OCASO

17 Sentimentos 5.1


O professor gesticulava diante dos gráficos que apresentava em aula. Estava feliz em falar sobre aquele assunto, mesmo que ninguém da sala tivesse dando muita importância. Muito menos Tyler, que no canto se perguntava como as coisas estavam na sua cidade natal. Depois das revelações, dormia todas as noites preocupado e acordava de manhã assustado com monstros que nem deveriam existir.

Foi seu termino com Riley por ela ser metade lobo que concretizaram as coisas, seus amigos ainda hospitalizados e Caleb ainda aprofundando suas pesquisas sobre seres sobrenaturais. Tudo havia mudado, avançado para um rumo que ele não pode prever. Precisava se adaptar a esse mundo ou desistir de vez de tudo que compunha seu passado, amigos, relacionamentos, família. Começar de novo tentando voltar a ser apenas um humano comum no mundo comum, fazendo aulas chatas na Universidade e indo a festas legais na sexta.

Fechou seu caderno e se levantou discretamente para sair da sala. Passou pelo corredor sem se focar nas pessoas. Um turbilhão de lembranças, todas elas envolvendo Riley. Pessoa da qual ela já não gostava mais de lembrar. Aquela Riley, a das lembranças, procurava conchas na praia e desenhava com palitos de sorvete na areia, amava ler livros de ficção antes da sua própria virar uma, chorava com filmes de finais trágicos e esses eram seus favoritos.

Tyler sabia tudo sobre Riley, ou costumava saber, do jeito que gostava de tentar coisas e desistir delas, como surfar, tocar algum instrumento e fazer aulas de dança. Desistia fácil das coisas, assim como as pessoas desistiam dela. Uma vez, em uma viagem de veraneio com os amigos para outra praia, Tyler perguntou o porquê dela não ter levado os seus amigos e ela disso que eles haviam se cansado dela. Naquela época ele não entendeu que o motivo da desistência desses amigos era por causa dele. Por ele, Riley dedicou turno integral, todos os minutos do seu dia para nunca precisar desistir de uma pessoa: Tyler.

Sentia-se tolo por um momento, como se o termino com Riley fosse uma pegadinha ou um sonho mal feito para confundir sua memória. Sabia no fundo porque estava tão angustiado com o rumo que isso havia tomado, Tyler entendia que o motivo para o ter feito deixar Riley não era por causa de vampiros, lobos ou qualquer coisa que antes parecia ficcional. Era porque ele estava inseguro de que ela desistisse dele primeiro, odiava vê-la progredindo para um rumo que ele não podia acompanhar, mais uma vez Riley sendo naturalmente incrível, tinha medo de ouvi-la dizer que não precisava mais dele. Uma ferida no ego que Tyler queria evitar e impossível de se assumir em voz alta, egoísmo puro que ele nunca soube lidar. Era obvio que queria ficar com Riley, mas sabia que se ele não dissesse “chega”, ela diria alguns dias ou semanas depois.

Por que ele estava fazendo isso com ela quando ela mais precisava? E deixando sozinha a única pessoa que deixou tudo por ele? Riley nem queria fazer Universidade em outro lugar, mas não que Tyler a proibisse, ela só amava o jeito que conseguia finalmente se dedicar a algo sem desistir no primeiro erro, Riley havia dito isso. Como prova de que isso era reciproco, Tyler já chegou a jurar que nunca a abandonaria, que faria diferente de todos os amigos que ela já teve.

Precisava alcança-la, de alguma forma se dedicar a ela como ela um dia já se dedicou por ele. Seguiu para a biblioteca as pressas, aproveitaria esse tempo livre para pesquisas sobre Riley, sobre o que ela era e o que ele poderia fazer para ajudá-la. Lutaria para alcança-la e mesmo que não fosse naquele dia, no seguinte ou daqui semanas, eles um dia dariam certo mais uma vez.

Desceu a escadaria às pressas e quando entrou pela porta de vidro esbarrou de ombro com uma garota pequena e de cabelos ruivos.

—Holly? -Tyler lembrava vagamente da época que Riley ainda tinha uma amizade com ela.

—Tyler! -exclamou contente e deu um abraço rápido. – Não sabia que encontraria alguém conhecido na Universidade, fiquei até um pouco preocupada.

—Não sabia que você estudava aqui. -listou mentalmente quantas vezes havia ido à lugares de lazer e estudo na Universidade, mas nunca esbarrado com ela.

—Comecei a vir há poucos dias, estava com o curso trancado. -era sorridente enquanto falava, emanava de si um tipo de simpatia e simplicidade que envolvia as pessoas. – Mas e como estão as coisas? E a Riley? Depois do que aconteceu com Josh ela voltou a me evitar... -abaixou a cabeça triste.

—Nós terminamos, mas acho que ela está... -Tyler procurou para algo para conforta-la, uma palavra que fizesse diferença. – Acho que ela está realmente bem. -sua voz soou duvidosa e ele se arrependeu de ter planejado o que falar.

—Terminaram? -seus olhos se arregalaram de espanto, como quando Tyler descobriu que havia tomado sangue de vampiro. Algo surreal demais. – Você só pode estar de brincadeira, Riley e Tyler terminaram, então é hoje que o sol morre? -brincou risonha, mas Tyler não conseguiu levantar os lábios e sorrir. Vendo isso, Holly parou e suspirou voltando para a expressão triste. – Você veio para a biblioteca por algum motivo especial? Ou aqui está melhor do que aula com gráficos?

—Definitivamente a segunda opção. -tentou parecer natural enquanto sorria. – Queria encontrar a sensação de mitologia e superstição.

Holly arqueou as sobrancelhas, não era difícil de supor que Tyler não era o tipo de pessoa que ia a biblioteca fazer pesquisar sobre coisas assim. Contudo ela preferiu não protestar sobre:

—Eu posso te ajudar. -se ofereceu mostrando os livros que carregava. Algo sobre teorias de conspiração e outras coisas que te fazem pensar se estamos vivendo ou apenas sendo controlados por maquinas. – Você quer algo sobre rituais ou deuses gregos e romanos...

—Não, na verdade procuro por monstros, do tipo sobrenatural. -e sorriu na esperança de não parecer muito maluco.

—Certo... -ela balançou a cabeça devagar e depois riu. – Sua sorte é que eu jogava RPG na sexta série, seres sobrenaturais é comigo.

(...)

Matt havia acordado com fortes dores de cabeça. Sentia-se assim sempre que usava drogas no auge da lua cheia, um trator que parecia esmagar seu cérebro repetidas vezes. Olhou no relógio. Nem era de madrugada, ainda se ouvia vozes e uivos do lado de fora. O acampamento ficava agitado em semanas assim. Se levantou com dificuldade e saiu para ver a fogueira, estava com fome e isso era bom e humano.

Assim que abriu a porta ouviu os sussurros:

“A mestiça esta na forma de lobo”

“Riley esta fora de controle, uma iniciante não deveria se transformar sozinha”

“Quais são as chances da meio-sangue matar alguém na sua primeira lua?”

Matt parou. Riley havia se transformado e não tinha avisado ninguém? Ela estaria louca ou algo muito ruim havia acontecido para que ela perdesse o controle. Saiu apressado, tropeçou em alguns galhos seco, mas na metade do caminho foi parado por algo maior. Jones.

—Onde você pensa que está indo? -perguntou mesmo que já soubesse a resposta. – Eu cuido disso, Riley me ouvirá.

—O quê? -Matt riu irônico. – Eu vou atrás dela de qualquer jeito.

—Você só vai atrapalhar. -assumiu uma postura grande. Era algum tipo de ilusão ou Jones parecia maior? — Ela pode estar confusa, violenta e só o controle de um Alfa pode fazer com que ela se acalme e volte ao normal.

—Eu consigo resolver isso, eu posso entender o que ela está passando... Eu... -lhe faltou argumentos. Balançou a cabeça decepcionado. – O que eu queria dizer...

—Deixe que ele vá. -Nora apareceu ofegante, talvez tivesse corrido para chegar a tempo. – Matt pode ajuda-la, eu acredito nele.

Jones bufou, esse era o efeito de Nora sobre suas escolhas. Nem sempre era certo que ela o manipularia, mas as vezes dava perfeitamente certo.

—Vá logo! -apontou para a mata com fúria. Uma ordem mascarando aquela cena de dominação completa.

Matt correu. Tentou se transformar no caminho, mas falhou. Seu corpo parecia pesar toneladas e a mente fora de sintonia com a alavanca que impulsionava a transformação. Arrependia-se por ter se drogado tanto, se não chegasse a tempo, Riley poderia se machucar ou acabar machucando alguém. Poderia estar confusa e descontrolada, a ponto de aparecer na sua cidade ou ficar à vista de algum visitante nas trilhas.

Parou de correr. Podia agora sentir seu cheiro e usou isso para se guiar, era difícil procurar alguém sem estar transformado. Todos os sentidos limitados e fracos. Voltou a correr. Percebia que agora chegava mais perto do penhasco que outrora já havia se encontrado com Riley. Parou entre as arvores, não conseguia ouvir nenhuma besta violenta, apenas o farfalhar dos galhos das arvores e grunhidos de animais noturnos.

Quando saiu da escuridão da floresta e viu o espaço aberto que apresentava o penhasco se surpreendeu ao ver Riley em pé e descalça logo na beira, usava apenas um sobretudo que ia até os joelhos e o fechava na frente do corpo com os braços cruzados. Seus cabelos voavam bagunçado em todas as direções. Parecia um fantasma flutuante a beira do nada, diante da lua ainda mais sombria. Se não a conhecesse talvez cogitasse que ela pensasse em suicídio.

Ao lado dela estava Christopher sentado, uma perna para fora da pedra e outra dobrava sobre, também olhava para o horizonte em direção a lua, uma estátua pálida e sem expressão. Tudo sereno e em perfeita harmonia com o ambiente.

Riley virou e sorriu, um tipo de sorriso orgulhoso como quem diz: “Eu consegui!”, mas Matt não conseguia absorver aquela situação. Estava assustado com o pouco de sangue seco no seu rosto. Sabia que ela havia deixado Christopher tocá-la.

—O que passou na sua cabeça para se transformar?

—Deu tudo certo. -sorriu ainda mais confiante. – Eu consegui me controlar.

—Espera. – Matt estava confuso, avançou mais alguns passos. – Por que você fez isso?

Christopher se levantou com uma postura entediada enquanto recolocava as luvas, estava indo embora quando Matt o parou com um aperto firme no braço. Trocaram olhares frios, Matt confiava tanto em Christopher que chegava a duvidar se ele merecia tal mérito. Afrouxou os dedos e deixou que ele saísse cantarolando algo em um assobio grave.

Riley olhava aquela cena inquieta. Parecia diferente depois da transformação, mais forte e menos humana. Seus olhos estavam voltando ao normal depois de uma tonalidade quase amarela.

Depois de longos minutos, ela tomou a fala:

—Achei que você confiasse no Christopher.

—Confio a minha vida a ele, não a sua. -fechou os olhos lembrando que precisava se acalmar. Quando voltou a abri-los conseguia sorrir orgulhoso. – Como foi a transformação?

Os olhos de Riley estavam brilhando igual a de crianças que ganham presentes no natal:

—Horrível. -e riu contente de dizer aquilo. – Foi como se minha consciência humana fosse arrastada na cauda de um cometa e então eu estava à deriva e totalmente fora de controle, eu cogitei a ideia de matar o Christopher porque eu não conseguia suportar a vontade de destruir as coisas. Eu fugi e corri por um tempo, faltava um objetivo e isso me tornava uma fera irracional. Então lembrei que precisava... -parou por um tempo e ficou pensativa antes de continuar: — Precisava ser forte. -falou abruptamente porque na verdade aquilo não parecia ser o que ela realmente queria dizer.

Matt estava satisfeito, como um peso tirado das suas costas. Era possível que Riley fosse igual o Will em muitos outros aspectos, que ela fosse forte e habilidosa como ele foi, que a semelhança não se resumisse a apenas ao sangue mestiço. Estava aliviado e até chegava a achar engraçado o modo como se preocupava com ela. Riley não precisava de proteção, apenas plateia para a sua história de vida.

—Você está contente por mim. -Matt não havia percebido que Riley havia se aproximado tanto. Um fantasma que flutuou sem ter sua presença notada. – Um sorriso admirado, é isso?

—Posso estar feliz por hoje ser lua cheia, nem tudo é sobre você. -brincou recuando orgulhoso demais para assumir qualquer um dos seus pensamentos anteriores. – Vamos lá, que diferença isso faz? Por que você não me diz algo realmente interessante? -propôs desconversando sem rodeios. – Qual foi a sua avalancha para a transformação?

Toda a sua felicidade desbotou do rosto como um véu que cai lentamente e de uma vez:

—Medo. -disse com uma voz amarga.

—Nada mal, existe pessoas que usam a culpa. -apontou para si próprio. Matt não se orgulhava de dizer que sua fonte de força vinha da culpa que carregava do seu passado, nem mesmo gostava de lembrar o que o levava a ser assim. – Não tem problema se...

—Eu e Tyler terminamos. -interrompeu dizendo com pressa, uma confissão que não repetiria se fosse necessário.

Matt não sabia o que dizer. Não tinha resposta para aquilo. Era algo que já esperava? Talvez. Mas não podia dizer isso à Riley como se fosse algo normal. Algo dentro de si se remexia ansioso, só não sabia dizer o que era.

—Eu estou aqui. -não pareceu o certo a se dizer. No que ele estava pensando ao falar aquilo? Tinha sido terrível, presunçoso até. Respirou fundo. – O que eu quis dizer é que eu estou aqui para te dizer que vocês vão voltar, talvez não hoje ou amanhã, mas vão.

Riley pareceu surpresa, até mesmo um pouco perdida naquelas palavras:

—Como você pode ter tanta certeza?

—Porque vocês se amam, não é o que dizem? -e abaixou a cabeça encarando os pés descalços de Riley.

(...)

Passou por seu pai com poucas explicações. Um pai comum interrogaria sua filha com mil perguntas, a principal dela seria o porquê de só trajar um sobretudo. Bill não era um pai comum, era caçador e foi casado por anos com uma licantrope, sabia que coisas estranhas aconteciam na lua cheia e como isso parecia mexer com o humor. Deixou que ela passasse e Riley agradeceu porque estava cansada, gasta emocionalmente e fisicamente. A transformação era de longe majestosa, sugava suas energias e te enfraquecia de tal forma que seu corpo pedia por horas de sono.

Tirou o sobretudo com cuidado, gentilmente para não doer a pele sensível. O cheiro especialmente único de vampiro não era de todo ruim ou bom, irritava algo no fundo da sua garganta, algo suportável.

Era difícil aceitar que precisava confiar em Christopher. Mesmo com medo ele foi atrás de ajuda-la depois da transformação, mas chegou tarde demais. Riley tremia no chão abraçada ao seu corpo nu, a forma de lobo não durou muito tempo, assim como o medo. Tinha tentado canalizar todos os seus temores, usá-lo como combustível para inflamar o seu ápice de força, mas estava claro que como iniciante Riley não ia longe tão depressa. Estava feliz, foi um bom autocontrole, porém a necessidade de um treinamento apropriado era sua próxima meta. Christopher reconheceu sua habilidade e pareceu sincero nos elogios, tirou a blusa de frio e a cobriu sem delongas. Reconhecia que de certa forma, arrogante e exibicionista, ao menos dava os créditos a Christopher.

Gostaria que ele não tivesse entrado em sua mente, mas não se arrepende de ter entrado na mente dele. Mesmo as fortes dores de cabeça, mesmo a sensação do sangue escorrendo pelos olhos e nariz, valia a pena nem que fosse por apenas um minuto, só para entender um pouco mais da dor de Matt, um pouco mais do quão valioso foi Will para tantas pessoas.

Entrou no banho, deixou que a agua fria diminuísse a temperatura do corpo. Sentiu as cicatrizes que já fazia parte dela como um lembrete da sua história. Cada uma, uma lembrança de algo triste e esperançoso. Olhou a palma das mãos e lembrou de Tyler. Chorou com um engasgo. Chorou com uma criança infeliz. Chorou como se tivesse o perdido para sempre e soou tão dramático e desesperado que precisou se repreender. Mas não conseguia, porque doía exatamente como falavam nos filmes. Uma pontada no peito, uma angustia mal explicada.

“Porque vocês se amam, não é o que dizem?”

Amor? Isso nem parecia um motivo real, uma desculpa de casais clichês para manterem uma relação que nem deveria existir. Riley e Tyler não eram assim. Precisava existir confiança, não havia mais. Precisava existir paciência, não havia mais. Precisava existir harmonia e com isso Riley pensava na sua vida turbulenta e nas coisas que Tyler perderia para segui-la. Amor não era e nunca foi o suficiente para manter esse relacionamento.

Parou de chorar. Um estalo de dureza na personalidade. Não precisava focar no seu drama com Tyler, havia problemas maiores. Havia um clã de vampiros loucos para matá-la e um Conselho corrupto esperando qualquer deslize para condena-la. Esse era o segredo para entender Matt, agora ela compreendia, para chegar até ele, precisava antes entender o Will. Para Riley era até que meio difícil, filha única e mimada para compensar uma série de fatores tristes, mas cada vez que entrava nesse mundo sobrenatural, por mais perigoso e clone dos seus piores sonhos, sentia-se parte de uma alguma coisa. Não era mais uma em um milhão de garotas comuns, de olhos comuns e vida comum. Era especial, a sua maneira, era única e estava ligada alguém. Podia ver que tinha um carinho por Will, reconhecia a semelhança orgulhosa apesar do final trágico e se fosse para ter um irmão, gostaria que fosse ele.