OCASO
7 A Cura 2.2
Notas iniciais
A porta se abriu. A claridade do dia de céu aberto irritou os olhos de Riley. Se encolheu como um animal amedrontado, as coisas horríveis que fizera e pensara agora atormentavam sua consciência. Matt apareceu como uma sombra escondendo a luz, não parecia uma visão de esperança, só mais um motivo para que ela se acuasse. Ele deu alguns passos e se agachou, a expressão dura e impiedosa já não era novidade, em sua mão o celular de Riley.
—Precisa ligar para o seu pai, avise que você já está voltando. – colocou o aparelho no chão e deslizou para ela.
Um breve silencio que pareceu uma eternidade.
—Matt, sobre o que aconteceu antes...
—Diga que você estava com Jones conversando sobre o incidente com Josh, não tente inventar detalhes. -levantou depressa, provavelmente não queria ouvir as desculpas de Riley.
—Espera. –pediu antes que ele desse as costas. – Eu estou com fome. -e antes que Matt ficasse na defensiva, Riley continuou: — Eu adoraria alguns sanduiches ou batata frita.
Matt se endireitou, mas no mesmo instante relaxou. Fechou os olhos e suspirou na tentativa de controlar um sorriso de alivio. Riley se sentiu bem, mesmo que todos os músculos do seu corpo doessem pelo simples fato dela respirar, se sentia bem por acreditar que não haveria motivos para a culpa existir. De fato estava com fome, dessa vez não por sangue, apenas comida e isso era o principal motivo de acreditar que tudo ficaria bem.
—Vou ver o que eu consigo. –murmurou voltando a atenção para a saída.
—Matt. –chamou Riley. Mais uma vez o fazendo parar enquanto se dirigia para fora do quarto. Deveria agradecer. Dizer algumas palavras bonitas e terminar com um “obrigado”, porque embora a ajuda dele não fosse direta, sabia como uma vozinha no fundo da mente que ele havia apoiado ela desde o começo.
Com o silencio que se seguiu, Riley cogitou a ideia de que talvez ele realmente esperava um agradecimento e parte disso feriu seu orgulho por um breve momento, tempo suficiente para que ele enfiasse a mão no bolso e jogasse a chave das algemas para ela.
—Qualquer coisa você pode pedir ajuda para Nora, ela está na sala no fim do corredor. –finalizou indo embora sem oscilar.
A porta bateu devagar e Riley quase de imediato pegou as chaves se soltando das apertadas algemas. Podia sentir o relevo na pele que envolvia os pulsos, tão feridos que ardiam com o simples toque. Seria uma lembrança de que nem mesma ela pode controlar seus instintos sobrenaturais.
Agarrou o celular e digitou com os dedos trêmulos o número do pai. Havia lhe acontecido tanta coisa que ensaiar o que dizer não parecia uma boa opção. A cada chamada seu coração parecia bater mais lento.
—Riley? –a voz dele era de total alivio. — Está tudo bem? Robert me disse que você não foi trabalhar.
Mas havia tanto para lhe perguntar também, havia uma parte dela que não era humana, que era um lobo e que de alguma forma sempre existiu. Seu pai podia ser um mentiroso.
—Está tudo bem. –tranquilizou. – Fui ao cemitério assim que eu acordei, depois precisei sair da cidade para comprar alguns remédios. Logo chegarei em casa.
Um silencio repentino criou um clima tenso. Bill poderia ter percebido a mentira na voz da filha, o modo como sua respiração estava pesada do outro lado da linha mostrava seu estado pensativo.
—Não demore. –despediu-se.
—Nos veremos daqui a pouco. –declarou sentindo subitamente uma onda de alivio e desligou sem esperar uma resposta do pai.
(...)
Duas batidas discretas e a porta se abriu. Jones raramente era visto na cidade, a não ser quando aparecia para administrar a boate. “Um homem de negócios”, era o que todos diziam. Contudo vê-lo ali vestido com roupas tão largas, a barba por fazer e o olhar preocupado só fez com que esse estereotipo se destruísse de uma vez. Jones, com seus ombros largos e cabelos num misto de castanho e grisalho, pouco parecia diferente do seu pai. Era um homem esgotado pelos problemas da vida.
—Podemos conversar antes de você ir? –perguntou cauteloso, a voz baixa e o passo leve.
Riley assentiu voltando a se sentar na cama. Tinha acabado de sair do banho e arrumado as coisas para voltar para casa, mas não via problemas em ceder alguns minutos a uma conversa com o responsável por salvar sua vida.
Jones encarou a blusa de Riley. A frase era de alguma música de rock da qual nenhum dos dois sabiam de qual banda, mas diferente de Riley, Jones recordava que aquilo pertencia a Nora. Ele sorriu por um momento e depois voltou sua concentração para a conversa.
— Todas essas pessoas, que moram aqui ou apenas ficam de passagem perto da lua cheia, são minha responsabilidade. É um peso enorme cuidar de cada vida e de certa forma escolher por elas. Sou o líder aqui e eu sempre quis proteger essa grande família, agora estou te oferecendo a chance de fazer parte disso também.
—Eu mal faço ideia do que eu sou. –Riley ponderou por um tempo, encarava suas próprias mãos. Era tudo muito novo, muito rápido e ela temia estar tomando escolhas que a levariam para algo ainda pior que Josh. – Não sei se quero fazer parte disso.
—Existe muito desse mundo que você não conhece. –explicou procurando as palavras certas. – Há tanto, que fugir delas não vai afastá-las para sempre.
Riley abriu a boca para dizer algo que logo desistiu. Jones estava certo, estava terrivelmente certo e por mais que Riley evitasse, aquele mundo era uma verdade. Ela precisaria deles e afastá-los só lhe serviu para ensinar que sozinha não ia muito longe. Estava curada apenas de uma parte, como curar de uma gripe, mas ainda ficar com tosse.
Cerrou os punhos. Era difícil de acreditar que por dezoito anos ela nunca desconfiou que havia algo animal dentro dela. Se não tivesse passado por tanto desespero há alguns dias, duvidaria da própria existência de qualquer tipo de vampiro, lobos ou algo sobrenatural. Respirou devagar.
—Não existe cura para o que eu sou?
Jones cambaleou, a pergunta havia o pegado de surpresa. Ele não esperava que ela fosse reagir de forma tão negativa.
—Não que eu conheça. O que você é... -pausa para encarar a vista pela janela. – O que nós somos vai muito além de uma simples infecção, está no seu sangue, na sua herança genética, até mesmo no modo como cada parte do seu corpo se ajusta para essa transformação.
—Não pedi por isso.
—Ninguém pediu. -e não havia um tom de sermão, era uma compreensão do sofrimento. – É o que somos e tentamos lidar da melhor forma possível. Não é o fim do mundo, as pessoas aqui ainda vão as festas nas sextas, namoram e casam, tem famílias e jogam boliche ao domingo.
Visto que Riley não falou nada perdida na sua reflexão, Jones continuou:
—O seu pai, precisa conversar com ele. Sou totalmente contra a esconder esse tipo de coisa dos filhos, você cria um tipo de ilusão que quando desfeita gera um choque pelo qual você está passando. Acredito que ele tenha alguma boa explicação para essa atitude. -ele sorriu da forma mais amigável que sua aparência abatida permitiu. – Até lá sinta-se à vontade de vir aqui, aprender mais sobre nós e sobre você, não precisa lutar contra isso quando aprender a controlar. Só lhe peço um favor...
O olhar de Riley levantou confuso, as mãos relaxaram devagar.
—Não envolva o Matt. –falou baixinho como se temesse que o próprio o ouvisse dizer aquilo. – Achei incrível o empenho dele de te fazer melhorar, mas Matt é um imã gigante para problemas e isso é tudo de que ele não precisa nessa cidade. É o último lugar seguro que restou à ele e levando em conta a ficha ruim que ele acumulou depois da morte do irmão, não é uma boa ideia nem mesmo para você ficar perto dele.
—William. –disse Riley e viu a expressão de Jones mudar, assim como seu olhar que arregalou um pouco diante do nome. – William era o nome do irmão do Matt. O que aconteceu?
—É tão complicada essa história. –Jones ficou vago fazendo Riley perceber que era um assunto ruim para se tocar. – Por hora você precisa saber que o menor dos seus problemas foi resolvido, descanse um pouco em casa e voltaremos a nós falar logo.
(...)
As mãos de Riley dançavam na folha, o giz preto fazendo com que toda a sua mão fosse parte daquele desenho. Quando acabou se surpreendeu por ser só o térreo de um galpão com um imenso outdoor na frente, anunciando em letras cursivas o nome do que parecia ser um motel. O desenho se parecia com uma fotografia ou um ponto de referência. Pegou o celular e digitou o nome “Pecado dos Deuses” e encontrou três endereços que coincidiam com aquela rede de motel, só que apenas uma era de frente para um galpão de fabricação de eletrônicos interditado. Não fazia sentido se ela nunca nem chegara perto de lá, mas o desenho estava bem feito e embora Riley não quisesse ter desenhado aquilo sentiu a necessidade de expor na parede perto da cama.
O telefone tocou em sua mão e seu coração disparou diante da possibilidade de ser Tyler. Contudo o nome “Holly” brilhava na tela. A mensagem dela era de longe a menos esperada já que depois do que aconteceu com Josh ninguém mais daquele dia se contatou.
“Está tudo bem? Caleb apareceu aqui em casa procurando por você.”
Riley leu diversas vezes a mensagem, antes de procurar a resposta mais adequada possível:
“Estou bem! O que ele queria?”
A resposta veio minutos depois:
“Nada... Mas ele estava procurando por você”
Riley preferiu não responder, se não prolongasse a conversa não se enrolaria nas mentiras. Era estranho Caleb ter ido procurá-la, poderia ser que ele lhe quisesse dizer algo ou passar um recado de Tyler. Não estava disposta a encarar isso com desconfiança. Mas e se Caleb desconfiasse de algo?
—Pai! –gritou na esperança de que Bill não se assustasse muito, só viesse depressa.
Ele subiu as escadas correndo, preocupado, os olhos arregalados só suavizaram quando viu que Riley estava bem. Ele suspirou. Tantas coisas haviam acontecido nos últimos dias, que não cabia a ela dizer ao seu pai para ficar menos preocupado.
—O que foi? –sua voz ofegou cansada.
—Caleb esteve aqui procurando por mim nos últimos dias?
—Sim. –e a resposta vez Riley estremecer. – Eu disse a ele que você tinha ido dormir na Holly, acho que ele queria te perguntar alguma coisa sobre o caso do Josh. –ele estava prestes a sair quando voltou assumindo um olhar analítico. – Riley, você não está envolvida com nada ruim? Eu sei que esses últimos dias estão complicados pra você e eu realmente não quero invadir o seu espaço, mas por favor, não esconda nada de mim.
—Não, pai. –respondeu de imediato. – Está tudo bem. –mentiu da melhor forma possível e vendo que seu pai relaxou os ombros e assentiu, acreditou ter o enganado o suficiente, porque não, não estava tudo bem. E agora Caleb desconfiava de alguma coisa.
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