OFIÚCO: OS PERGAMINHOS PERDIDOS.

2 "Fica responsável por tudo que cativas". Antoine de Saint-Exupéry.


Cesar voltou à sala com o aparelho de chá inglês. Sua pequena turma aplaudiu ansiosa para provar o novo sabor exótico que ele trouxe da viagem. Cesar Dominavit, professor da Universidade Cosmo, era tão admirado por sua cultura e intelecto quanto pela extravagância cativante. Iris, sua aluna mais solícita, adiantou-se em pegar a bandeja de prata e colocá-la à mesa-de-centro. Cesar agradeceu e sentando no velho sofá puxou ao colo o gato cinza que dormia no braço estofado. Iris ajeitou o cabelo dourado atrás da orelha e serviu primeiro seu mentor, depois distribuiu as xícaras aos demais. Agora a casa do professor contava com cinco alunos, os mais interessados nos estudos esotéricos que não tinham relação com as matérias da faculdade. Cesar Dominavit avaliava e selecionava os alunos mais receptivos para compartilhar seus conhecimentos arcanos. Ensinar, orientar, era um privilégio que dava sentido à sua vida. E interagir com as pessoas era um prazer que sempre tentava cultivar.

— Excelente, professor! Que chá é este? – Michael, o mais ansioso, perguntou.

— Rapaz, esta bebida não é um chá, mas sim uma infusão. Muitas pessoas cometem esse equívoco, mas somente os derivados da Camellia sinensis têm esse nome. Desta planta é que provém o chá preto, o chá verde e o oolong, classificados em grupos diferentes conforme seu preparo.

— Camellia sinensis? Nunca ouvi falar dessa planta. – Victoria comentou com pouco interesse.

— Pois saiba que ela marcou a cultura do seu povo, minha jovem aristocrata. – Cesar prosseguiu de olhos fechados com a excentricidade que lhe era peculiar – E na Inglaterra, como devem saber, é comum servi-lo com leite.

Iris ouvia com atenção, contendo o sorriso que denunciava seu desejo pelo professor. Ele não era um homem bonito, porém as marcas da meia-idade lhe conferiam certo charme. Sua fala fluente, serena e versátil combinada com o estilo incomum fazia Iris fantasiar paixões com seus olhos sonhadores.

— Mas foram os portugueses que o trouxeram da China... – Iris falou para chamar a atenção.

— Certamente, minha querida, isso mesmo! – Cesar confirmou e ela corou com o tratamento.

— Eu reconheço o sabor de laranja, mas tem um componente mais acentuado... Canela?

— Vamos analisar. Creio que todos perceberam o sabor acentuado que Iris constatou. Agora tentem identificar os demais ingredientes da infusão.

— Sim, professor, mas o que isso tem a ver com nosso estudo? – Santiago perguntou com a impaciência habitual.

— Recordam o assunto que tratamos no último encontro? Sobre Oráculos? Pois bem, vocês também devem lembrar que em certos cultos, infusões especiais são preparadas para facilitar a elevação da consciência nos rituais. Alguém pode recapitular para quais propósitos? – Michael largou a xícara e bateu os dedos na testa tentando responder, mas Iris antecipou:

— Para fazerem predições, experiências extraplanares, elevar a destreza... A erva do absinto, por exemplo, foi muito usada pelos magos na Europa.

— Correto, Iris! – Cesar aprovou abrindo os olhos faiscantes. – Percebam que o paladar é um sentido muito útil para certas manipulações. Santiago, com essa qualidade é possível reduzir certos riscos que podem ser mortais.

— Difícil imaginar que essas plantinhas causem problemas. – Victoria comentou incrédula.

— De fato, senhorita. Pode citar um exemplo desse tipo de planta?

— Bem... Mandrágora, com propriedades... Afrodisíacas, analgésicas e alucinógenas. – Victória respondeu com sua preguiçosa arrogância.

— E o que mais? Cesar desafiou e o silêncio da nobreza instigou Íris – Semente formada pelo sêmen de um enforcado? – Ela perguntou num tom ingênuo e todos riram da brincadeira.

— Assim dizia a lenda, Íris. Que tal citar outra planta? – Michael não se conteve enquanto ela pensava.

— Eu sei, eu sei! Ayahuasca!

— Saúde! – Santiago tentou ser engraçado.

— Idiota... Ei, Antônio, essa planta é comum no seu país, não é?

— S-Sim... – Respondeu tímido o brasileiro.

— Ótimo, senhores, agora façam a análise. Tentem identificar os ingredientes da bebida.

Michael bebeu rápido, enquanto Iris degustou fixando os grandes olhos azuis no professor. Victoria levou a xícara lentamente à boca e Santiago, desconfiado, acompanhou os colegas. Antônio girou a xícara nas mãos por alguns segundos, parou-a perto da boca e aos poucos foi sorvendo seu liquido. Cesar aguardou um minuto e então pediu o veredito.

O mais afoito gaguejou, estremeceu, se confundiu e pediu para ser o último a responder. Iris negou com a cabeça, frustrada por desperdiçar uma chance de elogio. A refinada moça inglesa ainda tomava o segundo gole e Santiago, impaciente, arriscou uma resposta impensada. Antônio, por último, respondeu num tom baixo que se elevou conforme Cesar acenou orgulhoso:

— Canela, cravos-da-índia, açúcar mascavo.

— Primoroso, Antônio! Parabéns! Você não será envenenado pela ignorância ou impaciência... – Todos gargalharam apontando para Santiago que resmungou com a brincadeira do professor.

— Muito bem, vamos continuar do ponto em que paramos antes do intervalo. Falávamos sobre?

— Astronomia, o calendário maia! – Michael respondeu vitorioso como se esperasse a pergunta.

— Exato, meu rapaz. Continuemos. Ars longa, vita brevis. Passemos agora aos ciclos desse calendário.

Para continuar o professor lubrificou a garganta quando batidas foram ouvidas à porta. Cesar tirou o gato preguiçoso do colo para levantar, mas Santiago foi mais rápido. Da entrada avisou que Karin Krause veio vê-lo. Iris se agitou na cadeira. A porta foi aberta e a mulher apareceu altiva, muito bonita, de traços finos, pele alva e cabelo preto cumprido. Quando ela sorriu para o amigo, Santiago reparou sua boca desenhada e depois notou seu andar elegante delineado pelo vestido vermelho. Só não percebeu que ela carregava um livro contra o busto.

Michael observou curioso. Victoria admirou o porte da mulher que atravessou a sala desviando dos livros empilhados no carpete. Antônio se encolheu na poltrona e Iris falaria, mas parou quando o rosto de Karin mudou e seu nariz avermelhou prenunciando o choro contido. Cesar ergueu-se e rapidamente levou a visita até sua poltrona. Então pediu desculpas aos discípulos e avisou que a sessão estava encerrada. Todos ficaram descontentes, mas logo foram sensibilizados, até Santiago, pela beleza chorosa da recém-chegada. Iris, visivelmente enciumada, foi a primeira a deixar a casa assustando os gatos. Todos se despediram.

Quando a porta fechou, Karin repousou o livro encarnado sobre o colo e aceitou a bebida oferecida. Observou que a nova casa do mago não parecia muito diferente das duas anteriores. Muitos livros ainda empilhados no chão... Móveis acomodando souvenires de viagens, enfeites étnicos, instrumentos tribais... As paredes cheias das máscaras colecionadas, mas os quadros ainda desalojados entre os livros... Só os gatos acolhidos pareciam bem acomodados na bagunça organizada.

— Quando estiver pronta, minha querida...

— Os gatos aumentaram! – Cesar concordou pegando um felino preto caolho.

— Foi difícil achá-lo. Pedi seu endereço na universidade, mas a secretária gorda não ajudou. Tive que sondar sua mente. Não tem ideia das nojeiras que ela faz com doces.

— Ora, ora, a admirável rainha quebrando as regras?! O que Sir Donovan diria se soubesse como usou telepatia?! – Karin entristeceu com a brincadeira.

— Perdoe-me, como ele está? O que aconteceu?

— Meu pai e os Imperadores foram convocados pelo Supremo Conselho.

— Todos? – Cesar franziu o cenho, a boca entreaberta.

— Sim, todos eles. Há três dias se reuniram na Catedral dos Profetas... Para tratar dos pergaminhos. – Cesar arregalou os olhos. – O Supremo Conselho decidiu procurar os Pergaminhos Perdidos de Elijah Baruel.

— Então a profecia será descoberta e revelada, finalmente. E qual círculo foi designado para a tarefa? – Karin emudeceu por alguns segundos.

— Eles decidiram que nenhum círculo poderá executar essa... “missão”. Pelo sigilo da busca, pelos riscos e atributos necessários, concluíram que um novo círculo será formado, ou melhor, que o Círculo de Krause será restaurado.

Cesar sentiu uma pontada na cabeça como se fosse apunhalada. Suas máscaras gemeram e gargalharam e ele fechou os olhos para ignorar a visão.

— Mas o próprio Supremo Conselho rompeu o círculo. Porque forjá-lo novamente?

— Por tudo que falei, Cesar... E você precisa liderá-los!

— Não, não, não, – Cesar agitou a cabeça – o risco seria maior! A fructibus eorum cognoscetis eos! É você quem deve conduzi-los! Você ou Aleczander Zunniga, mas eu não posso fazer isso... ELE não permitiria...

— Pois foi você quem meu pai designou. Eu devo ficar aqui, em San Thomas, para responder pelo Círculo e pela família.

— Quero falar imediatamente com Sir Donovan. Ele está na cidade? – Cesar transpirava.

— Não. Na França. Ele... – Karin voltou a chorar. – Ele definhou tanto que não pôde voltar. Qualquer esforço para removê-lo colocará em risco a sua vida.

— Pelos Mestres da Ascensão, Karin, o que aconteceu?

— Os Veneráveis... Pediram que meu pai descobrisse os eleitos. Sabiam que ele sofreria com o esforço, mas pediram assim mesmo...

— Eu lamento... Muito... E quem são eles, esses eleitos? Membros de outros círculos?

— Não. Essas pessoas desconhecem a Ordem e seu propósito. Acho que a decisão do Supremo Conselho não agradou a maioria. Você ainda deverá reuni-los... Para a iniciação. – O mago gemeu de aflição.

— Mas só os Imperadores foram convocados? Como soube disso?

— Dimitri avisou. Viajei para ver o meu pai. Cesar, ele ficou tão velho! Seu vigor consumido pelo tempo que usou para vislumbrar o futuro. A precognição lhe enfraqueceu tanto que mal consegui ouvi-lo por telepatia.

— Rainha... – Cesar meditou alguns segundos, depois ajoelhou-se. – por seu pai, pela dívida impagável que tenho com ele, aceitarei esse fardo. Mas por razões que não posso explicar sem a orientação de Sir Donovan, somente localizarei esses eleitos para levá-los ao casarão. Depois disso, você e Aleczander assumirão toda responsabilidade.

— Está certo. Não vou mais pressioná-lo. Aceito a ajuda e agora passo o diário com as visões de meu pai. Aqui você encontrará informações para achar essas pessoas. Sei que é desnecessário, mas eu rogo sigilo e muita cautela, porque talvez eles desconheçam os próprios dons. E receio que sejam poderosos.

Karin abaixou-se, entregou o diário e abraçou Cesar. – Até breve, meu amigo. Contamos com você. – Assim a rainha do Circulo de Krause deixou a morada do mago.

Sozinho, Cesar retirou os papéis da mesa e colocou o diário. Postado à sua frente assumiu a posição de lótus, fechou os olhos e visualizou o livro em sua mente fazendo invocações de sabedoria e proteção. Enfim destravou a pequena fechadura e começou a ler as páginas marcadas. Elas continham peculiaridades sobre os eleitos, traços físicos e descrições dos lugares onde poderiam ser encontrados. Cesar morava há muitos anos em San Thomas e conhecia bem a cidade. Quando terminou a leitura já estava empolgado com a chance de reunir o grupo e doutriná-lo, mas então se lembrou do acidente, da sua culpa e da ruptura do círculo... Esforçou-se para ignorar a tragédia e se concentrar nos obstáculos da busca: o número de pessoas, o sigilo dos contatos e o curtíssimo prazo... Se todos não fossem contatados rapidamente, no ponto exato da interseção temporal, o êxito da tarefa seria comprometido. Os eleitos deveriam ser achados no dia seguinte, mas como? Pensou na ajuda dos discípulos, mas julgou que não estavam preparados para serem envolvidos nos desígnios da Ordem...

O barulho desviou sua atenção para o vaso grego derrubado pelo gato sem rabo. E Cesar teve uma ideia que poderia funcionar. O mago levantou e foi rapidamente ao quarto, na verdade um cômodo privado onde realizava certos rituais. Folheando as anotações no Livro das Sombras, encontrou exatamente o que buscava: a tradução de um ritual romeno para o controle de espias, o Imperium feline.

Iris voltou à casa do professor durante a noite. A lembrança daquela mulher lhe irritava, provocava seu instinto, instigava sua possessão. Sabia que Cesar não recebia muitas visitas e que ninguém já tinha lhe visto com namorada, mas precisava saber se existia uma rival. E se estivesse sozinho, como esperava, pretendia se declarar e se entregar por completo se ele a desejasse. Arrumou o cabelo curto atrás da orelha e desceu do velho carro para atravessar o jardim abandonado. Um vento forte passou invadindo a casa. Portas e janelas se agitaram. Ela sentiu um arrepio sobrenatural e seus pelos eriçaram. A magia estava em movimento. Dezenas de gatos errantes saíram correndo e miando. Íris entrou na casa sem pensar e achou Cesar inconsciente, seu corpo franzino no chão do quarto. Ela se aproximou devagar e admirando seu rosto, as entradas no cabelo, acariciou seu queixo proeminente e deu-lhe um beijo hesitante e afável. Logo esqueceu tudo que lhe incomodava e deitando a cabeça sobre o peito desnudo e suado, fechou os olhos desejando que o tempo parasse...