OCASO
2 O Despertar 1.2
Notas iniciais
A morte de uma floresta no Outono vinha em tons de laranja e vermelho. A chuva que caíra a pouco mais de vinte minutos derrubara boa parte das folhas secas no chão, sobrepondo a trilha de um cobertor de cores. O céu nublado que anunciava o início do amanhecer vinha com uma brisa fria que fazia alguns galhos secos balançarem prestes a cair. Não é uma boa época para caçar e Bill só perceberia isso mais tarde.
—Tem ideia de para onde estamos indo? –indagou Riley ajustando a mochila nas costas. Ambos caminhavam há mais de dez minutos, mas a paisagem ainda parecia à mesma. Árvores grandes, copas quase impossíveis de ver. – Talvez devêssemos voltar...
—Não. Viemos aqui e eu sei o caminho. –Bill rebateu parando para olhar ao redor. – Você não se lembra, mas eu e a sua mãe costumávamos trazer você aqui. –ele olhou para a filha e sorriu. – Sua mãe sempre amou muito a natureza, floresta principalmente...
Riley tocou uma arvore. No Outono era necessário a morte para que possa renascer, mais forte, mais bonita. Despertar para uma mudança brusca. Não era difícil de acreditar que sua mãe gostava de lugares assim, sempre fora uma mulher de muita elegância, mas extremamente ligada às coisas vivas. Ela gostava de nadar nos rios, escalar arvores e até conversava com as plantas. “Bondosa demais para um mundo cruel” concluiu Riley em um sussurro quase inaudível.
Foi só quando Bill conduziu Riley para fora da trilha que ela desconfiou que o lugar que visitariam não era tão conhecido assim por visitantes. Por sorte, ela havia trazido seu kit de desenho e estava mais do que ansiosa para registrar algumas cenas no papel. Quando seu pai agachou para pegar a terra no chão, Riley sentiu uma vontade imensa de desenhá-lo, porque um filete de sol lhe batia no rosto e suavizava sua idade, embora os cabelos grisalhos reluzissem com a luz e entregassem sua idade. Ele tocava a terra úmida e parecia sentir que aquilo lhe diria o caminho para onde ir.
Passaram por duas arvores que se entortavam como um arco, o que fez Riley se perguntar se eram mesmo assim ou algo as havia moldado. O barulho de água caindo e a umidade logo entregaram que se tratava de uma cachoeira. Bill abriu os braços e respirou fundo, o pulmão inflando do cheiro da mata.
—É um dos melhores lugares que já conheci. –anunciou ele sorrindo.
A água era cristalina e pequenos peixinhos passavam eufóricos de um lado para o outro. A queda d’água era violenta, mas distante demais para que abalasse todo o rio que se formava mais para frente. Uma pequena ponte velha de madeira gasta ligava os dois lados do rio. Do outro lado uma floresta tão perfeita quanto a que Riley era acostumada a ver.
—Daquele lado é uma reserva, sempre me pareceu um pedaço do paraíso. –declarou Bill colocando a mochila no chão. –Se quiser ir...
—Sim, eu adoraria. –respondeu imediatamente com um brilho único no olhar diante da possibilidade de desenhar um “pedaço do paraíso”. — Espero que quando eu voltar você tenha pelo menos pescado alguma coisa. –brincou já atravessando a ponte.
—Só... –Bill hesitou suspirando. – Só não vá muito longe.
Riley deu de ombro. Como ela poderia se conter diante daquela inspiração, era quase como pedi-la para desistir de ir para Universidade ficar ao lado de Tyler. Caminhou depressa, as botas chutando algumas folhas secas e depois de entrar na reserva parou perto de uma raiz grossa, tão grande que era possível usar como apoio para as costas. Tirou os cadernos da bolsa e empunhou o lápis. Os primeiros traços saindo fortes e trêmulos. Riley suspirou e fechou os olhos, deixou que a mão movesse por si. Se ao menos Tyler estivesse lá ao seu lado, ele poderia cantarolar alguma coisa. Ele sempre se mostrou impaciente, mas isso de certa forma tornava o ambiente mais confortável. Estava com tanta saudade que seu peito se comprimia na ideia de pensar nas lembranças com ele e só fazia um dia que ele fora embora.
O ar ficou fresco, o barulho da cachoeira um pouco distante. Então, Riley subitamente abriu os olhos quando um véu de pássaros pretos voou desesperados e barulhentos. Sentiu um arrepio. Será que havia adormecido?
Olhou para o desenho. A sombra de um homem escondido entre as arvores, mas o que fez Riley se assustar era ver que seu desenho estava manchado de sangue. Levantou em um salto. Seus braços haviam se sujado em uma poça de sangue que vinha por baixo da grossa raiz. Amedrontada olhou do outro lado e viu que animais mortos se acumulavam junto a arvore. Reprimiu um grito. Havia um cervo e alguns coelhos, muita sujeira de sangue e um cheiro nauseante de cadáver.
Levantou o desenho de modo que ele mostrasse o que exatamente ela havia desenhado. Sim, era o lugar onde ela estava. Abaixou o desenho e tomou um susto quando viu a sombra de alguém passar rápido. Riley já havia visto filmes demais para saber que aquele era o momento de correr. Ela tropeçava, se machucava nos galhos pontudos, havia perdido a trilha. E à medida que parecia se perder mais, acreditava estar sendo perseguida. Era como ser caçada. A imagem dos animais mortos querendo atrapalhar sua concentração.
Só se permitiu respirar aliviada quando viu a ponte velha alguns metros de distância. Passou por ela desesperada, suja, machucada e quando viu seu pai, quis cair de joelhos exausta. Bill a segurou pelos braços com firmeza, provavelmente a sustentava. Os olhos de Riley pareciam querer pular das orbitas, aterrorizada, incapaz de manter o foco nele.
—Riley, olhe para mim! –gritou a sacudindo. – O que aconteceu?
—Vamos embora. –suplicou engasgada, se agarrando ao pai com ferocidade. – Vamos embora, por favor...
—Onde está a sua mochila? O kit de desenho? –perguntou ainda tentando focar a atenção dela. – Espera, esse sangue é seu?
O choro irrompeu de Riley quase como um grito. Havia deixado tudo para trás e agora só queria ir embora, antes que o que estivesse a perseguindo chegasse até lá também. O que quer que fosse estava escondido nas sombras, espreitava de forma predadora. Riley temia que seu pai não fosse rápido o suficiente para guardar as coisas, mas estava incapaz de superar o medo e ajudá-lo.
(...)
O curativo que soltava do machucado na mão servia de distração enquanto a chamada do Skype ainda não era atendia. Riley teve que explicar para o pai que se assustou com alguns animais mortos, se limitou a não dar muitos detalhes já que não queria assustá-lo mais do que já estava quando saíram de lá. Disse também que foi uma crise de pânico, que a saudade de Tyler a deixara um pouco sensível acima da conta. Não era nada, ela dissera. Infelizmente era mentira, Riley estava horrorizada. Incapaz de espantar do pensamento de quem fizera aquilo com os animais. Era como se ela ainda pudesse sentir o cheiro de sangue se fechasse os olhos e se concentrasse o suficiente...
—Riley! –chamou Tyler a despertando dos seus devaneios. Ela se ajeitou na cadeira depressa, não havia percebido que ele havia atendido a chamada. – Está tudo bem?
—Sim, claro. –ela sorriu para melhorar a mentira. – E você como esta?
—Estou ótimo. -falou entusiasmado. Mexia no fone de ouvido toda hora, o sorriso não saia do rosto. – Você precisa conhecer a Universidade, muito maior do que cinco escolas daquela que estudamos no ensino médio.
—Não brinca? –e Riley se permitiu rir um pouco da inocência dele, como se nunca tivesse conhecido cidade grande.
E Tyler falou. Contou de todas as áreas de lazer no campus e das aulas extras. Falou do “trote” que os novatos recebiam dos veteranos e de como foi engraçado. Das festas nas republicas nos fins de semana e de como sempre lá eles sempre saiam para comer em algum restaurante da redondeza. Contou sobre seus colegas de quarto e de como eram estranhos, porem legais e divertidos, que também eram novatos e vinham de cidades pequenas.
—Eles chegaram. –anunciou ainda mais sorridente. Riley não se lembrava de ver Tyler assim desde os treze anos quando ele viu o circo chegar à cidade pela primeira vez. – Ei caras, venham conhecer a Riley!
Riley ficou tensa. Não estava preparada para conhecer os amigos de Tyler. Estava com os cabelos bagunçados, um pijama dois números maiores que o seu, os olhos inchados de ir dormir chorando e um curativo no canto da testa. Pegou um cobertor depressa para cobrir o corpo.
—Essa é a sua namorada? –perguntou um de óculos e sorriso infantil.
—Você não acha ela gata demais para você? –completou o outro que tinha cabelos loiros espetados para cima. Virou para o amigo de óculos. – Thomas, mostre a ela a foto que tiramos do Tyler depois do trote, assim ela não vai mais querer ficar com ele.
Thomas virou o celular revelando uma foto em que Tyler estava de sunga vermelha apertada demais, deitado no chão cercado de uma poça de vomito com um pênis gigante desenhado na sua testa. Riley tampou a boca para não cair na gargalhada.
—Isso porque ainda não temos o vídeo dele dançando rock dos anos 80. –Thomas falou de forma travessa. – Mas vamos conseguir...
—Calem a boca! –reclamou Tyler empurrando os dois para longe da câmera. – Ei Thomas, que tal eu contar a Jennifer que você hackeia até o e-mail dela? Acho que ela não vai gostar de saber que você tem salva as fotos dela de infância!
—Filho da... –antes que Thomas terminasse a frase Tyler tampou o microfone e em seguida recebeu uma almofada na cabeça. Soltou o microfone e a risada de Tyler e Scott preencheu o ar, eram gostosas de ouvir embora fizessem o microfone chiar.
—Eu os achei fofos. –falou Riley baixinho esperando que Tyler não tivesse ouvido, mas ele revirou os olhos no mesmo minuto.
—Ela disse que achou vocês ridículos! –gritou Tyler rindo, incapaz de contar a mentira com perfeição. Quando Riley e ele voltaram a se olhar, um silencio angustiante separou os dois. Não havia mais nada a dizer ou talvez houvesse tanto que não se sabia por onde começar. Eles ficaram assim por um tempo, apenas se olhando com sorrisos tímidos. — Riley, eu vou ter que desligar agora, dizem que amanhã a primeira aula é algo relacionado com exercícios e eu tenho que descansar.
—Ah sim, claro. –respondeu meio triste, porém firme. –Boa noite.
Riley podia jurar que ele pareceu querer tocar a tela, mas se conteve no último minuto e suspirou cansado.
—Eu te amo. –e desligou a chamada, a tela escurecendo de uma vez.
Apenas o abajur iluminava o quarto. Riley observou seus desenhos, lindas paisagens e até mesmo pessoas aleatórias felizes, mas o desenho que fizera nessa manhã era macabro demais para ser exposto ali, era macabro demais até para se tentar fazer algo parecido. Pegou o caderno de desenho e iniciou um desenho sutil, tentava se lembrar do arco feito de arvores que dava para cachoeira. Algo bonito de se desenhar, só que não conseguia fazer o traço certo, como se tivesse perdido a habilidade. Bufou impaciente. Fechou os olhos como fez na floresta e deixou que sua mão rabiscasse. Sutilmente ela sentia que os traços ganharem alguma forma.
(...)
O posto de gasolina era velho caindo aos pedaços, mas a loja de conveniência até que era aceitável. Riley fazia um bom serviço a mantendo limpa e organizada. As poucas horas que não estava no trabalho se sentia entendia, então poderia contar com o dono, Robert, para uma boa conversa se chegasse mais cedo que o horário marcado. Ele era baixinho, não tinha cabelo, sua barriga era grande de tanta cerveja e resmungava da mulher que gastava demais. Adorava falar de futebol, ver Animal Planet e ler revistas de turismo para planejar viagens que nunca faria.
—Você não fez outras amizades na escola além de Tyler? –perguntou Robert coçando a cabeça careca. – Digo, as garotas costumam ter outras amigas garotas, não?
—Sim. –Riley respondeu com incerteza. Não se lembrava bem como era suas amizades, nenhuma a prendia mais do que Tyler e só piorou quando as garotinhas cresceram e se tornaram vadias mentirosas. Ou talvez ela estava generalizando demais. – Eu tinha pelo menos, mas nunca levei muito a sério minhas amigas da escola.
—Precisa delas agora. –e abriu uma revista de turismo que relia pela quarta vez.
Houve uma época em que Riley ia a casa de Emily Miller e Holly Grant. Brincavam de bonecas, casinha e tudo mais. Contudo, nada se comparava a uma boa competição de catar conchinhas com Tyler. Ela não se lembrava bem quando havia parado de vez de falar com essas garotas, mas parando para pensar nelas Riley não pode evitar sentir uma pontada de saudade.
Antes que a conversa se prolongasse mais, a porta da loja se abriu e o sininho entoou pelo estabelecimento. Entrou um rapaz quase da idade de Riley, embora ela nunca o tivesse visto na escola. Deixou que o vento entrasse fazendo uma bagunça com os panfletos que estavam no balcão. Riley resmungou um palavrão e Robert lhe lançou um olhar de advertência enquanto ela recolhia um por um.
Observou que o garoto seguia para a parte de remédios, lia atentamente cada caixa e seus efeitos e quando ele percebeu que ela o encarava arqueou as sobrancelhas como quem diz “O que foi?”. Riley revirou os olhos, já conhecia esse tipo de visitante para saber o suficiente deles, sempre arrogantes por estarem em uma cidade pequena.
Passou por ele para pegar a vassoura e quando voltou teve seu caminho bloqueado. Ela se encolheu, mas não havia necessidade. Mil coisas passaram pela cabeça dela naquele instante e o medo a fez parecer acuada. Riley não compreendia como havia ficado assim depois de ver aquelas coisas na floresta.
—Qual desses é melhor? –perguntou o rapaz com a voz meio baixa, meio tenso ou constrangido. Uma coisa estava clara, ele não queria ter que pedir ajuda.
Riley levantou olhar. Ele tinha quase a mesma altura de Tyler, mas o porte bem mais atlético, os olhos tão pretos que era quase impossível diferenciar a íris da pupila e um cabelo que variava o marrom como um tronco de arvore.
—O que você está segurando é ótimo. –respondeu tentando soar o mais natural possível. – Mas se quiser ter um sono longo e sem pesadelos, recomendo esse da cartela amarela.
Rapidamente ele largou o que segurava e tomou cinco cartelas amarelas na mão. Riley olhou desconfiada, mas o rapaz deu de ombro indiferente:
—Tenho distúrbios de sono. –justificou.
Riley pensou em dizer que apenas um comprimido o faria dormir por volta de doze horas, mas dado a falta de educação dele de sair sem agradecer ela decidiu que o dinheiro dele seria mais importante. Pagou a Robert e olhou de soslaio para ela, mas não disse nada até ir embora. Riley sentiu um tremor quando a porta abriu e o vento soprou de novo, não se tratava só de frio, mas da sensação de algo sinistro que aquele rapaz havia escondido no olhar.
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