OCASO
16 Confiança 4.5
Imensas portas de um material tão elegante quanto uma madeira se abriram. Um jovem de capuz marrom desbotado entrou rápido. O salão principal era composto de apenas quatro cadeiras estofadas, lado a lado, em cima de um degrau de concreto. Um sinal de soberania absoluta. O jovem parou na frente das cadeiras e se ajoelhou, mesmo que não houvesse ninguém para receber a referência.
Mais uma vez as portas se abriram, revelando agora quatro pessoas. Três homens e uma mulher.
Um dos homens, tinha o sorriso afiado, cabelos brancos como a neve e era o mais baixo deles. Mostrava um andar flutuante, os olhos brancos impossíveis de se traduzir. Um demônio das noites. Vampiro.
O outro era negro e forte, tinha a cabeça raspada e cicatrizes no rosto. Os olhos escuros, tão vazios quanto o branco, nele tudo se absorvia. Uma postura de caça e qualquer um poderia ser a presa. Licantrope.
O último homem era o maior deles, tinha parte da pele do rosto deformada por uma queimadura, mas isso lhe dava um ar de confiança para andar a frente de todos, os cabelos grandes quase escondiam as tatuagens que lhe escapavam o pescoço. Caçador.
A mulher vinha atrás, mas sorria, o que nenhum outro ser daquele salão vazia, seus olhos de cor âmbar brilhavam fora do humano e seus cabelos loiros nem mesmo pareciam reais. Era magra e tinha passos firmes, era a mais velha de todos ali mesmo que sua aparência não revelasse isso, imortal e cruel. Bruxa.
—Já pode se levantar Christopher. -anunciou o Caçador. – Não imaginávamos que você estaria aqui primeiro que nós.
Christopher abaixou o capuz. O olhar distante e quase branco, se não fosse por uma linha azul insistente. A expressão imóvel, nada revelava sobre seus sentimentos.
—Imaginei que se o Conselho me solicitasse para resolver um problema, eu deveria vir depressa.
—Isso não foge da verdade, Christopher. -dessa vez quem falou foi a Bruxa. – Existe um certo tumulto na matilha do sul, advém do nascimento de uma criança mestiça do Alfa. Particularmente deveríamos ignorar, mas após discussões optamos por mata-lo. Não precisamos que o Conselho fique manchado por Henry ser um dos líderes e ter feito algo tão repugnante. É um traidor e merece ser punido de alguma forma.
—Acreditei que sua expulsão do Conselho era uma punição. -declarou ainda sem demonstrar nada, nem mesmo interesse pela vida e morte de alguém.
Os líderes se entreolharam. O Licantrope tomou o poder de palavra:
—Isso foi um castigo para uma criança mimada, doeu, mas não foi o suficiente.
—Por que eu e não um caçador especializado ou alguém da própria espécie da criança mestiça?
—Precisamos ser discretos, uma morte limpa. Sua habilidade permite que você destrua a mente e apague vestígios, a matilha do sul não pode saber que estamos envolvidos no assassinato. Precisa parecer que foi algo realizado pelo clã do norte. -agora quem falava era o Vampiro, parecia indiferente a sua própria espécie, seu ar arrogante não permitia que ele só ligasse para sua própria vida. — Encontre o garoto e procure o momento mais oportuno para o ataque. Entende as instruções dadas a você diante dos quatros pilares de poder?
—Entendo. -Christopher relocou o capuz. – Eu matarei a criança.
***
Era uma época em que Christopher certamente não se orgulharia do seu caráter. Estava tão perdido que se ausentava de si. Sua aparência jovem e expressões calculadas, nunca foram capazes de entregar que ele sentia cada morte, cada ano de imortalidade, fazendo-o perder tudo o que havia de humano.
O Conselho havia encontrado um verdadeiro cão de caça, Christopher sabia disso e não se importava. Fazer parte da guarda de elite dava a ele um proposito para continuar sendo útil. Se precisasse matar uma criança, faria isso. Não porque era cruel e sentia prazer em ser ruim, só porque se fizesse aquilo poderia ainda ter um lugar para voltar no fim do dia. E pessoas para as quais, de um algum jeito, se importariam se ele estivesse vivo.
***
O sol escapava por brechas nas nuvens, insistente depois de uma forte chuva. Christopher parecia concentrado em um cheiro especifico, as vezes caminhava, as vezes dava passos mais longos. Passava pela floresta sem se focar em nada, os olhos brancos nem mesmo revelavam para qual direção seguia.
Escutou risadas, não qualquer tipo de risada, mas aquela especial, de criança feliz. Christopher sorriu, a sensação de relaxamento muscular que o predador sente quando localiza a presa. Parou e respirou fundo.
Havia duas crianças.
Christopher observou suas mãos, podia sentir o pulso acelerado das crianças em cada ponta dos dedos. Uma técnica fácil de previsão. Mesmo sem vê-los já podia deduzir que eles corriam e pulavam. Seus sangues quentes e atrativos.
Espreitou pelas sombras e viu a poça de lama em que estavam as duas crianças. O maior não devia passar dos seus cinco anos, olhos e cabelos de um castanho diferente. O menor era até que um pouco pálido, a julgar pelo jeito e tamanho, talvez três anos, cabelos mais enrolados, uma mistura de castanho e loiro: O mestiço.
Avançou em campo aberto, não havia mais onde se esconder. O sol bateu em seu rosto e instintivamente fechou os olhos. Abriu quando sentiu a lama explodir nos seus sapatos. O pequeno garoto mestiço estava parado, mãos e roupas sujas de lama. Esperava a reação de Christopher com um sorriso travesso.
—Você quer brincar? -perguntou com uma voz melódica.
Christopher sabia que devia mata-lo agora. Prolongar aquilo poderia dar tempo para algum familiar chegar. Tirou as luvas e estalou os dedos. Os passos lentos para não afugentar a criança até ver em seu olhar que ele esperava que Christopher usasse a lama, a inocência que antecede alguém da morte era algo que Christopher nunca iria entender, o modo como todos tinham o mesmo olhar, esperando que ele no último minuto desistisse de destruir suas mentes.
O garoto mais velho entrou na frente do irmão, não sorria e nem tinha a inocência estampada no rosto. Encarava Christopher nos olhos, esperava por algo ruim e quase como um pedido silencioso dizia: “Para mata-lo, me mate primeiro”.
Christopher agachou para ficar da altura dos garotos. O mais velho ainda de peito estufado poderia parecer muito valente se suas pernas não tremessem nervosas. Christopher riu, era interessante observar o sacrifício que as pessoas faziam uma pelas outras. Com um dedo tocou a testa dele, o leria, roubaria suas memorias e deixaria que sua última vontade fosse realizada. Morrer primeiro que o irmão.
Viu suas lembranças. Matthew era um menino inteligente, amava o irmão e não entendia porque todos o odiavam. Christopher sentia. Viu seu pai, Henry, ajoelhado pedir perdão para toda a matilha. Sua mãe, Valerie, chorar no canto do quarto por horas. Christopher sentia tudo. Havia seu tio, Jones, apanhando com muitos socos sem poder revidar, era obrigado a dizer o que sabia sobre o filho bastardo do irmão. Nesse dia Jones chorou pela primeira vez. Havia muitas lágrimas, dor e perdão. Havia também amor, o sacrifício para proteger Will também era o sacrifício de Matt.
Christopher largou Matt o empurrando na lama, seu corpo frágil caindo desacordado. Will estava em choque, os bracinhos juntos do corpo tremiam. Na expressão, o desespero de saber que seria o próximo. Christopher caiu de joelhos, a lama absorvendo o impacto. Os ombros penderam. Ele só precisava matar o garoto, matar o mestiço e voltar para o Conselho com a missão cumprida. Olhou para as próprias mãos depois para Will. Se houvesse como, provavelmente Christopher choraria.
—Isso é a culpa? -perguntou insano. Os olhos arregalados assustaram ainda mais Will. – Não posso mata-lo? -perguntou mesmo sabendo que aquela criança não diria nada. Estava confuso, angustiado por aquelas lembranças de Matt.
No Conselho quando interrogava os mentirosos e traidores, amolecia sua culpa com o conforto de que de certa forma fazia o bem, mas ali na frente de uma criança que bem traria mata-lo por ser um mestiço?
Abaixou a cabeça se rendendo. Quando se é vampiro, não existe um lado humano e outro mágico, não existe motivos para conciliar seus sentimentos com uma besta que por ventura de domina. Ser um vampiro era ser um humano doente, infectado pela avida vontade de matar. Você não deixava de sentir, de ter pena e querer pedir desculpas cada vez que machucava alguém.
Will cambaleou, o primeiro movimento em minutos. Seus braços ainda tremiam quando os envolveu em torno do pescoço de Christopher. Um abraço simples e confortável. Fechou os olhos e respirou fundo e Christopher fez o mesmo, não o afastou, nem o tocou. O mestiço iria viver.
***
De todas as lembranças essa era a mais complexa de Christopher. A imperfeição nos detalhes e nos sentimentos presentes nesse momento entregavam o estado abalado que ele encontrava. As lembranças de Matt despertaram em Christopher sua consciência que ele tanto ignorava. Não podia matar o Will, porque havia sentido o que Matt tinha pelo garoto e agora ele próprio se sentia fragilizado. Uma compaixão implantada nele a força.
***
—Por que o Conselho mandaria alguém tão novo para cuidar do meu filho? -Henry conversava com Christopher perto do casebre onde Will morava. Um lugar remoto no meio da floresta, longe da matilha, mas perto demais do clã do norte. — Você tem quantos anos? 20?
—Não faz diferença, sou imortal. -rebateu Christopher, não havia emoção nas suas palavras. — Na sua percepção sempre terei 20 anos.
—Não sei, acho isso uma péssima ideia. Deviam ter mandado um licantrope da guarda, não acho que seria bom para o Will ficar com um vampiro...
—É primitivo da sua parte pensar que nos dias atuais deva existir rivalidade entre as espécies. -Christopher sorriu exibindo as presas. – Eu me alimento de sangue e vocês matam suas crianças porque elas são mestiças, não vamos querer entrar em um debate de quem deve cuidar do Will. Apenas sigo ordens.
Henry fez uma careta, a ousadia de Christopher o incomodava, mas ambos sabiam que ele era necessário. Will precisava que alguém o vigiasse, precisava de proteção de alguém da elite do Conselho. Henry não podia deixa-lo sozinho, mas também não podia ficar tempo demais longe do acampamento. Precisava mais uma vez engolir o orgulho, o que não era novidade.
—William, vem aqui conhecer uma pessoa. -chamou o menino, ele veio correndo e parou de uma vez quando chegou perto do pai. Estava suado e corado, ofegante depois de uma boa corrida. – Esse é o Christopher, veio aqui cuidar de você, mesmo depois de quando eu for embora.
Christopher se abaixou e forçou um sorriso. Tanto ele quanto Will se lembravam do episódio do lago, Christopher esperava que ele surtasse, saísse chorando e fazendo tudo que crianças faziam depois de passar por um bom susto. Esperou o que pareceu intermináveis segundos:
—Luvas? -questionou o garotinho apontando para as mãos do Christopher.
—São para não machucar ninguém. -fechou as mãos e as enfiou no bolso. Sabia que Henry estava ciente dos seus dons da época em que ele representava sua espécie, mas temia que ele desconfiasse de algo por ele ser um membro mais comum para execuções e espionagem.
Will sorriu, os olhos ficando pequenos e as bochechas corando:
—É melhor para brincar com lama. -completou entusiasmado e saiu correndo.
Christopher se pegou suspirando aliviado, voltou a ficar de pé percebendo que Henry o observava atento.
—Sei que precisa se alimentar... -ficou angustiado por tocar nesse assunto, passava a mãos no rosto suado. O dia quente não ajudava em nada nenhuma das espécies. – Então se precisar de autorização para...
—Não se preocupe com isso. -completou agora forçando um sorriso gentil. Precisava tranquilizar Henry antes que ele se preocupasse demais e entrasse em contato com o Conselho. Conselho o qual, Christopher enviou uma mensagem dizem que ainda estava na caçada de Will. – Eu tenho outros métodos de me alimentar sem precisar matar.
—Quais? Não, espera! -levantou a mão depressa- Não me diga nada, é melhor que eu não saiba.
—Acalme-se Henry, você costumava ser mais confiante enquanto membro do Conselho.
Henry riu nervoso e suspirou lentamente retomando o controle:
—Algumas coisas ruins aconteceram desde então... -falou em tom de mistério e não sabia que Christopher já tinha uma grande noção do que acontecera. – O irmão do Will, Matt, vem visita-lo quase todos os dias, não posso afasta-los por muito tempo... Então... Eu sei que você é forte e sei sobre suas capacidades, eu preciso que... Bom, cuide do Will a todo custo.
Christopher ponderou por um momento. Não conseguia acreditar que havia se envolvido nisso. Estava ali sustentando uma mentira diante do Alfa da matilha do sul. Precisava jurar, passar confiança ou nada disso daria certo:
—Com a minha vida.
***
A escuridão mais uma vez, do mesmo jeito que se desliga uma televisão e encara o nada. Não entendia porque não conseguia ir para a próxima lembrança. Estava barrada, sentia-se parada no tempo. Um caminho para o qual não poderia ir se não se esforçasse. Seu corpo rejeitava as memorias de Christopher, como um decreto que de que esse dom não deveria ser compartilhado entre licantropes e vampiros. Levou as mãos na cabeça, iria aguentar.
Sentiu um puxão e sua cabeça chocalhar como um brinquedo quebrado. Estava de volta na floresta a boca aberta para um grito que não saiam som algum. Christopher na sua frente por um momento a aterrorizou, o mesmo rosto de todas as lembranças, nada mudou naquela aparência angelical. Tocou seu próprio rosto e percebeu que sangrava pelos olhos e nariz.
—O que você fez comigo? -sussurrou porque era incapaz de falar mais alto que aquilo.
—Nada. -afirmou preocupado, havia medo nos seus olhos. Ela estava tão horrível assim? – Você se esforçou demais, além de ver minhas memorias, estava lendo meus pensamentos, sentindo o que...
Riley agarrou os ombros de Christopher interrompendo sua fala, suas unhas encravando naquela pele fria. A angustia de estar conectada com Christopher parecia esmagar o seu cérebro, comprimi-lo contra o concreto até que estivesse prestes a explodir, mas agora entendia melhor.
—Eu consegui descobrir como... -sorria sentindo o sangue do nariz chegar a boca, o gosto amargo. – Encontrei o interruptor da transformação...
—O quê? -Christopher estava perplexo, não se esforçava para sair do aperto de Riley.
—Sabe o que acontece antes de se vomitar? -começou a rir da própria tolice. Como não havia percebido antes? – Você sente medo.
Riley largou Christopher e se levantou. Iria se transformar e agora sabia como. Nada lhe impedia, o seu corpo até mesmo se preparava para aquilo. Os músculos tencionando, o calor corporal subindo como uma fogueira e os batimentos acelerados.
Na mente de Christopher, Riley sentiu medo e percebeu que com o medo podia impulsionar o seu ápice. Era a trava da sua transformação. Se tinha medo, havia espaço para ser mais forte. Essa era a sua chance de liberar esse acumulo de energia para a lua cheia.
Se curvou, as mãos apoiadas no joelho. Um zunido irritante atiçando os seus sentidos, a deixando mais irritada. Seus ossos se moviam, uma massa de modelar formando uma nova estrutura. O grito de Riley assustou os pássaros, que voaram freneticamente em algum lugar longe ao norte.
A primeira transformação nunca era fácil. Seu sangue fervia sob a pele. Quando olhou para suas mãos viu as garras que sobrepunham as unhas frágeis que tinha. Era desesperador ver lentamente cada parte humana sua se esvair. Estava com tanto medo que pensava na sua morte, tinha medo da morte e a transformação era como estar à beira de disso.
De dentro de si irrompeu algo, que lhe cobriu como um manto e no mesmo instante lhe comprimiu para uma parte escura. Estava na forma de lobo, sentia isso. O mundo estava em tons de cinza, tão nítidos quanto um óculos de grau perfeito. O cheiro e o som em uma variedade infinita, impossível de se classificar em nomes. Poucos pensamentos se organizavam em sua mente, apenas o instinto animal confundindo o seu lado humano.
Viu Christopher perplexo e no branco dos seus olhos procurou sua imagem, mas nada refletia naquele vazio. Avançou, sentiu o solo ceder sob as patas e Christopher recuar assustado. Ele temia que ela o matasse? Riley precisava se afastar ou não se controlaria, correria para longe dali ou mataria alguém simplesmente para saciar a loucura dos seus pensamentos.
Estava nessa por horas ou talvez minutos, porque naquele momento era incapaz de compreender o tempo. Parou em frente a cachoeira que um dia seu pai a levou, uma lembrança que parecia ser o início de tudo e distante demais, não que Riley de fato se lembrasse disso, apenas sentia que pertencia aquele lugar. Ficou de frente para as aguas límpidas que ali percorriam calmas, um espelho perfeito para se ver em sua transformação completa. O corpo longo e alto da forma de lobo, pelos cinzas quase brancos, alguns lugares mais escuros que outros. Era grandiosa, forte e tinha os olhos pretos, nada branco, nem uma curva linha. O escuro refletia o vazio de seus próprios sentimentos humanos.
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