OCASO
20 Capitulo Opcional 1.2
(Nada em mim foi covarde, nem mesmo as desistências:
desistir, ainda que não pareça, foi meu grande gesto de coragem.)
Tyler fechou o livro e puxou o notebook pela mesa. Digitou algumas palavras em latim na esperança de uma tradução para as coisas que pesquisava. Com uma mão livre pegou o copo com café que Holly tinha acabado de trazer. Tomou um longo gole e respirou fundo olhando pela janela da biblioteca. Iniciava-se uma noite fresca e sem nuvens, perfeito clima para uma festa de sexta.
—Pesquisado sobre desenhos agora? -perguntou Holly tomando a liberdade de olhar o livro que Tyler tinha acabado de fechar.
—São selamentos. -corrigiu Tyler monótono.
—Parece rostinhos felizes... Ou não... -deu ombros se sentando ao lado dele na cadeira estofada. Esticou os braços. – Qual o significado?
—Diversos. -soou vago demais, mas precisava focar sua atenção na tradução.
—Uau! -exclamou irônica. – Isso realmente esclareceu minhas dúvidas.
Tyler parou sua frenética digitação para olha-la. Fazia um mês que estavam naquilo? Realmente ele havia perdido a noção de tempo e não só isso, como também hábitos antigos, de ir em festas, passar mais tempo rodeado de pessoas, se dedicar ao cronograma da Universidade. Se resumia a visitar Scott e Thomas, matar algumas aulas com Holly e no tempo livre se dedicar as pesquisas.
Sorriu cansado e entregou a sua anotação sobre o livro que lerá a Holly. Ela o pegou sem entusiasmo e começou a leitura mecânica:
—Selamentos são, em sua maioria, com o resultado de aprisionar algo, frequentemente utilizado por caçadores e bruxas. Tem finalidades sobrenaturais que variam em uma infinidade de possibilidades, tais como: salvar lembranças, prender uma besta em seu próprio corpo, afastar seres sobrenaturais de um determinado local. -fez uma pausa, retomou o folego. Tyler levantou as sobrancelhas esperando pelo restante. “Vamos, continue!”. Holly revirou os olhos: – São realizados com o sangue do usuário e estes retém o poder de desfazer ou intensificar o selamento realizado.
—Satisfeita agora? Antes eu apenas tinha resumido em uma palavra. -e fechou o notebook deixando de canto. Apoiou-se na cadeira estofada de Holly seu cotovelo e com a mão, a cabeça. – É um bom dia para sair, não acha?
—Sim, fantástico. -concordou afundando na cadeira e olhando pela janela. – Você acha que toda essa pesquisa, daqui alguns meses ou anos ainda vai valer a pena? Sabe, tem muitas coisas das quais a gente se dedica muito e se arrepende pelo tempo perdido.
—Eu acho que não tem como se arrepender de algo que nos muda para sempre. -olhou para Holly esperando por sua reação, apenas um leve movimento na expressão que indicasse sua desconfiança. Nada aconteceu. – Acho que eu ainda não tive a chance de agradecer pela sua ajuda.
Holly também se virou para encara-lo. Na perspectiva de Tyler ela parecia alguém da qual só se nota quando se sabe o nome. Embora sua aparência bonita e suave chamasse por si só uma atenção, havia algo nela, no seu modo de falar ou se portar, que a tornava alguém facilmente esquecida. Uma pessoa bonita na rua da qual você só lembra da beleza, nada além. Mas conhece-la foi algo realmente bom, a companhia de alguém tranquila e gentil para se envolver em toda aquela loucura foi o suficiente para salvar Tyler da sua própria perdição.
Sem Scott ou Thomas, se sentia deslocado, eles não voltariam nunca mais para Universidade e essa notícia, mesmo que esperado, fez com que Tyler repensasse sobre o que realmente eram os seus objetivos. Holly no meio de tudo isso foi calma ao dizer que tudo bem surtar um pouco, desde que ao fim da loucura você encontre o caminho de volta.
—Não se importe com isso, está bem? Eu também agradeço a sua companhia. Foi importante não me sentir sozinha na imensidão de possibilidades que te cercam quando tudo o que você era naquela cidade pequena fica para trás. -suas sobrancelhas se curvam, parecia pensativa e distante. – Eu reconheço a nossa amizade como algo mais inesperado e improvável, mas agradeço também porque é algo real.
Parecia terrivelmente errado o modo como o cérebro de Tyler processava aquelas palavras, curvando seu sentido e lhe dando impulso para se aproximar daquele rosto do qual achava lindo. Era simpática, engraçada e sutil, nos mais leves e tensos momentos, Holly simplesmente parecia se sair com perfeição. Queria compreender seus sentimentos naquele momento, saber se o que ele sentia e o que ela sentia podia entrar em uma frequência. Aproximou-se para um beijo ou para tê-la mais de perto, contudo foi repreendido com a mão pequena e lisa de Holly em sua boca. Ela o encarava com pesar, os olhos decepcionados fixos no dele. Tyler ainda congelado na mesma posição, a mão dela em sua boca.
—Não sei no que você está pensando, se pode existir algo entre nós ou se já parece existir. -suspirou baixando a mão. – Tyler, eu realmente gosto de você e nós temos muitas coisas em comum, a mais importante talvez é que ambos gostamos de garotas.
Tyler recuou devagar, absorvendo o verdadeiro sentido daquilo. Se sentiu péssimo, pela primeira vez, se sentia pior que isso, estava errado.
—Holly, eu...
—Não precisa se desculpar, Deus... -fechou os olhos com força e voltou a abri-los.- Eu te entendo Tyler, realmente entendo o que é terminar um relacionamento tão firme e se sentir incapaz de fazer parte de qualquer coisa. Quando eu tranquei meu curso foi porque acreditei que não valia mais a pena, sem ela eu só... -parou com um cair de ombros cansado. – Sem ela, eu acreditei que tudo parecia meio torto, que aquilo não era eu. Perdi o rumo e só queria me afastar de mim para que eu pudesse melhorar de alguma forma para ela, que ela me reconhecesse e pensasse que eu ainda valia a pena. Foi tudo tão inútil... Sei que suas pesquisas tem a ver com a Riley, não sei exatamente o que. Sei que foi a secretária para tentar trancar o seu curso e sei que inevitavelmente você fará exatamente o que eu fiz, eu quis acreditar que com a minha companhia você enxergaria um motivo para não cometer o mesmo erro. Eu estraguei tudo porque fiz você pensar, mesmo que por um breve momento, que eu era uma versão melhor da Riley. Eu não sou. Por isso eu aprovo tudo isso aqui. -apontou para os livros. – Mas que seja por você, para que você seja incrível ao mundo e não somente para a Riley.
Tyler abaixou a cabeça rindo, não havia ironia. Apenas uma risada que se dá quando alguém diz exatamente o que se passava na sua cabeça ou quando a verdade é tão potente a te fazer enxergar tudo diferente.
—Você é realmente incrível, Holly. -levantou a cabeça ainda sorrindo. – Incrível, independente do que aconteceu.
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