas e mágoas estava. Decididamente, estava certa em querer manter distância da Soul Society, ainda que por pouco tempo. Então, a morena olhou para a lua crescente em sua frente, que já se abaixava, indicando o passar das horas na madrugada. Aquela lua brilhante iluminou a única solução que Haiako podia enxergar.

-Tenho que me afastar dele. Não é saudável ou sustentável que eu fique assim… Eu tenho que… sair da Divisão 5. — As próprias palavras trouxeram um aperto em seu peito, o suficiente para que ela passasse a mão firme sobre o coração acelerado. Era doloroso admitir mas, se ela quisesse um futuro com Shunsui, precisava esquecer seu passado.

Quem ela havia sido não precisava definir quem ela seria.

Antes que pudesse continuar seus pensamentos, o dispositivo em seu bolso vibrou incessantemente. O denreishinki, utilizado pelos Shinigamis para receber as ordens acerca de seus próximos alvos, receber ordens da Soul Society, e até mesmo para comunicarem-se uns com os outros, brilhava repetidas vezes.

Ela esfregou os olhos, ao abrir o dispositivo, certificando-se de que não estava delirando. Cada ponto brilhante que aparecia em sua tela representava o surgimento de um Hollow e, ao contar… dezenas, não… quase centenas de Hollows aparecendo ininterruptamente no mesmo lugar. Aquela era…

-Cidade de Naruki… Espera… Naruki?! Einosuke!

+

Kidōs destrutivos e espadas brilhantes acendiam o céu da Cidade de Naruki. Os três jovens Shinigamis alternavam-se em posição para defenderem-se e atacar os numerosos inimigos que surgiam, atraídos pela pílula de energia espiritual adensada. Os HadōsShakkahō e Sōkatsui emanavam luzes explosivas azuis e vermelhas, ao saírem das mãos de Hasegawa e Aoyama, enquanto Einosuke possuía a instrução de utilizar apenas a própria espada para lutar.

-Que merda, Mei! Eu não sabia que seriam tantos! — Aoyama bradou para Hasegawa, enquanto golpeava os monstros que surgiam incessantemente ao seu redor. O nível de seus inimigos não era elevado, e o rapaz conseguia eliminá-los sem grandes dificuldades. No entanto, a quantidade com a qual eles surgiam estava se mostrando exaustiva, mesmo com suas habilidades em Zanjutsu e Kidō, pois ao utilizar os feitiços e encantamentos a base de reiryoku, um forte cansaço espiritual o atingia.

-Hasegawa-san, me ajuda! Eles estão em descida para a cidade! — Agora, foi a vez de Katsuo gritar, em um tom desesperado. Suas mãos estavam trêmulas e ardentes, uma vez que havia pouca experiência com combate real, e ele conseguia sentir o cabo de sua espada criando calos e feridas na palma de suas mãos. Ainda assim, não possuía quaisquer sinais de comunicação com a alma dela.

Enquanto Katsuo, com maior dificuldade e menor velocidade que os outros dois, eliminava os Hollows no céu da Cidade de Naruki, ele observava dezenas deles evitarem-no por completo, e se direcionarem para os prédios abaixo de seus pés. Talvez, por estar tão nervoso e apreensivo por ter concordado com uma estratégia tão estúpida, a verdadeira razão pela qual eles decidiram ir adiante ficou em último plano.

Hasegawa Mei, por sua vez, estava inesperadamente em silêncio. Corte após corte, ela percebia o quão ingênua havia sido. Não importava quantos monstros eles eliminassem: outros surgiam em seu lugar, e a profundidade da noite reduzia a visibilidade, fazendo com que eles precisassem se concentrar na luta de reiatsus, algo que pode ser ainda mais exaustivo que o combate físico. Com a sobrancelha franzida e o corpo tenso, a loira pensou consigo mesma no inevitável: "A Haiako deve chegar nessa merda a qualquer momento, e eu tô fodida”. Importando-se pouco com o bem-estar de seu companheiro, ou com a segurança de Katsuo, que estava passando por claras dificuldades, ela pensava apenas em como o Capitão Aizen reagiria quando descobrisse o risco em que ela colocou todos. Sua espinha gelou com o medo de encarar seu olhar desapontado, e mais uma possível demoção.

Não o suficiente: agora, todos os três podiam escutar sons aterrorizados vindos da cidade, fossem de almas sendo consumidas, ou de humanos confusos pela destruição causada por entidades invisíveis.

-Caramba, Mei! Fala alguma coisa, dá alguma orientação! Você é a oficial de maior patente! — Aoyama, ainda segurando sua Zanpakutō, deu alguns passos para trás, até encostar suas costas nas costas de Hasegawa, que olhava para o lado oposto em posição de guarda, congelada por seus pensamentos. A grande maioria dos Hollows não eram inteligentes, e comunicavam-se apenas com rugidos ensurdecedores, os quais a desnorteavam.

Com o cansaço, os três começaram a mostrar mais aberturas, e ficavam mais vulneráveis aos ataques violentos e impensados daqueles seres. Golpe atrás de golpe, a defesa de Einosuke estava precária. Assim como Mei, ele também pensava no olhar desapontado de seus superiores, e se sentiu tomado por um sentimento de impotência, ao perceber que haviam colocado vidas humanas em risco. Quando o jovem voltou o rosto para seus colegas, preocupado com a falta de reação de Hasegawa, sentiu um forte impacto abaixo de sua costela, na cintura, atingido pelos punhos cerrados de um Hollow descontrolado.

Ao olhar para baixo, visualizou o sangue escorrendo por seu corpo e o buraco negro onde previamente estava seu Shihakushō e sua carne. Colocou a mão sobre o ferimento, assistindo-a encher de sangue, e ficou deslumbrado com o vermelho vivo que saía de si. Inicialmente, não sentiu dor, e seus olhos arregalados transpareciam o choque de alguém ferido gravemente pela primeira vez. Então, pouco a pouco, uma dor aguda subiu por todo o lado esquerdo de seu corpo, até que um gosto metálico tomasse conta de sua língua. Como único recurso, diante da seriedade de seu ferimento, Einosuke gritou, chamando a atenção de Aoyama e Hasegawa. O jovem, então, se ajoelhou, e pôde sentir a base de energia espiritual sob os próprios joelhos se desfazendo. A qualquer momento, ele despencaria dos céus.

-Katsuo-kun! — Aoyama, ao perceber a situação em que Einosuke se encontrava, utilizou de seu Shunpo para alcançá-lo, eliminando o Hollow que o atingira com dois cortes diagonais em direções opostas. — Segure firme! — Ele clamou, envolvendo o braço do jovem sobre seus ombros.

O mais velho, enquanto sustentava o peso de Katsuo sobre si de forma simultânea com Kidōs que objetivavam distanciar os inimigos de si, preocupava-se também com a segurança de sua amiga. Evidentemente, ela não estava psicologicamente preparada para o que se propôs a fazer, e os olhos arregalados e posição enrijecida da loira frente aos inimigos mostravam que ela estava sem saída.

Um a um, Mitsuko percebeu os Hollows se aproximando de Mei, preparando-se para atacá-la. Com uma de suas mãos ocupadas servindo de apoio para Katsuo, que possuía metade de sua cintura brutalmente arrancada, e estava perdendo a consciência; e a outra mão defendendo-se de ataques com sua Zanpakutō, ele não conseguiria ajudar a garota sem, antes, sacrificar a própria segurança, ou até mesmo a vida do jovem em seus braços.

-Vamos, Mei! Acorda, porra! — Ele gritou, mas não surtiu efeitos. Hasegawa Mei segurava sua espada na mesma posição ininterrupta, com os olhos fixos no monstro de pele verde e máscara branca sorridente que se aproximava de si. Ele levantou seus braços, com os grandes punhos cerrados, em um movimento carregado de força, pronto para esmagá-la como um inseto. As suas pupilas pareciam pequenos pontos em meio aos olhos grandes e azuis e, naquele momento, ela sabia: a última coisa que ouviria seria seus amigos clamando por sua ajuda.

E então, tudo escureceu.

Com os olhos cerrados, aguardando a pancada do monstro que a enfrentava, Mei sentiu… nada. Ela não sentiu nada. Abriu novamente seus olhos, retomando seus sentidos e encarando as mãos, certificando-se de que ainda estava viva. Em sua frente, o Hollow se dissolvia ao ar, revelando uma mulher de cabelos volumosos e acobreados que se moviam com o vento, segurando sua espada horizontalmente, com o braço direito hiperestendido. Haiako finalmente os alcançara.

Ao abaixar sua espada e esticar o braço esquerdo, com a palma da mão para fora, a mulher proclamou, sem desviar o olhar penetrante da mais nova:

-Hadō número 33, Sōkatsui! — Hasegawa Mei não acreditou no que estava diante de si. Sōkatsui era um Kidō destrutivo básico, mas ela nunca havia presenciado aquele tipo de poder. Todo o céu se acendeu em um azul claro vibrante, conforme as chamas azuis eram liberadas da palma da mais velha. Mesmo as nuvens, antes praticamente invisíveis no céu escuro, brilhavam ao refletir o ataque da mulher, e a energia liberada forçou a Shinigami loira a fechar os olhos e proteger o próprio rosto com o antebraço.

Dezenas de Hollows estavam posicionados na ampla linha de fogo e, um por um, ao serem atingidos, seus corpos desapareciam.

Haiako, com suas sobrancelhas franzidas e os lábios crispados, olhava para Mei com forte desaprovação, balançando a cabeça negativamente, mas não expressou palavras de descontentamento. Em vez disso, avaliou a situação ao seu redor e, prontamente, deixou a loira sozinha, direcionando seu Shunpo a Mitsuko e Katsuo. Quando conseguiu avaliar a situação de Katsuo, colocou sua mão livre sobre a própria testa.

O rapaz, à beira de ficar inconsciente, a olhava com tristeza e arrependimento evidentes. Enquanto seus lábios derramavam sangue escuro, Aoyama o segurava com firmeza, garantindo que ele não sucumbisse. “Sinto muito, Einosuke…”, ela pensou consigo, enquanto se responsabilizava mentalmente pelo estado do jovem.

-Aoyama, qual sua experiência em Kaidō? — De uma maneira militarizada, ela assumiu o controle.

-Pouca, Kikuchi-san! Mas sei fazer o básico.

-O surgimento de Hollows está limitado a um raio de um quilômetro. Saia desta área e prepare os cuidados iniciais de Einosuke. Eu irei cuidar do resto e em poucos minutos os encontrarei.

-Sim, senhora!

-Aoyama. — Antes que o homem pudesse se retirar, Haiako o chamou, apontando o dedo indicador para ele em um tom cauteloso. — Estou contando com você. Ajude-o. — Agora, inspirado e determinado, Mitsuko poderia se concentrar apenas em Katsuo, e realizar o necessário para estabilizar sua condição. Prontamente, colocando todo o corpo do mais jovem sobre os ombros, segurando suas pernas e pescoço com ambos os braços, ele se retirou.

-Eu irei ajudá-los. — Após recuperar o controle do próprio corpo e, em uma tentativa de escapar da punição que certamente estava chegando, Hasegawa tentou se retirar mas, antes que pudesse, de fato, sair, ela sentiu o próprio braço ser envolvido pela mão da mais velha, impedindo-a.

-Você vai ficar e eliminar os Hollows que sobraram.

-Kikuchi-san, eu acho que vou ser mais útil…

-Não me importa o que você acha, criança! — Agora, aumentando o tom de voz e chamando-a de maneira pejorativa, Haiako demonstrou um lado que a mais jovem não conhecia, e gostaria de não ter conhecido. Conforme ela falava, sua voz ficava mais alta a cada palavra, até que ela passasse a gritar com a loira, e mesmo Mitsuko, agora já distante com Katsuo em seus braços, ainda podia ouvir aqueles gritos como trovões no céu. — A situação que eu encontrei aqui é revoltante! Uma oficial com a sua experiência congelada em frente a Hollows de baixa classe, enquanto seus subordinados pediam por sua ajuda! Eu estou envergonhada.

-Eu sei…

-E não vamos mencionar o porquê do surgimento de tantos Hollows no mesmo lugar em uma cidade que não apresenta ocorrências há mais de quinze anos. — Desta vez, Haiako sussurrava entre os dentes, com os punhos cerrados. Em resposta, Hasegawa apenas abaixou sua cabeça, pois não conseguiu reunir coragem para assumir a culpa de toda a situação. Então, a mais velha suspirou e fechou os olhos, regulando a própria raiva, mas ao olhar para a loira, ela enxergou apenas uma jovem assustada e despreparada, sentimento o qual ela conhecia bem. — Mei…

-Sim, senhora?

-Desça e me ajude a limpar essa bagunça. Agora.

-Sim, senhora.

+

Após um tempo, os Hollows pararam de surgir, e restavam apenas aqueles que conseguiram escapar e, agora, estavam livres pelas ruas de Naruki. Um a um, Haiako os localizava, eliminando-os sem esforços, alguns por meio de sua espada, de forma furtiva e rápida, e outros pela simples liberação de sua reiatsu. Ao terminar, pôde encontrar, ainda, almas nas quais performou o ritual de Konsō, e sua mente se distraiu momentaneamente das próprias inseguranças.

No entanto, enquanto a mulher posicionava sua Zanpakutō de volta a sua bainha azul-índigo, decorada com o sageo trançado fúcsia, sua momentânea calmaria foi interrompida pelas reiatsu de Hasegawa, Aoyama e Einosuke, que se encontravam na fronteira entre as cidades de Naruki e Karakura. Era óbvio que os três haviam sido responsáveis, e ela suspirou ao lembrar que ainda precisava tirar a limpo toda aquela bagunça para apresentar o relatório a Aizen, após repreendê-los.

Parada em meio a uma via de mão dupla movimentada e repleta de luzes e letreiros coloridos, os carros passavam ao seu redor sem que os motoristas a notassem. Então, exalou o ar de seus pulmões, observando o vapor visível que seu hálito causava no frio, balançando sua cabeça negativamente e, com o Shunpō, desapareceu no ar.

Ao chegar no local onde as reiatsus de seus subordinados se encontravam, ela notou Aoyama guardando a sua espada e a de seu colega, Einosuke, agora consciente, o qual estava sentado e abraçava o próprio corpo, com sua perna direita dobrada, e a esquerda esticada. Seu rosto demonstrava dor, mas ele parecia estar se recuperando. Os três estavam na beira do canal que atravessava e abastecia ambas as cidades, e o céu da madrugada ganhava uma tintura levemente alaranjada no horizonte, contrastando com o azul profundo e escuro, indicando que um novo dia começaria em breve.

Hasegawa, por sua vez, estava sentada mais longe, cabisbaixa e abraçando os joelhos, propositalmente distante de seus subordinados, até que virou seu rosto e pôde enxergar Haiako a observando. Então, levantou-se e caminhou até a mulher. Os outros dois, após notarem-na, também ficaram de pé.

-Kikuchi-san. — Aoyama se curvou, enquanto Hasegawa permanecia em silêncio, ouvindo-os sem deixar de manter uma pequena distância. — Atingi o meu limite, mas consegui estabilizar a situação do Katsuo-kun.

-Que bom. Muito obrigada, Aoyama-kun. — Quando a mulher percebeu Katsuo tentando se levantar, acenou com a mão, sugerindo que ele permanecesse sentado e repousando. Decidiu que, até que ela descobrisse a razão daquela situação, os trataria com calma, uma vez que estavam evidentemente cansados e emocionalmente drenados. Ou, ao menos, tentaria tratá-los com calma. — Pessoal… o que aconteceu aqui?

Os três se encararam, e Hasegawa rapidamente desviou o olhar. Suas mãos tremiam, e ela fechou os punhos em uma falha tentativa de não deixar Haiako perceber seu nervosismo. Então, Aoyama abriu os lábios, mas antes que ele pudesse dizer algo, Katsuo o interrompeu, levantando-se rapidamente, com um leve gemido de dor, surpreendendo a mais velha.

-Eu fui o responsável, Kikuchi-san. Queria encontrar uma maneira rápida de transformar minha Asauchi em Zanpakutō, e os convenci a me ajudar.

Haiako cruzou os braços e levantou uma das sobrancelhas, não confiante na versão de Katsuo. Aquele garoto era doce, inteligente e, talvez, um dos poucos Shinigamis que verdadeiramente compreendessem os problemas estruturais existentes na Soul Society. Mas, acima de tudo, ele não quebrava regras, tampouco colocava outras pessoas em risco por seus objetivos. Não, isso era mais a cara de outra pessoa ali presente.

-Jura? E como foi que você fez isso?

-Eu tenho amigos na Pesquisa e Desenvolvimento que me deram acesso a uma partícula de reiatsu condensada para atrair Hollows. — A mais velha acenou com a cabeça, com as sobrancelhas franzidas e os braços ainda cruzados.

-E vocês dois? Será que vocês compartilharam o mesmo neurônio da burrice ao serem ingênuos a ponto de serem convencidos por um plano tão idiota? — Os dois mais velhos do trio, Aoyama e Hasegawa, estavam com os olhos arregalados e sem palavras. A tentativa de calma de Haiako, por sua vez, rapidamente se esgotou frente a estupidez e silêncio dos dois, dando espaço a impaciência e palavras ríspidas, acompanhadas de gestos com as mãos. — É realmente decepcionante saber que vocês, supostamente mais velhos, mais sábios e mais experientes, puderam ser completamente patéticos, influenciáveis, fracos e sem capacidade de liderança. — A última frase, direcionada a Hasegawa com um olhar furioso, foi a última coisa dita por Haiako.

Imediatamente após suas palavras, sentiu como se estivesse sustentando um prédio em seus ombros, o qual ela tentava erguer apenas com a força de suas pernas. Com a visão turva, sua cabeça foi atingida por uma dor aguda, concentrada atrás de seus olhos, e um leve formigamento acima dos lábios fez com que ela passasse sua mão logo abaixo do nariz, evidenciando o sangue que escorria dali. Inesperadamente, sentiu a mesma sensação de cansaço de semanas antes, acompanhada do sangramento no nariz, em um momento no qual não poderia esconder de ninguém.

-Kikuchi-san! Está tudo bem? — Aoyama gritou, aproximando-se depressa da mulher, que acenou com a mão livre que não cobria o nariz para que ele se afastasse.

-Sim, apenas fui atingida por um daqueles monstros, mas estou bem. — Mentiu, para não preocupá-los. Então, Haiako retirou seu denreishinki de seus bolsos, comunicando-se com a Soul Society. No dispositivo, relatou acerca do acontecido, sem mencionar quem era ou não responsável, e informou que tomaria a posição de guarda dos três em Naruki, os quais iriam retornar de imediato. — Vocês são responsabilidade do Capitão Aizen agora. E, se eu puder lhes oferecer uma sugestão… — Enquanto ela falava, desembainhou sua Zanpakutō e perfurou o ar, proclamando o comando “destrancar” em meio a sua frase. — Sugiro que sejam mais sinceros com ele do que foram comigo.

Quando o Senkaimon se abriu, revelando a luz forte e brilhante atrás das portas flutuantes, duas borboletas infernais surgiram para acompanhá-los. A primeira, pairou sobre o ombro de Einosuke, enquanto a segunda… se aproximou de Haiako com suas asas quebradas e partidas ao meio. Poderia ser ela…? Não, ela estava imaginando coisas, pois ninguém mais tomava conhecimento daquela borboleta tão estranha, que voava incessantemente ao seu redor. Certamente, estava sofrendo os efeitos incomuns de seu mal estar, e precisava se livrar daqueles três o quanto antes.

Conforme Aoyama e Katsuo se curvaram, pedindo desculpas e despedindo-se da mais velha, Hasegawa se direcionou em silêncio aos portões, e eles a seguiram. Então, Haiako posicionou a própria espada em frente aos três, impedindo-os momentaneamente de atravessar.

-Eu estou muito, muito decepcionada com todos vocês. — Ela disse, enquanto Hasegawa a ouvia com as sobrancelhas arqueadas e tristes. Então, Haiako se direcionou para a loira. — Vá, conversarei com você quando eu retornar.

A loira acenou positivamente. Contudo, a sensação de melancolia e desespero que assolava o peito de Haiako só aumentava, e todos os pelos de seu corpo se arrepiaram. Algo profundo em seu peito gritava: fuja. Fuja e não volte mais.

Hasegawa, com o coração pesado e arrependido, em uma última tentativa de se redimir, olhou para a mais velha, que encarava todos os lados, preocupada, e disse:

-Kikuchi-san, eu…

De repente, o sangue da loira coloriu o céu, surpreendendo a todos com a interrupção repentina de sua voz. Hasegawa, com os olhos arregalados, colocou a mão em seu peito, sentindo o sangue escorrer e, ao olhar para baixo, enxergou o braço que atravessava seu corpo de forma brutal, segurando pedaços de sua carne, e as tatuagens pretas que o preenchiam. Essa foi a última coisa que enxergou, antes de sua visão escurecer por completo, e mais sangue escapar de seus lábios.

Instantaneamente, os instintos de Haiako fizeram-na gritar. Essa era a razão do desespero que sentia.

-Fujam, seus idiotas! — Em um movimento único, Haiako empurrou Katsuo pelos portões do Senkaimon, e impediu fisicamente que Aoyama tentasse resgatar sua amiga.

-Mei! Não! — Sendo segurado por Haiako, o jovem se debatia e gritava.

-Saia daqui, Mitsuko! — Enquanto a mais velha forçava seu corpo a passar pelos portões, ele viu o corpo de Hasegawa cair ao chão, inconsciente. O Senkaimon se fechou, dando lugar ao silêncio, e Haiako se aproximou da mais nova em um pulo veloz. Suas habilidades em Kaidō, embora um pouco enferrujadas pelo tempo em desuso, deveriam ser suficientes para prolongar o tempo de vida da jovem, que se encontrava por um fio, até que Haiako a levasse até a Divisão 4. Após a morte de seus amigos, a morena decidiu se especializar em cura, com o único objetivo de impedir que seus subordinados morressem em missão.

Atrás de Hasegawa, agora no chão, o espaço se distorcia em torno daquele braço, como se ele atravessasse o próprio tecido da realidade. Então, aquele tecido começou a se rasgar violentamente, revelando um portal negro e estranho que se abria por meio de rachaduras, demonstrando que o Mundo dos Vivos tentava rejeitar sua presença. “Garganta? Não. Elas são raras e, não se abrem desta maneira brutal. Esse portal leva a outro lugar.”, a mulher pensou.

Haiako não esperou mais um segundo sequer para descobrir quem sairia daquele portal: a borboleta infernal que a rodeava havia desaparecido, então colocou a jovem ensanguentada em seus ombros, sendo manchada pelo sangue que jorrava de seu ferimento.

O seu Shunpō a levou para uma mata fechada aos arredores de Karakura, onde utilizou do Bakudō de número 73, Tozanshō, para criar uma barreira e proteger Hasegawa de possíveis ataques. Uma pirâmide invertida azul e translúcida, de base quadrada, surgiu em volta das mulheres a partir de quatro pontos que se expandiram, e Haiako pôde performar Kaidō no ferimento da jovem. Ela sabia que seu tempo era curto, e que quem quer que fosse o responsável por aquele ataque brutal, não estava saciado, então era imperativo que agisse rapidamente.

Ainda assim, uma avassaladora curiosidade preenchia sua mente. A morena, encarando a orbe de energia esverdeada que saía de suas mãos, se perguntava o que era aquele sentimento tão familiar de desespero, tristeza… e atração. Ela tinha absoluta certeza de que já o havia sentido antes e, pela primeira vez em sua vida, sentiu-se inexplicavelmente mais próxima de seu passado.

Por isso, apesar de seus instintos a implorarem para fugir, era essa curiosidade insuportável que fazia seu coração ir contra sua mente. O que significava isso? Ao perceber que Hasegawa estava estável, e sua respiração em um ritmo calmo, ainda que fraca, Haiako decidiu que a deixaria em segurança na Soul Society, e retornaria para seguir sua curiosidade, que queimava dentro de si. Ela precisava perseguir aquele sentimento. O seu futuro ficaria para depois.

Enquanto ainda realizava os cuidados iniciais da loira, pôde senti-la movendo os dedos vagarosamente, e notou o leve movimento dos olhos abaixo das pálpebras fechadas. Então, colocou as costas de sua mão sobre a testa de Hasegawa, de modo a sentir sua temperatura. A mais jovem, recuperando a consciência, proferiu palavras com dificuldade, em um tom de voz rouco e sussurrado.

-Kikuchi-san… Haiako… Me desculpe.

-Está tudo bem. Preciso que você descanse, enquanto a levo para a Divisão 4.

-Não… você não pode. Aquele ser que me acertou… Eu senti tanto ódio em sua reiatsu, e ainda consigo senti-lo. Eu sei que ele não vai parar.

-Mei… — Haiako coçou a cabeça, olhando para a mata fechada ao redor de seu Kidō protetivo. Ela queria, e precisava retornar e investigar aquele ataque, mas seu coração estava incerto em deixar a mais nova sozinha. — Você consegue ficar aqui sozinha?

-Você realmente é um saco. — Hasegawa ensaiou um riso, interrompido pela dor, e Haiako a retribuiu com um sorriso. — Sim, vá. É nosso dever. Eu estava mesmo precisando de um descanso, e a vista não é das piores.

-Tudo bem. Eu não irei demorar, ok? Quem quer que seja, ele vai pagar pelo que fez com você. — A mais jovem sorriu, com os olhos ameaçando se fechar. Talvez Haiako não fosse tão ruim assim. — Durma. Você já pode fechar os olhos em segurança.

Deixou Hasegawa protegida por seu Tozanshō seguro e impenetrável, assegurando-se de que a mais nova estava, de fato, em condições de ser deixada sozinha. A ferida se encontrava parcialmente fechada, e o sangramento interrompido, e Haiako percebeu que ela dormia calmamente.

Agora, voltava cautelosamente para o local, à beira do canal trapezoidal revestido por pedras naturais e águas cristalinas e limpas, onde a distorção havia surgido, com a mão direita sobre o cabo de sua Zanpakutō embainhada.

-Onde está você, hein? — Haiako sussurrou para si, ao encontrar o local totalmente vazio e sem traços de reiatsu, que não fossem os próprios, escaneando todos os cantos com os olhos semicerrados e concentrados.

Novamente, sentiu seus pelos se arrepiarem, e um hálito quente como uma respiração ofegante em sua nuca contrastou com o forte vento gelado do inverno. Instantaneamente, desembainhou sua espada e se afastou com grande velocidade, colocando-se de frente para a direção na qual sentiu o calor. Contudo, não encontrou ou sentiu a energia espiritual de ninguém.

Então, no pé do ouvido, tão próximo a ponto de umedecer o lóbulo de sua orelha com o vapor quente, ela escutou, vindo de uma voz grave e rouca, com um tom sarcástico:

-Procurando por mim, princesa?

Seu instinto a fez movimentar a espada com ambas as mãos para a esquerda, com a lâmina voltada para cima, logo acima de seus olhos. Foi quando ela a enxergou: uma espada longa e de lâmina larga, de cor vermelho-sangue e cabo confeccionado com uma corda da mesma cor, defendia o ataque instintivo de Haiako. Sua aparência e formato se assemelhavam a uma katana, a não ser pelo seu grande tamanho e cor incomum..

Atrás daquela espada estranha, a primeira coisa que ela notou foram os olhos, de um azul tão claro e vibrante que, desfocando o olhar, pareciam brancos. O dono dos olhos hipnotizantes era um homem alto, de músculos grandes e definidos. Seu cabelo era preto e ondulado, com metade da franja repartida para trás, e a outra metade cobrindo levemente o olho esquerdo, sobre o qual surgia uma cicatriz que descia até o meio da bochecha. O homem possuía tatuagens pretas por todo o corpo, incluindo peitoral, pescoço e braços, até as mãos. Seu sorriso era largo, psicótico e incrivelmente branco, e ele cheirava a algo doce e picante, que ela não sabia bem identificar, mas era estranhamente familiar.

Ao afastar suas lâminas, colocando-se em posição de guarda, com o coração acelerado e a respiração ofegante e irregular, ela conseguiu observar mais detalhes. O homem grande vestia um kosode preto, semelhante aos dos Shinigamis, entreaberto em seu peito e abdômen, evidenciando seus músculos e tatuagens. No braço esquerdo, uma armadura de ombro samurai, dourada e com detalhes em couro preto e vermelho, e sua grande espada na mão direita. A parte de baixo de suas vestes consistiam em um umanori hakama de linho vermelho escuro, amarrado por uma faixa branca. Nos pés, sapatilhas pretas com meias brancas, semelhantes às utilizadas pela Onmitsu Kidō.

Ele a olhava com olhos arregalados e desequilibrados, e aquele sorriso amedrontador não saía de seus lábios. Bonito e imponente, ele posicionou a espada sobre os ombros e nuca, passando a língua entre os dentes.

-Quem é você? — Haiako perguntou, andando lentamente de forma lateral, sem tirar os olhos do homem, e mantendo-se em posição de ataque, enquanto percebia o braço esquerdo coberto pelo sangue de Hasegawa.

O inimigo misterioso franziu a sobrancelha, escaneando cada centímetro da mulher à sua frente. A morena notou e, por algum motivo desconhecido, sentiu-se incrivelmente desconfortável. Quem era aquele homem cuja reiatsu não podia ser sentida por ela, mesmo encarando-o frente a frente?

-Jura, você não sabe quem eu sou? — Rindo sarcasticamente, quase como quem não acreditasse no que a mulher havia dito, ele apontou sua espada vermelha para a morena, que não tirava os olhos dele. Com um muxoxo, e balançando a cabeça negativamente para mostrar desaprovação, ele continuou. — Estou bem ofendido, princesa.

-Pare com a brincadeira. Por que você atacou aquela garota? — A mulher, com sua voz ríspida, ainda em posição de guarda, continuava a movimentava-se lateralmente, enquanto o homem a acompanhava com uma postura relaxada, que beirava o deboche.

-Garota? Ah… A loirinha. Acho que abri o portal no lugar errado, e acertei a pobre coitada. Mas, pensando bem, quem é que liga? Hehe. Vamos lá, princesa, não seja entediante. Eu esperei muito tempo por isso.

Haiako pareceu confusa com a resposta do homem. Claramente ele estava mentindo, ainda que não parecesse ter uma boa razão para tal. Era óbvio que ele queria brincar com a morena. Sim, ela estava sentindo algo: uma sensação tão nova quanto era familiar. Queria explorar aquela curiosidade, aquele medo extremamente interessante, ainda que sua mente gritasse para que ela saísse dali e não voltasse mais. “Ok”, ela pensou. “Tenho que fazer as perguntas certas”.

-Está claro que seu alvo sou eu, certo? Como você sabia que eu estaria aqui?

-Digamos que… uma borboletinha me contou onde você estava. — Atrás do homem sorridente e sarcástico, a borboleta infernal de asas imperfeitas surgiu novamente, pousando no ombro coberto pela armadura dourada. Surpreendida, Haiako abaixou sua Zanpakutō.

-Você também a vê?

-Você não se lembra quem sou eu, mas consegue enxergar essa borboleta? — O sorriso desapareceu, e o homem parecia evidentemente incomodado.

-Como assim, não me lembro quem você é? — Cansada de rodeios, ela continuou, de maneira ríspida, e tornou a segurar sua Zanpakutō de maneira ofensiva. — Eu vou lhe perguntar pela última vez: quem é você, e o que você quer?

-Seria fácil demais se eu simplesmente te contasse, não é? Heh… Mas eu vou te mostrar o que quero.

O homem, inesperadamente, se movimentou com tamanha força e velocidade em direção a morena, que as pedras que pavimentavam o chão sob seus pés se transformaram em pó. Haiako, com menos de um segundo para reagir, conseguiu se defender de forma desajeitada. Conforme suas espadas se tocavam em movimentos repetidos, violentos e repletos de força bruta, a morena tentava identificar, em meio aos seus ataques, algo que explicasse aquele sentimento de familiaridade.

Agora, extremamente próximos um do outro, Haiako o olhava com as sobrancelhas franzidas, tentando decifrar aquele sorriso sarcástico, o qual lambia os próprios lábios, e ela já havia começado a odiar. Surpreendentemente, ela conseguia manter sua posição, sem ceder para a incrível força que ele depositava em sua espada. Mas, até então, o ataque era composto puramente de força bruta, e ela ainda não sentia a reiatsu de seu suposto inimigo.

Movimentando a katana para cima, Haiako tentou se desvencilhar novamente, conforme as duas lâminas deslizavam entre si. Contudo, quando estava prestes a se afastar, o homem desferiu um golpe com seu punho fechado, surpreendendo-a. O soco a atingiu em cheio, com tamanha força, que a pele da região abaixo de seu olho esquerdo cedeu. Boquiaberta, ela o encarava com a mão sobre a bochecha, arrancando risos do rapaz.

-Que filho da puta. — Ela sussurrou para si, com o rosto latejando.

-Isso vai ser bem melhor do que eu pensava. — Ele disse, enquanto estalava os dedos da mão que desferiu o golpe, alongava os músculos das costas, e caminhava com passos pesados até a mulher, preparando-se para atacá-la novamente.

Enfurecida pelo golpe incomum e inesperado em sua face, Haiako não o deixou sair ileso. Transferiu seu peso para o pé esquerdo, e girou todo o seu corpo em sentido horário, com o tronco abaixado e uma moção rápida, na intenção de atingir o queixo daquele que se aproximava dela com a guarda precária e hiper-confiante. Como resultado, um forte estalo indicou que ela havia sido bem sucedida.

Ao ser golpeado, o homem segurou o próprio queixo, com o objetivo de posicionar corretamente a sua mandíbula. Estava surpreso, pois esperava que ela o atacasse com a Zanpakutō. Novamente afastados, foi a vez de Haiako sorrir, sem saber o porquê, enquanto o observava ajeitando os cabelos desalinhados.

-Os seus golpes. — Ela disse. — São puramente físicos. Por que eu não sinto a sua reiatsu?

-Aí está algo que eu posso te dizer, princesa. — Entre suas frases, ele cuspiu sangue. — Você não sente a minha reiatsu porque você não quer sentir a minha reiatsu. Mas a gente vai consertar isso rapidinho. — Mais uma vez, ele a golpeou repetidamente, agora com sua espada, ataques os quais ela defendia com a própria Zanpakutō.

Naquele momento, ambos alternavam entre Zanjutsu e Hakuda, e a luta parecia, de certa forma, ensaiada. Com movimentos rápidos em espiral, como uma dança, os dois complementavam-se perfeitamente, e Haiako começava a sentir um êxtase que nunca antes havia experimentado. A ansiedade de conhecer o próximo ataque, as múltiplas possibilidades de defesa e contra-ataque, tudo se misturava em sua mente, e ela enxergava apenas seu oponente, o qual, pelo sorriso e olhos sedentos, também sentia o mesmo. Os danos eram causados proporcionalmente, ainda que poucos, e aquela luta se assemelhava a uma brincadeira que nenhum dos dois levava a sério o suficiente.

Com os lábios sangrando pelos golpes, e as vestes com alguns rasgos e costuras soltas, a mulher o olhava com atenção. Apesar de grande e forte, ele também possuía suor e sangue escorrendo da própria testa, sinalizando o esforço que fazia e os ataques que havia recebido. Par a par, ambos estavam no mesmo nível. Mas porque Haiako sentia que o objetivo daquele homem misterioso era puramente observá-la?

-Diga-me. — A morena o chamou, entre golpes e o som agudo do metal de suas espadas dançantes. — O que você quer dizer com eu não querer sentir a sua reiatsu?

-Você não percebeu, não é? Cada vez que nos golpeamos, eu consigo perceber a cintilação na sua energia, como se ela falhasse repetidamente. É fascinante como a sua alma tenta me rejeitar.

-Rejeitar? — Haiako devolveu. Ela já estava começando a odiar aquele homem, a maneira que ele falava, e a forma que ele a tratava, e pensou: “Como eu poderia não rejeitar esse homem nojento?

-Sim, princesa. — De repente, no momento em que Haiako estava prestes a depositar um golpe diagonal com sua Zanpakutō, de maneira descendente, o homem de olhos azuis interrompeu o movimento da lâmina com um chute em sua lateral, como se estivesse se cansado daquela brincadeira.

Então, segurou a morena pelos pulsos, apertando-os violentamente, e aproximou a mulher até si, girando seu corpo e prendendo seus braços cruzados sobre o peito, imobilizando-a. Haiako tentou se debater, e jogar o peso do homem sobre si, para frente, na tentativa de derrubá-lo, mas era como se, naquele momento, ele houvesse decidido mostrar o quão forte realmente era. “Merda”, ela pensou, ao perceber que havia caído em sua armadilha.

-O seu corpinho não sente a minha reiatsu, porque sua alma está protegendo a sua mente. Seu espírito literalmente se recusa a se lembrar de mim. — Ele curvou o tronco e sussurrou ao pé do ouvido da mulher, enquanto a segurava. Com os olhos arregalados, Haiako teve sua confirmação: aquele homem definitivamente a conhecia. — Mas deixa eu te contar um segredinho… — Ainda sussurrando, ele continuou. — Eu preciso muito que você se lembre.

-Por que você mesmo não me conta? — Em resposta, ele riu e, enquanto ainda segurava os braços de Haiako, que constantemente tentava se soltar, ele utilizou a outra para posicionar a lâmina de sua espada perigosamente próximo ao pescoço da mulher. Assim, colocou os lábios tão perto da orelha da mulher, que pôde umedecer seu lóbulo com a fala. Essa proximidade e intimidade com a qual ele a tratava a causava calafrios, e sua expressão facial instantaneamente se transformou em nojo, conforme ela tentava afastar o próprio rosto, sem sucesso.

-Eu queria muito que fosse fácil assim. Mas, infelizmente pra mim, eu preciso que você se lembre. Não a sua mente, eu estou pouco me fodendo pra ela, mas a sua alma. E, para isso, primeiro eu vou tirar tudo o que você tem. Mas essa parte, eu confesso, é uma vingancinha pessoal. Então, gatinha. Vamos parar com essa brincadeirinha de merda?

Ele a empurrou, deixando-a confusa, recuperando o próprio equilíbrio. Então, ele continuou.

-Já vi que vou ter que te forçar a me levar a sério. — O homem mudou completamente sua expressão facial. Agora, sério e com as sobrancelhas pretas franzidas, ele a olhava com ódio. — E eu sei por onde começar.

Haiako sabia exatamente o que ele queria dizer. Sua mente se voltou para Hasegawa: apesar de segura contra Hollows e outras ameaças menores, em um campo que a permitia descansar e se recuperar, ela sabia que um Tozanshō não seria suficiente para parar aquele homem.

Desaparecendo em frente aos seus olhos, Haiako se impressionou com a técnica de Hohō utilizada por ele. Imediatamente, correu em direção a Hasegawa, guiando-se apenas pela reiatsu da loira, mas ela sabia não ser rápida o suficiente para alcançá-lo. Enquanto se movimentava, desafiando os limites até do próprio corpo, sua mente trabalhava em conjecturas.

Já era claro que aquele ser enigmático fez parte de seu passado, e que, por razões ainda desconhecidas, ele estava tentando despertar essas memórias. Não era claro, no entanto, a qual raça ele pertencia. Apesar de se movimentar como um Shinigami, ele não lutava como um, e Haiako nunca havia visto aquelas vestes antes.

"Droga… droga! Mais rápido, merda!

Ao chegar no local em que Hasegawa estava, sua visão confirmou o próprio medo. O escudo azul de reishi, quebrado, revelava o homem alto e imponente segurando a jovem loira e desesperada pelo pescoço, elevando seu corpo do chão por completo. Não querendo repetir os erros de seu passado, Haiako pegou rapidamente o denreishinki em seu bolso. A única pessoa que conhecia suficientemente de seu passado para ajudá-la… era ele.

Sōsuke… espero que realmente sejamos amigos. Eu preciso de você."

Contudo, ao abrir o dispositivo, a voz do homem que segurava Hasegawa pelo pescoço ecoou no meio da mata fechada de coníferas, cujas folhas densas em formato de agulha impediam a passagem da luz do dia.

-Chame ajuda e eu arranco a cabeça dela.

-Tudo bem. Mas solte-a! — A morena guardou o dispositivo, e Hasegawa debatia-se, em tentativas falhas de retirar aquela mão que a sufocava. — Vamos ser inteligentes, aqui. Haviam outros dois Shinigamis conosco quando você nos atacou, e eles certamente irão pedir ajuda ao nosso capitão. Isso não vai durar por muito tempo. — Enquanto Haiako tentava argumentar com o homem, ele retribuía com um sorriso, aumentando a força depositada em sua mão. “Se eu me aproximar, ele certamente irá matá-la. Preciso agir com cautela”, ela pensou.

-Kikuchi-san! — Hasegawa suplicou, engasgando-se com a própria voz.

-Kikuchi? — O homem ficou sério. — Esse é seu nome agora?! — Haiako permaneceu em silêncio, aproximando-se lentamente, com sua Zanpakutō na mão direita, e a mão esquerda estendida. Diante da falta de resposta da mulher, o homem se voltou novamente para Hasegawa, e pressionou seu pescoço, provocando sons de sufocamento dos lábios da mais nova, cujo rosto ganhava um aspecto arroxeado, e a saliva escapava de sua boca.

-Sim! Sim, esse é o meu nome! Por favor, por favor, solte ela! — Em súplica, Haiako gritava para que ele a deixasse em paz.

E ele o fez. Soltou a mais nova como se fosse nada e, com um olhar de superioridade, viu Haiako correr aos seus pés para alcançar a jovem, abraçando-a e acolhendo-a. A morena, por sua vez, segurando a loira firmemente contra si, sentindo sua reiatsu se esvair vagarosamente, possuía ódio nos olhos marejados. “Pobre criança”. Haiako sabia ser responsável.

-Você tomou o nome daquela mulher para si... Vejo que finalmente encontrou o seu bichinho de estimação. — Ele sussurrou, deixando a morena confusa com suas palavras. — É patético o suficiente ver que você se tornou uma Shinigami… mas agora, vendo você ajoelhada aos meus pés, lutando para salvar um verme fraco e insignificante como esse… Devo dizer, princesa… — Ele cuspiu ao chão, mostrando desprezo, e levantou sua espada vermelha aos céus, observando a morena proteger Hasegawa com o próprio corpo, cabisbaixa. — Isso me dá vontade de vomitar. Chega dessa brincadeirinha, é hora de voltarmos para casa.

Ao terminar sua fala, o homem movimentou seu braço com força e velocidade para baixo, no que pensava ser um golpe que finalizaria a mulher, enquanto ela estava com a guarda abaixada.

Contudo, Haiako, ao deitar Hasegawa, à beira da inconsciência, no chão, parecia estar apática. Ser responsável pelos ferimentos da jovem era algo que ela havia jurado que nunca mais deixaria ocorrer. Por isso, ela decidiu: “Eu não vou deixar restar nada.”

Quando a espada do homem estava prestes a alcançá-la, a situação se reverteu. Em uma velocidade impressionante, ainda com os olhos fixados na mais nova deitada no chão, Haiako transferiu sua Zanpakutō para a mão esquerda, e a elevou para cima de sua cabeça, bloqueando o ataque do inimigo. O tilintar das lâminas era ensurdecedor e, como um choque elétrico que atravessou todo seu corpo, era como se, naquele breve segundo, a mulher tivesse…

Acordado.

Haiako levantou a cabeça e o olhar, encarando aquele que a atacava, surpreso pela mudança repentina na aura da morena. Então, a mulher permitiu sua reiatsu fluir livremente, como chamas azul-índigo densas cujas faíscas, ao atingirem umas às outras, emitiam sons de eletricidade. Seu olhar repleto de ódio também emitia estas mesmas chamas, que saíam de suas íris, enquanto seus cabelos longos flutuavam pela movimentação de energia. Levantou-se vagarosamente, colocando-se à frente de Hasegawa para protegê-la da pressão espiritual emitida, e segurou sua Zanpakutō próxima ao corpo, em guarda.

O homem, por sua vez, recolheu sua espada acima de seus ombros, e sorriu. Seus olhos azuis abertos ao máximo, agora pareciam verdadeiramente ansiosos pelo que viria a seguir. Agora, finalmente, a mulher o sentia. A reiatsu vermelho-sangue que escapava de seu corpo, quando se encontrava com aquela emanada por Haiako, dançava em direção ao chão, mesclando-se em tons de púrpura que iluminavam a floresta escura. Os ferimentos de ambos se curaram rapidamente, fazendo com que a luta voltasse a estaca zero.

Ela nunca havia conhecido alguém cuja energia espiritual possuía o mesmo comportamento que o seu, fluindo como um líquido denso que buscava penetrar o solo. Por isso, quando suas reiatsu se tocaram, mesmo que por um momento efêmero, ela se lembrou. Então, olhando fixamente para os olhos azuis daquele à sua frente, ela disse.

-Gasshō

O sorriso de seu inimigo aumentou, mostrando os dentes em forma de presa, demonstrando grande satisfação em ter seu nome dito pela mulher.

-Agora sim, princesa.

Haiako sorriu. Ela sentiu que havia esperado a vida inteira por esse momento.

+

AD_4nXevLpg7cRycYMJtuLf757kIDkYr3zpauF5_WXpOWPrbVTyTUINkBpFqdKVsiloSNSAkY2bQFCZ471WrqSm2XLj3za451z42Yx1BLDtRQ3vqk9OfqOPKRQaN3KkGD2RoQPrpVvQhOg?key=kJD3o6uZWyAQN1y627hxPH-mAD_4nXfogk2F9G4tIvDXswlP18_cHLsJqPKVu5qGI2S1D3KqJEp22iA6tHOCG8Og0RGsbfJkmLu2fhjU-r8WxdluHefx5zY65XIpWonF6kpz-6ZnZFm7Tb31NXcwZ-snRa9hvMm_GY6m?key=kJD3o6uZWyAQN1y627hxPH-m

Imagens geradas por IA.



Notas finais
Obrigada por chegarem até aqui! Como sempre, espero as considerações de vocês. Agora sim, a parada vai ficar séria )o)