OCASO

1 O Despertar 1.1


Notas iniciais
Para um primeiro capitulo eu espero, profundamente, que vocês gostem e se apeguem a trama para continuar acompanhando. Em todos os capítulos daqui para frente nas notas iniciais colocarei um quote e nas notas finais uma recomendação de música, ambos referente ao capitulo.

O céu encoberto por nuvens cor de ferro em contraste com o mar aterrorizava a praia naquela tarde de Outono. A paisagem só era suavizada pelas gaivotas tão brancas como algodão, algumas voando e outras a procura de algo na areia molhada. Não deveria estar muito frio, mas já era o suficiente para espantar qualquer turista aventureiro.

Riley apertou o casaco e cruzou os braços junto ao corpo, só a imagem de Tyler saindo da água gelada já lhe dava arrepios. Ele carregava consigo uma prancha e mesmo que estivesse com roupa emborrachada, ela não parecia ter sido o suficiente para afastar sua aparência mórbida.

—Você deveria ter entrado. –anunciou Tyler com um sorriso presunçoso enquanto fincava a prancha na areia. – Não estava tão gelado.

Riley observou o namorado. Os cabelos molhados espetados para todas as direções, a pele dos dedos enrugados e o lábio fino quase azul. Ela sabia que nem se estivesse nevando, Tyler assumiria que a água está gelada demais para o surf.

—Quem sabe no verão eu mude de ideia? –perguntou incerta devolvendo o sorriso.

Tyler a tomou em seus braços, fazendo a estremecer com o toque. Seu corpo frio absorvendo todo o calor que Riley lutava para manter em si. Ela sorriu em meio ao leve choque térmico. E quando se beijaram, ela deixou de se preocupar com o quanto estava frio.

Riley amava aqueles momentos em que não existia ninguém além dos dois, mesmo que o beijo tivesse gosto de água do mar, mesmo que o frio fizesse suas pernas balbuciarem e o queixo tremer, ainda assim, era único e especial.

Ambos compartilhavam segredos, manias estranhas e fizeram os primeiros sonhos virarem reais. Juntos construíram não só um namoro, mas uma amizade que sempre sustentou os dois. Estiveram juntos desde sempre, Tyler estava lá quando a Riley de onze anos caiu nas pedras da praia e machucou os dois joelhos, estava lá para dizer que não precisava chorar e que nem era tão grave. Nesse dia Riley levou oito pontos em cada perna. Ela sabia que se tivesse chorado, seria muito pior, se tivesse visto o quão grave foi teria entrado em pânico, mas confiou nele e conseguiu pedir ajuda. Mas agora que cresceram e novas responsabilidades lhe foram dadas, era preciso deixá-lo ir.

—Riley? –Tyler assumiu uma postura aflita, o olhar inquieto. – Não chore.

—Chorar? –indagou afastando para que parasse de analisá-la. – Só se você não deixar o seu som comigo, então eu terei que chorar um pouco.

Ele riu baixinho, talvez nem tivesse achado graça. Tyler tinha expressões fáceis de ler, como se seus olhos azuis gritassem a todo instante o que se passa dentro dele, e Riley podia traduzir cada mudança de humor. Ela sabia que ele, como ela, não estava preparado para dizer “adeus”.

—Você acha que isso vai dar certo? –perguntou Riley se afastando um pouco. Não olhou diretamente ao fazer a pergunta, estava perdida em lembranças e pensamentos enquanto observava o mar se chocar contra as pedras. — Sempre imaginei que faríamos a Universidade juntos.

—Mas nós vamos. –insistiu Tyler passando confiança no tom de voz, embora ele mesmo se sentisse inseguro por dentro. – A diferença é que eu vou agora e você no fim do inverno.

A Universidade sempre pareceu algo grandioso demais que ocupava tanto espaço dentro da vida de alguém que ela deixava de ser a mesma, era quase inevitável o medo de Riley por ceder ele por alguns meses. Havia novos amigos, lugares a ir e pessoas interessantes a conhecer, fazendo qualquer um se admirar ao encanto e se render a uma vida adulta. Riley então se via preocupada por ser esquecida junto com tudo o que ele tinha aqui.

—É só alguns meses, pouca coisa. –continuou Tyler percebendo o silencio desconfortável. – Quando pensar em sentir saudades, você já estará indo para lá também.

Antes que Riley pudesse contestar alguma coisa, Tyler a puxou para um abraço, dessa vez não tão frio como antes. Um abraço tranquilizador que parecia comprimir qualquer insegurança até ela não existir mais. “Alguns meses, alguns meses”, pensou Riley repetidamente, se agarrando a ideia de que nada poderia mudar em tão pouco tempo.

(...)

O cômodo parecia maior agora com os pertences de Tyler embalados. No quarto apena as mobílias vazias e uma única estante em particular que parecia intocável, lugar onde os troféus e medalhas de surf eram expostos com orgulho. Nada de roupas jogadas ou a pilha de CDs que nunca ficava arrumada por mais de duas horas, nem mesmo os desenhos de Riley, entretanto esse último ela ficou satisfeita de saber que ele levaria consigo. Ela esperava pacientemente ele sair do banho, andou o quarto vazio, tocou as poucas coisas que ainda estavam no mesmo lugar tentando ao máximo não se deixar levar pela tristeza.

Tyler saiu do banheiro, não estava preocupado com o horário e por isso só estava vestido com uma calça jeans escura, os cabelos mesmo molhados insistiam em se manter bagunçados. Ele encarou Riley do mesmo jeito que sempre fez por dezoito anos, um tipo de olhar preocupado e protetor.

—Não me olhe assim. –advertiu ela cruzando os braços. – Posso me cuidar bem sem você.

“Não faça isso”, implorou mentalmente, mas já era tarde. Tyler estava cara a cara, gentil e dócil fazendo Riley se arrepender de qualquer grosseria já dita a ele. O beijou, primeiro devagar depois em um ritmo envolvente. Precisava afugentar a ideia de distância, agarrou Tyler o puxando para cama. Ele apoiou as mãos no colchão e ao trocar o apoio para os cotovelos se desajeitou e riu sem graça. Riley podia jurar que o amou mais um pouco naquele momento, se é que era possível amá-lo mais. Quando ele parou o beijo subitamente, ela quis imediatamente reclamar.

—Eu te amo, Riley. –sussurrou com os olhos fixos nos dela. – E eu não te deixaria nunca.

Riley respirou fundo, o cheiro de maresia e sabonete lhe dando sensações nostálgicas. As palavras de Tyler latejavam na sua cabeça, penetrantes, boas demais para serem um dia esquecidas. Ela sorriu e embora seu corpo clamasse para que retribuísse as palavras amorosas, algo dentro de si a fez hesitar.

—O taxi chegou! –entoou Sarah, mãe de Tyler, por assim, salvando Riley no último minuto.

—Já vamos! –gritou Tyler de volta e por fim caindo ao lado de Riley na cama. – Com certeza pior hora. –comentou frustrado e cansado enquanto fechava os olhos com força.

Riley levantou pegou uma blusa e jogou para ele. Tyler se arrumou depressa, queria se conter, mas era quase impossível não perceber a ansiedade dele por algo tão desejado há anos. Uma a uma as caixas foram levadas ao carro. “Cada pedaço de Tyler indo embora com ele” concluiu Riley mentalmente quando viu o taxista fechar o porta-malas.

Sarah abraçou o filho, estava radiante, claramente orgulhosa, porque seria o primeiro filho a ver entrar na faculdade. Caleb, o primogênito de vinte e cinco anos, servia ao exército e quase nunca permitiu que Sarah pudesse dormir em paz sem imaginar que talvez ele estivesse em apuros, que talvez nem mesmo voltasse para casa no verão. Era muito difícil para ela, como mãe solteira, ser forte pelos dois filhos e dar a eles o melhor do mundo. Era por Sarah, que Riley não implorava para que Tyler a esperasse, além de tirar dele a chance de um futuro, ela estaria tirando o prazer de uma mãe de ver um filho ir à busca de grandes realizações.

Quando ele parou de abraçar a mãe, Riley o olhou com pesar:

—Eu vou sentir...

—Odeio despedidas. –interrompeu Tyler bruscamente a pegando de surpresa em um abraço forte e um beijo rápido que Riley mal pode sentir o toque. Depois se afastou e entrou no carro.

Tyler não sabia bem o que fazer com as mãos quando o carro deu partida, receoso de dar tchau e aumentar o choro da mãe. Sarah apenas fungava e as lagrimas que escorriam molhavam o seu avental cor de cereja. Riley sentia que devia abraça-la, consola-la talvez? O problema era a sensação ruim aflorar dentro do seu peito, seu corpo parecia chumbado ali, onde Tyler a deixou.

(...)

—Você não precisa fingir que não se importa com isso. –comentou Bill, pai de Riley, enquanto se ajeitava no sofá com seu balde de pipoca. Ambos, pai e filha, assistiam a filme de ação muito antigo do qual Riley não se importava de prestar atenção. — Sei que nunca gostou de demonstrar seus sentimentos, ainda mais os sentimentos ruins, mas Tyler está se afastando pela primeira vez em dezoito anos, você pode ficar triste com isso.

Estava claro, ninguém queria falar em voz alta, mas a verdade era que nem em um milhão de anos Riley gostaria que Tyler fosse pra Universidade primeiro. Olhou para o grande espelho que pegava quase toda uma das paredes da sala. Era de um tamanho razoável, com um corpo razoável, tinha cabelos castanhos escuros e olhos da mesma cor, comum demais entre a multidão. Comum demais para competir com uma Universidade.

—É só um pressentimento ruim, pai. –murmurou afundando no sofá, fugindo do próprio reflexo. – Vai passar.

—Talvez chamem isso de saudade... –supôs Bill.

Riley ponderou. A verdade era que não se tratava de saudade, ela sabia o que era saudade e só precisava olhar para os vários quadros espalhados pela casa. A maioria da mãe, Alana e Riley em alguma cena de brincadeira. Como sempre, Bill sendo o melhor fotografo, sempre cuidadoso em pegar a melhor parte dos sorrisos, aquele momento em que os olhos ficam pequenos para ceder as bochechas. O sentimento que perturbava Riley era insegurança, até mesmo medo, não estava preparada para mudanças e particularmente, odiava como as coisas na vida mudavam sem aviso prévio.

—Por que não descansa um pouco? –aconselhou Bill pausando o filme de repente. – Amanhã poderíamos fazer trilha, distrair a cabeça já que estou com pouco trabalho essa semana no estúdio.

—Não acredito que você está planejando caçar. –Riley debochou já se lembrando das inúmeras vezes que seu pai havia tentado fazer qualquer coisa na floresta ao redor da cidade que não fosse fotografar. Uma vez o avô de Riley lhe contou histórias de como tentará fazer o filho se dar bem nisso, mas Bill sempre fora um homem culto demais para as brutalidades da caça. – Isso é uma péssima ideia.

Bill riu e passou a mão no cabelo, um gesto de vergonha já conhecido. Ele estava mais velho do que Riley costumava reparar, um pouco de barriga extra, os cabelos brancos sobrepondo os castanhos e as rugas proeminentes em cada olho. Ele não precisava fazer isso por ela porque ela gostava de ir a floresta, mas ficou feliz em saber que ele estaria disposto a lhe fazer companhia.

—O velho Bill ainda pode caçar alguns esquilos se quiser. –brincou com uma voz mais grave.

—Não fale de si próprio na terceira pessoa. –advertiu Riley imitando a voz e os gestos da sua mãe. Bill riu e ela também, mas não por muito tempo, não até que a lembrança dela doesse nos dois. – O vovô amava falar assim e a mamãe nunca gostou do ego dele... –relembrou Riley ainda com um leve sorriso no rosto, era difícil trazer algo do passado de volta, mas as vezes se machucar um pouco com certas lembranças um dia talvez, você se torne mais resistente a elas.

(...)

O campus da Universidade parecia se prolongar até onde os olhos de Tyler alcançavam. Era gigante e cheio de gente. Havia mais jovens ali no que em sua cidade toda. Todos energéticos, falando alto, indo para lá e para cá. Os novatos facilmente notados pela ansiedade que emanavam de si, já os veteranos em seus grupos, intocáveis e observadores, ninguém tão especial que prendesse suas atenções.

Tyler pensou em como Riley poderia gostar dali, de como precisava falar isso para ela naquele instante. Estava prestes a pegar o celular do bolso quando um garoto de cabelos loiros arrepiados chegou dando tapinhas nas suas costas.

—Bem-vindo a Universidade! –anunciou abrindo os braços, Tyler riu. “Com certeza um novato”, pensou. – Sou Scott e esse é o Thomas. –apontou para um garoto que andava na direção deles com os olhos vidrados no celular em sua mão, os dedos ágeis digitando sem parar. – Você deve estar se perguntando quem somos? –Na verdade, Tyler não estava. — A história é que o Thomas aqui –e bateu nas costas do amigo sem piedade. – Hackeou o sistema da Universidade.

—Um sistema fraco perto do que eu sei fazer. –pela primeira vez Thomas tomou a palavra, mas sem tirar os olhos da tela.

—Vimos que nosso colega de quarto ia ser um dos fracassados nerd do ensino médio, o problema é que precisamos de um trio complementar e não semelhante, de nerd já tenho o Thomas. –continuou Scott ansioso demais para parar de gesticular as mãos, o que fez Tyler também deduzir que ele era imperativo. – Então temos o nerd Thomas, o cara gato que as garotas amam. –apontou para si mesmo sem rodeios. – E depois do excelente hack feito aqui pelo meu amigo, temos você! O cara do tipo atlético, como nosso último colega de quarto.

Scott ficou na expectativa, esperava de forma impaciente que Tyler dissesse algo, seu pé batia no gramado de forma ritmada. Thomas levantou o olhar e arrumou os óculos, encarava Tyler como se pudesse hackear também os seus pensamentos.

Tyler hesitou:

—Não acho que faço o tipo atlético.

—Não acredito. –bufou Scott lançando um olhar fulminante a Thomas. – Você não disse que na ficha estava escrito que ele ganhou campeonatos de surf?

—Mas estava! Eu tenho certeza. –bravejou Thomas voltando a digitar rapidamente no celular. – Eu vi até em notícias de três jornais locais pela internet. –virou o celular para Scott onde mostrava um jornal digital com uma foto de Tyler levantando um troféu de primeiro lugar.

—Não, mas o nosso amigo aqui está dizendo aqui que não faz o tipo atlético. –Scott iniciou uma discussão. – Tyler está provando que você hackeia mal.

As sobrancelhas de Thomas se curvam em uma cara mal-humorada, o rosto indo do pálido doentio ao vermelho gritante. Iriam brigar bem ali na frente de Tyler e ele não poderia chamar mais atenção do que isso no primeiro dia.

—Eu realmente surfo. –confessou.

Pela primeira vez Tyler conseguiu calar a boca dos dois. O sorriso de Scott cresceu lentamente, batia o dedo no ombro de Tyler e ficava repetindo de forma insana:

—Você é o cara certo.

—E vocês são loucos. –afirmou Tyler de imediato para aqueles dois na sua frente. Apesar da recepção mais estranha que já receberá, se sentiu familiarizado por eles. – Já que vai ser assim, o que eu preciso saber sobre esse lugar?

Thomas e Scott se entreolharam, sorrisos maliciosos substituíram os antigos. Tyler sentiu que aquilo poderia dar muito certo, afinal eram novatos como ele e o que poderia dar mais errado do que ter os conhecido? Naquele momento ele nem mesmo se lembrara de que precisava ligar para Riley, naquele momento ele só estava preso ali.

—Essa é uma pergunta muito boa. –Scott falou lentamente, surpreendendo Tyler que não esperava que ele fosse menos do que uma pessoa sempre energética. – Pense em festa, drogas e muito sexo. –ele usava cada dedo da mão para listar as coisas. -Vamos Thomas mostre a ele a ficha das veteranas gostosas dessa Universidade.

Notas finais
Por fim, agradeço pela leitura!❤