OFIÚCO: OS PERGAMINHOS PERDIDOS.
4 “E uma vez lançada, a palavra voa irrevogável”. Horácio.
Cesar recuperou a calma quando o metrô chegou ao centro. O transporte parou suave e ele saiu caminhando à passos curtos com a multidão que se afunilava na escadaria. As pessoas orgulhosas ainda comentavam sobre a lição que ensinaram ao suna e Cesar tentou abstrair-se do falatório.
Já na superfície, reorganizou seu pensamento e deparou-se com uma questão delicada: seria adequado pedir ajuda a Iris depois de repreendê-la nesta manhã? Lembrou-se das suas palavras secas e implacáveis, da mudança no semblante de Íris com seus grandes olhos azuis refletindo a dor visceral da juventude. Agora sentia culpa porque virtudes sinceras como o amor e a lealdade jamais seriam inconvenientes, inoportunas. Seguiu de cabeça baixa, o rosto transfigurado na vergonha por seu pragmatismo insensível, um suspiro. Precisava se redimir. Pegou o telefone e teclando o número de Íris, foi atendido na primeira chamada.
– Iris...
– Cesar?! Você está bem? O que acontecendo? Porque está ligando?
– Primeiro para pedir seu perdão, minha querida. Fui ingrato desmerecendo seus cuidados. Gostaria de conversar com você, de conhecer suas idéias, de saber por que voltou a minha casa na última noite. – Iris emudeceu por alguns segundos e depois suspirou sorrindo.
– Isso é o que mais quero. Podemos nos encontrar no Odyssey, que tal? – Cesar não gostou da sugestão do shopping, mas não externou sua indisposição.
– Que seja. No final de semana? Seria oportuno? – Iris riu com a formalidade do professor.
– Pode ser. Será bom encontrá-lo fora do campus e do grupo de estudos.
– O prazer será meu... – Agora foi Cesar quem ficou em silêncio tentando não se sentir oportunista com a próxima abordagem. – Iris, eu também liguei para pedir sua ajuda. Não posso entrar em detalhes, mas preciso ir ao hospital visitar um paciente que não me conhece. Seu pai é médico, sim? Ele pode me ajudar a entrar no quarto?
– Eu não sei. Acho que ele está operando agora. Esse paciente está em qual hospital?
– No Vivien Thomas, aqui no centro, espero. É o meu primeiro palpite.
– Você deu sorte, meu pai está lá. – Cesar agradeceu aos Mestres Ascencionados. – Podemos nos encontrar no hospital para falar com ele, tudo bem? – Iris sabia que seu pai estaria ocupado, por isso a chance de aguardá-lo com Cesar era oportuna e bem conveniente.
– Ótimo! Espero você na entrada, perto do jardim.
– Estarei lá o mais rápido possível. – Iris desligou.
Cesar ficou satisfeito, mas a questão do tempo voltou a incomodá-lo. A eventual demora do médico poderia comprometer o encontro com os outros eleitos. Assim, como já estava perto do hospital, decidiu se adiantar para confirmar a internação do paciente indiano.
Passando pela Rua Foster, cortou caminho atravessando uma grande galeria comercial até a Avenida 33. Continuou o trajeto subindo na direção do Darkwing Place que figurava imponente em San Thomas. De longe Cesar contemplou suas torres parecidas com as asas de um anjo negro curvadas sobre a cidade, protegendo-a ou ameaçando-a, não sabia. Continuou seguindo pelas calçadas espaçosas do centro, desviando da aglomeração apressada.
Depois de meia-hora chegou, um pouco cansado, ao pátio arborizado do hospital. Não avistando Iris, pediu informação a um estudante e seguiu até o prédio principal.
Passando pela porta giratória, Cesar reparou as pessoas circulando pelo hall espaçoso e fulgurado por belas luminárias. O piso claro e um discreto aroma de jasmim contribuíam para o ambiente harmonizado. Na recepção atendentes uniformizadas e bem maquiadas trabalhavam numa bancada arqueada de cerejeira, abaixo de um grande painel de informes e senhas.
– Boa tarde, minha jovem. Eu gostaria de ter notícias de um paciente.
– Pois não?! – A recepcionista ajustou seu óculo exótico – Qual é o nome dele?
– Eu não tenho certeza. Na verdade quero apenas de confirmar sua entrada. Um homem indiano, aparentando 25 anos, com ferimentos no peito.
– O senhor é da família? – Cesar pensou em mentir, mas o fim justificaria o meio?
– Não, só estou pedindo informação para um amigo.
– Entendo, senhor, mas esses dados são restritos às autoridades e familiares.
– Certamente. Mas trata-se de uma questão vital! Você não precisa falar nada. Apenas acene se alguém assim apareceu na última noite e prometo não importuná-la. Por favor! – Cesar juntou as mãos no gesto de oração e a atendente cedeu ao seu carisma. Usou o lápis para teclar e acessar o banco de dados.
– Sim, recebemos um paciente com esse perfil, noite passada. Ferimento superficial por arma branca. – Cesar estranhou a menção ao ferimento leve.
– Pode dizer quando ele terá alta? – A recepcionista abaixou o óculo até a ponta do nariz e sorriu sem responder.
– Obrigado, minha querida, isto já... – Nem terminou de agradecer quando sentiu seu corpo envolvido por um abraço. Iris acabava de chegar vestindo jeans e uma blusa com listras violetas em tons diferentes. Cumprimentando Gisele, pediu à recepcionista para chamar seu pai.
– Boa noticia! Falei com ele por telefone. A próxima cirurgia atrasará. Eu disse que queria apresentar um amigo e meu pai concordou, se não demorar.
– Minha gratidão, Iris. Não esquecerei esse favor.
– Ah, pare! Por você eu faço qualquer coisa... – Seus grandes olhos azuis brilharam cheios de contentamento e esperança.
– Assim seja. Espero não desapontá-la.
– Filha?! – Cesar observou o médico.
– Pai, este é o amigo que falei. Cesar. Ele também é meu professor na faculdade. – O Dr. Carter franziu o cenho e passou a mão no rosto barbeado aparentando desconforto.
– Doutor, é um prazer conhecê-lo!
– O que faz ao lado da minha filha? – Cesar e Iris ficaram surpresos com o tom agressivo.
– Eu... Peço desculpas por incomodá-lo, mas Iris disse que talvez possa ajudar. Tenho uma mensagem para um paciente. Não sei se o horário é oportuno, mas a questão é urgente.
– De quem se trata? O que deseja com essa pessoa? – Continuou desconfiando.
– Ele é conhecido de um grande amigo que me pediu o favor. E a mensagem é confidencial.
– E quem é este amigo? – Dr. Carter perguntou suspeitando a resposta.
– Isto é relevante doutor? – Cesar rebateu cerrando os olhos, a boca entreaberta, intrigado.
– Depende da sua resposta. Venha comigo. E Iris, espere aqui. – A filha reclamou, mas Cesar, ainda mais curioso, pediu carinhosamente que esperasse. Ele acompanhou Carter, saindo da recepção para um admirável jardim interno e logo descobriu a origem do aroma de jasmim.
– Esse amigo, de quem se trata? – Perguntou encarando.
– Você é misterioso, doutor. Não entendo seu interesse
– Devo insistir... Pela segurança do meu paciente.
– Muito bem. Este amigo chama-se Donovan Krause.
– Não estou certo... – Carter abrandou passando a mão nas flores dos gerânios. – Diga-me, para onde aponta sua flecha? – Cesar sorriu surpreso com a pergunta.
– Para o centro do universo...
– Sagitário...
– Serpentário! – O mago respondeu triunfante e o médico levantou evidenciando um broche, sua jóia iniciática com a insígnia da Ordem Ocultista de Ofiúco.
– Um zelador para atendê-lo. Diga-me como, mago.
Cesar suspirou aliviado. Conhecia todos os códigos de identificação dos membros da Ordem, mas receou que a nova geração de zeladores, iniciada no seu período de afastamento, tivesse recebido novos passes enviados pelo Supremo Conselho a cada círculo.
– Nobre zelador. Não estou familiarizado com suas feições. Você faz parte do Círculo de Krause? E como sabe minha classe?
– Sim. Fui admitido depois que o círculo interno se desfez. Tempos difíceis... Mas ouvi rumores ao seu respeito. E por isso, como pai, não acho apropriado que mantenha contato com minha filha se o que dizem é verdadeiro.
– Absens heres non erit. – Cesar respondeu com os olhos fechados. – Não estou aqui para falar do meu passado, mas sim a pedido do Imperador do seu Círculo e Grão-Mestre da nossa Ordem. O jovem internado na última noite: preciso falar com ele.
– Esse rapaz, Vachan Siraj, entrou no hospital ontem, por volta das 23 horas, com ferimentos graves. Quadro de envenenamento. Eu mesmo o examinei. Fiquei surpreso que horas depois seus cortes quase sumiram.
– Agora faz sentido. Pode levar-me até ele agora?
– Isto é possível. Mas, releve minha cautela, como saberei que realmente veio a pedido de Sir Donovan Krause? Soube que ele não está na cidade.
– Uma prova... Pois bem. Este é o seu diário. – Cesar mostrou o volume de couro envelhecido afivelado. – Agora faça o julgamento. Já perdemos tempo demais.
Cesar voltou à recepção com o médico. Ele sorriu para Iris e balançou a cabeça sinalizando que seu pai ajudaria. Carter gentilmente pediu um crachá à recepcionista, que, influenciada pelo charme grisalho do médico, ignorou o protocolo e o encerramento do horário de visita. – Obrigado, Gisele. Venha comigo, senhor Cesar e a senhorita espere aqui. – Falou apontando para Iris. Ela reclamou insatisfeita, mas preferiu não insistir para não se tratada como uma criança na frente do professor.
Ao lado do médico, Cesar caminhou por corredores pintados em branco com faixas verdes, ouvindo as chamadas pelo eficiente sistema de som. Passaram por uma rampa e subiram pelo elevador até chegarem ao quarto. O zelador empurrou a larga porta de carvalho e entrou primeiro para verificar se o paciente estava acordado. Em seguida voltou sussurrando para o visitante ficar apenas o tempo necessário. O mago concordou e adentrou sozinho.
– Boa tarde, senhor Siraj. Meu nome é Cesar Dominavit. Estou aqui para ajudá-lo.
– Me ajudar? – Vachan reparou o estilo excêntrico do homem esguio. O senhor é médico?
– Não no sentido literal, mas também me dedico à cura de certos males.
– Você não parece médico e não o conheço. O que deseja?
– O atentado que sofreu. Sei que não foi um acidente e seus ferimentos estão se regenerando mais rápido que o normal. Conhece suas capacidades?
– Não sei do que está falando. Não entendo seus enigmas, senhor.
– Então serei mais claro. Você chegou à cidade com um propósito, mas sua expectativa foi frustrada. Sofreu um atentado recente e agora tem dúvidas sobre o que fazer. No momento se questiona se deve pedir ajuda a família que foi contra sua viagem. Tudo isso lhe incomoda, pois você é um homem independente e metódico que precisa cumprir metas para manter a ordem. – Vachan sentou na cama não aparentando nenhum mal-estar.
– Vejo que o senhor tem um dossiê da minha vida, mas isso não o torna confiável, pelo contrário. O propósito desta visita não está claro para mim.
– Senhor Vachan... Da mesma maneira que está se curando, com outro dom uma pessoa descreveu o que poderia acontecer em seu futuro. Ela deseja conhecê-lo e também propor uma nova parceria.
– Sua oferta é misteriosa... Porque me interessaria?
– Antes me permita dizer, mais que um empreendedor, você também um guerreiro, um homem que se preocupa em honrar a tradição familiar enfrentando o desafio de se adaptar à modernidade e ser bem-sucedido... – Agora Vachan passou a escutar com muito mais atenção. – Se aceitar nosso convite, talvez essa pessoa forneça meios para você alcançar seus objetivos. E também terá a chance de conhecer melhor a cidade, as corporações que a controlam, poderá ser instruído para compreender e desenvolver suas capacidades, contando ainda com o favor de um homem muito influente, Sir Donovan Krause.
– O escritor? Aquele da Fundação Krause?
– O próprio. Senhor Vachan, o mundo é uma casa escura e desleixada, encoberta por cortinas. Precisamos removê-las para a luz purificadora entrar. Se quiser ajudar, se estiver interessado em mais informações, apenas procure Karin Krause neste endereço. – Cesar entregou o cartão com o “K” estilizado.
– Seu discurso é intrigante, admito. Pensarei na proposta...
Cesar agradeceu e se despediu com um sorriso integro. O visitante reencontrou o médico e não disfarçou a excitação proclamando que o tempo da renovação estava próximo! O mago cumprimentou o zelador com força e alegria, agradecendo pelo auxílio. Um pouco confuso o médico conduziu-o até a recepção onde Iris esperava. Cesar apenas sorriu e saiu do hospital, sendo seguido pela menina que ignorou a ordem do pai para voltar. Afastaram-se enquanto Carter tentava contatar Dimitri ou Karin para informar o ocorrido.
– Encontrou quem procurava? – Perguntou Iris, curiosa.
– Sim, sim, minha querida! – Cesar parou e acariciou seu rosto. – E não teria conseguido sem a sua ajuda. Obrigado... – Ele pensou em mandá-la embora, mas receou cometer o mesmo erro dessa manhã. – Então, o que pretender fazer agora, senhorita?
– Posso ficar com você pelo resto do dia! Vai voltar para a casa?
– Não, Iris. Preciso encontrar outras pessoas... – Cesar desejou não tomar a decisão errada. – Mas sua presença jamais será inconveniente. Você pode vir comigo se concordar me obedecer. – Iris soltou um gritinho e vibrou.
– Claro que sim, am... Professor...
MAIS UM PESADELO: Úrsula e suas amigas tentavam falar, mas só conseguiam gemer e lamentar; não pareciam agressivas, mas agoniadas, carentes de ajuda. Com as mãos ossudas elas tentavam agarrar seus braços, mas Muriel se afastava tropeçando e caía na escuridão.
Ao se levantar ela percebeu metade do seu corpo acima do colchão porque estava, na verdade, sentada no chão. Olhou desesperada os seus braços translúcidos e seu corpo espectral, fantasmagórico. Apertando os olhos clamou aos santos e engatinhou sem atentar que a cama não barrava o movimento. Totalmente encolhida ela chorou e rezou pedindo a Deus para livrá-la dessa maldição. Batidas à porta e Muriel gritou assustada. O padre Andrew entrou preocupado e viu-a retraída, tremendo no chão. Colocou a bandeja com pão, biscoitos e chá sobre uma escrivaninha e foi amparar a jovem. Afagou sua cabeça e tentou confortá-la repetindo que foi tudo um pesadelo. Depois a guiou lentamente para a cama.
NICHOLAS FICOU ADMIRADO COM O JEITO ACOLHEDOR DA TRUPE. A aparência dos sunas incomodava, mas aos poucos tomou coragem para encará-los e ajudar nas tarefas sem ligar para suas deformidades. Reparou o mágico Profian conversando com Madame Borboleta e admirou-se ao verificar como alguns aproveitavam os aleijões, transformando defeitos em qualidades. As Siamesas Shiva tinham uma coordenação surpreendente remendando tecidos. Os Irmãos Felinauros exibiam grande agilidade e equilíbrio ao escalar postes para prender fios e amarrar bandeirolas. O incrível Martelo fincava as estacas que prendiam as cordas das lonas com a testa! Nic se sentiu estranho nesse pequeno mundo porque aqui ELE era diferente dos outros.
– O que aconteceria se os sunas fossem maioria? Gente comum seria tratada da mesma maneira que esses coitados? – Refletiu e riu sozinho porque não estava acostumado a pensar desse jeito. Respirou fundo, enxugou o suor da testa e caminhou procurando mais alguma coisa para fazer. De repente percebeu que estava sendo agradável passar o dia com essas pessoas que, afinal, eram apenas pessoas.
AKILA MORDISCOU UM PEDAÇO DE FIGO enquanto relaxava seu corpo atlético na banheira com espuma. Pensou no dia agitado e nos documentos enviados para Eduard Keller. Comeu o figo e contemplou a chama dançarina da vela aromática. O momento era propício, mas não conseguia ficar absorta, estava difícil relaxar. Então percebeu um vazio no peito e a insatisfação germinando... Qual era o problema? Reconsiderou sua estadia em San Thomas e os bons momentos dessas férias: revisitou o Museu Cronos, divertiu-se num bizarro antiquário, degustou as iguarias do Matsuri, dançou extravasando no Coliseu, ganhou apostando no Maverick... Agora restavam poucos dias para voltar e começou a entender que tanta diversão só projetou arremedos de felicidade. Pensou em Robert... Sorriu... Veio o choro ácido do remorso que estava corroendo o coração. Nos seus braços esse homem se pôs vulnerável e verdadeiramente entregue. Talvez ele tenha sido a única verdade num dia marcado pelo furto, atuação, mentira e dissimulação. – Não, não dissimulação! – Seu corpo realmente o desejou, seu coração o sentiu... – Meu coração? – Repetiu o pensamento, surpresa. Robert estava mais presente do que poderia imaginar e percebeu que precisava revê-lo, ao menos para uma despedida decente...
CESAR DOMINAVIT E IRIS CAMINHAVAM EM SILÊNCIO. Ele recordava as informações no Diário dos Eleitos correlacionando-as com as visões passadas pelos espias. Ela continuava intrigada com a visita hospitalar, mas continha sua curiosidade observando o mentor concentrado. Cesar parou na praça da grande fênix, a escultura mais conhecida como o Monumento da Ressurreição, erigida para lembrar a recuperação da cidade após a depressão. Iris finalmente perguntou se estava esperando alguém. Quase murmurando Cesar respondeu que ainda não era o momento. Então apontou para a biblioteca central, no outro lado da praça, elegendo esse lugar sossegado para meditar.
Atravessaram o Largo da Fênix e subiram a escadaria da biblioteca. Pessoas descontraídas conversavam e lanchavam nos degraus. Entrando no salão de parquê, Cesar escolheu uma mesa afastada e pediu que Iris pesquisasse o roteiro de eventos culturais na cidade: apresentações, exposições, palestras, conferências, oficinas e tudo que tratasse de história antiga. Viciada na internet, Iris aceitou o desafio e seguiu para um computador. No silêncio da biblioteca Cesar folheou o Diário dos Eleitos buscando a descrição de algum cenário correspondente às suas visões. Descartou imediatamente a Igreja do Martírio Final. As pistas do local não lembravam a Universidade Cosmos, mas poderia ser o Museu Cronos, o Teatro Panteão, o Templo da Alvorada, a Galeria de Cristal e até o Hotel Calisto. Deduziu, para começar, que o grande tablado do teatro não era usado para palestras, então poderia eliminar essa opção. Já a sede do crescente culto exotérico, o Templo da Alvorada, não parecia combinar com o evento esperado. Supondo então que seu espia, apesar da astúcia, não entraria no Hotel Calisto, sua busca seria reduzida ao Museu Cronos e a Galeria de Cristal.
Cesar levantou e foi ao pequeno guichê onde Iris pesquisava compenetrada. Com dificuldade para enxergar ele aproximou o rosto do monitor quase emparelhando com a face da menina. O professor sentiu um aroma agradável, mas não soube identificar se era a fragrância do perfume floral ou o cheiro daquele cabelo cor de sol-da-manhã. De soslaio reparou Iris e titubeou se ela era tão jovem ou ingênua quanto imaginava.
– Acho que consegui! Temos alguns eventos na cidade, principalmente no final da semana, mas nos próximos dias haverá palestras no Museu Cronos e, veja, essa Akila Smith-Shani vai falar justamente sobre as pragas do Egito. Pode ser quem procura?
– Pragas do Egito... – No Diário dos Eleitos Cesar leu que uma mulher tinha o corpo marcado com inscrições ligadas aos seus dons e vidas passadas. Se essas inscrições tivessem relação com o Egito Antigo, talvez a palestrante fosse o próximo eleito a ser encontrado.
– Iris, qual o horário dessa palestra?
– 18 horas, de acordo com o site.
– Ótimo! – Já passava das 16 horas, Cesar estimou com seu acurado relógio mental. Então seria possível chegar ao museu no bairro Nostradamus antes do evento começar. Mais confiante depois do contato com Vachan Siraj, o mago decidiu abordar mais cedo a palestrante e assim ganharia tempo para localizar os outros. – Estamos adiantados, Iris. Vamos ao museu.
Como Iris não veio de carro eles caminharam até o metrô. O transporte não demorou e pouco depois, já sentados no vagão, Cesar quis saber sobre a vida da moça. Soube, entre muitas coisas, que Íris conheceu o Doutor Carter na infância quando ele operou seu cérebro e salvou sua vida contra todas as chances. Então foi adotada como filha. Na época o médico ainda era casado, mas com a separação, ele e a ex-mulher disputaram judicialmente sua guarda. Iris escolheu ficar com o pai e o juiz considerou sua vontade para determinar a guarda. Contou mais da sua história, radiante pelo interesse de Cesar. A hora passou e chegaram ao destino.
Por conveniência o Museu Cronos se localizava perto da saída do metrô. Iris e Cesar admiraram suas poderosas colunas gregas, mas Cesar desconfiou que sua fachada não estivesse de acordo com a visão do espia. Iris impulsiva foi à frente e ele seguiu em direção ao vigia na entrada. Percebendo a aproximação, o homem alto, de terno azul-marinho, devolveu ao saco de papel o doce que segurava.
– Pois não, moça, eu posso ajudá-la?
– Eu e meu namorado viemos para a palestra do Egito. – Cesar desviou o rosto disfarçando o constrangimento. – Começará às 18 horas, certo? – O vigia estranhou e conferiu o horário no relógio.
– Palestra? Não há nenhuma palestra agendada para os próximos dias...
– Como não? Verifiquei no site do museu essa tarde! A palestra está confirmada!
– Vou checar a informação. Esperem enquanto meu supervisor fala com o senhor Angelov.
O vigia falou pelo rádio e Iris notou Cesar um pouco irritado. Tentou justificar sua apresentação, mas o vigia cortou a desculpa informando que o site estava em manutenção por isso o cancelamento da palestra não foi divulgado. Cesar balançou a cabeça reprovando o equívoco. Mas de acordo com o supervisor o evento foi transferido para a Galeria de Cristal, no Éden. Insatisfeito com a perda de tempo, ele suspirou e se afastou agradecendo ao vigia pela boa-vontade.
– Não gostei como se referiu a nós para aquele homem.
– Eu sei, eu sei. Desculpe. Foi parte do disfarce!
– Disfarce?! Você não tem ideia do que está dizendo! Olhe para nós? Acha que somos parecidos? Alguém acreditaria que somos namorados? – Iris ficou em silêncio sentindo a garganta sufocar. Cesar nem percebeu, pois o risco do fracasso lhe tornava mais crítico, irritadiço e menos sensível às emoções.
– Desculpe. Não quis atrapalhar. Não imaginava esse imprevisto.
– Não se desculpe. Sou totalmente responsável. Não deveria me distrair com você.
– Se distrair? Como assim? Do que está falando?
– Não importa. Agora não é o momento. Precisamos nos apressar.
– Importa sim. Porque você ficou irritado? – Iris falou alto. – Seria tão absurdo namorarmos? – Cesar parou tentando assimilar a situação. Respirou fundou e recomeçou a andar, mas a garota impetuosa segurou seu braço. – Responda! Você acha isso impossível, Cesar?
– SIM! – Resposta imediata e seca.
– Por quê? – Iris agora era só coração. Cesar se sentiu encurralado e mais irritado por isso. Então se lembrou da ajuda oferecida pela menina e o seu pai. Acalmou-se e tentou responder num tom racional e pacificador.
– Iris... Pense na diferença de idade... Pertencemos a mundos diferentes. Mesmo que existisse mais afinidade e até atração entre nós, cedo ou tarde nossas prioridades seriam conflitantes e acabaríamos magoando um ao outro.
– Mas eu não tenho prioridades, Cesar! Nada é mais importante, nada faz mais sentido que estar ao seu lado! – Lágrimas intempestivas chegavam – Eu posso fazê-lo feliz, de verdade! Eu te amo!
– Não, minha querida. Você pensa que este sentimento é amor, mas a verdade é que só está admirada com meu estilo de vida, com meu trabalho. Acha que pode ser feliz comigo e não te condeno por isso, mas quando todos os mistérios fossem desvendados, esse sentimento se mostraria como realmente é: um bem-querer e nada mais.
– Isso não é verdade e posso provar. Só me dê uma chance, por favor.
– Minha menina... Entenda... Vivemos momentos diferentes em nossas vidas. Por mais que tentássemos, eu não conseguiria acompanhar seu ritmo, me entrosar com seus amigos, compartilhar suas preferências e vice-versa. Por favor, não vamos arriscar a amizade que estamos começando. É o melhor tesouro que podemos ajuntar.
– Então eu não posso lhe oferecer mais nada?
– Creio que não. Será melhor assim...
– Então vamos andar. Já perdemos muito tempo, não é mesmo?!
– Você vai ficar bem? Diga que sim, por favor!
– Vou sim. Sua amizade é um bom consolo. Agora vamos.
Por algum tempo Cesar tentou decifrar o semblante de Iris, mas depois recuperou o foco e apressou o passo...
ABRINDO O CLOSET, Akila buscou um modelo mais adequado para o evento. O táxi chegaria em breve, no começo da noite, por isso não poderia demorar a escolher. Precisava de um visual condizente com a palestra e que ainda insinuasse suas intenções para Robert. Dispensou as saias e puxou o terno cinza, de corte elegante; para combinar com os sapatos uma blusa preta que sugeria seus belos seios, sem vulgaridade. Depois trançou o cabelo, vestiu-se e borrifou o perfume mais sedutor.
Seguindo ao endereço, no Éden, Akila pensou como Robert foi solícito articulando a transferência da palestra para a galeria. Se não fosse por sua influência política e seu patrocínio, esse evento tão planejado não aconteceria. Ele foi educado, atencioso, paciente, bem-humorado, um perfeito cavalheiro. Akila riu contando suas qualidades em tão pouco tempo de convivência. Quantos homens bonitos conheceu assim, com essas características? Gargalhou com a resposta imaginada.
Chegando a Galeria de Cristal contemplou sua grande estrutura esférica, transparente e espelhada, rodeada por luzes violetas que lhe conferiam um esplêndido visual. Não viu seu benfeitor na entrada, por isso foi à sala da diretora para conversar e lá conheceu seu belo gato, uma fêmea, na verdade, que apareceu noite passada no auditório e foi acolhida. Akila gostava de gatos e sugeriu o nome “Buba”, inspirado em Bubastis, a antiga cidade egípcia que sediava o culto à deusa gata Bastet. Depois ela foi com a diretora ao lugar da palestra, um espaço circular para quase cem ouvintes, sentados em cadeiras metálicas com linhas arrojadas, voltados para o púlpito sofisticado em acrílico iluminado. Akila entregou a pendrive com slides, verificou suas anotações e testou o microfone. As pessoas começaram a chegar e a palestrante foi recebê-las na entrada. Entre os presentes, um homem acompanhado da filha chamou sua atenção pelas roupas exóticas. O local estava quase cheio, mas Robert não havia chegado. Akila esperou mais quinze minutos e como ele não apareceu, atendeu ao pedido da diretora que sentava na primeira fila com Buba no colo. Começara a palestra.
Akila demonstrou uma oratória fluente, elegante, esbanjando arrojo e confiança no discurso, de forma bem condizente com seu trabalho na NON. Ela não mentira para Robert sobre isso, mas o posto de diplomata encobria sua verdadeira ligação com a maior instituição do mundo após a dissolução da ONU. Nas horas vagas, Akila tinha muitas ocupações, mas gostava de se envolver com o trabalho dos pais em arqueologia e egiptologia.
Exceto pela ausência de Robert, tudo mais transcorreu como planejado. O enfoque científico na abordagem do tema agradou tanto a comunidade acadêmica como os representantes eclesiásticos que marcaram presença no evento. A palestrante, acompanhada da diretora, ouviu cordialmente os comentários e elogios fervorosos de um líder da Igreja do Martírio Final. Quando ele se deu por satisfeito, Akila foi juntar seu material quando o homem esguio com entradas no cabelo, aquele de roupa extravagante, se aproximou sozinho.
– Boa noite, senhorita Shani! Meu nome é Cesar Dominavit. Quero parabenizá-la pela excelente palestra! Suas considerações foram bem coerentes.
– Senhor Cesar! – Saudou num tom diplomático. – Eu que devo agradecer-lhe por prestigiar o evento. Como soube da palestra?
– Eu leciono na Universidade Cosmos. Estou sempre interessado em assistir comunicações tão esclarecedoras como esta. Fiquei extasiado com sua eloquência e familiaridade no assunto.
– Obrigado. E o que mais o senhor constatou? – O ego de Akila já ficava confortável com os elogios. – É sempre bom conhecer a opinião de um catedrático.
– Honestamente, seus olhos me deixaram fascinados! Enquanto discursava, você parecia reviver o assunto! Estou encantado com você. Seria uma dádiva conhecê-la melhor!
– Ora, então podemos sair para conversar. Hoje foi um dia cheio e adoraria beber alguma coisa, que tal? Aquela é sua filha? – Acenou para a menina que ainda esperava sentada e emburrada.
– Não, é uma aluna que pediu para me acompanhar. Vou falar com ela, um momento.
Saíram todos do auditório. A diretora ficou impressionada com a empatia entre Buba e o professor Dominavit. Akila se despediu da administradora e sugeriu seguirem ao Café Outeiro, numa rua próxima a Galeria de Cristal. O professor gostou da sugestão e Iris, menos cansada e mais enciumada pela exuberância da mulher contrastando com seu estilo despojado, simplesmente seguiu em silêncio.
Na varanda rústica Cesar e Akila papearam sobre vários assuntos mantendo o melhor nível intelectual. Ela já sentia afinidade pelo jeito alegre, carismático e misterioso do professor. Iris, por sua vez, sentia-se deslocada da conversa, entediada e principalmente infantilizada pela presença daquela mulher. Terminando seu Mocha, Cesar superou o embaraço e lhe pediu licença para tratar de um assunto particular. Iris acatou tentando disfarçar a mágoa e esbarrando deselegante na mesa pediu licença para ir ao toalete.
– Deve ser difícil para ela... – Akila deslizava o dedo na borda da taça de vinho.
– Não entendi. Difícil?
– Para ela, ocultar... Ocultar os sentimentos em relação a você. É óbvio que está apaixonada.
– Não, não exatamente. – Cesar tentou dissimular. – A mística do professor... Isso também acontece noutras profissões. Logo ela acha um rapaz da sua idade e esquece essa fantasia.
– Você deve saber o que diz, mas sinto que cedo ou tarde ela vai surpreendê-lo.
– Só se ela não tirar boas notas! – Cesar riu. – Mas ela é uma jovem muito especial, Akila. Mudando de assunto, preciso tratar uma questão muito séria com você.
– O que é? – Pela primeira vez o rosto de Cesar ficou sério.
– Você não pode ficar na cidade por muito tempo. – Akila ficou perplexa, mas foi bem treinada para não expressar qualquer reação na fisionomia.
– O que está dizendo, professor? Explique-se.
– Estou muito preocupado com você. Akila, eu a encontrei juntando informações fragmentadas e muita coisa ainda não está clara para mim. Acho que alguém muito rancoroso reaparecerá ameaçando sua vida.
– O senhor é algum tipo de espião cartomante? – Akila zombou enquanto avaliava seu ex-namorado repórter de guerra ou Eduard Keller. Ambos não suportavam ser manipulados.
– Negativo, não sou nada disso. Mas tememos por sua segurança. E a pessoa que me pediu para alertá-la deseja conhecê-la. Ela oferece ajuda em troca de um favor.
– Cesar, eu saberia se estivesse mentindo e sei que não está. – Continuou confiante. – Mas independente de quem seja esse “perseguidor”, posso garantir que jamais veria meu rosto se eu quisesse.
– Não estou certo disso. Você deve saber a diferença entre ilusão e transfiguração. Pelo que me consta você não pode transformar sua aparência e neste caso sua quimera seria menos efetiva que um disfarce. Além disso, se ele não encontrá-la, talvez procure seus familiares. Isto seria inconveniente para você? – Akila apertou o queixo com o polegar e o indicador. Sua expressão estava compenetrada e o olhar distante, reflexivo.
– E porque seu amigo pode me ajudar mais do que meus próprios amigos? – Indagou tranquila.
– Você não tem amigos... – Ela engoliu seco. – Talvez pessoas que apostem no seu potencial, mas eles aceitariam as implicações desse caso?
Cesar poderia ter razão. Akila sabia que o protocolo da AGE ditava indiferença e negação caso seus agentes fossem comprometidos.
– O seu amigo pode cuidar de algumas pessoas?
– Tudo pode ser arranjado. Para você e quem precisar.
– Ótimo. Você falou de um favor. O que pedirão?
– Por hora só posso responder que seus conhecimentos serão necessários para... – Cesar escolheu bem a definição – a busca de um artefato perdido. Se estiver de acordo, siga imediatamente à Fundação Krause. Procure Karin e no momento certo receberá mais detalhes.
– Compreendo. Isso é tudo, professor?
– Sim, minha querida. Tenha cuidado. Preciso ir.
– Está certo. Obrigado pelo aviso.
Procurando Iris no Café Outeiro, Cesar a viu discutindo com um rapaz careca. Aproximou-se e estranhou a mudança no tom da conversa. O jovem saiu aborrecido e Iris explicou que o chato estava insistindo para “ficarem”. Então perguntou qual seria o próximo passo, pois não se espantaria se precisassem achar mais alguém. O mago admitiu que a tarefa não estivesse acabada. Desta vez seria necessário um transporte mais rápido, um taxi, para voltar ao bairro Nostradamus.
O IDOSO PADRE RECOSTOU MURIEL NA CABECEIRA. O rosto da menina estava inchado e os olhos avermelhados pelo choro. Ele sentou-se a beira da cama e esperou paciente até que ela se acalmasse.
– São misteriosos os caminhos do Senhor... – O padre testificou vendo o soluço abrandar.
– Não creio que esse caminho tenha aparecido para mim, padre Andrew.
– Não diga isso! – Ele se aproximou e acariciou seu rosto. – Agora olhe para mim. A salvação aparece de formas diferentes para cada pecador. E nem sempre o que parece errado pode ser condenado, filha.
– Mas e os frutos? Uma árvore imprestável não dá bons frutos, padre. E eu sou essa árvore... – Muriel lamentou inclinando o corpo sobre as pernas cruzadas. – Minha mão está podre... Tudo que eu toco se corrompe... Agora Deus está me castigando a ser uma alma penada...
– Não, pare, esqueça essa baboseira, garota. Foi só um pesadelo, já disse. Você é linda, inteligente... Atraente... Deus jamais castigaria você, meu passarinho! – Muriel ergueu a cabeça estranhando as palavras do ancião que se achegava enrugando o lençol do colchão.
– Padre Andrew, eu não estou entendendo o senhor. – Muriel falou sem perceber o seio quase desnudo pela alça caída do vestido.
– Me chame apenas de Andrew, meu tesouro. Se acalme...
Muriel gritou com o susto e dor causada pelas unhas cravadas nos seus ombros. O velho lhe segurou e forçou um beijo grotesco espalhando saliva fétida no seu rosto. Ela tentou afastar a cabeça, sentindo a respiração arfante e o hálito horrível perto da boca, mas o padre ainda a prendia com força surpreendente. Muriel gemeu, se debateu e forçou o corpo pressionado contra a cabeceira da cama. Seus olhos arregalaram-se e ela gritou vendo a cabeça alongada e deformada do Horror, o seu rosto coberto de escamas, as presas tortas e amareladas saltando da boca enegrecida.
– Por favor, pare... – Muriel implorou sofrendo com as garras furando sua pele.
– Hoje não, mulher! – Retorquiu com a voz sádica. – Implore aos santos, não a mim.
– Senhor! – Muriel suplicou vendo a língua farpada se esticar ao seu rosto. Instintivamente prendeu a respiração e jogou o corpo para trás... Sentiu o baque nas costas e abrindo os olhos se achou caída no chão da cozinha. Um berro estridente. Ela saiu correndo desorientada. Atrás a porta bateu com violência e o demônio veio derrapando ao seu encalço.
Muriel quase tropeçou num gato, caiu, mancou e tentou acelerar para fugir da igreja, mas a criatura era mais rápida com suas pernas compridas e conseguiu alcança-la. Ela assistiu, aterrorizada, o vulto saltando com seus braços escamosos para agarra-la... Mas o demônio transpassou seu corpo batendo com o peito e deslizando no chão. Muriel ficou paralisada observando a criatura atordoada.
O demônio se recuperou e retesou os membros cumpridos para saltar. Clarão e explosão. A criatura se contorceu com a ferida no dorso chamuscado. Na porta da igreja, um homem franzino permanecia com o braço estendido enquanto uma fina fumaça violeta emanava da mão.
ESCURECEU RAPIDAMENTE E NIC JÁ ESTAVA ENTROSA COM OS SUNAS DO CIRCO DE ÓRION. Juntos terminaram o trabalho do dia e adiantaram as tarefas seguintes. Estava cansado, mas experimentava um contentamento diferente, uma satisfação que não lembrava ter vivido. Tomando uma cerveja, sozinho, pensou nas coisas que comprou, nas pessoas que podia confiar e no seu futuro. Uma sensação de vazio foi tomando seu coração. Encarou sua vida fútil, sem objetivo, sem sentido. Havia a torturante faculdade de Direito, o trabalho como barman numa boate de segunda, uma irmã autodestrutiva violentada na infância e mulheres ocas que perambulavam por aí. Sua única certeza eram os porres de cada manhã. Sentiu vontade de gritar a angústia reprimida, mas sabia que seus manequins silenciosos não ouviriam. Queria socorro, que alguém lhe desse uma razão, que lhe orientasse... Estava tão perdido que não conseguia, ou não tinha confiança, para escolher sozinho. Precisava de alguém que acreditasse nele... Mas sentia-se sozinho na multidão... – O que fizeram de mim? – Sussurrou – O que farei comigo?
“EXCLUDO!!!”, ORDENOU O MAGO E A CRIATURA OBEDECEU INTIMIDADA arrastando-se para o vão entre os bancos. Cesar se aproximou julgando sua audácia em entrar num templo, mas a praga só chiava e se contraía com a dor provocada pelo projétil de fogo. “Pare ou será consumido pelo fogo-ametista...”, o mago sentenciou e deu as costas para buscar Muriel, ainda em choque. “Precisamos ir agora. Responderei suas perguntas quando estiver segura”.
Íris aguardava ansiosa atrás da coluna que segurava o velho portão de ferro. Os gritos dentro da igreja, o clarão e o barulho da explosão lhe fizeram temer pela segurança de Cesar. Soltou o fôlego, aliviada quando ele apareceu acompanhado.
– O que aconteceu? – Iris perguntou examinando Cesar.
– O padre virou um demônio? – Muriel acrescentou recuperando o fôlego.
– Tivemos problemas na igreja... E aquela praga não era exatamente um demônio, mas o reflexo da verdadeira natureza daquela pessoa. – Cesar explicou abrindo e fechando a mão sentindo seu calor arrefecer. – Agora falta muito pouco... Precisamos visitar só mais um lugar, no Elísio. Onde podemos tomar um ônibus para o bairro?
– O “Exílio”, você quer dizer?! – Iris brincou, citando a alcunha do lugar. – Não é difícil encontrar. Conheço duas linhas que passam por lá, mas o que está procurando?
– Aquele bosque, aquele perto do casarão, o velho hotel... – Cesar considerou encaminhar Muriel direto à Fundação Krause.
– O Bosque do Salgueiro Sombrio... Acho que sim. Tem uma linha da Galáctica que passa ali perto. Sei onde é o ponto. Venham!
No caminho Cesar entregou seu casaco à Muriel que o usou para encobrir o rasgo no vestido e os arranhões sofridos. Iris já havia reparado as marcas.
– Você está machucada. O que aconteceu?
– São apenas arranhões, vão sarar. O pior foi evitado graças ao seu amigo. Eu me chamo Muriel. E vocês?
– Sou Cesar Dominavit e a minha companheira se chama Iris. Estávamos a sua procura.
– Madre Helga mandou vocês?
– Não. Eu vim buscá-la porque alguém deseja responder suas perguntas. Explicarei melhor quando entrarmos no ônibus. Acho que ele está chegando.
Iris se acomodou num lugar mais a frente e Cesar conversou com Muriel evidenciando conhecer seus dons. O mago tentou confortá-la dizendo que suas capacidades se tornariam maldição apenas se não fossem compreendidas. Para isso o estudo e prática eram necessários e um amigo chamado Donovan Krause, o mesmo que revelou onde poderia encontrá-la, estaria disposto a ajudá-la. Ela estava amuada, mas considerando o prodígio testemunhado, o modo como Cesar tratou o agressor, talvez pudesse descobrir mais coisas que madre Helga se recusava a tratar. A amnésia ocultava seu passado, poucos estudos teológicos ofereciam alguma luz sobre os fenômenos desencadeados e como aparelhos eletrônicos não entravam no mosteiro, assuntos envolvendo Supra Sapiens passavam despercebidos aos moradores. Muriel indagou se este amigo poderia ajudá-la a encontrar uma pessoa, assim como ela foi encontrada. O mago sugeriu que sim, mas somente quando seu patrono estivesse recuperado de um mal. “Esta sendo sincero”, ela percebeu com empatia.
A conversa prosseguiu. Nessa altura Muriel já sabia que seguiria para o velho casarão que outrora foi o Hotel Redenção e agora sediava a Fundação Krause. Lá a filha de Donovan Krause estaria pronta para hospedá-la, se escolhesse pernoitar. Sem contar detalhes, Cesar revelou que seu benfeitor, além de iniciá-lo em certos estudos, foi o responsável pela cura da sua própria doença. Também esclareceu que esse rótulo, Supra sapiens, era uma balela criada mídia corporativista e que não condizia definitivamente com suas práticas. – Os antigos, considerados primitivos – lecionou – eram tão sábios e dominavam tão bem a magia, ou mais, que seus contemporâneos. – Muriel estranhou o discurso de Cesar, mas pensando nos reis magos que visitaram o Menino Jesus, preferiu guardar o debate para outra ocasião. Ficou em silêncio por dois minutos até resolver falar.
– E aquela aberração travestida de padre? Também é Supra sapiens? Ele não parecia sábio nem superior... – Comentou com rancor e ironia.
– Não, minha querida. – Cesar respondeu com os olhos fechados. – Aquela praga seria o oposto do que poderíamos considerar como um homem evoluído em termos, digamos, de moralidade, sabedoria e espiritualidade. Quando chegar a hora, Karin Krause elucidará essa questão que é muito complexa. Por enquanto mencionarei apenas a existência de uma energia invisível, uma força corruptora capaz de transformar o homem expondo na aparência, sua verdadeira essência e o reflexo das suas ações.
– Então tudo que for corrompido e horrendo será necessariamente mal enquanto as outras pessoas sempre serão boas? – Muriel interpelou desejando que não desviasse da resposta.
– Não, não necessariamente. Donovan Krause realizou muitos estudos sobre o assunto. Ele seria a pessoa mais adequada para explicar essa questão, ou Karin, talvez. Mas eu creio que não é sábio julgar o homem pelo que aparenta e até por suas atitudes fora de um contexto.
– Prossiga. Estou compreendendo...
– A questão, Muriel, é que neste plano, pelo menos, demônios e anjos não têm chifres e asas. Não se pode taxar o que é bem e o que é mal. O bem pode se manifestar através de pessoas e ações consideradas más, assim como o mal pode ser praticado com o pretexto de se fazer o bem. A história pode lhe dar algum exemplo sobre isso? – Cesar brincou insinuando a ligação de Muriel com a igreja.
– Você tem sorte das fogueiras terem acabado, seu bruxo! – Retrucou revidando a brincadeira.
O motorista anunciou o ponto do bosque, que era a melhor referência para localizar o casarão do antigo hotel. Iris, que havia cochilado no banco, deu um pulo e olhou para traz quando o ônibus parou. Cesar gesticulou de acordo e pediu para motorista continuar até o ponto final. Iris não entendeu e caminhou pelo corredor até o banco onde estavam. O mago explicou que o último eleito poderia ser achado no Circo de Órion e gostaria que Muriel viesse para fazer um bom exercício de discernimento. Iris ficou enciumada receando que a outra virasse a nova preferida do seu mentor. Primeiro Karin, depois Akila e agora Muriel. Voltou ao seu lugar se sentindo a mulher menos expressiva e desinteressante da cidade. Recostando a cabeça sobre a janela de vidro, suspirou enquanto uma lágrima furtiva escorria do seu olho.
NIC SUSPIROU E BEBEU O ÚLTIMO GOLE DE CERVEJA. Pamêliom se aproximou seguido por uma mulher alta com um longo cabelo liso, castanho-escuro, o rosto quadro e austero com o olhar obstinado.
– Jovem Nicholas, – Pamêliom apresentou – esta é Lucy Anderson, investigadora da Homicídios. Ela quer falar com você. – O coração de Nic acelerou. Pensou em correr, mas achou melhor agir com naturalidade.
– Policial? Nossa! Você é muito bonita para correr atrás de bandidos! – Lucy não apertou a mão estendida e acenou à Pamêliom que saiu calado. Então chamou Nicholas para dar uma volta e ele notou sua arma prateada no coldre por baixo do colete preto.
– Estive a sua procura. Na sua casa, na faculdade, até na boate. – Sua voz era forte e imperiosa – Não imaginava encontrá-lo aqui. Fazendo teste para o circo?
– Eu?! Não, não, acho que não me acostumaria com essa vida. Muito trabalho! Só estou visitando uns amigos. – Nic respondeu tentando avistar alguém perto, mas estavam quase em campo aberto.
– Eles são seus amigos?
– Sim, caras legais! Eles são gente boa e não fazem mal a ninguém.
– E você? Poderia? Fazer mal a alguém?
– Caramba, que pergunta! Sei lá. Acho que não me conheço tão bem.
– Pense melhor. E Gabriele?
– Você conhece minha irmã? – Nic ficou apreensivo. – Ela está bem?
– Por que está perguntando? Você não sabe onde ela está?
– Não, é que... Ela tem problemas. Às vezes faz algumas besteiras. Como ela está? Alguém a machucou?
– Acalme-se, ela está bem, descansando no meu apartamento. – Nic parou cheio de interrogação. – Não estou aqui para falar das besteiras de Gabriele, mas nas coisas que você fez, Nicholas O’Connor. É melhor me contar...
– Hã?! Se for pelas trouxinhas, eu não passo pra ninguém. São minhas. – Deu uma risadinha e foi surpreendido pela arremetida de Lucy que o jogou contra a caçamba de um caminhão.
– Agora escute, seu idiota! Gabriele não ficou desacordada muito tempo. Ela viu o que você fez! Você é o maldito suna que rasgou e perfurou aqueles homens! Você matou eles, entendeu? Matou eles! E eu deveria prendê-lo por isso!
– Mas, eu não tive culpa, foi por habeas corpus, defesa de necessidade!
– Você não tem ideia do que está dizendo, não é?! – Lucy recuou e soltou Nicholas. – Ouça, apenas sua irmã testemunhou o que aconteceu e mesmo que outras pessoas tenham visto alguma coisa, pelo que ela contou você estava irreconhecível. Então, vou continuar investigando o caso e você trate de se controlar até que o inquérito seja arquivado. Não apareça como um monstro ou terei que caçar você e prendê-lo.
– Acha que você conseguiria? – Nic desafiou.
– Eu adoraria fazer um buraco no seu sorriso sarcástico, mas Gabriele não me perdoaria. Estou aqui a pedido dela. Não dificulte minha ajuda, pois nunca fiz isso. Colabore.
– Então está fazendo isso pela minha irmã? Como você a conhece?
– Nós estamos juntas, se é que precisa saber. E eu a amo.
Lucy afastou-se e piscando para Nic foi embora. Ele permaneceu próximo ao caminhão, embaraçado e também aliviado. Então decidiu falar com Pamêliom e se desculpar por qualquer problema. Pam lamentou trazer a policial, alegando que ela ameaçou interditar o circo. Não foi a primeira vez que gente perigosa buscou guarida aqui e a policial sabia disso. – Pena que ela não ofereceu recompensa, senão eu mesmo me entregava. – Nic pacificou a questão. Então pediu para falar com os outros e se despedir.
OS VISITANTES AGUARDAVAM À DISTÂNCIA, AO LADO DO MARTELO. Cesar estava ansioso para falar com Nicholas, enquanto Iris reparava sua beleza casual e Muriel tentava se adaptar fora do mosteiro com tantas pessoas incomuns. Pensando no Horror da igreja, nas pessoas que trabalhavam neste circo, nela e no próprio Cesar, questionou se “as pragas”, como Cesar se referia, os sunas, os homens e Supra sapiens, todos eles, pertenciam ao único gênero chamado Humanidade. Talvez o mundo velasse monstruosidades, discriminasse aberrações, pendesse para os homens e desconfiasse dos prodigiosos, mas o que não se percebia é que nem os olhos, nem a inteligência ou o coração seriam capazes de separá-los. Talvez todos fossem idênticos e só o espírito poderia verdadeiramente diferenciá-los. Muriel respirou fundo e sentiu uma paz reconfortante. Ninguém percebeu, mas talvez Cesar tenha sentido que o seu campo de proteção, formado por suas vibrações, estava mais forte. Desse modo a Serpente do Caos não poderia alcançá-la.
Quando Nicholas se despediu da trupe, Martelo acenou à Pamêliom e sinalizou que os visitantes também queriam falar com o recém-chegado. O anão puxou Nic pela manga e sussurrou ao seu ouvido. Ele deu um sorriso irônico e se aproximou para saber por que estava sendo tão badalado. O Martelo se afastou e Cesar, acompanhado por Muriel, foram ao encontro de Nicholas. Iris mais uma vez ficou destacada, esperando.
Aproveitando as informações no Diário dos Eleitos, Cesar explicou seu propósito e tentou convencer Nicholas a acompanhá-lo. Desta vez sua retórica não surtiu efeito e nem a intervenção de Muriel foi suficiente para conscientizá-lo. O mago ficou apreensivo com o fracasso iminente e Muriel não sabia como sua razão ou a sua fé poderiam convencer o rapaz imaturo. Nic queria partir e os sunas à distância já estavam impacientes com insistência de Cesar em estender a conversa. Muriel ficou aborrecida com o descaso do rapaz. Foi então que Iris interferiu ignorando o olhar reprovador de Cesar. Usando uma linguagem simples, atual e sem floreios, ela cativou Nic e também se sentiu cativada. Depois ela pediu que desse uma chance para Cesar e seus amigos, porque essa gente se importa e está a fim de ajudar. Nicholas ficou menos resistente e prometeu pensar em tudo que ouviu. O mago acatou cumprimentando-o. Mencionou o casarão perto do bosque dos salgueiros, entregou o cartão com o “K” estilizado e saiu acompanhado por Muriel. – Ficarei aqui com Nic. – Iris falou para Cesar que ficou abismado. Ele discordou, pediu, aconselhou, alertou para segui-lo, mas ela estava irredutível. – Não sou criança. Sei me cuidar. – Cesar teve a impressão de falar com outra pessoa e percebendo que não poderia mudar sua vontade, pediu que ao menos avisasse ao seu pai.
O mago deixou o Circo de Órion, com Muriel. Estava um tanto frustrado, enciumado e com o orgulho riscado pelo êxito de Iris. Por outro lado, sua tarefa também estava cumprida e isto era o mais importante. O futuro da Ordem Ofiúco e o destino dos eleitos foram cruzados.
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