OFIÚCO: OS PERGAMINHOS PERDIDOS.

3 "Os nossos caminhos são inumeráveis, mas incertas são as nossas estadias”. Saint-John Perse.


O mago despertou com o corpo dormente e cansado pelo ritual. Sentindo a cabeça latejar pensou nas visões enevoadas que os espias mostraram no seu turvo transe de ecos, os lugares parecidos com as descrições de Sir Donovan... Por onde começar? Lembrou-se da algazarra na entrada de um prédio. Paramédicos carregavam um corpo para a ambulância e... – Pelos Mestres Ascencionados! Era um eleito! – E havia muito sangue em seu terno. – Mas o que aconteceu?

Cesar abriu os olhos e percebeu um travesseiro aparando sua cabeça. Um lençol também lhe cobria. Sentiu um cheiro enjoativo no quarto e se espantou quando Íris mostrou a cabeça pela porta entreaberta. – O café da manhã está quase pronto! Não sabia como preferia os ovos, por isso diversifiquei. – Ela deu uma risadinha infantil.

— Iris?! O que faz aqui? – Ela entrou devagar ajeitando o cabelo atrás da orelha. Seus grandes olhos azuis brilhavam.

— Professor... Cesar... Eu não sabia que estaria ocupado. Achei que poderíamos conversar e quando cheguei, encontrei o senhor, você, desacordado. Fiquei preocupada. Você passou a noite delirando e...

— Espere, passou a noite aqui? Comigo? – O mago vestia apenas sua longa bata cerimonial, desatada.

— Você não parecia bem. Pensei que seria melhor vigiá-lo e...

— Iris! Quantas vezes falamos sobre conveniência e oportunidade? O momento não é adequado. Você não deveria estar aqui!

Ela recuou com os olhos mareados e deixou o quarto. Cesar sentiu sua mágoa e quando levantou para se desculpar ouviu a porta bater. Suspirou e questionou se foi muito severo, mas o dia não era propício para tratar disso. Seguiu para o banho resolvendo que sua prioridade seria achar o indiano levado na ambulância. Em sua visão, as torres gêmeas em forma de asas com estruturas e vidros escuros tornavam o Darkwing Place inconfundível. E supondo que o homem fosse um executivo do maior complexo negocial de San Thomas, também seria provável que seguisse para o melhor hospital no centro. Minutos depois, Cesar já partia a caminho do metrô.

AKILA SHANI SAIU DO TÁXI E FOI ATÉ O RESTAURANTE. Para seu deleite, Jampierre Dupré em pessoa lhe esperava na suntuosa entrada do Chéri Dupré. Com toda pompa ela foi cortejada e convidada a entrar sendo conduzida pelo tapete carmesim. Akila desfilou pelo luxuoso piso de mármore invulnerável à malícia e a inveja que escorria dos olhares, enquanto as luzes dos lustres de cristal refletiam um campo de estrelas aos seus pés. Um cavalheiro bem afeiçoado, ignorando sua loira companhia à mesa, levantou-se para referenciá-la e ela retribuiu com um sorriso generoso embora não se lembrasse do sujeito.

— Puis, mademoiselle, votre bureau. Sua mesa preferida, como sempre. – Falou o senhor Dupré com olhos suplicantes. – Irei servi-la nesta ocasião. Peça o que desejar.

— Merci, Jampierre, merveilleux! – Akila tocou os lábios com o dedo indicador. – Agora... Onde está monsieur Robert?

— Oui, mademoiselle. Ele envia desculpas pelo atraso e diz que chegará em poucos minutos. Enquanto isso gostaria de provar nosso Château Mouton-Rothschild?

— Safra de 1945, certo? – Perguntou disfarçando a irritação pelo atraso do político.

— Correto, senhorita. Nosso melhor vinho.

— Então eu aceito, s’il vous plaît.

Akila desejou não esperar muito. A reputação de Robert Keynes como bon vivant superava sua paciência e ela não estava disposta a tolerar muito seus caprichos. Contudo, como seus recursos patrocinariam as palestras, talvez precisasse suportar.

Não demorou e Robert apareceu altivo no salão. Avistou o lugar reservado e deparou-se com duas figuras de Vênus: a bela estátua de mármore atrás da mesa e a belíssima mulher de lábios carnudos, olhar ferino e o cabelo preso que mostrava uma tatuagem oculta subindo pelo pescoço adornado com um pingente pendurado no cordão de ouro.

— Senhorita Shani! Perdoe-me pela demora. Acredita que meu alfaiate perdeu meu terno novo?! Céus, as pessoas não conseguem cumprir uma simples tarefa! O que está acontecendo com o mundo?

— É um prazer encontra-lo, Senhor Keynes. Talvez devesse aprender a costurar! – Akila estendeu a mão e ele, rindo do conselho, beijou-a e sentiu aquele perfume arrebatador. Desabotoou seu Brioni e sentou.

— De fato. Quanto mais tarefas são delegadas, maiores os riscos do negócio. Mas então, como se sente? Preparada para as palestras? Seu público pode intimidar.

— Talvez aos políticos, mas não a mim. – Ela respondeu provocante. – A propósito, agradeço sua generosa contribuição.

— Não precisa agradecer. Minha família já financiou as escavações do seu pai e não vejo razão para ser diferente no seu caso. A propósito, você também é arqueóloga?

— Não. – Akila encarava Robert quase sem piscar. – Arqueologia egípcia é a paixão do meu pai, mas este projeto, não se ofenda, é mais um tipo de entretenimento enquanto passo férias na cidade.

— Interessante. Quando li sua proposta de financiamento eu pensei que estivesse no ramo também. Então, qual é o seu trabalho?

— Se realmente não sabe ficarei desapontada... Sou uma diplomata, por assim dizer. E o senhor, além de bon vivant, tem algum emprego? – Robert sorriu encantado com seu humor ácido e petulante.

— Meu emprego... Não sei. Quando não estou gastando minha herança com frivolidades, e isso inclui o patrocínio de certos eventos, também uso meu tempo para achar a Senhora Keynes.

O dono do restaurante retornou com o vinho e o despeito velado. Robert e Akila degustaram a bebida em silêncio enquanto dissimulavam a mútua atração. Depois escolheram a entrada, um prato sofisticado e envolvente para combinar. Ele retomou a conversa.

— Então você falará sobre as pragas do Egito. Esse tema é bem conhecido. Acha que impressionará os ouvintes?

— Veremos. Oferecerei uma nova possibilidade científica para essa cadeia desses eventos.

— Entendo. Não vai dar crédito a Deus...

— VOCÊ só receberá o crédito do patrocínio.

— Eles se renderão à sua palavra ou sua beleza, eu garanto. Se já estou vencido, não terão qualquer chance.

— Vencido? Que surpresa, um político mentiroso... Mas, confesso, acho excitante comandar homens poderosos. O senhor é poderoso?

— Não creio. Pessoas só me fazem favores, nada mais. – Akila sorriu, dentes alvos irretocáveis.

— E eu lhe deverei algum favor por seu... “incentivo”? – Ela tomou um gole de vinho e mordeu levemente os lábios. Robert lhe encarou como um predador sagaz.

— Um favor? Não consigo pensar em nada. Sua companhia é a melhor compensação no momento, mas... – Mapeou o busto de Akila. – Sim, pode me conceder um pedido?

— Peça, por favor. – Cerrou os olhos sedutoramente. – E esteja preparado para as consequências...

— O desenho no seu pescoço, essa tatuagem. Parece uma asa, mas não consigo decifrá-la... – Akila gargalhou sem fazer tipo. – Desejo saber, ou melhor, quero vê-la.

— Só isso? Já me fizeram pedidos menos razoáveis... Muito bem...

Akila levantou e virou com a mão no fecho do vestido insinuante, pronta para abri-lo. Todos repararam ansiosos e constrangidos, mas Robert suplicou que parasse temendo sua audácia. Ergueu-se e contornando a mesa sussurrou ao seu ouvido para acompanhá-lo à sua casa. Ela sorriu e se deixou levar até a saída enquanto o circunspecto segurança turco, do lado de fora, sinalizava para trazerem o carro luxuoso.

Robert parecia descuidado com a própria proteção. Havia o idoso motorista, o guarda-costas sentado à frente e nenhuma escolta a mais. Afrouxando a gravata, foi preparar uma bebida enquanto ela media seus atributos: a pele branca contrastava com o cabelo e os olhos negros; não era forte, mas esbelto e altivo; seu porte fazia o terno cair como num manequim; sua autoconfiança despretensiosa lhe conferia um charme magnético. Recebeu a bebida.

— Este pingente. Já vi esse símbolo em algum lugar. O que é?

— O Olho de Hórus. – Ela respondeu tocando-o com dois dedos elegantes.

— Fascinante! – Exaltou de modo ambíguo e sedutor.

Robert chegou mais perto e acariciou seu pescoço. Comparou o pingente com o seu olhar. Então a beijou lentamente tocando suavemente seus lábios. Akila recuou aparentando um surpreendente recato e Robert sorriu cheio de contentamento e paixão.

Seguiram para o Éden, o bairro de mármore e das rosas. Akila reparava as mansões tentando adivinhar onde Robert morava. Finalmente o carro manobrou e parou na residência que não era a maior, mas tinha um ar nostálgico e até acolhedor. Sua decoração ao modo inglês confirmava a ascendência do anfitrião e fazia Akila pensar no pai que morava em Londres.

— Não se sente solitário nesta casa? – Perguntou reparando a coleção arthuriana na estante próximo a entrada.

— Estou acostumado. Minha família é pequena. Meu pai sempre foi ausente, na vida e na morte, por isso eu trouxe Victória para ficar comigo.

— Victória...

— Minha irmã, “meia-irmã”, na verdade. Ela não está em casa. Passa a maior parte do tempo no centro.

Um serviçal apareceu trazendo champanhe. Akila pegou as taças e a garrafa. Sorrindo, Robert pensou se deveria convidá-la para o quarto, mas temendo ser desagradável, só conseguiu sugerir o escritório para conversarem. – Formal, mas conveniente, ela pensou.

Subiram a escada e entraram na sala. Os documentos espalhados sugeriam como o político estava ocupado. Robert sentou-se no antigo divã e recebeu o champanhe servido por Akila. Ela repousou sua taça sobre os relatórios de propósito e caminhou sensualmente até sua frente. Repetindo o gesto do restaurante, pôs-se de costas para ele e desceu o fecho do vestido preto que deslizou sofrido ao se separar da sua pele. Sobre os saltos olhou por trás do ombro e sorriu para Robert que estava deliciosamente intrigado com as tatuagens espalhadas pelo corpo escultural: havia um falcão cuja asa se estendia até seu belo pescoço e tantos hieróglifos sendo que os maiores representavam divindades egípcias... Akila virou-se... Ele apreciou seus lindos seios e descendo mais seus olhos pareceram eletrificados com tanto desejo...

Akila soltou o cabelo que desceu como cascata pelas costas. Ela se aproximou desnuda e puxou Robert pela gravata arrancando-lhe um beijo ardente. Com uma risada indecifrável ela tomou seu lugar no divã, lhe virou deixando-o de joelhos e revelou sua rósea entrância cinzelada pelos deuses. Como escravo o político serviu ao seu desejo enquanto ela brincava com seu pingente. Depois sua dedicação foi inesquecivelmente recompensada. Exaustos, eles adormeceram, mas só Robert estava vencido.

O MAGO DESCEU AS ESCADARIAS DA ESTAÇÃO NOSTRADAMUS. Poucos passageiros esperavam o metrô. Um homem saltou do trilho escuro para a plataforma e sentou-se ofegante no banco. Cesar reparou sua aparência rude, o cabelo desgrenhado, a pele marcada e oleosa. Parecia aflito. Logo o transporte chegou e os passageiros entraram. De pé, Cesar considerou a visão turvada do Darkwing Place, do corpo ensanguentado e como seria difícil localizá-lo e chegar ao seu quarto... Uma ideia estalou em sua mente: o pai de Iris era médico e se a filha pedisse talvez ele pudesse facilitar o encontro com o paciente. Cesar procurou o número da menina no celular e se deu conta do conveniente auxílio que a tecnologia lhe prestava. Achou graça e se perguntou se a união da magia e da ciência seria viável. Quando começou a divagar, sua percepção lhe remeteu aos gemidos crescentes no vagão. Então percebeu aquele sujeito desleixado num canto, esfregando os braços como se tentasse remover alguma coisa da pele.

O transporte parou e mais passageiros entraram. O homem agoniado se jogou no chão tentando raspar as costas enquanto rasgava a camisa para esfregar o peito. Todos ficaram preocupados. O metrô saiu da estação e ele já gritava desesperado. Três pessoas se aproximaram para acudi-lo e se chocaram com o muco acinzentado, viscoso e fétido que sua pele expurgava. – Suna! – Alguém gritou. – “Suna” era a alcunha usada para apontar os Supra sapiens ou Duplo S, chavões criados pela mídia para as pessoas que manifestavam anomalias e capacidades sobrenaturais. A visão era deplorável. O coitado se contorcia e a pena das pessoas se transformou em repulsa pela aparência lamosa e o cheiro degradável que sua pele expelia. Ao se debater o movimento do seu braço liberou um projétil lodoso que resvalou no rosto da mulher que gritou em pânico. – Socorro! Ele me atacou! Meus olhos! Ele me cegou!

Nesse instante uma onda de intolerância tomou os passageiros. Um homem corpulento, físico de estivador, chutou a costela do sujeito que gritou. Num impulso instintivo, os outros começaram a agredi-lo com pontapés e ofensas enquanto ele implorava ajuda.

— Não, não façam isso, foi um acidente. – Cesar suplicou. – Ele não teve culpa. Parem! Lobos!

— Lupus pilum mutat, non mentem. Eles não irão parar!

— Nigredo! – Cesar gritou apavorado ao ouvir aquele que foi preso nos confins da sua mente. – Você não deveria aparecer agora, maldito, como se libertou?

— Achou que o velho poderia me conter? Ele criou muitas encruzilhadas, mas achei o caminho para alcançá-lo. Agora devolva o que é meu, impostor! – Cesar arremessou o próprio corpo contra a parede do vagão.

— Não! – Gritou cerrando os dentes. – Você nunca voltará! Ficará preso até a Nova Era, miserável!

— Nova Era? – O outro gargalhou. – Seu estúpido! Acha que essa gente conseguirá evoluir para alguma coisa melhor do que isso? Veja a sua esperança! – O pescoço de Cesar foi forçado à direção do suna judiado pelos passageiros. – Agora olhe! Eles carregam a semente do caos. Não haverá aurora no futuro deles!

— Cale-se! Você não conhece a luz! Sombrio! Nigredo!

— Não menospreze a treva. A escuridão é a mãe da luz e eu sou o seu senhor. Agora devolva o que é meu ou acabarei com esta selvageria aniquilando todos neste lugar!

— Monstro! A magia nunca servirá ao seu propósito. Você não pode controla-la!

— Não? Não?! Seu tolo, você faz uso do poder que me pertence. E agora assumirei o controle!

— Pelos Mestres Ascencionados! Jamais! – O mago bateu sua nuca contra a parede do vagão.

— Você é fraco, “Cesar”. Já esqueceu o que fiz aos seus protegidos? Agora imagine o que farei com esses “inocentes”?

— Você não vai sair, não vai sair... – Cesar repetiu batendo a nuca. Começou a entoar seu mantra mais poderoso de proteção. As imagens da chacina dos neófitos agrediam sua mente enquanto ele tentava não ceder ao controle do outro.

— Eu vou incinerá-los!

— Nigredo! Agora você retorna ao fosso! Que a luz prevaleça, eu ordeno! – Houve um clarão em sua mente e Cesar caiu atordoado.

O metrô parou novamente. Arriado ao lado do banco, o mago só pôde testemunhar os outros pegarem o corpo inconsciente do suna e jogá-lo na estação. Quando as portas fecharam, alguns passageiros viram o homem esguio sentado no piso e correram para ajudar pensando que também foi atacado pelo marginal. Cesar tentou disfarçar o grande mal-estar e dispensou o apoio se encolhendo. A intolerância aos sunas tornava-se maior e mais violenta. – Isso não vai parar... Mas eles só atacam o que não compreendem. – Tentou se consolar, porém, no seu íntimo, sabia que a intolerância aproximava as pessoas da Espiral.

MURIEL SEGUIU VAGANDO, SEM RUMO. O sinistro recente ainda ecoava em sua mente. De repente, a maior alegria da sua vida foi abolida pelo terror que não seria ignorado por Deus, sabia. Esboçou um choro que não brotou do seu espírito minguado. Então sentiu que não poderia buscar sua mãe antes de compreender o que havia se tornado. Primeiro precisaria se encontrar. Não arriscaria ferir quem mais amava com a pestilência em suas mãos, embora, de fato, só amasse uma ideia e um futuro incerto.

— Irmã? – Muriel ouviu uma voz cansada e paternal lhe chamar. – Posso lhe ajudar? – Um idoso padre acenou do outro lado da rua. Ele instruiu três homens a carregar o órgão de madeira com tubos cobreados para dentro da modesta igreja e atravessou a rua ao seu encontro.

— Boa tarde, Irmã. Sou o padre Andrew. Você não parece bem. Posso ajudá-la?

— Não sei padre... Acho que não mereço nenhuma ajuda... Carrego um enorme fardo...

— Não diga isso, minha filha! O arrependimento é a ponte para o perdão. Não existe erro que não seja remido pelo sacrifício de Cristo. Agora, por favor, me diga o seu nome. Você deve querer se lavar, deve estar com fome. Entre comigo.

— É Muriel, padre. E não sinto fome, mas gostaria de tirar essas roupas. São mais imundas que aparentam.

— Então me acompanhe, por favor. Nossa Casa é humilde, mas pode acolher seu espírito.

Atravessaram a rua e entraram enquanto um gato furtivo seguia espiando. No centro do altar Muriel viu a imagem de São Miguel Arcanjo para quem rezou em sua última aflição. Ficou à sua frente e ajoelhando-se no primeiro degrau pediu perdão e proteção contra o mal. No final da oração ela viu o padre esperando com roupas limpas e um sorriso casto.

— Aqui está, minha filha. Tentei separar as melhores doações para você. Espero que agrade. Agora vou mostrar onde você pode se lavar. Depois siga adiante no mesmo corredor e vire à direita. Estarei a sua espera esquentando a sopa.

Muriel agradeceu e seguiu o padre até o banheiro. Então fechou a porta e acomodou o modesto vestido floral sobre a pia de cimento. Pisou no chão frio e se despiu desejando a água lhe purificasse. Ensaboando o corpo lentamente, se distraiu observando uma aranha tecer uma teia estrelada. Tecer a teia dava sentido à sua existência. Chorou lágrimas disfarçadas no chuveiro. Depois veio um inesperado sorriso, sôfrego e pálido.

Ela saiu do banheiro incomodada com o vestido e a sensação de nudez provocada por sua leveza. Seus pequenos seios experimentavam uma liberdade diferente. Uma alça escorregava todo instante pelo ombro. Muriel seguiu a orientação do padre e encontrou-o sentado à mesa rústica.

— Espero que esteja melhor, minha filha. Depois da sopa, vou mostrar-lhe onde poderá descansar. Façamos a oração. – Ela acenou e apenas ouviu o agradecimento. Depois pegou o pão murcho e molhou um pedaço na sopa de raízes. Silêncio. Muriel sentiu um estranho incômodo ao tentar engolir o alimento, como se uma mão invisível apertasse sua garganta. Asco, náusea, repulsa. Então se desculpou afastando o prato meio cheio e pediu para descansar. De acordo, o padre a levou até um pequeno quarto que foi limpo rapidamente. Muriel agradeceu a acolhida e fechou a porta para tentar repousar. Deitou no colchão de palha e seu corpo foi relaxando enquanto pensava na pequena aranha fiando sua teia... Adormeceu.

NICHOLAS O'CONNOR PAROU NO ESPELHO, relembrando aquela imagem bestial. Examinou o rosto e notou com alívio que os espinhos perfurantes não deixaram marcas na pele. Sua aparência estava intacta. Pensou na irmã e desejou que estivesse bem. Quis ligar, mas se a polícia já soubesse do ocorrido, o contato poderia trazer complicações. Desmaiada pelo golpe do estuprador, ao menos ela não viu a transformação. Isso dificultaria menos sua reaproximação. Olhou para o antebraço recordando dos cumpridos ferrões que surgiram em sua fúria. A visão do estupro, a luta da irmã para se libertar dos homens, tudo fez reviver os abusos praticados pelo pai. Quando criança, Nic só podia fingir que estava dormindo enquanto rezava para que ele parasse. Aqueles sentimentos reprimidos, o medo e o ódio talvez tenham liberado a besta. Na noite anterior havia se tornado a fera de espinhos. Mas o que aconteceria dali por diante?

Pelo espelho Nicholas viu a porta abrir e um homem entrar no trailer. Era forte, rosto endurecido, mas tinha um olhar triste e amargurado. Sua testa enorme e disforme expunha a anomalia que o taxava como suna. Nic se conteve para não rir e não fazer piada. O sujeito se aproximou e colocou pão e café sobre a cômoda onde um gato imprudente espiava.

— O que pretende fazer, estranho? Ficará conosco? – Perguntou cruzando os braços.

— Primeiro preciso saber onde estou. Não me lembro de ter saído de férias num trailer.

— Nós o encontramos agitado perto do galpão. Pensamos que não sabia falar. Você nos atacou e precisamos colocá-lo para dormir. Pamêliom disse que poderia acordar com outra aparência...

— Há quanto tempo estou aqui?

— Desde a noite passada. Coma rápido porque os outros querem vê-lo.

— Quem? A família bigorna? – Nicholas não se conteve e deu uma risada.

— Não, a família porco-espinho, talvez.

— Um momento, onde estou?

— No circo, onde mais? Aqui você não se sentirá diferente caso deseje colocar “a outra cara”. Agora coma e venha.

Nicholas espantou o gato e o pegou o pão seguindo o homem até o gramado onde os outros esperavam. – Só pode ser um circo de horrores e eu vou ser a atração principal! – Cochichou debochando. Usando um paletó surrado, o anão desengonçado se achegou para cumprimentá-lo. Nic reparou cascos no lugar dos seus pés.

— Bom dia, rapaz. Meu nome é Pamêliom, mas pode me chamar de Pam. Irônico, não?! Sou o dono deste lugar e estes são meus associados. O Martelo você já conhece e os outros são os Irmãos Felinauros; as Siamesas Shiva; o Mágico Profian e Madame Borboleta, sua bela assistente; Berenice é a mulher barbada e estes são os melhores palhaços da cidade, a Família Insana.

Se a estranha trupe não agradasse o público pelo talento, ao menos provocaria gargalhadas pela morbidez. A cabeça do primeiro realmente parecia com um grande martelo. Os três irmãos eram chamados Felinauros porque todos tinham caras de gato. As siamesas indianas, com os corpos unidos, possuíam dez membros, cada uma com quatro braços mais duas pernas. Profian tinha grandes globos oculares alojados nas órbitas, além de mãos deformadas que lembravam as patas do louva-a-deus. Madame Borboleta não tinha nariz, mas um fino apêndice enrolado que lembrava o inseto. Berenice não parecia aberração, mas as pontas do seu cabelo serpenteavam como se estivessem vivas. Só a Família Insana parecia diferente dos sunas, normal.

Enquanto Pam fazia as apresentações, Nicholas examinou cada um pensando nos apelidos, mas a graça passou quando ele fitou seus olhares amargurados, embora os da Família Insana fossem perturbadores. Quis ir embora. Essa gente não fazia parte do seu mundo com festas e mulheres bonitas.

— É... Pessoal... Foi um prazer conhecer vocês! Valeu o que fizeram por mim, mas eu preciso encontrar minha irmã. – Os artistas protestaram e com exceção do Martelo, todos insistiram para que ficasse.

— Não seja tão apressado, rapaz... – Pamêliom insistiu. – Fique mais um pouco. Gostaria de apresentar mais uma pessoa.

Nic avaliou... Atender um pequeno capricho seria o mínimo que poderia fazer perante a hospitalidade desses coitados. Deviam ser pessoas humildes, carentes, que talvez desejassem conviver algum tempo com alguém normal sem serem discriminadas... Ficou.

VACHAN TENTOU SE ADAPTAR À LUZ DO QUARTO. Sentia-se grogue, talvez entorpecido pelo veneno que o assassino usou na lâmina. Seu corpo também doía pelo ataque inesperado. Virou a cabeça e olhou a enfermeira checando um monitor. Depois ela atravessou o quarto para avisar que o paciente acordou. Maximilian Volker acenou e pediu que os outros executivos, o policial e a própria enfermeira saíssem. Achegou-se ao leito.

— Nada mau para a primeira semana, não é?

— Não sei o que dizer, Sr. Volker. – Vachan respondeu sonolento. – Não esperava começar assim.

— Em particular pode me chamar de Max, se quiser. San Thomas é traiçoeira e tem muitos atrativos para saciar uma pessoa com seus pecados capitais. Não subestime essa ilha, você aprenderá. Mas me conte tudo que aconteceu.

— Ontem visitei Norton Fisk, no Banco Cifra. Fizemos a reunião para apresentar a nova segurança. Ele estava impaciente, insistia para assinarmos logo o contrato. Queria que os protótipos operassem imediatamente, por causa da paralisação dos sistemas.

— E você, o que fez?

— Nossa tecnologia é experimental. Queria que ele compreendesse as limitações da VS-Roboter antes de firmar o contrato com a cláusula de isenção que inseri. Mas o Sr. Fisk recebeu uma ligação e saiu às pressas, sem justificar. A secretária não identificou seu paradeiro e nem soube informar quando a reunião seria remarcada.

— Intrigante... – O chefe falou quase indiferente. – E depois?

— Saí para andar no Centro e visitei Sara Cromwell. Depois voltei ao laboratório para trabalhar, ajustar alguns parâmetros dos protótipos.

— Claro... Mas você sabe que a família Cromwell é uma pedra no sapato da Companhia, não é?

— Sim, eles são peritos em neurociência e próteses robóticas... – Vachan pensou nos boatos sobre rusgas entre o Sr. Volker e o falecido James Cromwell, mas preferiu não mencionar. – Contudo, minha relação com Sara não é profissional. Conhecemos-nos durante o doutorado e nos tornarmos amigos.

— Não faço objeção. Mas recomendo cautela no trato com essa moça porque nossos acionistas podem desaprovar esse tipo de contato.

— Compreendo. Eu não pensei desta maneira. Desculpe-me.

— E quanto ao atentado no hotel?

— Como posso dizer... Um vulto caiu do teto sobre mim. Consegui desviar, mas fui atacado. Lutamos, ele atingiu meu ombro, meu peito e eu acertei um golpe que o jogou contra a sacada. O invasor se desequilibrou e caiu... – Vachan respirou relutante. – O senhor não acreditará, mas ele despencou do trigésimo terceiro andar e quando olhei não havia nenhum corpo na rua. Então senti uma tonteira e só consegui chamar a recepção antes de perder os sentidos.

Maximilian Volker não pareceu incrédulo. O presidente da Cibervenon Corporation foi o responsável direto pela contratação de Vachan e pela parceria com sua promissora empresa. Conhecia muito bem seu currículo e devia confiar no seu potencial. Por alguns segundos o experiente executivo, de cabelo branco, sobrancelhas grossas e barba, ficou pensativo enquanto articulava o desfecho da conversa.

— Entendi tudo. Um policial aparecerá para ouvi-lo. Quanto a Norton Fisk, lamento dizer que ele sofreu um infarto enquanto dirigia e seu carro despencou da ponte. Está morto. – Vachan ouviu perplexo. – Fui informado que ele receberia o último projeto da Cromwell Enterprises em seu banco. Talvez por isso estivesse ansioso pela nova segurança. Agora não importa mais. Que Deus o tenha.

— Irônico... A concorrente dependendo da nossa segurança...

— Seria uma pequena satisfação para mim e uma grande oportunidade para sua humilde empresa. Mas com a morte de Norton Fisk, Sara Cromwell deve recuar e talvez nosso contrato fique emperrado. Então, considerando seu estado, gostaria que se recuperasse com tranqüilidade; aproveite esse tempo para conhecer melhor a cidade e aprenda como os tubarões atacam neste mar.

— Mas senhor... Esse afastamento não é necessário. Asseguro que logo estarei recuperado. E depois tem a minha empresa, precisamos consolidar a parceria. Se for porque não fechei o contrato eu posso...

— Fique tranqüilo, não é nada disso. Reconheço o seu valor e por isso garanto você é mais importante que a pequena organização que gerencia. Sejamos francos, a Companhia só tem a ganhar com esta parceria se VOCÊ estiver bem. Por isso lhe concedo um período de adaptação. Para que se recupere, conheça melhor o novo mercado e depois retorne ao trabalho com força total. Como pretendemos aproveitá-lo ao longo prazo, podemos esperar. Estamos acertados?

— Sim, senhor. Farei o que me pede.

— Ótimo, Senhor Siraj. Creio que nossa parceria será muito produtiva. Deite e descanse. Seu chefe está mandando.

Volker deixou o quarto esboçando um sorriso. Vachan não sabia o que pensar dessa conversa. Estava há pouco tempo na cidade e com exceção do dia que chegou ao aeroporto, esta foi a primeira vez que teve um diálogo tão pessoal e duradouro com o presidente da corporação. Será que foi testado e deixou a desejar? Será que foi sutilmente colocado na reserva dos executivos? Não. Maximilian Volker era conhecido por ser criterioso, metódico, objetivo e principalmente rude. Caso seu desempenho não fosse excelente, saberia da maneira mais direta possível. Vachan respirou fundo, se tranquilizou e pensou na oportunidade recebida. Provavelmente o atentado sofrido justificou sua preocupação e generosidade. Se o presidente resolveu lhe dar esse tempo, então tentaria aproveitá-lo e descobrir, se possível, quem tentou lhe matar.

Um médico entrou no quarto, acompanhado pela mesma enfermeira e o policial. John Carter avaliou o prontuário do paciente, ditou algumas instruções para a enfermeira e avisou para Vachan que um investigador gostaria de fazer perguntas sobre o incidente. Depois o médico e a enfermeira deixaram o local.

ROBERT KEYNES SAIU DISCRETAMENTE, SOZINHO, PELOS FUNDOS. Contornando a mansão seguiu pela rua até o outro quarteirão, ao local combinado com o taxista. O carro chegou sem demora e ela entrou rápido.

O táxi deixou o bairro de mármore. Ajustando o óculo escuro, sorriu gabando-se da conquista. O veículo passou pela biblioteca central, o hospital Vivien Thomas, pelo Darkwing Place e a passageira sinalizou para um corredor entre dois prédios que dava para a Avenida 33. O carro parou, o taxista recebeu e saiu. Robert apareceu ao cruzar a passagem e avistou a fachada do banco Cifra. Atravessou a rua e entrou para encontrar o sonolento gerente que levou um susto com sua inesperada presença. O cliente apontou para o elevador exclusivo da Sala Segura e o homem entendeu seu pedido. Bocejou estranhamente, desculpou-se e levou-o para os procedimentos formais. Sorrindo Robert constatou que os exames digital, ocular e vocal não foram realizados. O gerente mentiu informando que clientes como ele agora estavam dispensados do check-in. As chaves foram entregues, uma para o elevador, outra para a Sala Segura e a terceira para o seu cofre.

Sozinho na sala do cofre, Robert usou a chave para destravar a gaveta de titânio e depois passou o cartão magnético para abri-la. Observou o dinheiro internacional, joias, um gravador portátil e a pasta de documentos que procurava. Dentro havia diversos relatórios, mas um em especial lhe interessou: PROJETO WARKNA. Finalmente ativou o escâner embutido na lente do seu óculo para registrar cada página.

Deixou a sala minutos depois, sem levar nada. Cumpriu as formalidades para devolver as chaves e reaver os objetos pessoais que não foram transportados até o cofre. De volta ao salão central, afastou-se para um espaço mais reservado e puxou um fio oculto na extremidade do óculo-escaner. Conectou-o no celular e finalmente enviou as imagens copiadas pela internet.

ROBERT ACORDOU SENTINDO UMA LEVE ENXAQUECA. Estendendo a mão, pegou o vestido preto largado a frente do divã e cheirou aquele perfume maravilhoso, inesquecível. Observou o escritório e não viu Akila. Então vestiu a calça e foi surpreendê-la no banho, mas também não a encontrou na suíte e em nenhum banheiro. Começou a percorrer os cômodos e deparou-se com o serviçal que lhe entregou o bilhete: “Adorei o prazer. Saiba que você estará em mim, para sempre. Até breve ou nunca mais. Akila”.

AKILA ENTROU NO SEU APARTAMENTO, retirou o óculo escuro e mordeu sua ponta com um sorriso enigmático. Será que ele ficou apaixonado? Será que vai procura-la depois que faltar a palestra? Lamentou conhecê-lo nessas circunstâncias. Sua companhia não era entediante, mas como sempre o trabalho é sua prioridade. Afrouxou a gravata do terno que furtou do alfaiate e pegou o Olho de Hórus no bolso da calça. Recolocando o pingente no cordão ela riu lembrando o sonífero dissolvendo na taça do parceiro distraído. Depois só precisou esperar. Com a ajuda de Arthur, seu fiel serviçal, empregado há poucas semanas na casa do novo patrão, fez uma cópia do cartão de acesso ao cofre. No banco sua atuação silenciosa coroou o plano perfeito. Nem o gerente previamente drogado, nem as câmeras conseguiriam distinguir seu manto ilusório. O PROJETO WARKNA agora pertencia a AGE, a agência de espionagem da NON.

— Eduard Keller, por favor. É Akila Shani.

— Recebi os arquivos. Parabéns. Não que seja da minha conta, mas vocês... Ficaram íntimos?

— Não é da sua conta, mas precisava conhecer seus trejeitos para representá-lo.

— Entendo. Este “sacrifício” será recompensado...