Oblivion
11 Conflito.
Notas iniciais
How did we get here?
I used to know you so well
How did we get here?
I think I know
Decode — Paramore
+
Enquanto Haiako olhava para Aizen, ela se permitiu escanear todos os detalhes daquele homem tão familiar e, ainda assim, tão desconhecido. Seus olhos castanhos brilhavam com uma incandescência amarelada, amenizada por trás de seus óculos de armação grossa. O cabelo, levemente ondulado e bem cuidado, emanava um aroma limpo e, falando em aromas, o cheiro que ela sentia do pescoço de Aizen era, em muitas maneiras, hipnotizante. Mas, ainda que tudo isso fosse extremamente atraente, eram os lábios que a deixavam mais intrigada. O sorriso de canto, sem mostrar os dentes, escondia uma certa malícia. Deus, ele lambia os lábios como se quisesse devorá-la.
O olhar do homem acompanhava cada parte do corpo da mulher sem pudor, caminhando pelos seus cabelos presos, os óculos claros de leitura, seus lábios vermelhos, o pescoço exposto e, por fim, chegando ao decote da mulher, o qual revelava pouco, pois a mais nova não gostava de se expor daquela maneira, mas certamente deixava espaço para a imaginação.
Estar ao lado de Aizen, tão próxima a ponto de ouvir sua respiração, lhe parecia natural e, ao mesmo tempo, proibido. Pecaminoso. Talvez, apenas mais alguns segundos daquela proximidade, vítima do olhar malicioso do homem, não seriam tão prejudiciais. Normalmente, ela sentiria desconforto em estar sendo observada com tanto detalhe e profundidade, mas esse não era o caso. Haiako viu décadas passarem por seus olhos e refletirem de volta em seus próprios óculos, e se sentiu exposta, como se ele também pudesse enxergar tudo aquilo que ela pensava.
Suas bochechas coraram e ela sentiu sua testa febril, enquanto o homem segurava a sua mão com mais força, como se evitasse de antemão que ela se afastasse, e a acariciava vagarosamente com o polegar. Olhando fixamente para os lábios do mais velho, viu que eles se abriram levemente, respirando o ar, prontos para dizer algo.
Quando Hirano Tsuki se apresentou à porta, permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando os dois se olharem tão profundamente, que afetavam a energia do escritório. Sentiu até mesmo sua própria energia espiritual vibrar com a tensão daquele olhar longo e profundo. Inicialmente, ela havia procurado Haiako em sua própria sala, mas não a encontrou. Ao buscar o Capitão Aizen para conversarem, coincidentemente os viu lado a lado, e não pode deixar de se perguntar se eles estariam resgatando algo do passado.
Não era como se Haiako a contasse qualquer coisa de sua vida, e esse pensamento causou mágoa no peito de Tsuki. Ela não queria sentir mágoa de Haiako, mas custava ter mandado uma carta sequer, poxa?
—Ei, sumida! — A jovem de cabelos negros balançou a poeira de sua melancolia, e colocou um sorriso largo em seu rosto, interrompendo os dois. A saudade que sentia era maior que qualquer outra coisa, afinal. Talvez ela pudesse dar um voto de fé para sua velha amiga.
Haiako e Aizen se separaram rapidamente. Ou melhor, Haiako se separou rapidamente. Aizen permaneceu com sua costumeira calma, levantando-se do sofá e cumprimentando a jovem com respeito.
—Hirano-kun, boa noite. Seja bem-vinda.
“Bem-vinda?”, Haiako pensou.
—Capitão Aizen! — Ela se curvou, e sorriu para o homem. — Uma ótima noite! O quartel da Divisão 5 continua lindo, como sempre, e todos são muito cordiais! — Tsuki parecia outra pessoa ao se referir a Aizen. Mais formal que de costume.
—Fico satisfeito! Espero que você tenha uma ótima estadia conosco. — Então, ele se voltou para Haiako, olhando para ela e tombando a cabeça em direção a Tsuki, como quem dissesse “agora é sua vez”.
Haiako, por sua vez, estava em choque. Atrás de Tsuki, as imagens póstumas de Saito e Izaya a olhavam com enorme tristeza. Ela havia passado tanto tempo tentando esquecer da existência daqueles dois e, agora, era como se batessem com todas as forças a porta com a qual trancara suas memórias. Seu coração batia em um ritmo irregular, e ela sentiu o peito queimar.
—Tsuki? — Ela respondeu, levantando-se com pressa e olhando para sua velha amiga com uma postura enrijecida, ainda focada em sua visão. Aizen, por sua vez, a observava com cautela, notando que algo não estava bem. — O que você está fazendo aqui?
—Boa noite, como vai, quanto tempo, senti sua falta, e o casamento, que saudade… não? Nada? — A jovem de olhos cinzas colocou a mão sobre a cintura, com as sobrancelhas franzidas.
Não era a intenção de Haiako ser rude, ou maldosa. Ela possuía grande carinho por Tsuki, e sentia saudade após tantos anos sem vê-la. Mas, com sua chegada inesperada, ela trouxe questões com as quais não estava preparada para lidar.
—É claro… me perdoe. — Então, se aproximou da mulher, e a abraçou com braços firmes e calorosos, o que surpreendeu a todos. Raramente Haiako iniciava esse tipo de contato físico, mas foi o suficiente para desarmar Tsuki, que olhou para Aizen sobre o ombro da mais nova com um sorriso sincero e um joinha com o polegar. No entanto, Haiako havia se prevenido: direcionou toda sua energia espiritual para a superfície da própria pele, como uma película invisível, evitando que pudesse transmitir quaisquer sentimentos para Tsuki com seu toque. — Como é bom ver você.
—Que saudade de você, minha amiga! — Tsuki a abraçou com ainda mais força, e enterrou o próprio rosto no pescoço da mais baixa, fechando os olhos e se deixando levar pelo carinho. Suavemente, Haiako se afastou e, segurando as mãos da mais alta, enquanto a olhava nos olhos para evitar ver qualquer outra coisa, ela disse:
—O que trouxe você aqui hoje?
—O Capitão Aizen escreveu para mim! Disse que você estava passando por momentos difíceis, e precisava de uma amiga. Ele foi muito gentil em me conceder um alojamento no 5º Esquadrão, mesmo que o meu marido não tenha gostado muito da ideia de ficarmos separados por um tempo! Mas eu senti tanto a sua falta, que ele entendeu perfeitamente. Falando nisso, o que você tem feito? Como você está se sentindo? — Tsuki falava como se estivesse a décadas sem ter dito uma coisa sequer, e quase não respirava entre as palavras.
Haiako, por sua vez, enquanto Tsuki falava, arregalou os olhos, e virou-se para Aizen que, agora sentado atrás de sua mesa, as olhava com um sorriso doce. Era como se fosse um homem completamente diferente. Franziu o cenho de boca aberta, e fez um movimento silencioso com a boca que dizia “eu vou matar você”. O homem apenas retribuiu com um riso suspirado, deixando o ar escapar de seu nariz.
—Tsuki… calma…
—Você está certa! Precisamos conversar direito. Vamos para o bar? Aquele, que íamos antigamente!
Lá estava. Apenas alguns segundos de volta, e Tsuki já vasculhava memórias que Haiako não queria encarar.
—Si-sim…
—Capitão Aizen, venha conosco! Tenho certeza que sua presença fará muito bem para a Haiako-chan.
—O Capitão Aizen não beb-…
—Será um prazer. Irei ver se a Hinamori-kun gostaria de nos acompanhar, tudo bem? — Ele interrompeu a resposta de Haiako, que o olhou novamente, contraindo os lábios.
—Ótimo! Eu vou só cumprimentar alguns colegas, e já vamos, todos juntos! Haiako-chan, estou tão animada… tem tanto que quero te contar!
Antes de Tsuki sair pela porta, em seu humor saltitante, Haiako sorriu com os lábios fechados, e acenou. No entanto, assim que a garota se ausentou do lugar, ela se voltou para o homem sentado em sua mesa.
—Aizen, eu nunca vi você pisando em um bar, ou sequer beber uma gota de álcool. O que você está fazendo?
—Somos amigos, certo? Não é comum amigos se encontrarem casualmente?
—Eu não saberia dizer, porque você não vai com a gente. — Ela se virou para a porta, pronta para sair, pois não queria arriscar que o homem descobrisse certos aspectos de seu passado. Mas, pelo visto… ele sabia de muito mais do que deixava transparecer. Como assim ele havia escrito uma carta para Hirano Tsuki? Do que exatamente ele sabia?
Então, sentiu seu braço ser agarrado pela mão forte do Aizen, que agora estava à sua frente. Ele curvou seu corpo em direção à mulher, aproximando seu rosto ao dela, até que seus lábios ficassem tão próximos da orelha de Haiako que ela podia sentir o calor de seu hálito. Aizen estava com as sobrancelhas franzidas, suas ações e linguagem corporal não mais se assemelhavam àquelas de quando Tsuki estava presente, e seu tom de voz era mais profundo e imperativo.
—Eu não posso admitir você alucinando sem rumo, e aparecendo em lugares sem se lembrar como chegou ali. Você me entendeu? — Ele aumentou a pressão da sua mão, que envolvia todo o braço da mulher.
A morena arregalou os olhos, afastando sua cabeça e curvando o corpo para trás, de forma a conseguir olhar diretamente para o homem. Quando viu a expressão em seus olhos, percebeu o quão sério ele estava falando e, em vez de contrariá-lo, ou até mesmo mandá-lo soltar seu braço… ela engoliu a seco e simplesmente acenou. Apenas então, ele a soltou. Naquele momento, era quase possível ouvir as batidas do coração da mulher.
“Sōsuke…”
Haiako sentiu o local em que Aizen a tocou ficar levemente febril, e sabia que suas bochechas estavam ruborizadas. Mas um sentimento de culpa a dominou por completo, e ela voltou a se sentir extremamente melancólica: durante toda aquela interação, ela não pensou em Kyōraku. Nem mesmo uma vez. Um aperto em seu peito fez com que ela desviasse o olhar do homem e se mantivesse com uma expressão distante. Ela precisava voltar ao normal.
—Prontinho! Vamos?
—Vamos.
+
No caminho para o bar escolhido pela mais nova, ambas andavam lado a lado, observando o céu estrelado, e a morena contava sobre suas experiências na Divisão 2, a rotina de trabalho e as patrulhas no Mundo dos Vivos. Ela parecia feliz em poder, enfim, compartilhar suas conquistas com Haiako. Contudo, a voz de Tsuki se dissipava ao ar, como se estivesse em segundo plano, uma vez que Haiako pensava somente no que havia motivado essa visita inesperada, e era tomada por sua ansiedade ao imaginar o turbilhão de possibilidades, uma pior que a outra.
Além da ansiosa, ela estava encurralada, sem poder confrontar sua antiga amiga, pois atrás delas, alguns passos atrás, Aizen Sōsuke e Hinamori Momo caminhavam juntos, sendo possível ouvi-los compartilhando uma conversa calorosa e amigável. Hinamori falava com maior frequência, contando para o mais velho sobre seu dia, e ele a tratava com um carinho ímpar, frequentemente a agraciando com breves toques e afagos no ombro e cabeça. Haiako não podia vê-lo, mas sabia que ele estava sorrindo, e revirava os olhos ao imaginar.
—Hinamori-kun, olhe como a lua está bela. É uma linda noite, não?
—Sim, Capitão Aizen! Muito obrigada pelo convite, fiquei muito feliz. — Em resposta, o homem acenou, e eles continuaram sua caminhada. Um incômodo oculto e confuso atingiu Haiako. "Que sentimento… é esse?"
—Haiako-chan… está tudo bem? — Tsuki notou a expressão tensa e desatenção de Haiako, que suspirou profundamente.
—Sim… só estou um pouco cansada, com uma leve dor de cabeça. Mas estou muito feliz em ver você bem. Como vai a vida de casada?
—Difícil, haha! Compartilhar uma vida com outra pessoa tem seus desafios… bem que você falava... Mas o Hideki me ama muito, e eu também o amo.
—E você está feliz?
—Demais! Todos os dias eu acordo ansiosa para passarmos um tempo juntos, mesmo que não seja muito…
—Você está na Keiratai, certo? Deve ser difícil conciliar o casamento com suas demandas.
—Não oficialmente. — Tsuki sussurrou, colocando a mão ao lado de sua boca, e riu com o próprio comentário. — Mas, não vou mentir… Tem hora que dá vontade de largar tudo e passar o dia inteiro juntinha do Hideki… Só que ele também trabalha muito no 9º Esquadrão…
—Não é para menos! Ouvi dizer que o Tenente Hisagi é bem exigente! Me lembro de quando ele estava na Academia, era um jovem extremamente promissor. O Capitão Tousen fez uma excelente escolha.
—Sim, ele é até bem bacana, mas realmente bem rígido com os subordinados! Só que a Capitã Soi Fong também não fica pra trás, não, viu? Tá doido! Minha sorte é que o Tenente Omaeda é um pouquinho preguiçoso e não liga se a gente dá uma relaxada. Imagina se você tivesse decidido ser tenente da Divisão 2? Fico com pena do pessoal só de imaginar. Mas cê tá bem, né? O Capitão Aizen é o capitão mais elogiado da Seireitei! Né não, taichō? — Ela se virou para Aizen, andando de costas.
—É muita gentileza sua, Hirano-kun. Mas a Kikuchi-san é uma excelente profissional, bastante exigente e dedicada. — O homem, que estava poucos passos atrás, respondeu cordialmente.
—Mas a melhor parte da Divisão 5 definitivamente é trabalhar com a Tenente Hinamori! — Ignorando Aizen, Haiako riu, direcionando os elogios para a mais jovem.
—Kikuchi-san! Você é muito gentil! — Hinamori a respondeu, sorridente e feliz por ter sido incluída.
Após aquele comentário, Haiako permaneceu em silêncio. Trabalhar para Aizen não era exatamente um mar de rosas e, na maior parte do tempo, ela se sentia mentalmente sobrecarregada. Mas outra coisa passava por sua mente: e se ela tivesse decidido ser tenente do 2º Esquadrão, como seria sua vida? Uma coisa era certa: ela definitivamente não seria transferida para a divisão de Aizen. E, também… talvez seu relacionamento com Kyōraku não existiria, já que suas interações iniciais se deram por Haiako fazer parte da Divisão 1. Esse pensamento a trouxe tristeza.
O bar intimista ficava localizado nos limites da Seireitei, com as paredes externas brancas, telhas aparentes e janelas de madeira, assim como o restante da estética da região. Possuía pequenas luzes entre as janelas externas, as quais iluminavam o seu entorno e revelavam alguns poucos Shinigamis fumando encostados na parede e compartilhando histórias entre si. O shoji tradicional era iluminado pela luz amarelada do interior, e era possível ouvir uma música leve, com batidas relaxantes e calmas.
Naturalmente, Haiako e Tsuki se afastaram da entrada, dando a preferência de passagem a Aizen e Hinamori, seus superiores. Quando Aizen atravessou o shoji, sorriu discretamente para Haiako, que desviou o olhar.
No interior, o espaço era amplo e com uma atmosfera alegre. Diversos chabudai retangulares de madeira de cerejeira compunham o local, com almofadas florais ao seu redor, e a maioria já estavam previamente ocupados por Shinigamis que bebiam e riam. Uma mesa, especificamente, estava com a maioria de seus lugares desocupados. No entanto, ao ver quem a ocupava e, ao perceber que Aizen e Hinamori caminhavam naquela direção, Haiako arregalou seus olhos, e puxou Tsuki para fora com o braço.
Kyōraku Shunsui e Ukitake Jushirō sentavam frente a frente em um amplo chabudai, enquanto Ise Nanao ocupava o lugar à direita de seu capitão, e enchia os sakazuki vermelhos de ambos com o shōchu, uma forte bebida tradicional, engarrafado em uma cerâmica grande com ilustrações de carpas igualmente vermelhas. Em meio ao bar de cores neutras e luz amarelada, o inconfundível kimono de Kyōraku se destacava como nunca.
Os dois antigos amigos sorriam e conversavam, e pareciam muito felizes em encontrar Aizen e Hinamori, que raramente apareciam naquele lugar. Do lado de fora, Haiako pedia a Tsuki que fizesse silêncio, levando seu dedo indicador a sua boca.
—Haiako-chan, tá ficando doida?
—Tsuki, eu preciso que você me escute bem.
—Chora.
—Eu sei o que você viu na sala do Capitão Aizen…
—Vi mesmo, vi muita coisa, Haiako-chan!
—Tsuki! Preste atenção. — Ela começou a sussurrar. — Eu sei o que você viu, e eu sei como pareceu. E eu sei também que você não tem tato com esse tipo de coisa, e não tem papas na língua.
—Claro que não! Cês dois estavam praticamente se comendo com o olho. O que foi aquilo, hein, Haiako-chan? Tá tentando quebrar sua cara de novo?
Haiako colocou a mão sobre a própria testa e fechou os olhos, crispando os lábios, em desaprovação ao comentário de sua amiga. Ainda sussurrando, ela continuou:
—Dai-me forças… Tsuki, eu estou em uma espécie de… relacionamento… com o Capitão Kyōraku. E as coisas têm ido bem, até o momento.
Agora, foi a vez de Tsuki arregalar os olhos, e aspirar o ar boquiaberta, preparando-se para gritar em surpresa. Conhecendo sua amiga, Haiako franziu o cenho e colocou rapidamente sua mão sobre os lábios da mais alta, que falava com a boca abafada.
—Eu não tô acreditando nisso! Eu nunca imaginaria que… Solta a minha boca!
—Eu solto se você prometer não gritar. — A mais nova acenou, concordando.
—E você deixa para me contar isso aqui? — Tsuki sussurrou. — Eu quero todos os detalhes! O Capitão Kyōraku não tinha fama de ser um grande tarado, que corre atrás de qualquer mulher que passa na frente dele?
—Bom… sim. Mas ele é um homem diferente do que as pessoas dizem. Mais doce e… amoroso. — Haiako fez uma breve pausa, olhando nos olhos grandes e cinzas da mais nova. — Tsuki… Ninguém sabe disso ainda, e você sabe que eu não falo sobre minha vida pessoal com as pessoas. Mas por favor, por favor, não fale nada sobre o que você viu lá atrás. Aquilo não é nem digno de se mencionar. Não significou nada, entendeu?
—Você gosta mesmo dele? Do Capitão Kyōraku, eu digo…
Haiako sorriu, e segurou ambas as mãos da mais alta, que também sorriu em retribuição.
—Muito…
—E o quão bem está indo? — Ela levantou as sobrancelhas algumas vezes de forma sugestiva e maliciosa, e após uma pequena pausa, Haiako riu, também levantando as sobrancelhas e dando ênfase em sua resposta.
—Muito bem… Venha. Senti muito a sua falta.
—Tudo bem… Só que cê tá me devendo! Eu quero saber de absolutamente tudo.
Talvez Haiako realmente estivesse muito ocupada, ou tivesse passado pelo luto, e precisasse ficar sozinha. Talvez houvesse um excelente motivo para ela não ter entrado em contato antes, e elas pudessem, finalmente, retomar sua amizade. Pensamentos diversos passavam pela mente de Tsuki, que estava alegre em ver um sorriso sincero de Haiako. Será que ela conseguiria compartilhar sua novidade?
A mais baixa, por sua vez, só possuía um sentimento: a ansiedade. Por trás de seus sorrisos, ela escondia muito medo. Ela não podia simplesmente pedir a Tsuki que não falasse sobre seus queridos amigos, pois sabia que a reação poderia ser explosiva. Ela a conhecia bem. Sua única esperança era Tsuki não querer reviver um assunto tão dolorido. Antes de entrar no bar, atrás de Tsuki, ela olhou para o céu, e respirou fundo. Suas mãos trêmulas acusavam seu nervosismo.
“Deus, não deixe ela falar deles.”
+
Dentro do lugar, ela observou todos sentados em seus lugares. Aizen e Hinamori sentavam-se ao lado de Ukitake, enquanto Kyōraku e Ise ocupavam o lado oposto do chabudai, nessa ordem, e Tsuki cumprimentava seus amigos diversos em outras mesas, evidenciando sua popularidade e facilidade em conhecer pessoas novas. Disso, Haiako sentia inveja. Não que ela fosse tímida, pelo contrário, mas o ato de se abrir, deixar que a conhecessem, e cultivar laços, era um forte bloqueio na mulher. Ela era uma excelente líder e comunicadora, e sua personalidade atraía as pessoas para o seu lado, conforme vivenciara em suas muitas noites de bebedeira. Contudo, essas relações eram, muitas vezes, superficiais. Até conhecer Kyōraku.
Quando notou Aizen e Shunsui conversando amistosamente, seu estômago embrulhou. Os dois conversavam entre si e com Ukitake, compartilhando risos calorosos, enquanto Ise conversava com Hinamori.
Ao escanear os detalhes do bar, uma onda de lembranças a atingiu em cheio. As luzes, as bebidas, a música: tudo parecia ter congelado no tempo e, naqueles segundos nos quais ela atravessava a porta, todos pareciam se mover em câmera lenta. Haiako se sentiu como estivesse tendo uma experiência fora de seu corpo, e pôde enxergá-la em seu passado, rindo ao lado de Soichiro, acariciando seus cabelos.
Sem perceber, ela se perdeu naquele momento, com um sorriso melancólico nos lábios, acompanhado de uma sobrancelha arqueada e triste. Quando voltou aos seus sentidos, viu que todos da mesa olhavam para ela, e Tsuki já havia se sentado e se apresentado formalmente.
—Haiako-chan! Vem, senta aqui! — Tsuki acenou com ambas as mãos para o alto.
—Oi, Kikuchi-san! — Ukitake a cumprimentou, com um sorriso no rosto. O homem de cabelos brancos e longos, e voz suave, olhava Haiako com gentileza e curiosidade. Certamente, ele já sabia da atual situação em que ela se encontrava com Shunsui, ela deduziu.
—Capitão Ukitake, boa noite! Como está sua saúde? — Haiako se curvou. Independentemente do local em que se encontrava, ela tratava seus superiores com o devido respeito… Com algumas poucas exceções, claro.
—Estou me sentindo ótimo hoje, muito obrigado! Sente-se, beba conosco.
Após cumprimentar Ise Nanao, percebeu que Kyōraku a olhava com um sorriso nos lábios e rubor nas bochechas, apoiando o rosto na mão sobre a mesa, como se a contemplasse. Ele a olhava de forma tão afetuosa, que a mulher se sentiu brevemente desconfortável na própria pele, ao lembrar de sua interação anterior com Aizen.
Então, sem que houvesse necessidade de se cumprimentarem formalmente, Haiako se sentou na almofada ao lado de Shunsui, olhando-o nos olhos, e sussurrou um “Boa noite, Capitão Kyōraku…” doce no ouvido do homem. Ele estava especialmente bonito naquela noite, e muito cheiroso, também, e seus cabelos amarrados caíam sobre seu ombro. Seu chapéu de palha, no entanto, estava ao seu lado, no chão. O homem retribuiu o cumprimento de Haiako apenas com seu sorriso mole pela bebida, mas não desviou os olhos da mulher. Nossa… como seu coração derretia com aquele olhar boêmio. Ela sentiu um avassalador alívio ao ver como se sentia bem ao lado dele.
A mesa foi tomada por conversas agradáveis sobre o dia a dia, burocracias, curiosidades e sobre os acontecimentos recentes da Soul Society. Ao ser questionada sobre o que gostaria de beber, Haiako apenas respondeu que o que houvesse de mais forte serviria. Aizen, por sua vez, surpreendendo a todos os presentes, aceitou bebericar o shōchu que seus companheiros tomavam. Já Tsuki, causando estranheza em Haiako, escolheu apenas um copo d’água.
—Eu tô faminta! — A jovem de olhos cinzas escaneava o pequeno cardápio repleto de opções em suas mãos. — Vamos comer, Haiako-chan?
—Estou sem fome, obrigada. — Ela respondeu.
—Você precisa comer algo. — Kyōraku sussurrou para a mais nova, com uma expressão preocupada, e ela apenas segurou a mão do homem por baixo do chabudai, discretamente.
—Eu não estou me sentindo muito bem hoje… — Os dois sentavam lado a lado, de pernas cruzadas, com seus joelhos se tocando. Eles não conversavam explicitamente sobre manter a relação escondida, mas o homem conhecia o jeito fechado de sua parceira, e a respeitava. Tudo em seu tempo, afinal, a relação amorosa dos dois, apesar de amigos há muitos anos, era recente.
Conforme Tsuki observava Kyōraku e Haiako conversarem baixinho entre si, trocando toques carinhosos escondidos, e fingindo que não preferiam estar ali a sós, ela não pôde deixar de sorrir. Ela conhecia esse sentimento caloroso, e sentiu saudade de seu marido, que a amava tanto. Então, olhou em volta, observando todos aqueles que ela conhecia, bebendo e comendo felizes. Viu Aizen e Hinamori compartilhando risadas com Nanao e Ukitake e, por fim, voltou a olhar para Haiako e Kyōraku.
—Você se lembra de como eram nossas noites aqui? — A garota perguntou, com olhos sonhadores.
—Não muito. — Haiako cortou a jovem dos olhos cinzas de maneira ríspida, e logo se inseriu no assunto de Aizen e Ukitake, que compartilhavam um apreço por caligrafia e poesias, comentando como a escrita do Capitão da 5ª Divisão era fluida e imersiva, com suas belas letras e rimas bem pensadas. Ise Nanao se lembrou, carinhosamente, das aulas que o homem ministrava na Academia Shin’ō, e ele agradeceu. Tsuki notou, com estranheza, as esquivas da mais velha, toda vez que ela tentava falar sobre o passado, mas escolheu relevar.
Na mesma hora, Matsumoto Rangiku, tenente do 10º Esquadrão, se aproximou da mesa repleta de seus conhecidos, e ocupou o local ao lado de Haiako. Segurava duas garrafas de bebida vermelhas, uma em cada mão, e suas bochechas já estavam vermelhas, além da fala arrastada. Seus cabelos loiros caíam bagunçados sobre si, e ela sorria e cumprimentava a todos de maneira informal.
—Haiako-chan, minha parceirinha de gole!
—Rangiku! Que bom ver você! — A morena se desvencilhou suavemente do toque de Kyōraku, abraçando a loira com um grande sorriso nos lábios. Tsuki sentiu seu coração apertar com um sentimento que ela não sabia dar o nome.
—Finalmente! Estava doida para não ser a mulher mais velha da mesa, pra variar.
—Rangiku, você está me chamando de velha? — Haiako arqueou uma sobrancelha, provocando a loira de olhos claros.
—Huh?! Mais velha que a Rangiku-san? — Hinamori, surpresa, perguntou, fazendo com que todos na mesa se virassem para a mulher, curiosos. Em resposta, Haiako atingiu Rangiku com um pequeno tapa provocativo na cabeça.
—Bem mais! — Tsuki respondeu, gargalhando, como se disfarçasse os próprios sentimentos. — Essa aí só engana a gente! Só não tem tamanho, mesmo, haha!
—Está bem, já entendemos. Eu estou velha.
—Se você está velha, o que isso faz de Kyōraku e eu? — Ukitake respondeu, com bom humor.
—Idosos! — Haiako olhou para Shunsui, empurrando-o com o cotovelo, que a retribuiu soltando e bagunçando seus cabelos, anteriormente presos, e respondeu que a mulher deveria ter uma quedinha por homens idosos.
Falar sobre idade não era algo que incomodava Haiako, afinal, a maioria dos Shinigamis, com exceção daqueles que haviam nascido na Soul Society, não sabia o próprio aniversário. Desta forma, ela não precisava esconder que essa era apenas mais uma das informações sobre si das quais ela não conhecia. Na verdade, ela até achava um charme as pequenas e finas linhas que se formavam ao redor dos olhos quando sorria.
Enquanto todos riam e brincavam juntos, especulando as idades de cada um, Haiako olhou sem querer para Aizen, que estava a observando, e sorria nostálgico em sua direção. Em retorno, também sorriu, com os dentes brancos e alinhados à mostra.
—Um brinde! — Rangiku declarou, e todos que bebiam levantaram seus sakazuki. — Que a próxima geração tenha mais juízo que a gente!
—E que bebam menos! — Haiako devolveu, com o copo alto.
—Você não bebia esse tanto não, hein, Haiako-chan! Lembro que você ficava tontinha só com dois goles de sake. — Tsuki se juntou a brincadeira.
—Culpa do Capitão Kyōraku que me levou para o mal caminho! — Ela não conseguia evitar: adorava provocar o homem, que riu e a abraçou lateralmente, puxando-a para mais próximo de si, sem esconder seu afeto, o que causou reações curiosas por toda a mesa. Hinamori, por exemplo, arregalou os olhos sorrindo para Nanao, que levantou os ombros e sorriu, como se dissesse "Nem me pergunte!". Ukitake olhava os dois com orgulho, e Aizen… desviou o olhar discretamente para a própria bebida, sem perder o próprio sorriso suave dos lábios.
Haiako, no entanto, não se incomodou. Estava feliz, e olhou para o homem com um sorriso. Talvez a bebida havia deixado-a mole.
Tsuki, por sua vez, se sentia extremamente alegre, apoiando as bochechas nas mãos. Rodeada por pessoas queridas, ela decidiu que, finalmente, estava pronta para falar o que estava em seu coração.
—Pessoal… — Tsuki se levantou, fazendo com que todos olhassem para ela. — Eu tenho uma coisa muito especial pra compartilhar. Haiako-chan, estou muito feliz de poder estar aqui com você. — Haiako sorriu. Seus medos haviam sumido, e ela estava alegre, com Kyōraku segurando sua mão, agora sobre a mesa, sem segredos.
—Eu também, minha amiga.
—E é por isso que eu acho que hoje é o dia certo para contar a vocês… que eu estou grávida! — Todos comemoraram e deram gritos de torcida pela jovem, inclusive os conhecidos de Tsuki nas outras mesas, que vieram abraçá-la e jogá-la para o alto. Haiako, por sua vez, que estava bebendo um gole de seu shōchu, se engasgou ao ouvir aquelas palavras. — Queria muito que o Hideki estivesse aqui hoje para fazer parte disso, mas não consegui esperar! Estou feliz demais.
Um a um, todos a abraçaram e desejaram o melhor, alguns acariciando sua barriga e dizendo palavras e desejos de bençãos. Haiako, no entanto, permanecia sentada, encarando o horizonte, sem reação. Kyōraku notou que ela agia com estranheza, e a perguntou, colocando a mão sobre as costas da mais nova.
—Haiako, você está bem?
—Si-sim... — Ela gaguejou, evitando olhar nos olhos do homem. Quando ele estendeu a mão, foi ignorado por ela, que se afastou do toque, e moveu-se para o lado oposto. Uma queimação atingiu sua garganta e, novamente, sentiu sua visão ficar turva.
—Haiako-chan…
Ao ouvir a voz de Tsuki, ela saiu de seu transe. "Sua idiota, vá parabenizar sua amiga e pare de pensar apenas em si mesma” ela pensou, repreendendo a própria reação. Então, ela se levantou, segurou ambas as mãos da jovem com firmeza, e a olhou profundamente nos olhos.
—Você será uma mãe incrível. Tenho certeza disso. — Então, a abraçou, e fechou os olhos, fazendo o possível para espantar os próprios pensamentos, utilizando de todas as forças para impedir seu corpo de tremer.
—Obrigada, Haiako-chan. Significa muito para mim poder compartilhar isso com você.
—De quanto tempo você está?
—Doze semanas, mas já realizei todas as consultas iniciais!
—E o seu marido, como reagiu?
—Ele também está nas nuvens!
—Espero que sim! Essa é uma notícia maravilhosa. Estou muito feliz por você. Que essa criança seja forte e gentil, como a mãe.
E, novamente, elas se abraçaram. Nesse abraço, Haiako encarava o vazio. Ao longe, Soichiro e Saito a encaravam de volta.
Sentado à mesa, Kyōraku olhava para Haiako, que ainda estava de pé conversando com sua amiga. Ele sabia que algo estava errado, ao notar as mãos trêmulas da mais nova. Seus instintos o alertavam, mas ele não conseguia decifrar o que estava acontecendo. Então, ao olhar diretamente a sua frente, percebeu que Aizen Sōsuke também observava Haiako, com a mesma expressão confusa, e ele soube: Aizen estava com o mesmo sentimento.
+
A noite passava rapidamente e, agora, o bar já não estava mais abarrotado de clientes. Cada Shinigami que encerrava sua noite, despedia-se de Tsuki carinhosamente antes de sair pela porta. Claramente, durante todos os anos que Haiako não havia pisado ali, sua amiga continuou frequentando o lugar.
Aos poucos, o chabudai em que eles estavam também foi esvaziando, evidenciando as muitas garrafas vazias espalhadas. Hinamori e Nanao haviam sido as primeiras a se despedirem, sem que a última desse, antes de sair, um sermão em seu Capitão para que ele reduzisse a bebida para descansar, e fizeram questão de levar uma muito bêbada e desmaiada Rangiku para casa. Um tempo depois, foi a vez de Ukitake, que jurou que estava se sentindo bem e insistiu em ir sozinho para casa.
Por fim, apenas Aizen, Kyōraku e Tsuki acompanhavam Haiako, em um bar agora quase completamente vazio. Um grupo raro de se ver por ali.
—Ei… Haiako-chan.
—Sim? — A mais velha escondia-se atrás de seu copo.
—Eu tenho um pedido para te fazer. Um presente, se você quiser chamar assim.
Ela engoliu a seco. Queria ir embora, esconder-se nas cobertas e não olhar para ninguém. Sentia-se desconfortável, triste e, novamente, ansiosa, por estar sozinha com Tsuki, Kyōraku e Aizen, no mesmo lugar. Naquele momento, Haiako estava refém das próprias memórias. No entanto, apenas acenou, para que a jovem continuasse.
—Canta pra mim? — A mais velha arregalou os olhos castanhos, surpresa, e Tsuki continuou. — Aquela música… que você costumava cantar quando estávamos na Academia.
Aqueles tempos pareciam estar há uma eternidade de distância.
—Você canta? — Kyōraku perguntou, olhando para a mulher, e Haiako desviou o olhar para baixo, envergonhada. Em quase um século em que a conhecia, ele nunca havia ouvido a mulher cantar. Existiam muitas coisas, na verdade, que ele não sabia sobre ela, e ninguém conseguiria fingir não se sentir incomodado com isso para sempre.
—Ela tem uma linda voz. — Aizen respondeu, ajeitando os óculos em seus olhos.
—Muito! E ela costumava cantar essa música linda para mim quando morávamos juntas, antes de dormirmos. Vamos, Haiako-chan! Canta pra mim!
Ela realmente não queria fazer aquilo na frente de Aizen.
—Eu não sei se é uma boa ideia, acho que bebi demais para conseguir cantar bem. — Haiako coçou a cabeça, desconfortável.
—Ah, vamos lá! Agora você me deixou curioso. Eu nunca a ouvi cantar. — Kyōraku a respondeu.
—Isso, Haiako-chan! São três contra uma! E o bar já tá quase vazio, ninguém vai perceber.
—Tudo bem. Mas só um pouco…
Sora ni hitosuji sora-iro no ame
Sakihokoru hana uchitsukete iru
Soba ni aru mono soba ni aru hodo
Sore wa mienai mienikui mono
Ashimoto ni sae mayowanu shisen
Kumori nai hitomi wo ima
Sotto tojireba jitto nemureba ii
Toori ame chiri yuku hanabira ni tatou
Ao cantar, ainda que baixinho, a voz de Haiako possuía uma leveza diferente de quando ela falava. Normalmente, sua voz era assertiva e penetrante, com uma feminilidade sensual mas, neste momento, esse não era o caso. As palavras ecoavam como um sussurro, atingindo o coração daqueles presentes com o significado da letra. Seus olhos fechados escondiam um sentimento oculto, e ela sentia cada frase sair de seus lábios carinhosamente.
De fato, era uma linda voz. Melancólica… e doce. Completamente diferente do que ela deixava transparecer.
Kyōraku a olhava, tapando os próprios lábios com as mãos. Tsuki, por sua vez, possuía os olhos marejados e um sorriso no rosto, sentindo que seu coração poderia explodir de felicidade, lembrando-se de todas as noites que dormia ouvindo a voz de sua amiga cantando aquela mesma canção para si.
Ao abrir os olhos, ela sentiu os sorrisos dos dois sobre si, e teve vontade de chorar, como não fazia há muitos anos. Mas não o fez. Ela já estava acostumada a segurar as próprias lágrimas.
Apesar disso, ao olhar para Aizen… ele não parecia feliz, e forçava um sorriso falso que apenas ela poderia reconhecer. Ela nunca teve tanta certeza antes de que ele estava fingindo ser alguém que não era, como nesse breve momento, e olhou novamente para o chão.
Afinal, aquela "música"… havia sido escrita por ele...
—Viu? Uma linda voz. — Ele declarou, desviando o olhar.
—Estou feliz… — Tsuki completou, trazendo a atenção de Haiako de volta para si. — E também… aliviada.
—Aliviada?
—Sim… aliviada de ver que, mesmo depois do Soichiro-kun, você conseguiu ser feliz.
Tudo ficou preto. O nome que Haiako passou a noite inteira tentando esquecer havia sido jogado tão descuidadamente naquela mesa. Como Tsuki poderia ter sido tão desatenta? Ela se sentiu, mais uma vez, nauseada, e tudo a sua volta começou a girar.
—Soichiro? Quem é esse? — Shunsui perguntou, ainda bem-humorado e curioso.
—Ninguém. — Instintivamente, Haiako o respondeu, de maneira ríspida.
—Ninguém? — Surpresa, Tsuki devolveu, enrijecendo a postura. — Como assim, ninguém, Haiako? — Ela não usou mais o título carinhoso com o qual se referia a sua amiga.
—Tsuki… — A mais velha balançou a cabeça para os lados, como se pedisse para ela parar.
—O que? Eu não posso falar dos nossos amigos?
—Nós podemos conversar a sós, por favor?
—Não… espera aí. Você está brincando de casinha com o Capitão Kyōraku, e não contou a ele sobre o Izaya? E a Saito? E você, Capitão Aizen, também não sabe?
—Hirano Tsuki! — Haiako, agora séria, a interrompeu, batendo ambas as mãos na madeira da mesa, fazendo tremer as louças que estavam sobre o chabudai e, em seguida, levantando-se rapidamente. Os homens olharam para Haiako, surpresos com a descompostura que ele nunca apresentava normalmente. Agora, sim, sua voz era alta, ameaçadora e ríspida. — Não cruze essa linha comigo. A noite acabou.
Aizen e Kyōraku se olharam, apreensivos, enquanto Tsuki levantava de seu lugar com pressa, derrubando alguns copos que estavam próximos a ela.
—Não! — Ela gritou, assustando os poucos clientes que sobraram no local. — Você não vai fazer isso comigo de novo!
Então, Kyōraku e Aizen se levantaram, fazendo gestos com as mãos e dizendo às duas mulheres que se acalmassem. O mais velho dos homens colocou a mão sobre o ombro de Haiako, que estava com o cenho franzido e os punhos cerrados.
—Haiako, do que ela está falando?
—De nada que irá nos fazer bem. Shunsui… acho melhor você ir.
—Eu estou falando do noivo dela, Capitão Kyōraku. — O homem deslizou sua mão, interrompendo o toque. Ele sabia que existiam muitas coisas ainda ocultas sobre o passado de sua companheira, mas não imaginava aquilo. Aizen, nesse momento, também olhou para a mulher, arqueando as sobrancelhas, e arregalando os olhos, que normalmente eram tão calmos e ensaiados.
Haiako, por sua vez, olhava fixamente para Tsuki, incrédula. Ela sentiu o chão sob seus pés ficar frágil, como se pudesse quebrar a qualquer momento, e estava boquiaberta.
—Você não tem o direito de vir aqui depois de todos esses anos e virar minha vida de cabeça para baixo.
—Eu não acredito que você realmente apagou eles da sua vida… Meus Deus… Você fez o mesmo comigo, não é mesmo? Todos esses anos eu achei que você tivesse um excelente motivo para ter saído de minha vida… mas agora eu vejo claramente quem você é.
—Hirano-kun, eu compreendo que você esteja nervosa, mas esse não é o lugar para isso. — Aizen, com seu tom de voz diplomático e doce, tentou acalmar os ânimos da jovem.
Mas o silêncio engasgado de Haiako somente trouxe mais raiva à mais jovem. Então, Haiako se virou de costas para todos, e saiu pelo shoji, abrindo-o com tamanha violência, que sua extremidade saiu dos trilhos. Ela não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo, ou melhor, não acreditava na própria estupidez em pensar que algo diferente daquilo aconteceria.
—Olhe para mim, estou falando com você! — A mais jovem a seguiu, acompanhada dos dois homens, levando a discussão para a parte externa, que agora estava completamente vazia. O vento frio do início do inverno os cortou a pele, deixando a situação ainda mais desconfortável.
—Tsuki, por favor. Eu não consigo fazer isso agora! — Ela sentiu a visão turva, e apertou os olhos diversas vezes na tentativa de voltar ao normal. A mesma sensação de exaustão havia voltado.
—Foda-se! Você é uma mentirosa! Está aqui vivendo sua vidinha dupla e hipócrita, e me deixou sozinha por todos esses anos. Eu passei pelo luto sozinha, Haiako!
—Luto? O que exatamente aconteceu com vocês? — Kyōraku estava sentindo muitas coisas, mas a maior delas era a confusão.
Olhando para Haiako, Tsuki sentiu os olhos encherem d'água e as lágrimas rolarem descontroladamente em sua face, mas não era tristeza. Ela estava com ódio, frente ao silêncio da mais baixa. Naquele momento, ela apenas quis prejudicá-la, para que, talvez, ela sentisse uma faísca da dor que Tsuki havia guardado em si.
—Sim, Capitão Kyōraku. Luto. Afinal, Soichiro Izaya e Kiyomi Saito confiaram a vida deles a ela, antes de morrerem. Eles eram nossos amigos quando nos formamos. Na verdade, o Izaya era mais que seu amiguinho, né não, Haiako?
A mais velha, com as sobrancelhas tristes, pediu a Tsuki que parasse.
—Tsuki-san… Acho melhor encerrarmos por aqui, antes que as coisas fiquem mais sérias. Vamos para casa, Haiako. — Mesmo querendo ouvir o restante da história, Shunsui a interrompeu. Por mais que estivesse ressentido e decepcionado, ele quis proteger sua parceira da exposição.
—Não, ela não vai sair daqui até me dar uma satisfação.
—Tsuki, vá para casa. Você passou dos limites.
—Você é uma cara de pau mesmo, né?
—Eu sugiro que você me respeite, e não diga coisas das quais irá se arrepender. — Ela se aproximou da mais nova.
—Nós já passamos desse ponto! Vem cá, você não tem vergonha? De fingir que está tudo bem, de ter me ignorado todos esses anos? Você me jogou no lixo, da mesma forma que fez com eles!
A cada palavra de Tsuki, Haiako se sentia mais próxima do limite. Até que ela, finalmente, cruzou a linha.
—Você não sente nada, sabendo que matou o homem que amava você? Sabendo que deixou nossa amiga morrer?
E ali estava. As palavras que não deveriam ter sido ditas. Haiako colocou a mão sobre a própria boca e olhou para o lado. Naquele momento, ela não teve forças para encarar nenhum dos três que ali estavam.
—Haiako… isso é verdade? — Shunsui questionou, enquanto Aizen segurava suavemente os braços de Tsuki, incentivando-a a respirar fundo.
Ainda olhando para o lado, ela não teve escolha.
—Sim. Participamos de uma missão há muitos anos, fomos atacados, e eu não pude salvá-los. Não foi minha intenção machucá-los, mas eu não tive controle dos meus poderes.
—Dá pra ser mais reducionista que isso?! Ela não só perdeu o controle. Ela matou ele. Ela matou o homem que ia pedi-la em casamento. Todos esses anos eu senti pena de você. E pra quê?
—Eu nunca quis a sua pena.
—Não. Na verdade, o que você realmente queria era que eu tivesse morrido junto com eles, não é mesmo? Assim, ia te salvar da culpa que você sente, e você não ia ter que se preocupar em revelar a sua incompetência para os outros.
—Isso não é verdade, Tsuki…
—Conta outra! Eu estou cansada de você. Sempre sofrendo, sempre sugando a felicidade dos outros pra dentro da sua tristeza. Você é uma mulher cruel, Haiako, e tá na hora das pessoas saberem disso. Sabe por quê? Você não passa despercebida pelo mundo. Suas escolhas afetam as pessoas! Me afetou! — Conforme ela falava, sua energia espiritual se transformava em pressão, crescendo e perdendo o controle.
As palavras da jovem a atingiam como lâminas, reabrindo feridas de memórias cicatrizadas. Ao lado de Tsuki, novamente, ela era assombrada pelas imagens ensanguentadas de seus amigos, que pareciam a olhar com tanta tristeza... Seu coração estava repleto de mágoa, vergonha e arrependimento, e tudo isso se traduzia em um olhar colérico.
—Eu preferia… que tivesse sido você. Se fosse para eu perder alguém, que tivesse sido você.
—Oi… você não quer dizer isso. — Shunsui a interrompeu.
Então, olhando fixamente nos olhos de Tsuki, a mais velha se entregava ao seu ódio. Sua reiatsu crua, a qual ela sempre escondia de todos e mascarava a todo custo, era liberada de seus punhos cerrados sem pudor, e os seus olhos incandescentes emitiam um brilho azul índigo.
Aquela demonstração de forte emoção e poder mescladas em uma pressão espiritual sufocante foram o suficiente para que a mais jovem desse dois passos para trás, e segurasse a própria barriga em apreensão, enquanto uma gota de suor escorria por sua testa. O corpo de Tsuki respondia àquela reiatsu densa e negra arrepiando todos os seus pelos, e foi o suficiente para que ela se calasse.
Ao notar que a jovem de cabelos negros possuía dificuldades em lidar com a reiatsu ameaçadora de Haiako, Aizen colocou-se à sua frente, protegendo-a. Shunsui, por sua vez, aproximou-se de sua companheira, pronto para segurá-la, caso necessário fosse.
Com os nervos à flor da pele, a situação ameaçava se agravar a qualquer segundo.
No entanto, ao olhar a expressão amedrontada de Tsuki, escondida atrás de Aizen, e a forma com a qual ela segurava o próprio abdômen com ambas as mãos, Haiako olhou para as próprias mãos trêmulas, que emanavam sua energia perigosa. O ódio se transformou em vergonha, e a vergonha… em tristeza.
Então, como se engolisse a seco os próprios sentimentos, toda aquela reiatsu se dissipou.
—Eu também... — Haiako respondeu, com um sorriso melancólico no rosto, surpreendendo a todos. — Eu também queria… que tivesse sido eu.
Um silêncio desconfortável tomou conta dos quatro. Mesmo Tsuki, ao ouvir a resposta de Haiako, se perguntava se havia exagerado nas palavras. Ela não queria que Haiako estivesse morta, claro, mas estava com quase um século de mágoa acumulada e engasgada, se sentindo sozinha, e sem saber do que realmente havia acontecido naquele dia.
—Eu… sinto muito, Tsuki... mas eu não sou forte o bastante para lidar com isso. Capitão Aizen, Capitão Kyōraku, me deem licença. — Então, deixando apenas os traços de sua energia espiritual pesada atrás de si, Haiako desapareceu, utilizando Shunpō para não ter de encará-los.
Deixando suas lágrimas livres para escorrer, Tsuki se virou na direção oposta, caminhando sozinha pela noite.
—Desculpa, gente… Eu não quis fazer mal a nenhum de vocês.
Kyōraku e Aizen haviam sido deixados sozinhos, se olhando apreensivos sob a noite escura e fria.
—Acho que… — O mais velho suspirou, apertando os olhos com o polegar e indicador, instantaneamente sóbrio por aquela confusão, pois a bebida havia saído de seu sangue em forma de tensão. — Não. Nem sei o que achar. Você sabia disso, Sōsuke?
—Apenas sabia que elas haviam perdido dois amigos em batalha, Capitão Kyōraku. Mas não sabia o que realmente havia acontecido entre eles. A verdade é que ainda não sabemos.
Shunsui riu de si mesmo.
—Então você já sabia mais que eu.
—Eu irei conversar com a Kikuchi-san. Eu posso ajudá-la a se acalmar… Se estiver tudo bem para você, claro.
Kyōraku sabia que Aizen e Haiako haviam sido próximos na juventude, conforme ela mesmo havia compartilhado, mas não conhecia a verdadeira extensão da relação dos dois, ou os motivos que o levaram a se afastar. Ao ouvir Aizen dizer que iria atrás da mulher, não pôde evitar se sentir ainda mais distante e excluído da vida de sua parceira.
—Claro, Sōsuke… Algo me diz que ela não vai querer conversar comigo agora.
+
Aizen decidiu procurar Haiako em sua própria casa, mas não a encontrou. Ele sabia que, em momentos nos quais a mulher se sentia triste, a solidão a deixava desconfortável. Como uma mulher tão forte poderia ser tão carente? Então, soube exatamente onde procurá-la.
Caminhando sozinho na madrugada com o frio atingindo suas bochechas ele revivia os acontecimentos da noite na própria mente. Aizen sempre havia sido um homem pragmático e observador, que enxergava além do que as outras pessoas conseguiam ver, e percebia detalhes, muitas vezes, ocultos nas entrelinhas.
O único motivo para ele ter frequentado aquele lugar era para que pudesse observar Haiako de perto. Ele percebia a maneira errática e inconsistente com a qual ela estava agindo nas últimas semanas, seus olhos distraídos e as tentativas de evitá-lo. Por isso, quando Haiako surgiu em sua sala, confusa e com um olhar vazio, ele sabia que ela não estava sã.
A forma que ela havia ficado nervosa ao ouvir sobre a gravidez de sua amiga, o fato de ter escondido um relacionamento com o chamado Soichiro Izaya, e os momentos em que Haiako olhava para o nada como se ele a encarasse de volta…
Era essencial que Aizen movesse suas peças com mais rapidez. Ele se sentia perdendo o foco do que realmente importava todas as vezes que estava na presença daquela mulher e, ao se ver a sós com ela, olhando-a morder os lábios e segurando suas mãos, ele sentiu o próprio coração falhar. Por muito pouco, ele não se abriu com ela.
Mas Haiako era imprevisível e instável, e a noite de hoje apenas havia confirmado isso. Se ele realmente estava disposto a tê-la ao seu lado, precisava ser extremamente meticuloso e detalhista, e juntar rapidamente todas as peças de quem realmente era aquela mulher antes. O desafio de resolver o quebra-cabeça que era Haiako fazia Aizen se sentir estimulado e curioso, mas ele sabia o risco que corria.
Ao chegar no corredor dos Oficiais da Divisão 5, Aizen pôde ver a luz amarela e solitária do escritório de Haiako iluminando a escuridão do lugar. No entanto, quando abriu o shoji e entrou cautelosamente em sua sala, deparou-se com o local vazio, com as janelas abertas e o vento gelado tomando conta dos cantos. Inspirou o aroma mesclado de cereja e jasmim que acusavam a presença recente da mais nova, e olhou ao seu redor: pequenos detalhes mostravam que aquele lugar era ocupado por Haiako. O chá de frutas vermelhas que secava no fundo da xícara, os papeis sobre a mesa preenchidos com uma caligrafia feminina, os óculos deixados abertos, e o pequeno espelho ao lado de um pente que ainda possuíam poucos fios de cabelo da mulher.
Sim, ele percebia detalhes que ninguém mais via. Ele via Haiako por quem ela realmente era.
No armário lado da mesa, que se estendia até o teto, era possível perceber uma fresta, indicando que havia sido deixado aberto. O homem passou os dedos delicadamente pela abertura, e afastou as portas de correr. No interior, percebeu que um dos cobertores havia sido retirado.
Um barulho veio de cima, chamando sua atenção para o teto. Com um sorriso, ele percebeu onde encontraria Haiako. Cuidadosamente, saiu pela janela, assim como deduzira que a mulher fez, antes dele chegar. Ao lado da janela, na parede externa, existiam estruturas de ferro, que se assemelhavam a mãos francesas, feitas para servir de apoio aos ramos de uma parreira que subia pelo prédio. Então, ele usou aquelas estruturas como degraus para subir ao telhado inclinado do escritório, com as mãos nos bolsos.
Ao fazê-lo, a vista Seireitei se tornava mais evidente. Próximo a janela, o belo jardim de lírios-do-vale brancos era iluminado pela lua. Agora, sobre o telhado, encontrou Haiako sentada e encolhida, coberta por uma manta azul. Ao seu lado, uma garrafa de sake a fazia companhia, e suas bochechas e nariz estavam avermelhados pelo frio. Solitária, ela olhava para os prédios à sua frente. Sua beleza estava tão delicada e intocada, que o homem hesitou em interromper o silêncio da mais nova.
—Aquela briga foi uma forma de disfarçar o fato de você cantar para outras pessoas a música que fiz para você?
Ela deu um riso suspirado, surpreendida pela pergunta.
—Com certeza. Foi tudo uma grande estratégia para provocar você.
Ele sorriu.
—Achei que você fosse perder o controle.
—Eu também… — Por educação, ela ofereceu a garrafa de sua bebida, mas o homem negou. Ele realmente não bebia. Em vez disso, Aizen tomou a liberdade de abrir a manta que cobria Haiako, e envolveu o próprio corpo junto ao dela. Agora, eles estavam sentados, lado a lado, cobertos, com seus braços e pernas se tocando.
—Você quer conversar?
—Aizen, eu não consigo nem olhar para você agora. Estou petrificada de vergonha.
O homem voltou seu rosto para a mulher e, com uma das mãos, também virou o dela para si, fazendo-a, ainda que de maneira suave, a olhar em seus olhos.
—Não há ninguém nesse mundo que a conheça melhor do que eu. Eu sinto as palavras engasgadas na sua garganta, sufocando você. Não há nada que você possa dizer que irá me fazer enxergá-la de forma diferente. Me conte a sua versão, nenhuma outra me interessa.
Olhando nos olhos penetrantes do homem, Haiako apenas acenou.
Então, ela contou tudo o que havia acontecido naquele tempo. Seu relacionamento intenso com Soichiro Izaya, a nova amizade com Kiyomi Saito, e tudo o que aconteceu durante aquela última missão. Sobre como perdeu o controle da situação, deixou seus amigos se machucarem pelo medo de usar seus poderes e, por fim, como causou a morte de Izaya pelo seu próprio descuido. Também contou sobre a borboleta infernal de asas partidas. Um detalhe pequeno, que passaria despercebido por qualquer outra pessoa. Mas não por Aizen Sōsuke.
Então, ela retirou a manta quente de si, e com as mãos pequenas e delicadas, segurou a mão grande de Aizen, deslizando seus dedos sobre o próprio colo, abaixando vagarosamente o decote de sua roupa.
—Haiako… — O homem, que até então ouvia atentamente com uma expressão séria em seu rosto, sentiu seus sentidos desorientados quando a mulher colocou sua mão sobre aquela região que ele se forçou tantas vezes a evitar olhar, e crispou os lábios para se conter. — Não faça isso comigo…
Conforme ela deixava o decote mais exposto, revelando as pequenas pintas já conhecidas pelo homem, uma fina serpente tatuada em sua pele surgia. Os detalhes eram finos e delicados, e ele passou os olhos pela boca, olhos e escamas daquela víbora retorcida entre os seios fartos da mulher. Então, olhou novamente nos olhos de Haiako, que o encarava, melancólica. Era como se bochechas vermelhas e os lábios grossos arroxeados pelo frio chamassem o homem. Naquele momento, ele precisou controlar cada partícula de seu corpo para não beijá-la.
—Foi aqui que ele acertou você, não é mesmo?
—Sim. Saito e Izaya morreram com os corpos completamente descaracterizados. E a Tsuki… ela tem cicatrizes até hoje. Mas eu, não. No momento em que ativei minha Zanpakutō, meus ferimentos desapareceram, como se roubar a vida deles estivesse me curando. Você já viu alguma shikai fazer isso?
—Não posso dizer que já. E esses poderes…
—Mudaram, ficaram mais fortes, conforme eu também evoluía. Hoje, nem mesmo eu sei do que sou capaz. E nós dois sabemos bem que tem algo de errado comigo.
—Não há nada de errado com você. — O homem sorriu. — Você é a mulher mais fascinante que eu já conheci. — A mulher acenou negativamente, enquanto Aizen a olhava com as sobrancelhas arqueadas. — Mas, talvez… seja melhor você não ir ao Mundo dos Vivos amanhã.
—Você ficou maluco? Isso era antes. Eu daria qualquer coisa para fugir da Soul Society agora, e não ter de encarar…
—Ele.
—É… Ele.
Então, os dois ficaram brevemente em silêncio. Falar sobre Kyōraku não trazia prazer algum para o homem, e ele rangeu os dentes ao imaginar a possibilidade de Shunsui ter a sua mulher para si. Aizen voltou a cobrir a morena com a manta, e eles compartilharam novamente o calor um do outro, enquanto encaravam o horizonte.
—Eu pensei que, se não lidasse com a Tsuki, ficaria mais fácil lidar com a situação toda. Ela tem razão, eu sou mesmo cruel. Eu sabia que ela estava sofrendo sozinha, e fiz questão de manter assim. A afastei, me isolei. Eu não conseguia olhar para ela sabendo que não pude salvar duas pessoas que ela mais amava.
—E você, o amava?
Haiako suspirou.
—Eu amava a ideia de ser amada por ele. Ela falou, não? Que ele era meu noivo? — O homem acenou. — Mas isso não é inteiramente verdade. Ele realmente estava prestes a fazer o pedido. No calor da batalha, eu estava decidida que iria amá-lo, mas…
—Mas não escolhemos quem amar.
—Não, não escolhemos… — Haiako olhou profundamente para o homem alto ao seu lado. — E, sendo brutalmente sincera, eu não acho que conseguiria seguir adiante. Por eu ser quem sou, estávamos fadados ao fracasso. — Haiako olhou para Aizen, com as sobrancelhas arqueadas de tristeza. — Assim como… você e eu.
Fracasso. Aquela foi a primeira vez que Aizen ouvia o seu relacionamento com Haiako ser reduzido a uma única palavra. Tão pequena, e tão poderosa. Fracasso. Ele sentiu sua boca amargar.
—Isso não foi culpa sua.
—Você diz isso agora… mas tem muito o que você não sabe sobre mim.
—Tem muito o que você não sabe sobre mim, também.
Ela riu timidamente, lembrando de suas últimas experiências nos quarteis da Divisão 5, em que vivenciou momentos nos quais achou estar enlouquecendo.
—Eu tenho certeza que sim.
Vagarosamente, o sol surgia no horizonte, colorindo as paredes brancas com sua luz alaranjada. Há quanto tempo os dois estavam ali, conversando? Até mesmo Aizen havia perdido a noção das horas, envolvido pela voz e aroma doce da mulher. Isso não era do feitio dele.
—Haiako… — Ele pausou, crispando os lábios e cerrando os punhos. — Eu tenho certeza de que vou me arrepender disso…
—O que?
—Uma vida vivida em mentiras não é uma vida feliz. Confie em mim.
—Eu sei…
Sentados, assistindo o dia amanhecer, Aizen retirou seus óculos, e fez um último pedido.
—Cante para mim.
Inicialmente, a mais nova hesitou. Mas, então, após olhar para aquele homem sem os óculos, com os olhos refletindo as cores vibrantes do céu e um sorriso nostálgico nos lábios, da mesma forma que ela o conheceu há tantos anos… Ela cantou todas as palavras de sua antiga canção, com sua voz suave e melancólica.
Pouco a pouco, ele via o quebra-cabeça se completar diante de seus olhos. Existiam aspectos e peças que ele ainda viria a descobrir mas, por hora, estava satisfeito por ter feito a mulher se abrir.
Ainda assim, algo havia chamado sua atenção. Algo que ele julgava ser essencial…
A borboleta.
Finalmente, ele sabia exatamente onde procurar.
Aizen, que antes queria que ela tivesse escolha, agora estava decidido, mais que nunca: ele teria aquela mulher para ele. Só para ele. A todo custo.
E ela construiria um novo mundo ao lado dele. Disso, ele estava certo.
+
Hanabira — Shō Hayami (Aizen's Voice Actor)
Tradução aproximada:
Uma linha de chuva azul-celeste cai dos céus
Atingindo uma flor em plena floração
Algo que está perto, algo com algum limite
Quanto mais perto chega, mais difícil é de se ver.
Aos meus pés estava um olhar perdido,
Agora, meus olhos estão claros.
Está tudo bem se você fechar os olhos gentilmente e dormir profundamente,
Uma chuva de pétalas de flores provavelmente irá cair.
Fale com o autor