OCASO

9 Segredos 3.2


Notas iniciais
"Mas minha querida, quem dera se na vida real as coisas terminassem como um clichê de novela."

Caleb arrastou a mesa do cômodo. Pendurou um painel em branco. Precisava de espaço para raciocinar. No topo escreveu o nome: Nora Blauth e ligou a ela os mais recentes casos resolvidos. O principal era de Josh, dado como suicídio mesmo que as evidencias entregassem Riley como principal suspeita. Chegaria a fundo naquela pesquisa. Era inevitável não se sentir cada vez mais preso as coincidências estranhas naquela cidade. Respirou fundo.

O que Nora tentava esconder?

Provavelmente o marido, Jones, que é dono da boate onde Josh e Riley frequentavam? Não. Isso seria uma medida intensa demais, até porque Jones não seria incriminado por nada só por ser dono do lugar. A ficha era limpa demais, boa faculdade, apenas um casamento oficializado, sem filhos. Nora estava protegendo Riley. Mas por quê? Qual seria a ligação das duas?

Mais um traço. Dessa vez ligava Jones com Nora e a estranha convivência isolada dos dois com outras pessoas da cidade. Um ponto de interrogação no nome de Jones, quem ele era parecia superficial demais. Riley parecia o ponto de verdadeira importância, era difícil imaginar alguma coisa dela com sua vida tão pacata e aberta.

—Nada faz sentindo! –explodiu Caleb derrubando um abajur com força. Junto com o fio, vários arquivos foram lançados ao chão. Apenas o de Riley continuava intacto na mesa. – Quem é você afinal?

Pegou o arquivo e folheou rapidamente. A mãe dela foi dada como morta por acidente de carro, mesmo que as evidencias dissessem que a morte foi por ataque de animal. Era isso que enlouquecia Caleb! Quanto mais se aprofundava, mais encontrava falhas na história. Alguma peça em seu quebra cabeça estava faltando, algo que ele sentia que se soubesse poderia ligar todos os casos de uma só vez.

Tyler tinha razão, Caleb estava enlouquecendo. O seu tempo como soldado havia criado nele uma sensibilidade para desconfiar das pessoas. Houve um tempo em que não duvidaria de Riley. Mas uma pessoa foi morta, foi Josh, que Caleb viu crescer. Que era da cidade e que ninguém parece se importar mais. E Riley estava na cena do crime, está escondendo algo e ele estava decido a descobrir.

(...)

A tela preta de chamada de vídeo encerrada apareceu e naquele mesmo instante seu celular vibrou na mesinha de madeira. O som fazendo com que se assustasse com um pulo. Riley girou a cadeira e pegou com desdém, não parecia ser importante e já estava tarde. Qualquer mensagem costumava ser ignorada por ela por volta das nove da noite. Era Matt:

“Você está em casa?”

Pensou naquela pergunta: Por que Matt perguntava isso? Era obvio que estava em casa, era difícil para ela sair à noite depois da morte do Josh, era como se em cada sombra espreitasse uma silhueta humana observando. Respondeu que sim, mas não deu detalhes.

Colocou o celular de volta na mesinha e olhou pela janela. A escuridão total só era vencida por um único poste de luz meio alaranjada que vez ou outra falhava, dando um ar macabro aos arbustos e arvores da rua. Era uma noite abafada, ninguém na rua e agora que havia despertado seu lado licantrope bastava se concentrar demais para ouvir e sentir cheiros a longa distante. Aquilo a incomodava, na pior das hipóteses ouvia o coração de uma pessoa mais alto do que a própria voz da mesma.

Tentou procurar Matt, ouvir algo na rua que indicasse estar se aproximando. Fechou os olhos por alguns minutos depois voltou a atenção para o celular. Ele ainda não respondera e duvida que ele merecesse preocupação, mas ela estava realmente angustiada. Pegou o aparelho e assim que desbloqueou, a mensagem de Matt apareceu.

“Abra a porta.”

Saiu do quarto e dali de cima procurou seu pai na sala com o olhar. Deveria estar dormindo e isso foi alivio, não queria ter que apresentar Matt ao seu pai, nem mesmo queria ter que inventar algo para sustentar essa amizade repentina com alguém que acabou de chegar na cidade.

Encostou seu rosto na porta e ouviu uma respiração profunda. Tocou a maçaneta e não se sentiu segura.

—Matt? -perguntou ansiosa.

Alguns segundos intermináveis de silêncio.

—Pode abrir? -pediu com um sussurro. A voz de Matt.

Abriu a porta e ele estava parado apoiado sobre o batente. Os olhos cansados, a postura curvada. O cheiro absurdo de álcool e cigarro emanava dele junto com cada sopro de ar. Riley barrou sua entrada com a mão.

—O que aconteceu?

—Nada. -tentou passar, mas Riley entrou na frente. – E não, eu não estou bêbado, só não dormi direito as últimas noites. Posso entrar?

Riley cedeu, não daria um sermão sobre como coisas assim são horríveis e faziam mal à saúde. Todo mundo sabia disso, todo mundo continuava fazendo. Inclusive ela. Matt se sentou na poltrona e Riley no outro sofá. Preferiu não acender nada, apenas um abajur fraco iluminava o ambiente.

—Precisava me falar alguma coisa? -começou Riley vendo que Matt não fez nada a não ser ficar sentado olhando as fotografias de sua casa. – Jones ou Nora estão me mandando algum recado?

—Não. -se aconchegou. – Eles nem mesmo podem saber que estou aqui. Fiz duas coisas que eles haviam proibido, a primeira: Fique em casa na semana da lua cheia. -imitou uma voz que Riley identificou ser a de Nora, apesar de ter sido péssimo nisso. – A segunda: Fique longe da Riley. -essa por sua vez era uma imitação melhor do Jones.

—O que acontece na semana da lua cheia?

Ele riu como se fosse uma piada idiota:

—Nada para maioria dos licantropes... -pegou um porta-retrato da Riley criança, era uma foto terrível na opinião dela. Aquela que se tira na praia e seu corpo está sujo com uma mistura de sorvete derretido e areia molhada, além dos cabelos bagunçados e espetados para todas as direções por causa da agua do mar. – Mas eu nunca fui bom em ser licantrope, por mais pesquisas e meditações e até remédios, nunca consegui controlar bem esse meu lado. -ele devolveu o porta-retrato ao lugar onde pegou.- Pensando bem, remédios para dormir, um pouco de álcool e drogas leves são o suficiente para uma lua cheia tranquila.

—A lua cheia é algo tão ruim assim? -Riley supôs que mesmo que sua pergunta fosse obvia demais, ela precisava ouvir detalhes sobre o que ela também passaria daqui para a frente.

—Talvez você ainda não tenha sentido os efeitos... -comentou Matt mais para si mesmo. – Nessa noite somos obrigados a nos transformar, é inevitável sabe? Uma transformação mais horrível do que em qualquer outro momento, a dor e a o lado animal suprindo seus instintos humanos. -seu olhar estava distante, vagando pelas lembranças. – Na semana que antecede esse dia, qualquer estresse ou abalo emocional pode fazer com que sejamos violentos ou até nos transformemos sem vontade própria. Um licantrope normal mal consegue lidar com essa confusão e eu muito menos.

Riley precisava aconselhar algo, dizer algo coisa para conforta-lo como qualquer pessoa faria nesse momento. Contudo não sabia o que dizer, não havia palavras que ela soubesse juntar para dizer algo sábio. Mal entendia de si própria e de licantropia. Respirou fundo recordando das memorias compartilhadas com Nora, do tanto que Matt pareceu sofrer a vida toda e automaticamente comparou com sua vida humana um tanto perfeita, mesmo depois da morte de sua mãe, Riley não foi entregue a culpa, pelo contrário, sua família se uniu ainda mais e seu pai em especial, lutou muito para que qualquer buraco sentimental fosse tapado.

—Pode dormir aqui se quiser. -ofereceu Riley como uma última esperança de dizer algo bom para o momento. – Só precisa ir quando eu sair para trabalhar, até lá eu te acordo. Eu também corro o risco do meu pai acordar e encontrar um bêbado dormindo na poltrona dele, mas acho que com o sono pesado que ele tem e a visão ruim ele nem perceba a sua presença.

Matt apoiou a cabeça na mão e sorriu, mas não havia felicidade, então Riley acreditou que só se tratava de algo vazio para disfarçar o momento triste de desabafo. Ela subiu ao quarto e pegou uma coberta junto com as almofadas mais confortáveis que usava para apoiar as costas quando desenhava.

Quando desceu, Matt já dormia com uma mão pendendo de um lado da poltrona. Riley o cobriu e pensou em avisar que se quisesse poderia ir para o sofá maior. Desistiu da ideia. Aquele deveria ser o melhor sono dele em dias.

(...)

Havia saído muito mais cedo do que o planejado da casa de Riley. Dobrado as coisas e deixado da forma mais natural possível no sofá. O dia começava a nascer quando ele chegou no acampamento. Alguns membros mais velhos acendiam uma fogueira e limpava as meses sujas da noite anterior. Matt passou por todos sem olhar ninguém diretamente, quando abriu a porta de casa deu de cara com Jones que fazia o mesmo para sair. Fechou os olhos e cambaleou para trás, havia sido pego.

—Onde você estava?

—Só fui espairecer um pouco, estava tendo uma péssima noite, com pesadelos e ansiedade...

—Isso é por causa das coisas que você toma. -afirmou nervoso. – Se você aceitasse a sua transformação...

—Tudo bem, tudo bem. -interrompeu balançando as mãos para ele se acalmar. – Eu estou completamente errado, é realmente indiscutível isso justamente porque eu sei que nada do que eu tomo vai me ajudar e porque eu sei que tenho que aprender a lidar com a transformação.

—Agora você está sendo cínico e um tanto irônico.

—E agora você quer continuar brigando quando só você está disposto a discutir.

Nora apareceu enrolada em seu hobbie, a expressão imparcial por causa do cansaço, mas os punhos fechados estragavam o estresse por ter sido acordada tão cedo.

—Matt? Onde você dormiu? Ficamos preocupados. -ela bocejou e piscou algumas vezes para retomar o foco. – Você estava com a Riley?

—Riley? -indagou Jones ainda mais nervoso, agora era possível ver uma veia no seu pescoço saltar pulsante. – Você estava com a Riley?

—Não..? -respondeu da pior forma que poderia fazer, a verdade era que se tornaria impossível mentir para alguém com os sentidos tão apurados quanto um licantrope. – Não importa mesmo.

—Ela me ligou mais cedo, estava preocupada por você ter saído da casa dela sem dizer nada.

—O que? -explodiu Jones e Matt bufou exausto, Nora e Riley estavam competindo para ver quem piorava mais a situação. – O pai dela te viu?

Matt deu as costas e começou a andar de volta para a cidade, qualquer coisa para ficar longe da voz de Jones. A relação entre os dois era cansativa e violenta. Brigavam e brigavam até algum dos dois desistir e sair andando. Enquanto passava pela trilha pisando fundo sentiu suas pernas tremerem e corpo fraquejar. Precisava se acalmar ou explodira em um lobo ali mesmo. Apoiou-se em uma arvore e respirou fundo. Voltou atrás e optou por pegar o carro do que ir andando e pensando demais.

Dirigiu meio sem rumo até parar no lugar onde Riley trabalhava, mas que agora só parecia ter Robert. Devia estar muito cedo. Entrou na loja com os sininhos anunciando sua chegada. Robert abaixou a revista de viagens e o encarou.

—Sobrinho do Jones, certo? Me lembro de você quando era criança, mas não te reconheci na primeira visita aqui. -Robert parecia falar sozinho, Matt nem mesmo levantou a cabeça diante daquelas palavras, procurava alguns salgadinhos e energéticos. – Faz tanto tempo, eu lembro do seu irmão também, onde ele está? Era um garoto tão...

—Ele morreu faz uns sete anos. -respondeu com indiferença colocando os produtos escolhidos em cima do balcão. Matt percebeu Robert engolir em seco.

—Ok, certo... -Robert colocou as coisas na sacola. – Sinto muito.

Matt colocou o dinheiro em cima do balcão, nem se deu ao trabalho de contar e nem de agradecer pela compra. Pegou as sacolas e bateu a porta. Alguém em algum lugar sempre lembrava do Will, o irmão era assim emanava algum tipo presença onde as pessoas sentiam sua falta e clamavam pela sua volta, era amado por quem quer que o conhecesse, se destacava por ser inteligente e forte. Era melhor que Matt, mas ele não se incomodava por isso, apenas se sentia mal, por ele ser o privilegiado genuíno e Will apenas o bastardo mestiço.

(...)

Caminhava para o trabalho quando viu viaturas da polícia estacionadas na frente da casa de Tyler. Dois policiais conversavam enquanto outros carregavam pilhas de papeis e caixotes de papelão com arquivos dentro. Caleb saiu para fora, estava exaltado, porém continha o nervoso com um cerrar de dentes. Quando viu Riley, atravessou a rua sem olhar, encarava ela tão profundamente que parecia querer derruba-la ali mesmo.

Parou a poucos centímetros de distância. Suavizou a expressão, porém as mãos fechadas, prontas para socar a primeira coisa que visse na sua frente. Riley recuou em silencio.

—Eu sei que foi você. –Caleb cuspia as palavras sem alterar o tom controlado da voz – Você matou o Josh e agora me denunciou para a polícia por causa dos arquivos. Espero que aproveite a sua liberdade, não vou descansar até...

—Ei! Afasta. -Matt apareceu em qual momento? Riley não sabia dizer, estava tão presa ao olhar fuzilante de Caleb e as suas palavras que não viu quando ele chegou e empurrou Caleb meio passo para trás.

Os dois se encararam um misto de estranheza e fúria. Caleb o socaria ali bem na frente dos policias e a postura de Matt pedia isso. Sim, ele queria levar alguns socos, mas suas mãos não estavam fechadas para revidar se fosse necessário. Riley se lembrou de como a semana da lua cheia influenciava nele de forma terrível e não esperaria que ele perdesse o controle naquela situação com o Caleb. Eles brigariam e Riley ficaria parada, congelada pela cena ameaçadora que se formava.

Quando menos se esperava Matt sorriu e recuou tão tranquilo que parecia prestes a fazer um aperto de mão com Caleb:

—Acho que você não vai querer piorar sua situação. -e apontou para os dois policias que observavam curiosos.

Caleb também recuou, mas não havia suavizado como Matt.

—Você não engana mais ninguém, nem mesmo o Tyler que está do meu lado. -apontava o dedo diretamente a Riley. – Eu vou descobrir qual é a sua.

Virou as costas e saiu dando passos fortes. Matt revirou os olhos e voltou sua atenção à Riley. Estava tranquilo, mesmo com a aparência acabada.

—Quem era aquele louco?

—O irmão do Tyler, ele ficou bem obcecado em saber a verdade por trás da morte do Josh.

—Eu deveria me preocupar?

—Com certeza. Caleb serviu por um bom tempo no exército, ele tem contatos na polícia e no mínimo pode arranjar uma autorização para ter os arquivos da Nora. Ela é boa nisso, mas Caleb... Bom, ele sempre foi bom em ser o melhor em tudo que se dispunha a fazer. – Riley sentiu um calafrio. – Vocês que o denunciaram?

—Não, eu esperava que fosse você, nem sabíamos que ele fazia esse tipo de pesquisa por fora.

Riley ficou confusa, se nem ela ou alguém da matilha havia denunciado, então quem seria? Afugentou o pensamento balançando a cabeça.

—O que deu em você agora a pouco, você queria que o Caleb batesse em você? -Riley olhava abismada para Matt. – Isso foi tão...

—Corajoso?

—Ridículo, no mínimo. – advertiu e seguiu Matt em direção ao carro.

—Eu não iria revidar. -justificou com um olhar inocente.

—Eu sei e por isso foi tão horrível de assistir. -Riley ainda via a cena, de como Matt esperava levar o soco, incentivava que Caleb fizesse isso, ansiava pelo descontrole dele. – Eu não sei que tipo de coisa passa na sua cabeça ou a culpa que você carrega, mas querer que as pessoas batam em você não vai aliviar sua consciência como um castigo.

—Não é como se eu não fosse me curar em algumas horas. -se vangloriou abrindo a porta do carro para Riley.

Entrou e se deparou com quatro latinhas de energético vazias perto do para-brisa e alguns salgadinhos no banco de trás. Matt estava fora de si.

—Você está realmente bem? -perguntou enquanto se sentava.

Ele fechou a porta do carro sem responder e passou pela frente do carro em silencio, de cabeça baixa. Só quando sentou no seu banco e ligou o carro foi que resolveu retomar a conversa:

—Você realmente não acha que se preocupa demais comigo?

Riley engasgou, tossiu e deu de ombros como se fosse obvio:

—Você age como uma criança precisando constantemente ser vigiado enquanto eu sou a recém descoberta mestiça, além do mais você sai por ai se drogando e arrumando encrenca...

Matt riu alto, o som sobressaindo o motor do carro. Quanto energético havia tomado? O suficiente para perder a noção do cansaço. Riley afundou no banco, ele começava a ficar irritante.

—Essa é sua visão sobre mim? Um cara que gosta de se pagar como o mais forte e problemático do ensino médio, que pratica bullying porque é incapaz de lidar com as próprias frustrações? -ele a olhou de soslaio. -Posso dizer como eu te enxergo, então? -Riley não deu atenção, estava concentrada olhando pelo retrovisor a própria imagem. – Era uma típica garota do interior, tímida e insegura, com uma vida perfeita, mas ainda reclamava de tudo ser tão emoção. Então enquanto você desenhava um garoto que curte surfe e parece ser o mais emocionante e desejado da cidade começa a te notar, então...

—Não é assim. -ela o interrompeu bruscamente, não deixaria que Matt a transformasse em um clichê. Havia escolhas, consequências e motivos, não era uma superfície que foi abalada por um mundo sobrenatural. Era uma vida fragmentada que ganhou uma nova oportunidade de se quebrar ainda mais. – Nunca fui tímida e insegura, tinha muitos amigos e ia as festas, já conheci outras cidades também se isso te surpreende. Nos ainda moramos aqui, porque minha família foi enterrada aqui. Eu conheço o Tyler desde sempre, ele nunca foi o popular e aprendeu a surfar porque se achava muito gordo na adolescência. Éramos amigos e namoramos porque ele mais do que ninguém me achou especial, antes até de aparecer gente dizendo que eu tinha uma metade licantrope e que existiam vampiros no mundo.

Matt assobiou fino, chegou até mesmo a fechar os olhos por um momento, mesmo que dirigisse na estrada.

—Uau! Essa realmente doeu. -ele fez uma cara de dor e sorriu, se o tinha atingido como uma ofensa ele soube disfarçar. – Você acredita que sua parte licantrope veio da sua mãe?

—Não faz diferença, ambos mentiram. Eu só não imagino meu pai carregando um lobo dentro de si e escondendo de mim mesmo na lua cheia. -cruzou os braços e voltou a encarar seu próximo reflexo. – Estou cansada disso tudo e a sensação que tenho é que o Caleb sabe mais sobre mim do que eu. Precisamos investigar o que meu pai tenta esconder de mim.

—Precisamos? -repetiu com um tom de voz presunçoso. Não havia sorriso, suas mãos estavam rígidas no volante. Riley as encarava perplexa, daquele jeito ele partiria no meio. – Não parece ser uma boa ideia.

—São só alguns arquivos que meu pai guarda no estúdio dele, deve ter alguma coisa lá que ele provavelmente nunca quis que eu lesse.

Matt freiou lentamente, o carro parando com perfeição na frente da loja de conveniência do posto. Dali dava para ver Robert assistindo ao seu programa de televisão favorito, Animal Planet. Todo o clima da conversa havia tomado um rumo tenso.

—Não me parece uma boa ideia, é só uma sensação, mas eu acho que mestiços são poupados da verdade sobre suas vidas por alguma razão. -não olhava diretamente para ela, encarava as próprias mãos no volante. Estaria pensando no Will? – Não acha melhor apenas perguntar para o seu pai, sentar e conversar e talvez...

—O quê? -Riley ficou surpresa. – Seria muito conveniente claro, se ele não tivesse mentido para mim por dezoito anos, se não tivesse nem sequer me dado uma dica das coisas que eu poderia passar, como é simples chegar e dizer: “Ei pai, depois que eu matei o Josh descobri que sou metade lobo, mamãe tem alguma coisa a ver com isso?”. Eu quase morri e ele nem faria a mínima ideia, porque estava mais preocupado em se cegar ao que eu sou.

—Agora você está sendo infantil por não saber lidar com isso e querer problematizar algo que tenho certeza que seu pai será compreensivo. -Matt estava duro, não tinha expressão nenhuma e parecia aquele mesmo garoto que entrou na loja na primeira vez em que se conheceram. – Por que Riley, você quer estragar e distorcer tudo? Não precisa intensificar as coisas para que você justifique todo o seu abalo emocional por não estar sendo mais mimada por todos a sua volta. A sua história não precisa ser dramática e triste, é uma escolha sua continuar vivendo nessa mentira. Coisas piores acontecem à mestiços e a sua é de longe a mais fútil... -parou abruptamente de falar, passou a mão no rosto ansioso. – Desculpa, não queria falar essas coisas...

—Não, tudo bem, então agora vamos falar sobre lidar com problemas, porque você não aprende a lidar com os seus e você ganha alguma moral nessa conversa? – Riley não queria dizer aquilo, mas as palavras explodiam da sua boca com ferocidade, não pensava, dizia. Precisava parar, desejava isso. – Você que é incapaz de se dar bem com Jones porque quer culpa-lo pelos erros do seu pai e não aceita que foi ele o responsável por desgraçar com você, não Will, nem Jones, apenas o seu pai. Então, por favor, não me venha me dizer como eu devo lidar com o meu.

Riley saiu do carro e bateu a porta com tanta força que parte dela amassou só nos seus dedos. Era dessa força sobrenatural incontrolável que haviam falado? Era as emoções explodindo a flor da pele? O corpo ansiando por um soco, para que você pudesse revidar com dois? Isso era a lua cheia?

Saiu andando pela frente do carro. Pensava em chorar, mas lhe faltava as lagrimas nos olhos. Sentiu o olhar fuzilante de Matt, apenas o motor do carro era o barulho na rua inteira. Tudo mais havia se calado e até mesmo Robert dentro da loja observava o desenrolar daquilo. Riley se virou para olha-lo mais uma vez, abriu os braços, como quem se rende em uma discussão. Matt deu partida no carro. Furiosa, Riley gritou:

—Feliz agora?

Notas finais
♪ - I Hate U, I Love U (Gnash feat. Olivia O'brien)