OCASO

6 A Cura 2.1


Notas iniciais
"Se alimente da mais doce ilusão de que tudo ficará bem para dormir em paz por mais esta noite."

—Você não vai morrer. –anunciou Matt cruzando os braços e se se encostando à entrada da porta.

—Não graças a você eu imagino. -ajeitou-se na cama virando o rosto para a janela.

Matt não sorriu, nem mesmo ficou bravo, apenas ficou com uma expressão indecifrável. Foi andando em direção a cama, observava o estado de Riley com um olhar crítico. Ela se remexeu desconfortável e ele parou de encarar.

—Você está horrível. –falou com um sorriso leve.

—Com certeza minha aparência é algo relevante perto da minha vontade de pular no seu pescoço e rasgar a sua pele até sentir o gosto do seu sangue. –fechou os olhos porque agora a luz da lâmpada irritava a visão.

—Obrigado por compartilhar seu sonho erótico comigo, mudou meu conceito sobre você. -a expressão era um misto de vergonha e nervosismo, ele sabia que ela era mesmo capaz disso naquela situação.

Riley levou as mãos ao rosto, sua pele ardia mesmo que não tivesse ficado horas no sol, a textura fina prestes a se desfazer com o toque.

—Eu não vou tipo queimar no sol por ser alguma espécie falhada de vampiro?

—Vampiros não queimam no sol, só são sensíveis, a pele e os olhos principalmente. -explicou como se a pergunta dela fosse algo idiota. – Nada de alho, transformações em morcegos, caixões em masmorras, estacas de madeira, crucifixos...

—Eu já entendi. -interrompeu pausadamente com uma voz mórbida.

Talvez nem tudo o que se lesse ou visse fosse a verdade, mesmo assim, isso ainda a preocupava. Só mostrava que nada ela sabia e o quanto esses seres são ainda mais próximos dos seres humanos.

—Você ia mesmo me deixar morrer? -perguntou involuntariamente, não era nisso o que pensava, mas as palavras se amontoaram e escaparam da sua boca de uma vez.

—Eu...

Nora abriu a porta de uma vez chamando a atenção dos dois. Foi difícil manter o foco com todo aquele brilho e percebendo o estado de Riley, Nora apagou a luz. Agora só o brilho da lua parecia iluminar o cômodo. O barulho de vozes e pessoas trabalhando do lado de fora intrigou Riley, alguma coisa dentro dela lhe dizia que todos ali não eram “normais”. Ela entregou uma xicara com um chá quente e viscoso. Riley olhou para o liquido e depois para os dois que a encaravam.

—Beba. –incentivou Nora. – É muito bom para retardar vampiros, no seu caso como não se alimentou de sangue, vai te ajudar a tirar o veneno da transformação.

Riley tomou o copo nas mãos, seus dedos adormeceram com o calor e os olhos lagrimejaram com o vapor quente. Sua mente dizia “beba”, mas seu corpo não parecia trabalhar na mesma sintonia. Parte dela não queria aquilo, parte dele queria apenas o sangue e nada mais.

Tomou, de uma vez, até esvaziar o copo.

—É só isso? –perguntou não sentindo nenhuma diferença aparente. Pousou o copo na mesinha ao lado da cama. – Não tinha que acontecer...

—Riley? –chamou Nora percebendo os olhos dela rodopiariam sem foco. – Precisa ser paciente com o efeito, você pode ter algumas alucinações, crises de choro ou convulsões... Tente se acalmar. –Nora estalou os dedos na frente do rosto de Riley. – Consegue me ouvir? Não entre em pânico.

Isso era um pedido impossível. Riley sentia sua garganta se fechar e lhe faltar ar para respirar. Seu peito queimava, o coração parecia querer pulsar do lado de fora do corpo. Fechou as mãos em punho e cerrou os dentes. Uma dor que parecia atravessar sua coluna e apertar os órgãos.

Gritou.

Não, não podia gritar. Gritar só piorava seu estado fraco. Olhou para Nora, ela parecia tranquila demais. Como ela podia? Não, aquele não era o rosto de Nora, aquele rosto estava derretendo como lama.

Onde estava Matt? Agora a sala parecia tão escura que nem o brilho da lua rompia o negro. Corpos deformados em uma sombra pareciam se rastejar pelo chão. Eles beijavam o corpo de Riley, mordiam seus braços e tomavam seu sangue. Mas ela não podia se mexer. Estava ficando louca.

Tentou se acalmar.

Não conseguia se acalmar. Uma das sombras era sua mãe? Ela cantava e sorria, mas havia sangue por todo o seu rosto. Definitivamente não podia ser sua mãe. Tentou ignorar o que lhe acontecia. Olhou para o teto, mas não havia como enxergar o teto ou mesmo o céu, nada além de uma chuva forte de folhas secas do Outono. Gritou, mas dessa vez as sombras entraram na sua boca e a sufocaram.

(...)

Fazia quantas horas? Duas. Matt esperava paciente Riley acordar. Ele a observou alucinar, os músculos tensos, as expressões fechadas. Estava doendo muito em Riley e algumas lagrimas lhe escapavam dos olhos, mesmo que estes estivessem fechados. Matt pensou em acordá-la, ou se conectar com ela e tira-la desse sofrimento, mas Nora havia sido enfática ao dizer que ela devia passar pelo processo de limpeza sozinha.

Estava prestes a se sentar na beira da cama de Riley quando ouviu Jones entrar.

—Ela está melhor? –perguntou Jones baixinho fechando a porta.

—Ela não está morrendo se isso responde melhor a sua pergunta. –falou desistindo de sentar. – Por que você resolveu ajudá-la? Sei que Nora não é o suficiente para convencer você a quebrar as regras.

—Riley é só uma garota, filha de um homem sozinho que perdeu toda a família com mortes horríveis. –os ombros curvados indicavam o cansaço. – Sabia que ela tinha planos de ir à faculdade em alguns meses? –ele balançou a cabeça frustrado. — Eu a vi crescer sem ela saber o que era de verdade, não podia deixá-la morrer nessa situação.

—Como Bill nunca percebeu o que ela era? –questionou Matt – Ela é só uma mestiça como qualquer outro que existe no mundo, mas por algum motivo tudo foi escondido dela.

—Ela deve ser muito especial. –Jones estava misterioso, sabia de alguma coisa, mas não iria revelar. – Bill deveria estar tentando protegê-la e agora nós precisamos ajudar.

Deu as costas e saiu da sala a passos largos. Matt pensou em chamá-lo de volta, pedir explicações, respostas para muitas perguntas que brotavam na sua mente. Olhou para Riley e se assustou. Ela estava tendo uma convulsão, uma espuma meio amarelada saia de sua boca. Correu para virar seu rosto antes que engasgasse e tentou manter seu corpo na cama enquanto ela se debatia freneticamente.

(...)

Scott e Thomas conversavam eufóricos. Haveria uma festa nesse fim de semana? Tyler realmente não se importava. Só conseguia pensar em como as coisas ficaram mal resolvidas entre ele e Riley. Ele não conseguia anular da cabeça a idéia de que Caleb podia estar certo, mas se sentia culpado por desconfiar tanto de Riley se ela nunca o dera motivos antes. Mas havia aquele cara, que a encarou no velório enquanto estava sentado na lapide, o modo como se olharam não era de estranho para estranho. Estavam tensos. Havia essa doença estranha que não parecia melhorar e como Riley parecia definhar com o passar dos dias. Havia também aquela marca estranha no pescoço dela...

—Tudo isso por causa de uma namorada? –perguntou Scott tacando uma almofada em Tyler.

—É cara, cedo ou tarde Riley iria arrumar alguém melhor. –completou Thomas rindo. – Vamos lá é só brincadeira, namoro a distância é uma droga.

—Uma vez namorei uma garota do Japão que tinha peitos enormes... –começou Scott gesticulando para mostrar o tamanho.

—E como você não sabia que era um velho gordo com tetas grandes? –cutucou Tyler.

Scott o olhou horrorizado, Tyler pode jurar vê-lo duvidar de si próprio por um momento, mas logo se recompôs na defensiva.

—É claro que não! –e foi enfático- Nós conversávamos por webcam, além do mais Thomas hackeou toda a vida dela, sabíamos até quanto silicone ela colocou em cada peito.

Uma ideia pareceu se acender na cabeça de Tyler. Como uma faísca rápida na escuridão, mas o suficiente para saber a direção da porta de saída. Ele sorriu diante da ideia, era muito boa, boa demais e se desse certo iria aliviar esse imenso peso de consciência.

—Thomas? –chamou o amigo enquanto se virava para olhá-lo. – Espero que você não se importe de fazer coisas ilegais.

(...)

O ar fresco do dia que amanhecia inundava o peito de Riley. Abriu os olhos. Ainda estava naquele quarto estranho, ensopada de suor e extremamente dolorida. Respirou como se tivesse aprendido um novo prazer na vida. Percebeu que estava sendo observada por Matt e se constrangeu por um breve momento. Ele puxou uma cadeira e se sentou perto da cama, seu olhar fundo entregava sua exaustão fazendo assim Riley pensar em quanto tempo ele estava ali.

—Matt. –o nome saiu estranho vindo de Riley, ela mesma se sentia estranha por chamá-lo. – Você não respondeu a minha pergunta.

Ele suspirou, aliviado ou até mesmo feliz. A verdade era que para Matt, Riley tinha muitas perguntas das quais poderia fazer, mas ela resolveu insistir especialmente nessa. Ele a respondeu com um balançar de ombro. Sim ou não? Riley não tinha certeza, mas por que era tão importante assim saber a resposta?

—Pensei que seu pai fosse ligar preocupado, mas nem sinal dele. –comentou Matt.

—Eu avisei para ele que ia dormir na casa de uma amiga. –Riley ajeitou-se sentada na cama. — Espero não ter dormido muito.

—Não, apenas uma noite. –tranquilizou- Você ainda tem que repousar.

—Bom, já que vou ficar por aqui, você podia me contar algumas coisas importantes. –anunciou Riley meio receosa. – Por exemplo, quem são vocês?

—Achei que você tinha encontrado todas as respostas no Google. –zombou Matt, mas visto que Riley não riu ele retomou ao ar sério. – Atualmente Jones é o Alfa e Nora é a Beta, representamos a maior matilha de lobos do sul. Nem todos aqui moram no acampamento, alguns costumam vir só de passagem perto da lua cheia. O processo é melhor perto das pessoas com quem você já tem um vínculo.

—Uma coisa que eu não entendo é porque Josh sendo um vampiro, nunca foi caçado por vocês. –falou e tossiu um pouco, seu peito parecia um lugar apertado para o pulmão. – Achei que vocês teriam alguma rivalidade, sabe? Pelas coisas que a gente lê e vê por ai...

—Houve um tempo que sim. –Matt ajeitou-se na cadeira, parecia vago e distante. – Hoje em dia a rivalidade é muito pequena ou só existe em clã e matilhas mais adeptas a costumes antigos, não é o caso dessa matilha. Josh se transformou recentemente, nem mesmo sabemos como ou quem fez isso, não intervimos em nada porque antes de você ele só se alimentava de animais. –hesitou- Teria algum motivo para ele fazer isso com você?

—Não sei. –Riley pensou. Poderia ser algum interesse nela? Provavelmente não. – Talvez seja vingança, uma vez meu namorado deu uma surra nele sem motivo aparente.

Matt arqueou as sobrancelhas. Riley entendia aquilo como um prelúdio de algum comentário sarcástico. Contudo ele apenas cruzou os braços.

—Tyler, não é? –perguntou pegando Riley de surpresa. Ela assentiu. – Achei que surfistas fossem mais tranquilos... O quê? Não me olhe assim! –tinha uma expressão cínica. — Você não é a única que tem acesso ao Google.

Um momento de silencio constrangedor. Riley encarava Matt, mas ele não a olhava de volta, estava focado em suas mãos, elas tremiam sutilmente, os olhos fundos. Não precisava ser especialista em drogas, para saber que aquilo era abstinência.

—O que eu sou vai dificultar as coisas com Tyler? –Riley retomou a conversa.

Matt levantou o olhar, estava mais abatido e agora Riley entendia que não era por ter esperado ela acordar ou ter feito algo exaustivo. Já conheceu muita gente com aqueles sintomas.

—Depende de você. –ele respondeu indiferente fechando as mãos para esconder o tremor. – Algumas pessoas simplesmente não sabem lidar.

Riley reconheceu que era possível que ele falasse de si próprio ou de alguém próximo, havia tristeza nas suas feições. Ela se levantou, precisava urgentemente ir ao banheiro. Assim que saiu da cama Matt se ofereceu para ajudar, porem era tarde demais para qualquer ajuda. Riley vomitou um liquido espesso e marrom, saiu da sua boca com violência e ela não podia controlar o fluxo. Seu corpo se encolheu e mesmo que Matt estivesse se sujando com aquilo, ele ainda servia de apoio para que Riley não caísse de joelhos.

Quando parou ambos respiraram fundo. Riley se soltou de Matt. Suava ainda mais, estava mole, prestes a cair. Precisava tanto de sangue, precisa sentir o sabor, umedecer a garganta seca. Precisava mais disso do que o ar para respirar. Estremeceu.

—Estou com tanta... Fome. –sussurrou. – Por favor... –e agora chorava com lagrimas escorrendo lentamente. – Por favor... Eu preciso de sangue.

—Não pode beber sangue, seu corpo vai entrar em choque e você vai morrer na hora. –explicou pausadamente.

Riley tocou no rosto de Matt gentilmente. Ainda chorava, ainda estava suja e fraca.

—Me perdoe. –e avançou como um animal feroz. Uma súbita força inumana fazendo-a derrubar Matt no chão com um movimento. O mundo parecia pulsar de acordo com as batidas do coração dele e ela parecia sentir seu corpo vibrar à medida que conseguia alcançar um pouco mais seu pescoço.

—Você precisa se controlar! –berrou Matt segurando-a, mas ele estava fraco, tão fraco quanto ela. – Riley você não pode fazer isso! Pense no seu namorado, no seu pai, na sua mãe!

“Mãe.”

A mente de Riley foi invadida por pequenas lembranças de Alana, a voz sutil que cantava músicas sem letra. Os abraços apertados e tão cheirosos que vinham dela. Alana contava as melhores histórias e não parecia incomodar em dizer que o bem também era um pouco mal. Tinha um sorriso que fazia todos sorrirem também. Riley a amava, mas fugia dela, das lembranças que iam até ela, fugia da dor de ter perdido ela. Uma fração de minuto pensando nela, foi o suficiente para que Matt a empurrasse e prendesse seu braço com algemas em um cano de aço na parede.

—Jones pediu que eu usasse se fosse preciso. –declarou Matt meio ofegante.

—Eu não consigo. –repetia Riley enquanto fitava as próprias mãos. – Eu não consigo. –mas Matt não ficou ali, deu as costas com frieza e saiu do quarto condenando Riley a sua própria loucura.

(...)

Avistou Caleb sentado cercado de papeis e apenas um abajur iluminando todo o cômodo que antes fora seu quarto. Tyler hesitou por um momento, não parecia certo, sentia como se traísse Riley da pior forma possível, parecia tão mais fácil acreditar em suas palavras. Não havia motivos para mentir, havia? Só que uma parte dele queria desconfiar, buscar provas, uma parte dele só se saciaria com a verdade real do que aconteceu na noite em que Josh foi morto.

Caleb ainda não havia percebido a presença do irmão, foi só quando pigarreou que ele se virou sobressaltado. Estava abatido, olheiras escuras destacavam-se embaixo dos olhos e a marcas no rosto entregavam os cochilos em cima da mesa.

—A mãe disse que estava preocupada com você, pediu que eu viesse. –adiantou-se Tyler. – Nem sempre vou poder matar aula para fazer isso...

Caleb riu meio irônico e deu de ombros.

—Não preciso que venha, é no mínimo estranho você querer me ajudar quando eu sou o irmão mais velho. –suspirou passando a mão no cabelo bagunçado. – Só estou tentando resolver alguns casos...

—Caleb, você foi afastado do exército. –interrompeu Tyler. – Deveria ficar longe de tudo isso.

—Não posso! –vociferou e depois se recompôs. – Desculpe... Eu só fico pensando e pensando em todos esses casos arquivados ou solucionados de forma estranha. –apontou para os arquivos soltos na mesa. – É tudo muito mal resolvido nessa cidade.

Tyler se aproximou da mesa pegando foco dos arquivos. Eram pastas e mais pastas de casos policiais, havia obituários, fichas das vítimas e fotos dos incidentes. Muita coisa que Caleb não deveria ter acesso.

—Como conseguiu essas coisas? –perguntou tomando uma foto para analisar. Era uma garota malvestida com o corpo tão pálido e magro que os ossos ressaltavam de forma macabra na pele.

—Isso não importa. –Caleb pegou a foto da mão do irmão e balançou no ar por um tempo. – Sabe esse caso? Uma garota de 14 anos sumiu de sua família por uma semana, seu corpo foi encontrado magro e marcas de mordaças nos seus braços e pernas, não havia uma gota de sangue no seu corpo e no fim arquivaram como suicídio.

Tyler se virou surpreso. Não precisava ser perito ou mesmo medico para saber que aquilo era um assassinato. Caleb abriu mais arquivos, muitas pessoas mortas, rasgadas ou mesmo tão pálidas como a outra.

—Não foi só esse caso, existe por volta de uns cem casos nessa cidade ou nas proximidades que foram arquivados como suicídio ou simplesmente ataque animal. – ele puxou mais e mais fotos espalhando pela mesa. – Nenhum deles bate com os dados coletados na cena e no corpo da vítima, há tantas falhas que é certeza de manipulação no óbito. Tem alguma coisa muito, realmente muito, sombria por trás dos crimes que acontecem por aqui.

Caleb estava eufórico passando a mão pelas pastas que não percebeu que Tyler estava vidrado apenas em uma.

—Eu... Eu não devia me intrometer nisso. –justificou-se Caleb pegando a pasta que Tyler encarava. – Mas o caso de Josh se encaixa perfeitamente nesse padrão de homicídios e pode ser que Riley...

—Não. –rebateu Tyler. – Você não devia. Você não a conhece tão bem, nem mesmo o Josh... Por isso eu vou te ajudar com isso.

—Você tem certeza? –perguntou desconfiado. – Talvez venhamos descobrir algo que você perceba que não a conhece tão bem.

—Tenho certeza e já sei por onde começarmos. –afirmou Tyler puxando uma cadeira para se sentar junto à mesa. – Pedi que meu amigo da Universidade hackeasse a principal pessoa que liga esses casos. O nome dela é Nora Blauth.

Notas finais
♪ - Conqueror (Aurora)