OCASO
8 Segredos 3.1
Notas iniciais
—Você vai acabar enlouquecendo. –afirmou Tyler enquanto mantinha uma conversa com o irmão há mais ou menos 10 minutos. – Sabemos que Nora é uma medica bem fora dos padrões, mas isso é comum. Nada que uma denúncia anônima não a coloque na cadeia.
—Não é só isso, ela não altera qualquer caso. São específicos, tem um padrão. –explicou impaciente. – Ela faz isso parecer simples demais, o que me leva acreditar que ela não está sozinha. Pode ser uma quadrilha.
Tyler olhou indignado para o irmão. Era absurdo demais ficar ouvindo todo aquele papo como se ele fosse algum tipo de detetive particular. A imagem que tinha do Caleb, era de ambos brincando em uma infância distante, o irmão sempre querendo entender a complexidade por trás de tudo, querendo ganhar como uma prova de que estava sempre certo. Parecia uma memória distorcida, mas Caleb sempre foi maníaco por mistérios e competições.
-Ainda não entendi porque você continua desconfiando da Riley. –Tyler fez uma pausa ponderando suas palavras. – Talvez Riley nem saiba de boa parte disso.
—Robert me disse que faz dois dias que ela não aparece para trabalhar. –rebateu Caleb eufórico. – Ela não estava em casa e o pai dela disse que ela tinha ido dormir na casa da Holly, agora adivinha?
—Espera você está seguindo minha namorada?
—Tyler, esse não é o problema! –Caleb bateu a mão na mesa com violência fazendo Tyler se sobressaltar assustado. – Ela está mentindo para todos.
Pensou em repreende-lo, defender Riley e dizer que ele estava sendo além de ridículo, completamente maluco em tentar bolar teorias para incrimina-la. Passou a mão no rosto e nos cabelos, quando sentiu o celular vibrar.
Uma nova mensagem da Riley.
—Você está me ouvindo? – indagou Caleb ainda revoltado. – Coisas sérias realmente acontecem...
—Claro, claro. -interrompeu Tyler com desdém. Abriu a mensagem receoso, sua última conversa coma Riley havia sido conturbada demais justamente pelas paranoias do irmão.
“Oi. Espero que esteja tudo bem. Precisamos nos ver.”
Tyler começou a digitar o mais rápido que seus dedos conseguiam. Se surpreendeu com sua própria pressa de responde-la. Tinha sido breve, uma mensagem simples perguntando se estava bem e onde poderiam se encontrar. Mal deu tempo de bloquear a tela e o aparelho vibrou com uma nova mensagem.
Olhou para o irmão primeiro e viu que ele havia desistido da discussão para ler um livro de capa de couro, tão rustico quanto aquelas bíblias antigas na biblioteca. Agradeceu mentalmente por ele ter se distraído.
“Estou realmente bem. Na praia, no mesmo lugar, em 10 minutos.”
Antes mesmo de responder, Tyler já pegava o casaco e touca. Disse um “volto daqui a pouco” ao irmão e digitou enquanto caminhava. Por Riley, ele estaria na praia até em cinco minutos.
(...)
Um dia frio com as ondas do mar batendo com violência contra as pedras e pássaros na beira da areia molhada. Era quase exatamente como no dia em que se despediram. Dessa vez Tyler não voltava do mar, feliz e gelado, estava ali sentado ao lado de Riley. Comiam algumas balas de gelatina, dessas que precisa se esforçar para rasgar com o dente, o gosto do doce e amargo fazendo surgir um arrepio. Ninguém falava nada havia 15 minutos.
—Você está me encarando. -afirmou Riley sorrindo e voltando o olhar para Tyler. – Sei que quando faz isso é porque está impaciente com o meu silencio.
Ele sorriu, não se surpreendia mais quando Riley acertava exatamente o que ele estava pensado. Aqueles olhos castanhos, tão simples como a terra depois da chuva, porém igualmente densos, lentamente consumindo suas manias, seus pensamentos e quando menos se espera lá estava ela dizendo tudo sobre você como se tivesse ouvido sair da sua boca.
Deu de ombros.
—Só estava pensando no meu último dia aqui na cidade. Mesmo lugar, mesma pessoa. -sorriu diante da lembrança. – Meio nostálgico, apesar do...
—Sobre o dia em que brigamos. Sinto muito. -entregou parando a bala no ar, antes de colocar na boca. Encarava a areia. – Algumas coisas aconteceram e eu sinto que estou diferente... O que eu quero dizer é...
—Tudo bem. -interrompeu tossindo um pouco. Estava tão frio que mal sentia os dedos, mas queria tocar Riley. Se conteve, não parecia certo. Provavelmente ela só queria o amigo Tyler, aquele de 10 anos e não o namorado. O que era difícil, porque diferente de Riley, Tyler não lia tão bem as pessoas e se adaptava a situação. – Eu não sei o que me deu ao ficar te questionando daquele jeito mesmo você estando de luto, eu não consegui entender o seu lado e agora não importa mais. Nós só precisamos fazer isso... -apontou para os dois- Ainda dar certo.
Riley abriu os braços. Pronto, aí estava. Finalmente o sinal de que poderia toca-la. Ele a fechou dentro de seus braços e se sentiu bem em conforta-la. Parecia que a distância por conta da Universidade havia criado uma barreira entre os dois, algo que com paciência e mais convívio poderia se desfazer. Aquela era a Riley, a verdadeira.
Tentou beija-la, mas ela recuou devagar.
—Eu ainda não terminei. -disse devolvendo a bala ao pacote. – Preciso saber se mesmo que algumas coisas mudem, pelo menos ainda seremos amigos?
—Talvez? -brincou Tyler fingindo a incerteza. – Seria possível você mudar para pior?
Riley o empurrou rindo, mas ele a puxou de volta sem dificuldade. O vento fez com que o cabelo dela cobrisse ambos os rostos, um manto para quando os rostos se aproximassem. Não precisou beija-la, ela o puxou para isso com suas mãos pequenas e quentes.
Só aquilo bastaria por horas se fosse preciso, mas seu telefone tocou insistente. Uma. Duas. Três vezes. E na quarta Riley o soltou de uma vez, não estava brava, apenas com olhos curiosos. Tyler suspirou e pegou o celular. O nome “Scott” acendeu.
—Finalmente! -bravejou o amigo do outro lado da linha. – Thomas está enviando o enderenço da nossa próxima festa.
—Festa? Para isso que você ligou? -perguntou em nervoso, olhou para a Riley e forçou um sorriso. Ela mantinha uma expressão indecifrável.
—Coisa grande! Fora do campus e a fantasia. – Scott simplesmente parecia eufórico. – Consegui os ingressos com umas garotas do último ano, claro que Thomas precisou mudar algumas coisinhas e falsificar outras, nada demais... Sabe quais são as chances de conseguirmos entrar numa festa dessa? Isso mesmo zero! Mas não dessa vez...
—Sair sem autorização do campus, dirigir por horas e ainda correr o risco de ser expulso da Universidade ou da festa não pareceu muito arriscado? -não queria conversar aquilo na frente de Riley, não só pelo assunto ser motivo que poderia levar ao ciúmes, como também por interromper um momento raro entre os dois.
—Eu já solucionei tudo aqui. Apenas confie em mim.
Tyler revirou os olhos. Riley estendeu a mão para o celular o pegando de surpresa.
—Vamos, me deixa falar com o Scott.
Pareceu perigoso deixar que ela falasse com Scott, só não podia negar. Entregou o aparelho.
—Oi Scott, aqui é a Riley. -ela esperou. – Eu e o Tyler estamos nos pegando faz mais de uma hora e estou quase levando ele para a minha casa, mas preciso esperar dar o horário do meu pai sair para o trabalho, o que no caso é agora. -ela afastou o celular e conferiu a hora- Você tem 30 segundos antes que ele desligue.
Devolveu o celular com o sorriso mais cínico que conseguiu fazer. Tyler pegou tentando se manter sério depois de ouvir aquilo.
—Nós podemos conversar quando eu chegar aí mais tarde?
—Espera, sua namorada acabou de me dizer que vocês vão fazer sexo? -Scott parecia ao mesmo tempo surpreso e malicioso.
—Realmente quero falar com você mais tarde. -reforçou Tyler pausadamente.
—Ok, ok. Vou levar isso como um sim. -desligou o telefone fazendo a linha cair no mudo.
Tyler balançou o celular com a tela escura:
—Ele desligou.
—Eu gosto dele, então dou um desconto. -confessou Riley dando de ombros.
—Aquilo que você disse antes...
Riley balançou a cabeça confirmando:
—Vamos sair logo daqui...
(...)
—Obrigada por me ajudar a trazer as compras, Riley. –Nora tinha uma voz muito tranquila, como se nada fosse capaz de abalar seu humor. – Mas acredito que exista algum interesse.
Ambas colocaram as sacolas na mesa rustica de madeira. O casebre no qual ela e Jones morava era aconchegante e simples, cada móvel com sua finalidade, nada extravagante ou desnecessário. Tudo bem limpo regado ao ar mais suave de flores do campo. Nunca que Riley cogitaria a ideia de que ali vivia uma família com pessoas capazes de se transformar em bestas enormes.
—Parece que vocês têm uma vida normal... -observou olhando algumas fotografias. As fotos entregavam as várias viagens pelo mundo que os dois fizeram, além de pequenos enfeites de lembranças. – Jones chegou a me convidar para fazer parte disso, mas eu recusei porque não queria perder algumas coisas. Senti medo pelo meu pai, que tentou me poupar disso e nem mesmo contei a ele que agora eu sabia da verdade. Também senti medo de perder o Tyler, meu namorado, que é humano e que talvez nunca entenderia esse meu lado.
—Não conte se não se sentir segura. -falou com um sorriso gentil. Ajeitou os cabelos de modo que suas cicatrizes no pescoço ficassem a mostra. – Humanos que sabem demais são um risco para todos, é claro que não dá para fazer uma regra universal que proíba contar sobre esse mundo sobrenatural, alguém sempre quebraria por força maior. A verdade é que o equilíbrio manteve todas as espécies seguras, se você achar que é um risco contar então espere e veja se vale mesmo a pena.
—Obrigada pelo conselho. Eu provavelmente vou esperar mais. -ficou em silêncio por um breve momento. Sentiu-se bem por conversar com Nora, precisava disso mais vezes. Olhou alguns documentos postos cuidadosamente sobre uma mesinha no canto e recordou do trabalho de Nora como médica legista. – Fico imaginando como ninguém nunca descobriu os casos que você deu como suicídio ou ataque animal...
—Não se preocupe Riley, faço isso há anos com muita cautela. –tranquilizou. – Ninguém mais da polícia vai revirar o caso de Josh. Sinto muito por toda essa situação.
Sentiu-se na obrigação de dizer a Nora que desconfiava do que Caleb estava fazendo algo, mas ela própria duvidava disso. Poderia ser apenas paranoia dela por não se sentir mais segura após essa sequência de mentiras enroscadas umas nas outras.
—Eu tenho outra dúvida. –e Nora a incentivou que ela continuasse. – Eu deveria me preocupar por ser uma mestiça?
—Um pouco talvez. –ela fez uma pausa e tocou sua cicatriz com a ponta dos dedos. – Eu quero te mostrar uma coisa, se importa de me acompanhar?
Nora se levantou, mas não calçou os chinelos para sair de casa. Riley a seguiu curiosa, passaram pelas pessoas que caminhavam de um lado para o outro preocupada demais com seus afazeres no acampamento. Alguns encaravam, outros apenas ignoravam, mas os que sorriam pareciam acolher Riley como uma visita a muito tempo esperada.
A floresta parecia menos sombria agora que ela fazia a trilha com calma, sem medo. O sol parecia querer romper as nuvens de chuva e de certa forma davam a Riley a esperança de que as coisas podiam melhorar apesar de tudo. Caminhou rumo a uma subida íngreme. Em um momento passava por arvores de troncos grossos e copas altas, para no momento seguinte se revelar um extenso chão de pedra. A beira de um penhasco majestoso, com uma vista para imensidão da cidade, da floresta e do início do entardecer.
Olhou para trás, contudo Nora não estava mais lá. Talvez nem tivesse subido com ela. Um minuto de desespero, olhou ao seu redor e nada. Pensou em chama-la, mas foi interrompida por uma sensação estranha de alguém observando.
De todas coisas que poderiam surpreender Riley naquela paisagem, a que mais a cativou foi a figura do enorme lobo acinzentado que surgia por entre as sombras da mata. A forma que parecia onipotente, os pelos balançando com a leva brisa, mas sem perder aquela delicadeza humana presa no olhar escuro. Caminhou sem medo até ficar ao lado do animal e ao tocá-lo pode sentir e não ouvir, que se tratava de Nora. Seus dedos se fecharam no pelo e todo o seu corpo pareceu se conectar a ela. Cada batida do coração, respiração profunda e por último os pensamentos, lembranças, desejos.
Soltou-se no mesmo minuto. Sabia que o viria a seguir, uma onda de memórias que preencheriam sua mente, mas que não eram suas. O animal avançou a passos leves. “Confie.”, era o que sua mente implorava para fazer e Riley o fez. A abraçou envolvendo os dois braços, para ainda assim, mal conseguir fechá-los por completo no pescoço do lobo. Era tão quente e macio quanto uma cama das mais confortáveis.
O céu estava tingido com o tom mais escuro que o cinza poderia chegar. No centro do acampamento uma fogueira dava sombras perturbadoras nos rostos daquelas pessoas. Via-se Jones, tão mais novo, com roupas soltas e rasgadas. Estava nervoso, ansioso, mordia o lábio inferior enquanto ficava mais afastado. Muitos sussurros até que alguém falasse mais alto:
—É inadmissível um bastardo do Alfa. –declarou um velho de cabelos tão brancos como a neve. – Um mestiço sujaria nossa linhagem de genuínos lobos do sul, seriamos ridicularizados, seriamos fracos diante do clã do norte. Henry você precisa tomar uma atitude. – o velho caminhou de um lado para o outro a mão encravada nos cabelos, perdido. – Mate o garoto.
Uma onda de murmúrios iniciou com ainda mais ferocidade. As palavras do velho se dirigiam a um homem que em muitos aspectos parecia Jones. As mesmas roupas largadas, mas de um porte físico invejável. Contudo o jovem pouco se importava com as palavras do velho, seu olhar estava preso naquela figura magra ainda mais afastada do que Jones. Uma mulher encolhida, com um cabelo que lembrava o tronco das arvores. Henry suplicava, pela expressão, um perdão do qual a mulher parecia a todo custo rejeitar.
***
Quando a matilha soube que o pai de Matt, Henry, havia traído sua mulher com uma humana e gerado um filho mestiço a comoção foi incontrolável. Henry não só havia traído a mulher, como uma linhagem inteira de lobos genuínos do sul. Naquela época, era comum e tradição de que todas as matilhas se mantivessem puras na busca de poder total da espécie licantrope, a verdadeira magia no sangue. Mestiços nada mais eram do que aberrações, cruzamento entre espécies e o enfraquecimento da herança genética, metades vergonhosas do que um lobo genuíno era capaz de fazer. O jovem mestiço que a mulher humana ainda carregava em seu ventre era um símbolo de fraqueza da matilha e que mais tarde tiraria Henry de um cargo importante no Conselho, responsável pelas leis e ordem do mundo sobrenatural.
***
—Preciso da sua ajuda. –suplicou Henry. – Não como Beta e segundo no comando, mas como meu irmão. Não posso matar a criança.
—Não pode corromper a matilha. –corrigiu o Jones. Era visível os lábios machucados das crises de ansiedade. – Não pode deixar que os outros clãs descubram que o alfa do sul tem um bastardo mestiço. Henry pense na sua mulher... Em Matt, o seu verdadeiro filho.
Henry olhou ao redor da floresta, apreensivo por alguém estar vigiando aquela conversa e ao perceber que não havia ninguém pegou atrás de uma pilha de madeira um bebê enrolado em trapos velhos.
—O nome dele é Will. –apresentou Henry mostrando o rosto corado do menino que dormia profundamente. – É só uma criança, é meu filho também.
Jones pareceu prestes a dizer um palavrão. Com todos lugares do mundo para Henry levar a criança, ele tinha justamente que trazer ao acampamento. Trazer ali e colocá-lo nessa situação. “Como um Alfa podia ser tão estúpido?”, pensou Jones revoltado.
—Por favor, Jones. –implorou o irmão e de certa forma a cena se tornou irônica, um Alfa implorando para o seu Beta. – Já mataram a mãe dele, se o Conselho souber...
—Tudo bem. –declarou Jones nervoso e percebendo que falou alto demais se recompôs. – Ele não pode ficar no acampamento, precisamos escondê-lo mais ao norte. –e antes que Henry respirasse aliviado Jones se adiantou – Mas Valerie precisa saber sobre isso, não vamos esconder mais nada da sua mulher.
***
Para todos os efeitos Henry tinha matado a criança. Em segredo e por longos anos, Will foi criado ao norte da cidade perto de uma floresta preservada. De tempos em tempos Matt, Henry e até mesmo Jones visitavam a criança. A única relutante era Valerie, que embora aceitasse a ligação do filho e do marido, não se permitia gostar do garoto. Foram quase doze anos de mentira até que tudo pareceu desmoronar do mesmo jeito que o vento levaria um castelo de cartas.
***
Figuras com capuzes pretos se misturavam as sombras. Cinco delas se destacavam por estar mais na frente. No centro do salão Henry apenas trajando uma velha calça cinza ajoelhava-se cabisbaixo. Jones havia avisado tantas e tantas vezes ao irmão que esse dia hora ou outra chegaria. Que um dia o Conselho descobria e que a punição por traição seria sem precedentes. Sentia-se impotente por não poder ajudá-lo, por ser o único a ter o direito de estar ali e ainda assim, se sentir a pessoa mais torturada por isso.
Ele não era só Beta daquela matilha vendo seu Alfa ser castigado por diversos crimes e conspirações contra o Conselho, era um irmão mais novo vendo o mais velho ser castigado por ser bom acima das regras frias regidas naquele mundo sobrenatural. Não podia fazer nada e mesmo que a última vontade de Henry fosse ver Will feliz e livre, nem mesmo isso podia garantir.
—Julgado aqui por crimes de conspiração e traição, Henry, Alfa da matilha dos lobos do sul é sentenciado a morte. –a figura do centro levantou a mão empunhando a espada, dançou com ela no ar, o brilho da lamina de prata refletindo na pouca luz do salão, antes de apunhalar com um único e violento golpe o peito de Henry. – Que seus erros sejam perdoados.
Todo o salão repetiu as últimas palavras do Conselheiro, em uníssono e sem qualquer sentimentalismo. Os olhos presos no corpo morto de Henry, incapaz de absorver ou raciocinar o que havia acontecido, Jones nem mesmo conseguiu chorar.
***
A morte do Alfa foi só o início da derradeira sequência de problemas. Will foi dado como desaparecido e mais tarde anunciado pelo próprio Conselho como morto. Foram tempos sombrios na matilha, agora ela era ridicularizada. Jones foi colocado como Alfa. Valerie se suicidou alguns meses depois e Matt simplesmente enlouqueceu, havia perdidos todos e se perdido.
***
Segurou o braço do sobrinho. Matt não era como Henry, não conseguia enxergar tanta bondade no mundo, não conseguia acreditar em tempos melhores ou uma solução para os problemas, havia muito de Valerie nele. E Jones estava ali tentando não perde-lo também, era o último fragmento da família que ele não poderia deixar ir embora, por Henry precisava cuidar do garoto como não foi capaz de fazer com Will e Valerie.
—Não pode fugir dos seus problemas. –advertiu Jones. – Não pode sair por aí achando que as consequências não virão. Não há coragem nisso.
—Coragem? –indagou Matt. Naquele tempo ele era tão franzido. – Você não foi corajoso para salvar meu pai, foi inútil para ajudar Will e não se importou quando minha mãe morreu. Você é o único covarde aqui.
—Não fale assim. –disse Jones baixinho soltando o braço de Matt. As palavras haviam o acertado como um soco na cara, o enfraquecido em qualquer argumento.
—Eu queria que você tivesse tido um filho mestiço, que tivesse tido a força para lutar que nem meu pai teve. –vociferou cada palavra com selvageria. – E que então soubesse como é ter um irmão inútil...
***
—Como você. –completou Riley em um sussurro delicado. Seus olhos se abriram e agora o a floresta parecia rodopiar em cores. Tocou seu nariz e sentiu o sangue quente escorrer dele. Sua cabeça parecia se comprimir e dilatar com as lembranças de Jones e a voz de Nora. O lobo acinzentado ao seu lado agora havia se transformado em uma mulher nua. Riley ajoelhou, exausta e deprimida, nauseada demais para assimilar qualquer coisa.
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