OCASO
19 Capitulo Opcional 1.1
(A gente é feito pra ir embora.)
O sol pendia no horizonte alaranjado. Um dia fresco se encerrava, ali no que parecia ser a paisagem de uma pintura perfeita, estava um casebre, que em anos atrás abrigou William e o acolheu quando a princípio nenhum lugar era seu lar. Irônico para Riley, parar ali com sua mochila e ver que era o único lugar para se ficar emaranhada nas lembranças de uma pessoa que não conheceu.
Quando entrou se sentiu nauseada por ver como tudo estava intacto e limpo. O lugar tinha cheiro de flores campestres. Parecia um museu carregado com a história mais triste de alguém nobre. Era simples, de moveis escuros e vazios. Não tinha retratos, nem enfeites, nem desenhos de crianças, nada que contasse quem morou ali.
Olhou para trás e viu que parado na porta estava Christopher, encostado no batente de braços cruzados. Estava com roupas leves e sem luvas, parecia um outro alguém que não combinava com sua postura rígida antes apresentada. Apenas um adolescente, algo que imediatamente fez Riley pensar em como ele devia ser antes de se tornar vampiro.
—O melhor lugar para quando se quer fugir é aqui. -declarou abrindo os braços e entrando. Christopher havia dado a ideia de ficar ali por dois meses, dentro do prazo de chegada do Conselho. – Só tem dois quartos aqui, o que um dia foi do Will e o meu, acho que você gostaria de ficar com o do Will e deixar seu pai com o meu, se isso não te incomodar...
—Não, tudo bem. -Riley virou para um pequeno corredor que dava para duas portas. Sabia quase que instintivamente que o quarto que dava para o pôr do sol era do Will. – Você não vai ficar?
—Não, mas passo aqui para te ajudar com o aperfeiçoamento da transformação, Jones e seu pai vai intercalar nos treinamentos. -balançou a cabeça e sorriu. – Preciso voltar agora.
—Christopher. -chamou fazendo o parar. – Sobre o Matt... Acha que essa sua ideia de não dizer a ele onde eu estou, me manter afastada, vai realmente ajuda-lo? Eu tenho medo de que ele se ache culpado de alguma forma, não queria me...
—Relaxe Riley, você sabe que Matt não foi feito para se prender as pessoas. -um olhar fixo nos seus. – E quando digo isso você sabe que Jones estava certo desde o começo em querer manter vocês afastados, o que eu quero dizer é que não te matarão Riley, precisam do seu sangue, da sua singularidade, mas se tiverem oportunidade matarão Matt e então será você que se sentirá culpada.
Riley assentiu. Uma verdade absoluta que ela tinha conhecido e que estava difícil de absorver. Christopher se virou passando por Bill e indo embora. Seu pai parou colocando as malas no chão. Malas que deveria estar com roupas e pertences, mas que realmente estavam abarrotadas de armas e livros em latim. Seria difícil se acostumar com essa nova rotina.
—Ele te disse alguma coisa? -perguntou apontando para o Christopher que já estava longe.
—Nada demais, só confirmou o que eu vinha pensando. -arrumou a mochila nas costas. – Vou colocar minhas coisas no quarto, então se quiser alguma coisa é só chamar.
Saiu andando se sentindo confortável de alguma forma pelos pisos de madeira rangerem. Finalmente alguma coisa na perfeita imagem de Will não estava tão perfeito assim. Poderia ser só um piso velho, mas era algo a se agarrar. Não estava tudo intacto. Nada era tão perfeito de coincidências absurdas. Ela não era o Will.
Abriu a porta do quarto e jogou a mochila no canto. Não sabia bem o que esperar do quarto de alguém que morreu, só esperava encontrar alguma coisa. Não havia nada a primeira vista. Caiu na cama olhando para o teto. Se encontrava no auge do vazio, quando não sentia ou fazia nada. Apenas o sentimento aflorando e ao mesmo tempo sugando tudo de dentro de si.
Tateou até encontrar a pequena cômoda ao lado da cama. Abriu sua gaveta e tocou os papeis lá dentro. Finalmente alguma coisa, nem que fosse a conta de luz Riley se sentiria mais satisfeita. Virou para ver que na verdade se tratavam de fotografias.
Sorriu ao ver que a primeira era de Matt com Henry e Jones. Um pai que se agachava para ficar da altura do filho e um tio que brincava com as mãos atrás dos dois. Estavam sorrindo, pareciam realmente felizes, nada do tipo de sentimento que se congela para bater uma foto.
No verso da fotografia, com a caligrafia de uma criança estava escrito:
“Para nunca esquecer da sua família.”
Havia escrito isso Matt ou Will? Não importava. Na frente a felicidade, mas atrás carregado de uma tristeza única do abandono. Mexeu nos papeis a procura de mais fotos e encontrou uma carta muito bem dobrada. Na sua frente a letra cursiva, estava escrito:
De: Henry
Para: William
Filho,
Provavelmente isso seja a última coisa que eu te escrevo e essa carta em especial não precisa queimar como as outras, não há mais nada para esconder. São muitas coisas que eu queria te dizer e te ensinar. Como fiz com Matt, gostaria de te mostrar a vida de um jeito mais positivo, de que há esperança para pessoas como nós que por infortúnio são castigados com a maldição da lua cheia. Mas não deixe que isso te prejudique, por favor, se tiver a chance conheça o mundo.
Queria ter te mostrado a humanidade nas espécies. De como bruxas, vampiros, lobos e caçadores também um dia foram humanos e que há algo nesse modo de ser que nunca se vai de nós. Queria ter te falado mais da sua mãe, de como ela foi especial na minha vida em propósitos que ser sobrenatural nenhum foi capaz, mas sinto muito William, por não ter escolhido ela e a nós. Porque muito embora a humanidade nela me prendeu, amor eu só senti por uma única mulher.
Espero que você um dia ame e que essa pessoa agradeça pela sorte que tem de estar ao seu lado, assim como você irá dormir sorrindo por estar ao lado dela também. Você merece mais do que eu pude te oferecer, eu tenho orgulho de dizer que você é meu filho até no meu último suspiro de dignidade. E é com pesar que digo, morrei ainda orgulhoso.
Não deixe que Matt chore muito. Sei que ele é forte, mas é confuso sobre seus desejos e de pensar nisso temo que ele se perca de modo que ninguém poderá alcançá-lo. Diga a ele coisas confortantes e depois o mande ser forte. Ele o ouvirá.
Fico um pouco tenso com Christopher. Nunca confiei nos seus métodos manipuladores, muito embora você o admirasse de tal forma que sempre invejei. Sei que ele cuidará de você como sempre fez e partirei eternamente grato por isso.
Então William, como meu ultimo desejo lhe peço: Sobreviva.
Com carinho, Henry
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