OCASO
18 Sentimentos 5.2
Uma mão pequena tocou suas costas. Gentil e confortável. Tyler acordou assustado, sentiu o rosto doer depois de um cochilo sobre os livros. O mundo embaçado pelos olhos excessivamente úmidos. Viu que Holly estava ao seu lado, os olhos fundos. Que horas deveriam ser? Tarde o suficiente para se estar na biblioteca.
—Desculpa te acordar, sei que o sono estava bom, mas vão fechar a biblioteca. -ela sorriu gentilmente. Tyler já podia se acostumar com isso, em sua mão um copo de café. Havia virado algo rotineiro ficar ali até o limite do horário e então Holly aparecer, um sorriso bonito no rosto e um copo de café. – Voltamos amanhã, já deixei os livros separados.
Tyler assentiu, juntou a pilha de livros e aceitou feliz o copo de café de Holly. Bebia tranquilamente enquanto relia suas anotações um pouco amassadas. Sua cabeça doía e era difícil de entender sua letra meio rabiscada.
—Tyler. -chamou colocando algum livros nas prateleiras. Estava tensa, não sorria e isso era algo preocupante. – Eu acho legal esse momento em que estamos aqui e lemos coisas estranhas, até assustadoras... -e levantou as mãos em suspense, depois voltou a ficar séria. – No começo eu achava que isso era só uma desculpa para você matar algumas aulas chatas, mas já faz algum dia que estamos vindo aqui e eu penso que talvez você esteja realmente procurando algo...
Tyler bebeu mais um longo gole de café. Como explicar a Holly que isso se tratava de uma pesquisa para entender mais sobre Riley? Para entender mais sobre os seres que quase mataram seus amigos? Como dizer que existe lobos e vampiros e mais um monte de coisa sobrenatural da qual ele nem podia cogitar existir?
Não. Holly não merecia ser atormentada por isso. Na verdade se ele dissesse algo do tipo, era até mais possível que ela o chamasse de louco e fosse embora. Queria que ela continuasse o ajudar, era perfeito com a companhia de alguém que poderia fazer aquilo por horas, bom demais até aquele momento. E poderia até fazer isso com Caleb, mas não parecia a coisa certa depois de tudo.
—Procurando o que exatamente? -devolveu a pergunta com desdém e deu outro gole no café para esconder o nervosíssimo.
—Não sei. -riu um pouco desconcertada. – Foi só algo que passou pela minha cabeça, parece tão estranho quando garotos te pedem ajuda com outras garotas, com problemas na puberdade, mas ainda mais estranho quando te pedem ajuda para entender sobre vampiros e lobisomens.
—Licantropes. -corrigiu de forma direta.
—O quê? -ela pareceu ficar confusa.
—Não procuramos lobisomens, é algo mais mágico e menos animal, entende? -sorriu colocando os últimos livros na prateleira. – Licantropes, é isso que estou procurando.
Holly riu balançando a cabeça, um sinal de reprovação, era possível que estivesse brava, mas Tyler não tinha certeza:
—É disso que eu estou falando, você finge que não está procurando nada quando está e tudo bem não querer me contar, mas não finja que não tem algo estranho nisso.
—Não sei o que você quer dizer com isso. -deu de ombros.
—Tyler... -ela semicerrou os olhos, analisando aquela expressão mentirosa que Tyler expunha. – Você terminou com Riley e sei que seus amigos estão no hospital, então não precisa fazer dessa pesquisa estranha a sua meta diária, certo?
—Certo. -confirmou com um pouco de dúvida. Holly não deixaria essa sua resposta ser suficiente, continuaria alfinetando até que ele contasse qualquer coisa que entregasse o motivo da pesquisa. – Faço isso para ocupar o tempo vago, por esporte, por querer ser mais estudioso ou qualquer outra coisa que possa ser uma boa explicação... Quanto menos você souber melhor. -largou o copo no lixo e cruzou os braços. A conversa estaria encerrada.
(...)
Observou os desenhos. Suas formas sombrias e traços pesados. Não havia lindas paisagens e animais como outrora, agora apenas cenas de sofrimento, sombras dançantes e lobos que em nada lembravam humanos. Cenários do que parecia uma tormenta infinita que Riley sofria em seus sonhos. Matt suspirou. Se houvesse uma forma de ajuda-la, faria. Não conseguia entende-la de muitas maneiras e quando se tratava de licantropia muito menos, principalmente porque ao mesmo tempo que ela parecia apta a ser boa nisso, se mostrava também perturbada por esse lado.
—Eles têm um significado. -comentou Christopher parando ao lado de Matt. O quarto pareceu ficar menor com a sua presença. -Os desenhos dela podem ser alguma manifestação dos sentimentos ou algo que está associado a alguém.
—Com que frequência você está na cabeça dela? -perguntou hesitante daquela resposta que viria, o dom de Christopher era algo incrível e assustador. Ter seus pensamentos e memorias violados era de longe uma das maiores preocupações de Matt, era nesse espaço que ele cultivava suas piores confusões e imaginava o que se passava com Riley.
—Uma vez apenas, na sua primeira transformação. -ele sorriu e aquilo trouxe em Matt a sensação de déjà vu que ele costumava ter sempre que estava na presença de Christopher. Seria o modo como ele nunca envelhecia ou mudava os hábitos ao falar que fazia com que ele fosse eternamente uma fotografia do passado, tudo como se já tivesse acontecido antes. – Foi difícil ler sua cabeça, involuntariamente ela me rejeitou de todas as formas, mesmo que isso estivesse aumentando seu trauma e o sangramento, mas de toda forma quando eu consegui pude ver que há algo nela ainda adormecido.
—Você está dizendo que ela possui um dom? -Matt ironizou sua pergunta, ele sabia dos limites da licantropia.
—Sei que mestiços não podem ter dons, é isso uma das características que os tornam tão inferiores a qualquer espécie. -Christopher estava sério quebrando a postura de Matt com um olhar. Era estranho pensar em Christopher como alguém capaz de enxergar Matt de verdade, mas ele era. Foi um amigo ou irmão mais velho, protegeu Matt enquanto esse protegia Will, o ensinou a ser mais forte porque esse não se via capaz de ser melhor que o irmãozinho mais novo. Era Christopher o único que podia cobrar algo de Matt e não ser atacado com ofensas de covardia. Matt sabia o que Christopher havia feito, seus limites e sacrifícios, era grato e ponto. Nada mais, nem menos. – Existe algo singular dentro dela, não um dom, algo mais... Especial.
Matt revirou os olhos. Riley era um mistério, especial até, era filha de lobos brancos e da primeira geração de caçadores. Ainda existia muito a se saber sobre suas habilidades, mas nada muito extraordinário. Não era a primeira mestiça de um caçador com lobos.
—O que mais você descobriu? -perguntou dando uma olhada na porta para conferir que Riley não estava lá. Ela havia descido fazia dez minutos para fazer um lanche e Matt ainda conseguia ouvir o barulho do liquidificador na cozinha. Naquele dia eles iriam ao acampamento em uma reunião da matilha, dessa vez com a presença de Christopher.
—Lembranças da sua infância mórbida e a sua emocionante vida de transformada. Não é como... -Christopher parou de falar para encara-lo, uma sobrancelha levantada, estava sorrindo: — O que você quer saber?
—Nada! -exclamou se afastando dos desenhos e olhando para as fotografias perto do espelho. Um minuto de silencio se prolongou. – Não é estranho estar na mente de alguém, saber tudo sobre ela e não querer falar sobre isso?
—Geralmente não, mas se você quiser saber de alguma coisa pergunte a ela. Mesmo que você já saiba a resposta.
Matt se virou confuso, procurando uma boa explicação do que Christopher queria dizer com aquilo:
—Do que estamos falando mesmo?
Riley apareceu na porta segurando um copo de vitamina e um sanduiche.
—Eu também ia perguntar isso. -falou dando uma boa mordida no pão recheado.
—Estamos falando como Matt é péssimo em interpretar os próprios sentimentos e precisa da minha ajuda. -Christopher se sentou na cama tranquilamente, se divertia com a situação que deixara Matt. – Vamos Matt, diga a ela como se sente inseguro e confuso.
Matt lançou um olhar de advertência para Christopher depois se virou para Riley dando de ombros, ela o observava com uma expressão curiosa enquanto tomava a vitamina. Depois sorriu e gesticulou para que ele falasse.
—Por que estamos colocando meus sentimentos em debate? -riu nervoso. – Achei que tínhamos uma reunião ou algo do tipo. Mais importante que confissões adolescentes. Uma festa do pijama agora e então faremos trancinhas uns nos outros?
Riley terminou o pão com uma mordida e a vitamina em um gole. Christopher ficou de pé com um pulo, não parecia animado, o conhecia a bastante tempo para saber que ele estava com medo. Tinha uma postura dura e um sorriso desafiador, resultado do estresse que estava passando. Era assim que reagia toda vez que precisava provar ser de confiança. Ele foi o primeiro a sair do quarto, passando por Riley de forma flutuante sem nem um tocar de ombros. Quando Matt seguiu atrás, Riley o parou:
—Eu ainda vou te cobrar essa conversa. -estava descontraída, mas falava sério. -Você não precisa perguntar ao Christopher o que se passa na minha cabeça ou como me sinto.
(...)
O ar estava pesado. As pessoas se entreolhavam com expectativas aflorando, a tão esperada fala do Jones estava sendo aguardada há muito minutos e de fato ninguém gostava disso, não só pelo suspense, mas também por Christopher estar ali. Um vampiro, manipulador e mentiroso, que ajudou Henry a manter Will em segredo e fugiu impune. Riley, entretanto, não o via assim. O achava até mesmo altruísta, em vários aspectos cedendo seu posto para proteger pessoas das quais ele não devia nada, mais uma vez ali parado, pronto para ajudar.
Ao lado dele estava Matt, ambos afastados de todos os outros, era incrível essa amizade. Era diferente de qualquer uma que Riley chegou a conhecer, talvez aquilo sim fosse algo verdadeiro, não o que ela fazia uma vez no ano para esquecer no seguinte. Conversavam e riam, um sorriso de Matt que Riley sentiu inveja por um breve momento, queria ter feito ele sorrir assim alguma vez. Era leve e tranquilo, como quem não se importa se o assunto é um debate político ou vídeos de gatinhos no Youtube. Era um tipo de sorriso que se dá na conversa normal que Riley costumava ter antes de qualquer coisa sobrenatural despertar na sua vida.
Estava encarando os dois, porque desistira de acompanhar a conversa entediante dos outros conselheiros sobre o atraso de Jones. Naquela sala um tanto apertada, havia homens e mulheres, novos ou velhos, mas ninguém que realmente se importasse com Riley. Havia friezas nas suas palavras, algo mecânico que não os permitia lidar com o assunto demonstrando consideração. Riley sabia naquele momento quando se virou e viu seu pai de expressão dura, que matilha não era família e ele estava certo. Sua família morrera, sua mãe e avós. Se tinha tios ou primos não fazia diferença, eventualmente eles a rejeitariam também.
—O Conselho entrou em contato. -anunciou Jones fazendo assim, todos na sala silenciarem. – Estão vindo e querem a Riley para julgamento.
Todos se voltaram para ela. A criticavam em silencio, mas Riley quase que podia ouvir seus pensamentos revoltados. Abaixou apenas o olhar, cabeça e postura firmes. Cruzou os braços e respirou fundo. Era o esperado, era o que todos vinham dizendo pelos cantos. O Conselho viria busca-la, seja pela morte do Josh, pela morte de outros vampiros ou simplesmente por ser a única mestiça dos lobos brancos. Não conseguiu reprimir o pensamento de que poderia ter o mesmo destino de Will, porque agora mais do que nunca a fina linha que separava a sua história da dele parecia se colidir em um arco quase perfeito de coincidências.
—Estarão aqui em 3 meses ou menos. -continuou Jones com uma carta em mãos. – Preciso ser franco com vocês, talvez sejamos repreendidos em consequência dos atos de Riley.
—Repreendidos? -vociferou alguém que foi impossível de identificar.
—É como no caso do Henry, Riley é da nossa matilha, nossa responsabilidade. -explicou com uma voz angustiada. – Precisamos estar preparados para o pior. -finalizou guardando a carta no bolso e se sentando com os conselheiros. Uma onda de vozes preenchendo a sala.
Bill alcançou Riley perfurando o amontado de pessoas. Parou ao lado da filha e lhe segurou uma das mãos. Estava com o rosto sereno, uma típica qualidade de tranquilidade que tinha até nos mais tristes momentos. Sorriu. Só parecia ali o velho Bill fotografo, nada de caçador ou lobos, apenas um homem comum com um sorriso comum. Sua única família.
—Vamos dar um jeito, tudo bem? -ele encorajou sem muita convicção. -Antes que algo ruim te aconteça, eu posso...
—Pai. -interrompeu Riley apoiando sua outra mão no ombro dele. – Ainda podemos fugir, você estava certo sobre tudo.
Bill balançou a cabeça afirmando e por uma fração de segundo Riley chegou a pensar que uma lagrima quase lhe escapou do olho.
—Não adianta. -falou frustrado. – Mandariam membros especializados em rastrear e te matariam assim que tivessem a oportunidade. Teremos que esperar o julgamento.
—Podemos nos isolar de mais problemas, ficar fora por um tempo e... -Riley se calou, não queria fazer aquilo. Não queria se afastar ainda mais das coisas que construíam seu passado. – Preciso de treinamento.
Bill a encarou com um olhar suspeito. A única filha que tinha, a pequena Riley ou a mulher que havia se tornado, uma semelhança da única pessoa que amou e lutou, era o que havia sobrado de Alana. Também sua única família. Relaxou a postura:
—É a melhor alternativa. -declarou sorrindo confiante. – Na verdade, é uma ótima ideia racional.
Não morreria. Não se deixaria levar. Isso era uma certeza para a Riley, sua necessidade de estar viva depois de passar por tanto. Fugiria ou lutaria, mas não seria o Will. Seria sua história, suas escolhas. Estava avida pelo aprendizado, por seus limites e pela oportunidade de ser julgada pelos seus verdadeiros erros. Buscaria esperança, nem que a fabricasse para suprir seus próprios pensamentos que a enlouqueciam cada vez mais. Teria pesadelos de noite e saberia que quando estes se tornassem reais ao amanhecer, ela não se surpreenderia.
(...)
Quando a madrugada chegou e todos parecerem se dissipar como agua para seus alojamentos, foi que Matt encontrou Riley sentada na beira da trilha, perto de uma arvore torta e doente. Puxava o pouco de mato que se acumulava perto da raiz, concentrada naquilo nem percebeu quando ele chegou.
—Vou te poupar o sermão sobre como esta machucando essa pobre arvore...
—Eu vou embora. -anunciou bruscamente, sem alterar o volume da voz. Levantou o olhar e Matt esperou que ela estivesse chorando, porém não. – Hoje mesmo.
—O quê? Você não pode fugir. -advertiu duro demais. Se repreendeu mentalmente por aquilo, não era ele que ditava as coisas que Riley deveria fazer.
—Não estou fugindo, estou me afastando de problemas nesse prazo de 3 meses que eu ganhei. -explicou ainda calma demais. – Eu preciso...
—Não pode. -afirmou com veemência. – Você não precisa fazer isso, se esconder de problemas e esperar que eles sejam consequência de você estar aqui, eu sei que seu pai tem essas ideias loucas de...
—A ideia foi minha. -interrompeu mais uma vez. Parecia um jogo em que ninguém conseguia terminar seu raciocino sem que o outro rebatesse. – Há chances de que quando o clã norte souber disso resolva atacar o acampamento ou a mim. -deu de ombros e voltou a puxar o mato. – Não é de todo ruim já que meu pai vai me ensinar algumas coisas e eu vou melhorar minha transformação também, vou ficar tão boa nisso como Will. -e sorriu gentilmente, uma expressão semelhante a um vidro trincado que no menor baque poderia fragmentar.
—Esqueça o Will. -rebateu nervoso. Era deprimente vê-la daquele jeito, um condenado prestes a pagar sua pena de morte. Não precisava ser assim. – Não fale do Will como se ele estivesse vivo. -reprimiu suas palavras fechando a cara. Estava descontando nela sua própria frustração, mas era quase inevitável diante da auto piedade que Riley criava. – Desculpa, eu... Eu só não quero que você seja igual a ele, se possível em nada, porque ele está morto e você está aqui.
Riley assentiu e se levantou, não era tão pequena como Matt pensava e isso o fez sorrir por um breve momento. Ela abriu os braços e o pegou de surpresa quando o envolveu de repente em algo quente e confortável. Matt xingava mentalmente. Aquilo que era uma despedida. Riley não precisava se afastar dos seus problemas, precisava ficar longe dele. Juntos era quase estar à beira da morte.
—Eu não posso te visitar?
—O clã do norte te odeia, você só veio morar com o Jones porque já não podia se proteger sozinho. Querem te matar, assim como eu. -mantinha o abraço sozinha, Matt ainda não tinha se mexido. – Quando souberem do seu envolvimento, da minha história... -parou de falar para um suspiro cansado e o soltou deixando os braços penderem de uma vez. O encarou triste: – Pare de ser o imã de problemas.
—Se eu não fosse um imã de problemas então como eu teria conhecido você? -perguntou devagar a pegando de surpresa.
—Apenas...-desviou o olhar para o seu pai que seguia em direção ao carro, um ultimato para aquela conversa. Poucos segundo antes que ela desse um adeus definitivo: — Tente concertar as coisas sem mim.
Virou as costas e escapou de Matt. Era uma silhueta que ia a favor de vento, que não o esperava e nem ficaria. Matt recuou dois passos e riu, uma risada nervosa e ansiosa. Também virou de costa, estava angustiado e não processava bem o que estava sentindo. Estava com medo, um medo que não sentia desde a morte da sua família.
—Ela vai voltar. -confirmou Christopher se aproximando a passos lentos e cabeça abaixada.
—Não estou preocupado com isso. É só... -deixou as palavras morrerem no ar, não explicaria para Christopher que a ausência de Riley era o que o enlouquecia naquele momento. – Você tem certeza?
—É obvio. -Christopher sorriu confiante cruzando os braços. – Ela tem um motivo para voltar.
Fale com o autor