O Último Shirian [hiatsu]

6 Capítulo 6 - Priteh


Notas iniciais
#apanha Ta eu me atrasei bastante, mil desculpas. Capitulo dedicado em uma homenagem mega atrasada a Ange-chan por seu aniversario. "Como algemas os arrependimentos passados se prendem a nossa mente, nos aprisionando" Hisachi Mynari

Capitulo 6-

A neblina rondava a mata silenciosa naquela madrugada fria de inverno, mas apesar do tempo gélido Dilan suava se remexendo na cama.

Se ergueu rapidamente acordando do pesadelo que se passava em sua mente, o peito descia e subia apressado pela respiração descompassada, os olhos estavam arregalados em susto e a cabeça rodou atordoada por se levantar tão rápido.

Fazia anos que não tinha lembranças de seu passado, e agradecia mentalmente por isso, mas naquela noite fora diferente, e em alguns instantes o sonho se tornara um pesadelo, simples flashes aleatórios escondidos e trancados em sua memória fizeram com que seus pelos se arrepiarem, porque voltara a sonhar com as lembranças? O que isso significava? Não sabia.

Apanhou o roupão cor de vinho com detalhes dourados, o emblema da família real estampado no lado esquerdo da frente, o vestiu sem pressa e o mesmo lhe caiu longo pelo corpo esquio, os fios loiros muitas vezes divididos no meio ou jogados para trás agora caíram rebeldes por cima de seus olhos azuis, calçou os chinelos felpudos do mesmo tom vinho e saiu pela porta recebendo a ligeira brisa que entrava pelas vastas janelas do corredor.

Desceu as escadas de vários degraus percebendo o silêncio monótono que pairava no ar, era ainda muito cedo para qualquer empregado estar trabalhando nela, sentiu a barriga roncar e um suspiro escapou de seus lábios caminhando até a cozinha, poderia muito bem arranjar um lanche sozinho.

No fundo havia apreciado o fato de não ter ninguém por perto, naquela hora deixou a expressão cansada lhe consumir a face, não se preocupando em manter o semblante frio que sempre detinha.

Se aproximou do balcão de madeira escura e lisa abrindo os armários a procura de algo, não fazia idéia de como organizavam as coisas ali, e nunca se preocupou em fazer, talvez devesse mesmo chamar algum empregado.

Após alguns instantes o som da porta se escancarando invadiu os ouvidos atentos de Dilan que se virou para encará-la, a madeira escura rangeu ao ser aberta, e ao seu lado ainda com a mão na maçaneta estava Hiroshi, os cabelos ruivos bagunçados enquanto abria um sorriso nervoso por encontrar o loiro a essa hora acordado.

— Bom Dia — Cumprimentou Hiroshi sorrindo encarando com os orbes verdes visualizaram curiosos a expressão que o loiro fazia, parecia espantado.

Em questão de segundos a mascará fria retornou, mas ainda assim Dilan estava até certo ponto incrédulo, temia desde ontem que ambos demorassem a se falar, nem ao menos olhassem um para o outro após a discussão, mas agora o ruivo lhe sorria.

— Bom Dia —Respondeu Dilan atordoado, os olhos azuis encarando o outro tentando decifrar os motivos de teu sorriso e sua alegria, mas não conseguia descobrir, e não perguntaria, sua desconfiança em relação a Hiroshi apenas geraria uma nova briga, e por hora era melhor evitar.

O ruivo apanhou uma bandeja a colocando na frente de Dilan enquanto de virava e começava a lavar as frutas, por seus lábios um assobio calmo dava vida a musica que ecoava pelo ar, estava feliz, e apaixonado.

Já se sentiu como se o mundo estivesse de pernas para o ar? Sim? Pois era desse modo que Dilan se sentia, Mas o que raios estava acontecendo naquela droga de mansão?

Nada mais fazia sentido, Hiroshi sorrindo para ele sem o temer? Não fazia sentido. O ruivo cantando ao acordar? Fazia menos sentido ainda. Dilan olhou para a janela ao lado temendo que á longe avistar os cachorros miando, ou até mesmo peixes com asas.

Era um exagero, ô se era, mas estava cansado, sem perguntas, sem duvidas, assim era melhor, simplesmente fechou os olhos desistindo de tentar entender, o barulho da água se chocalhando lhe trouxe de volta a realidade enquanto Hiroshi lavava as frutas e as colocava na bandeja, para Dilan comer.

Ele realmente não precisava fazer isso, afinal os empregados da cozinha acordariam em questão de meia hora, mas parecia disperso a bastante coisas naquele momento, e suas obrigações era uma delas.

Dilan até questionou se deveria dar uma ordem mal-humorada a ele como sempre fazia, trazendo o semblante de medo e fúria ao garoto, mas avistar o irmão sorrindo como antes, mesmo que míseros segundos o deixou feliz, mas isso não passaria de hoje, prometeu a si mesmo que o protegeria, e por hora ele era seu chefe, e como qualquer outro empregado deveria obedecer e temê-lo.

E bem distante dali, mais a longe que a vila, mais distante que a floresta se encontrava o reino de Tandery, um lugar cercado pelos campos e plantações, rico em algodão, café e pelo minério de ouro, talvez fosse por isso que aquele local era tão invejado e admirado pelos outros reinos.

A carruagem passou pelas ruas de pedras lisas atraindo os olhares dos moradores e principalmente das crianças que encaravam curiosas os cavalos brancos que a levavam.

E após alguns minutos Toriam saltava da carruagem, nas mãos duas malas em tom escuro e demasiadamente grandes estavam sendo seguradas com firmeza, fato que fez com que os empregados lhe encararem perplexo, já que Toriam sempre deixou bem claro que carregar coisas era trabalho de empregado, ele apensas dava as ordens.

—Me espere —Advertiu Gors vendo Toriam o ignorar e continuar caminhando até a porta de mansão —Toriam —Chamou novamente perdendo a paciência com o menor se aproximando e pousando a mão no ombro de Toriam, colocando certa pressão fazendo o braço do outro latejar levemente.

—Me largue —Falou Toriam tentando desviar da mão de Gors, a mesma apenas fixou mais o aperto.

—Pare de me ignorar.

—Pare de dar ordens —Retrucou se soltando, andando sem olhar para trás com passos pesados, deixando Gors o olhar irritado do lado da carruagem.

—O que houve com ele? —Questionou Mira, uma empregada que trabalhava desde pequena servindo a família real, muito antes até mesmo do nascimento do atual rei, hoje a mesma estava com os cabelos ondulados presos em um coque deixando a amostra os tons acinzentados e grisalhos ficarem em destaque a pele morena, os olhos castanhos possuíam em volta profundas rugas, mas o sorriso doce em seu lábios dava-lhe um ar doce e juvenil a aparência cansada e sofrida que detinha.

—Eu não sei —Respondeu Gors, de certo modo rude, e no fundo realmente não sabia, até algumas horas atrás ficara perplexo pelo fato de além de Toriam ter assumido, ter se desculpado e se arrependido, esse não era Toriam , ou talvez fosse apenas uma personalidade do outro que ainda era desconhecida para si.

No caminho de volta Toriam em nenhum instante o encarou, mesmo quando Gors olhava para sua face sem desviar um único instante o olhar, mas o menor fazia de tudo para não encará-lo, olhava para a paisagem que passava pela janela de vidro, abaixava a face, encara suas próprias mãos.

E isso apenas enfurecia mais ainda Gors, por que estava sendo ignorado? Não sabia, tentou puxar conversa ao longo da viagem, mas tudo o que conseguia era respostas diretas e frias, era como se Toriam estivesse se afastando cada vez mais, optou então por repreendê-lo, ansiando ouvir as palavras sujas que Toriam sempre falava retrucando quando estava irritado, mas tudo o que ganhou foi um simples “desculpe” sussurrado baixo pelos lábios rosados do outro.

E dentro da mansão, alguns andares acima Toriam chegou ao seu quarto atirando as malas no colchão, as mesmas quicaram por alguns instantes antes de pararem no centro da cama, mas Toriam nem reparou nisso, em passos rápidos se dirigiu até o banheiro, encarou a banheira que sempre era enchida com água quente para ele banhar-se e que agora estava vazia, fechou a porta trancando-a antes de se sentar ao chão, engatinhou até cômoda de madeira clara, abriu as gavetas apanhando o papel já amarelado com o tempo.

As letras cursivas escritas pelas canetas tinteiros lhe trazia um remorso e dor inigualável, e aquelas palavras escritas ali eram para ele o motivo de seu sofrimento, sentou-se sobre o banco lendo e relendo, e a cada parágrafo um suspiro lhe escapava dos lábios, dobrou-a novamente voltando a guardá-la no fundo da gaveta, escondida e dispersa nos demais objetos.

O jovem colocou a mão sobre a testa enquanto tentava se acalmar, olhou para o espelho em cima da cômoda visualizando seu reflexo, a pele lisa e clara, o rosto jovem aparentando pouca idade, o cabelo curto castanho não passando da nuca, com mechas na frente alguns centímetros mais cumpridas.

As sobrancelhas marrons com os cílios grossos destacando os olhos cor de mel, qualquer um que olhasse admitiria, era alguém digno de merecer ser o príncipe por sua beleza, mas a face sempre vista aos olhos de terceiros, como ingênua e inocente escondia tanta coisa.

Sua personalidade era uma delas, metido, mesquinho, qualquer um que falasse com ele míseros minutos jamais desconfiaria que ele tinha tal atitude, até mesmo duvidaria dos boatos referentes a isso que o rondavam.

Porém agora a expressão doce e irônica não pertencia á sua face, apenas um semblante assusta e distante, fechou os olhos mentalizando novamente a frase que tantas vezes já lera “e então aos 17 anos poderá ser treinado”.

Por que surtar logo agora? Agir desse jeito depois de tantos anos? Não sabia, mas naquele dia pareceu que a ficha finalmente caiu, faltava menos de um ano, e o que poderia fazer para impedir? Nada.

Dali a alguns meses completaria 17 anos, idade jovem, mas naquele reino era a idade mínima necessária para começar a aprender a governar, treinando para substituir o antigo rei quando chegasse a hora.

E quem diria que aquele dia de seu aniversário, tão longe e ao mesmo tempo tão perto seria o motivo de sua tristeza? A verdade era dura, quando completasse se tornaria o que muitos queriam e ansiavam ser, um verdadeiro príncipe sucessor do trono.

Porém aquele não era seu desejo, e por trás de tanta alegria e comemorações que provavelmente teria, via a verdade, quando chegasse esse dia Gors se afastaria.

Um príncipe que precisa de uma babá? Isso era inaceitável aos olhos de todos, Gors não era uma babá, era um soldado seu guerreiro, queria convencer todos disso, mas como poderia?

Se amadurecesse não haveria a necessidade de Gors, e assim faria, mesmo que o soldado perceba seus sentimentos no ultimo instante, mesmo que seja no ultimo dia antes de seu aniversario, mesmo que seja uma hora antes de partir, se por um único momento ele o olhasse como um igual, já teria valido a pena.

Aquilo parecia estar acabando mais consigo do que com qualquer outro, se sentia péssima ignorando Gors, mas o que mais poderia fazer? Não sabia.

E no andar de baixo, com o cenho franzido estava Gors, o cabelo castanho escuro repicado caia por sua face, enquanto os fios mais longos eram presos pela fita vermelha, as mãos sobre a testa pensativo procurando um motivo para as atitudes do outro.

E porque estava fazendo isso? Afinal nunca se importou em entender Toriam, era complicado demais, se concentrava em apenas aturá-lo, mas algo em seu intimo dizia que sabia o porquê de tudo isso.

—Gors —Chamou um nobre que convivia naquele castelo, o soldado se virou encarando o homem que o olhou intrigado —Pensei que fosse mais velho —Disse se surpreendendo com a face jovem de Gors.

—Pois não? —Cortou Gors, com pressa.

—Peça para Toriam olhar as novas correspondências, muitas foram direcionadas á ele, como estavam viajando não abrirmos.

—Obrigado por avisar —Falou Gors se virando, sabendo que essa não era a função de um nobre e sim de um empregado, provavelmente aquele homem parado a alguns metros de si estava apenas com interesse neles.

—Não tem de quê —Respondeu o homem sorrindo antes de se afastar.

Assim que ficou novamente sozinho Gors se afundou na poltrona em que sentava, tentando relaxar os músculos mesmo por um instante e descansar, porém estava sem sono, virou o rosto vendo a enorme janela aberta, deixando que a brisa lhe batesse contra seu rosto, viu a longe as nuvens brancas começarem á cobrir o sol tornando o clima cada vez mais dublado.

E muito distante dali Youru também encarava o céu, o corpo curvado enquanto estava sentado no galho grosso de uma arvore alta, já deveria passar do meio dia, abriu um sorriso ao sentir o vento chacoalhar os cabelos prateados esvoaçando-os.

Inspirou fundo sentindo finalmente o cheiro que queria, abriu os olhos fixando as orbes vermelhas em Hiroshi o mesmo caminhava em passos lentos até o celeiro.

Aproximou-se percebendo como o outro estava disperso sem notar sua presença.

—Não se mova —Falou ao pé do ouvido de Hiroshi que parou de se mover, pensou em se virar para trás mas algo lhe dizia para obedecê-lo.

—O que você quer? —Perguntou o ruivo, apesar da pergunta parecer rude a voz saiu tremida, perdendo o valor de ameaça que aquelas palavras tinham.

Um riso animado saiu dos lábios de Youru que adorou vê-lo de tal modo, em pensar que era um pouco hilário, segurou no pulso de Hiroshi o puxando ouvindo reclamações do outro, mas aos poucos se calou e seguiu em silencio.

—Para onde estamos indo? —Perguntou Hiroshi notando que começara a entrar em uma parte cada vez mais fechada da floresta.

—Eu preciso te perguntar algumas coisas —Falou Youru soltando seu pulso, mas ainda caminhando ao lado do outro.

—Por que não me perguntou lá ?—Falou se referindo a onde estava, agora andava por um caminho totalmente desconhecido e não sabia o motivo.

—Por que está tão apreensivo?

—Nada, só que eu estou andando por lugares que eu não conheço apenas para conversar, não faz sentido.

Youru arqueou as sobrancelhas surpreso, os passos pararam enquanto encarava incrédulo outro.

—Perai, calma —Falou mais para si mesmo do que para Hiroshi colocando as mãos sobre as têmporas pensando —Deixa eu ver se eu entendi, você ta com medo da mata?

O ruivo se encolheu pelo comentário do outro, vendo por esse lado era algo bem bobo, moveu a cabeça ligeiramente concordando, pensou que agora viria as risadas, mas não ouviu nada.

Abriu as orbes verdes encarando o rapaz ao seu lado, os olhos estreitados mostrando apenas uma linha de seus orbes vermelhos sangue, os lábios entre abertos, deixando as presas afiadas a amostra.

Um arrepio percorreu a espinha de Hiroshi, deu um passo para trás receoso, e em questão de segundos foi jogado ao chão, sobre seu corpo, sentado em seu abdômen estava Youru, as mãos em seu pescoço em ameaça mas sem apertá-lo.

—Tem medo da mata? —Perguntou novamente vendo Hiroshi mover a cabeça novamente engolindo em seco —E não de mim? —Estava frustrado, um humano ingênuo com medo da mata mais não o temia? Uns galhos secos ameaçavam mais que ele? Isso o irritava, e bastante.

—Eu deveria ter?

Youru ficou pensativo com a indagação do outro, fazendo finalmente, mesmo que de leve começar a pressionar o pescoço dele.

—Eu poderia te matar

—Você não vai —Falou firme

—Como você pode ter certeza? —Indagou o mestiço se aproximando, a boca se abriu e a língua lambeu a bochecha do ruivo, fazendo o outro arregalar os olhos ao notar as presas próximas a sua pele.

—V-Você n-não tem motivos ... para me matar —Falou Hiroshi ouvindo uma risada sarcástica deixar os lábios de Youru

—Os humanos matam até mesmo sem motivo —Observou Youru, vendo o outro ficar rígido abaixo de si —Vou perguntar novamente, tem medo de mim?

—Você não é humano... e você tem medo de mim?

—Para de responder com perguntas

—Tem? —Questionou o ruivo vendo Youru revirar os olhos.

—Não.

—Mas eu também posso te matar —Falou serio, é claro que ele não poderia, mas era ingênuo e confiava em si mesmo.

E agora uma risada alegre saia pelos lábios de Youru que o soltou rindo, os olhos lacrimejaram enquanto ainda ria.

—Hahahaha , ai ai minha barriga hahahaha— falou Youru jogado na grama em tom verde escuro.

—Eu estava falando sério —Falou Hiroshi com o rosto rubro constrangido cruzando os braços enquanto formava um bico emburrado.

—Ta ta —Falou se levantando com um sorriso no rosto ele deus alguns passos sendo seguido por Hiroshi, parou em frente de uma arvore antiga a mesma com um grande buraco ao meio, mostrando o tronco oco —Vamos —Questionou apontando para o buraco na arvore, Hiroshi o olhou sem entender, dando um passo receoso para atrás.

—Eu não vou entrar ai —Falou o ruivo firme.

E do que adiantava falar? Youru pulou sobre o buraco puxando Hiroshi e aos poucos começaram a cair, uma queda que parecia não ter fim, o ruivo arregalava os olhos e gritava, mas que raios! Eles não estavam a alguns segundos atrás entrando apenas em um buraco na arvore? Na arvore, não no chão, então porque estavam caindo?

Sentiu os braços de Youru envolverem sua cintura e pousaram, Hiroshi olhou para baixo perplexo, estavam sobre a água, o toque dos pés de pés de Youru provocaram nada mais do que uma onda vagarosa n água, como quando vemos uma folha cair sobre a água parada do lago e pequenas ondas circulares irem se expandindo aos poucos vagarosamente.

O ar faltou-lhe nos pulmões ao olhar em volta, os olhos verdes encararam tudo, o teto, o chão, as arvores, não sabia o que falar e tudo o que conseguiu dizer saiu gaguejado.

—A -a O-onde es...estamos? — Perguntou Hiroshi encarando a água azul clara, se encontravam em uma caverna escura de paredes rochosas grosas e negras, umedecidas pela água.

—Priteh —Respondeu Youru caminhando pela caverna, Hiroshi encarou o chão temeroso pensando se deveria ou não pisar na água, deu mais um passo sentindo o coração apertar, ao tocar a água o próprio pé fez ondas singelas, e soltou um suspiro ao ver que não afundara, deram mais alguns passos seguindo na direção da água e ao fundo da caverna avistaram um ponto de luz, uma claridade em meio a toda aquela escuridão e aos poucos foi se aproximando, os passos faziam leves barulhos ao tocar a água.

Um chiado leve invadiu os ouvidos deles, como uma brisa calma soando, parecendo ao fundo um cantalorar, a mesma vinha do final da caverna, seguiram com passos mais apressados até lá e quando chegaram uma forte luz azul pareceu ofuscar-lhe os olhos.

Tão clara que não conseguiam enxergar direito, tendo que semicerrar os olhos para poder ver algo, aos poucos a luz intensa foi diminuindo e a visão começou aos poucos a se acostumar com a intensidade da luz.

As palavras pareciam faltar-lhes para descrever, ao fundo puderam avistar três grandes arvores, o tamanho delas era absurdo e o tronco grosso rodava se contorcendo, eram tão luminoso que ofuscava os olhos daqueles viajantes. As arvores pareciam emitir vida a partir de milhares de pontos azuis que iluminavam a fria caverna e seus olhos. Tão belo era o local que do fundo de seus peitos renascia um forte sentimento de esperança de que tudo era possível e fisicamente milagroso.

Do chão escuro brotavam cristais azuis das margens dos rochedos escuros, brilhantes de tal modo que pareciam ter uma luz interna.

Youru se aproximou alguns passos apanhando um pedaço do rochedo escuro, segurando firme entre as mãos antes de atirá-lo na água, diferente do que houve com eles que caminhavam sobre ela, a pedra afundou.

Após alguns segundos sobre a água imergiu fios azuis escuros e aos poucos e água ficou em forma de uma face, se fixando aos poucos até dar vida ao um garoto, apenas o rosto para fora da água, o corpo não existia, o pescoço ao tocar a água se solidificava, ele afundou novamente parecendo se desfazer na mesma antes de imergir.

—O que procura? —Perguntou o ser, ambos puderam ouvir sua voz mas em nenhum instante ele abriu os lábios, como se a mesma soasse no fundo de suas mentes.

—A verdade —Respondeu Youru firme, o garoto virou-se para encarar Hiroshi, a pele dele era tão branca quanto à de Youru e parecia até um vulto de tão claro, os cabelos azuis em tons escuros se mesclando, e os olhos pareciam uma mistura única de azul como duas esferas de água.

—Eu não sei —Respondeu Hiroshi, o garoto estreitou os olhos se erguendo mais, deixando o corpo aparecer até a altura de seus ombros.

Fechou os olhos e finalmente abriu os lábios, uma cantoria calma começou a ecoar pelo lugar, a voz parecia hipnotizante e então o local começou a reagir a ela.

As arvores ganharam vida chocalhando os galhos, os cristais se remexeram batendo entre si dando ritmo a melodia, e então tudo começou a escurecer, os cristais foram perdendo sua luz do mesmo jeito que as arvores e tudo.

E quando nada mais que a escuridão e o negrume assumirão o local as águas começaram a brilhar, uma luz intensa, como se toda a luminosidade antes dos cristais e das arvores estivessem acumuladas nela, um neon azul imenso em meio á escuridão iluminando-os.

—Hiroshi —Chamou Youru vendo o garoto lhe encarar ainda com o semblante surpreso —Tire sua blusa —Falou retirando o próprio tecido que o cobria na parte de cima.

O ruivo lhe encarou alguns segundos negando com a cabeça, se tirasse ele veria suas cicatrizes, e com isso as perguntas, e ele própria tinha duvidas sobre seu passado, como responderia aos questionamentos?

—Hiroshi —Chamou novamente com a voz firme, a cantoria começou a ficar mais alta o ruivo suspirou antes de retirar a camiseta, mostrando o corpo pálido como o de Youru que se destacou mais ainda com a luz intensa da água.

E as cicatrizes novamente se sobressaltaram em sua pele, algumas lisas como riscos mais claros, outras mais grossas se sobressaindo como um vergão.

—Por favor não pergunte nada sobre elas —Pediu Hiroshi, Youru o olhou por alguns segundos espantado mas concordou —E não fale para Kyo.

—Tudo bem —Falou Youru com um suspiro, pegando fôlego para mudar de assunto —Estamos em Priteh —Começou abrindo os braços como se apresentasse o local — Ou pelo menos o que restou dela.

A canção antes alta começou a suavizar como um som de fundo, os lábios se abrindo em movimentos singelos, o ser abriu levemente os olhos encarando o nada.

—Por que me trouxe aqui? —Perguntou Hiroshi

—Por que preciso de respostas

—Poderia ter me perguntado lá fora.

—Não —Falou calmo negando com a cabeça —Está vendo ele? —Falou encarando o ser que ainda cantava —É um Shirian.

Os olhos de Hiroshi se arregalaram por alguns instantes absolvendo a noticia.

—Kyo me disse que ele era o último Shirian. —Falou se relembrando da conversa que tivera com o Shirian na noite anterior, ele apenas falou essa informação antes de mudar de assunto.

—O Último da linhagem, de uma raça pura —Esclareceu Youru — Esse é um mestiço, não é só porque os Shirian ficaram extintos que não existiam outras raças mágicas.

—E...extintos? —Gaguejou Hiroshi, afinal ainda desconhecia toda a verdade.

Youru se calou por alguns segundos vendo que já estava começando a falar demais.

—Vou fazer umas perguntas Hiroshi —Explicou vendo o outro lhe encarar em atenção — Se mentir as águas se apagaram, por isso que te trouxe aqui, preciso que seja sincero.

—Não confia em mim —Afirmou Hiroshi ofendido.

—Você é um humano, é claro que eu não confio, por que se aproximou de Kyo?

—Como assim por quê? —Ladrou irritado

—Hiroshi apenas responda a pergunta —Alertou serio, os olhos vermelhos flamejando sem paciência.

—Eu o achei preso em uma armadilha e o soltei —A água oscilou levemente antes de voltar á coloração acesa, ele falara a verdade.

—Por quê?

—Eu não sei —Falou Hiroshi.

—Alguém te mandou fazer isso?

—Não.

—Tem alguma intenção por trás disso?

—Não

—Então por que sempre o procura?

—...

—Por quê? —Insistiu Youru

—Eu não sei —A luz foi se apagando na água.

—Está mentindo

—Não estou —A água não mudou de cor.

—Está —Afirmou novamente —Fale a verdade.

—Por que eu gosto dele —Sussurrou baixo corando, vendo as águas chocalharem e começarem a se iluminar.

—Morreria por ele? —Perguntou Youru.

Hiroshi arregalou os olhos com a pergunta um tanto exagerada, como assim morreria por ele? Era muita presunção, o conhecera a apenas alguns dias, se sacrificaria por tal pessoa? Valeria a pena?

Mas se comparasse com tudo o que viveu a resposta seria sim, um amigo que não lhe descriminou, alguém que não lhe olhou torto, que pode conversar e que... que o beijou.

—Eu não sei, por que pergunta?

—As águas não funcionaram se você responder com outras perguntas.

—Ele está em perigo? —Perguntou Hiroshi já ficando apreensivo —Está?

—Não

—Então... Por que perguntou...?

Youru poderia muito bem mandar outra pergunta para que as águas não funcionassem mas sentiu necessidade de responder aquela questão.

—Por que não sei se vale a pena botar em jogo a vida de ambos para manter essa relação.

—Minha Vida?

—...

—O que quis dizer com isso?

—Nada —A água se apagou

—Está mentindo

—Vamos embora

—Não! Kyo está correndo perigo? —Questionou Hiroshi vendo Youru apanhar a blusa e vesti-la caminhando em direção a caverna —Ei me responda —Falou Hiroshi correndo até ele e o puxando pelo braço.

Youru parou para encará-lo, os olhos se estreitaram em ameaça, mas Hiroshi nem se importou, continuando a encará-lo sério.

—Esqueça o que eu disse, vamos —Falou ignorando, Hiroshi e caminhando pela caverna, aos poucos a água escureceu atrás de si, tornando apenas um liquido transparente, deixando que as luzes das arvores e cristais retornassem aos mesmos.

O ser o encarou se erguendo, deixando que a água agora cobrisse até sua cintura, deixando o peito se solidificar aos poucos dando vida ao corpo, cantou mais algumas notas até se calar olhando curioso para Hiroshi.

Mergulhou sobre a água se desfazendo antes de emergir ao lado do ruivo, ao se aproximar a água que até então sustentava Hiroshi como um chão se tornou novamente água, fazendo com que o rapaz sentisse o chão faltar-lhe enquanto mergulhava sobre a água.

Moveu as pernas tentando nadar para superfície, mas quando abriu os olhos se deu de cara com o ser de antes, o encarando a apenas alguns centímetros de sua face, o corpo nu movendo-se ligeiramente para se manter naquela altura e não afundar, a mão se ergueu aproximando-a de Hiroshi que se afastou.

Sentiu os dedos do ser tocarem sua bochecha se encostando nele, os olhos estavam se hipnotizando com o outro, abriu os lábios, vendo que o corpo já não respondia a sua mente, o ar escapou por entre eles saindo em bolhas de oxigênio.

Tentou puxar mais ar mas tudo o que conseguiu foi água, começando a se afogar, os instintos ordenaram que ele se debatesse, que tentasse subir, mas tudo o que conseguia fazer era encarar o ser.

Esta hipnotizado, e sem reação, o desconhecido se aproximou mais mostrando suas presas, chegando próximo ao pescoço desnudo de Hiroshi.

Uma mão afundou sobre a água o puxando, era Youru, Hiroshi puxou o ar com força saindo do transe tossindo e tentando expulsar aquela água em seu peito.

Um rosnado saiu dos lábios de Youru, enquanto encara o ser submerso, Hiroshi ainda tossia sentado sobre a água temendo afundar-se a qualquer momento.

—Vamos —Falou Youru o puxando, eles caminharam com pressa até a caverna, aonde acima de suas cabeças estava o buraco que caíram, a água em seus pés começaram a chacoalhar e balançar até que como um baque a mesma subiu levando os para cima.

Em um empurro Hiroshi saiu do tronco caindo finalmente na terra úmida com grama verde e seca da floresta, as roupas molhadas, a blusa nas mãos de Youru que não a deixara para trás.

—Eu te levo —Falou Youru estendendo a mão para que Hiroshi que lhe encarou irritado, quase morrerá agora, e agora ele lhe estendia a mão? Que piada sem graça.

—Eu quase morri lá em baixo

—Kyo convive com coisa pior —Cortou Youru fazendo Hiroshi se calar —Se gosta dele, aprenda a superar coisas maiores —O ruivo baixou o olhar incomodado — mas uma coisa —falou Youru apanhando a mão de Hiroshi e o erguendo, usara uma força e velocidade incrível, fazendo o corpo do outro se erguer e colidir com o próprio de Youru —Kyo é meu amigo, então não o machuque —Pediu sussurrando no ouvido de Hiroshi.

O que ele queria dizer com aquilo? A força de Hiroshi comparada a de Kyo era mínima, mas o ruivo não percebera que não era de dor física que Youru se referia.

Youru abaixou o olhar encarando as costas de Hiroshi, o que o fez franzir o cenho, na sua garganta a vontade de perguntar formigava teimando sair, mas a segurou se afastando do outro, vendo o menor encara o chão levemente atordoado, esticou a mão entregando-lhe a blusa seca em relação a calça e o corpo molhados, até dos fios ruivos escorriam gotas grossas de água.

Hiroshi a vestiu calado se pondo para caminhar alguns passos a frente de Youru, a mente viajava com tudo o que vira, aquilo era tão... irreal, o que Youru quis dizer com aquele interrogatório? Kyo estava em perigo? Ele estava colocando Kyo em perigo? Ele poderia machucá-lo? Era tanta coisa que não sabia o que pensar.

—Hiroshi —A voz calma invadiu os ouvidos do menor vendo Kyo encostado algumas arvores á frente lhe encarando, as memórias de ontem lhe voltaram a mente fazendo ambos enrubescerem —Oi...

—Olá —Falou Hiroshi abrindo um sorriso amarelo, tentando tirar aqueles pensamentos de sua mente.

— O que houve? —Perguntou Kyo vendo a roupa encharcada de Hiroshi

—Ah eu... cai no lago — Mentiu, mas algo em si o alertou que era melhor que Kyo não soubesse da conversa que tiver com Youru.

—Mas o que faz aqui? Pensei que me encontraria no campo com flores — Parecia que Kyo falava mais para si mesmo do que para Hiroshi.

—Na realidade não sei nem aonde estou —Admitiu o menor olhando em volta, vendo que Youru não estava mais perto —Tenho que voltar para o castelo antes que Dilan me enforque —Brincou.

—Te enforque? —Repetiu Kyo estático estreitando os olhos e erguendo as orelhas felinas atento — Iram te enforcar?

Os lábios se abriram mostrando as presas em ameaça, fazendo o menor se desesperar tentando se corrigir.

—Me repreender Kyo... Dilan ira me repreender, é modo de falar... —Falou aos tropeços movendo as mãos como se as mesma pudessem esclarecer algo.

—E quem é Dilan? —Céus, Hiroshi falara tudo o que não devia, como responderia a essa pergunta? “Ah é meu meio irmão loiro de olhos azuis, que não se parece nada comigo, príncipe de um reino e eu sirvo ele, mas ele costuma sempre me humilhar nas horas livres” Não poderia falar isso.

—Ninguém importante, pode me levar de volta, não sei onde estou —Pediu tentando desviar o assunto.

Os olhos de Kyo se abriram saindo da posição em que estava, relaxando os músculos antes tensos.

—Se formos a pé demorará muito —Falou Kyo refletindo

—Ah... —Então ele não poderia lhe levar? Isso o atrasaria.... Seria apenas mais um incomodo —Tudo bem então eu vou....

—Shhh— Falou Kyo o calando enquanto se virava de costas —Suba, assim chegaremos mais rápido — falou sorrindo vendo o outro o encarar temeroso — Tudo bem eu não mordo —Disse abrindo um sorriso divertido —A não ser que queira.

Um riso saiu dos lábios de Hiroshi se alegrando com aquela conversa, estava falando normalmente com mais alguém, falando como se fossem amigos há anos, adorando isso, se deliciando com o sentimento que se apossava de si quando estava com o outro.

Subiu nas costas do outro com um impulso, passando seus braços pelo pescoço do Shirian e as pernas pela cintura, Kyo as segurou pegando impulso antes de se colocar a correr, as arvores passavam tão rápido por si que parecia impossível, os ventos chocalhavam os fios ruivos de Hiroshi que fechava os olhos levemente com a ventania.

Todas as imagens das paisagens pareciam borrões e a única nítida era a de Kyo, Hiroshi observou as orelhas felinas agora tão próximas de si, abaixou a face roçando a bochecha em uma delas, antes de soltar um braço que o segurava no outro e o levar a mão pequena até os fios azuis do cabelo de Kyo, acariciando entre as orelhas, curioso vendo como eram macias.

Em minutos chegaram ao campo aberto e á longe a mansão pode ser avistada, ainda era dia e o céu estava claro, o Shirian parou próximo as arvores finas que mostravam o fim da mata fechada, mas não soltou Hiroshi, um sorriso estava em seu lábios, enquanto por dentro se deliciava com aquela caricia que o outro fazia tão inocentemente e calmamente em si.

—Kyo... —Chamou Hiroshi com a voz calma

—Hum....?

—Eu tenho que ir —Falou corando, sentindo as mãos que o seguravam o apertarem mais forte, ou fora só impressão sua?

Um som de descontentamento saiu baixo da boca de Kyo o soltando, se segurou na cintura do menor curvando o corpo até beijar-lhe na testa em despedida, vendo o ruivo corar e se afastar em passos rápidos.

E na mansão Dilan abriu as cartas, e uma entre todas uma lhe chamou a atenção, a apanhou abrindo o lacre que continha o emblema da família real. Na carta em letras cursivas e charmosas estava escrito um convite para um baile, ele odiava bailes. Mas o que poderia fazer? Afinal era um convite de Srta. Daínely, filha de um nobre importante em que continha negócios, se faltasse poderia desestabilizar a conexão entre eles.

Deu um suspiro pesado colocando a carta sobre o balcão, apanhou novamente o envelope vendo um pequeno pedaço de papel escondido ao fundo, o apanhou vendo a folha amarela surrada e então se muito interesse a abriu.

Espero te ver lá”

Edward Van Arthas Terceiro

Ele conhecia aquela letra, a escrita firme e uniforme, era ele, ele estaria lá, e agora o que faria? Tinha que inventar uma desculpa para não ir, porém tinha que comparecer, ele não pode fazer mais nada com ele... ou pode?

Tudo bem ele iria, é só não levar Hiroshi, entretanto que opção tinha? Daínely sempre exigiu a presença do empregado mais próximo em suas festas, e todos já tinham ciência de que Hiroshi era esse empregado.

Notas finais
Mil desculpas pelos erros, não tenho betas +_+" Sobre Priteh, me basiei nessa imagem : http://www.zerochan.net/323373 E o ser, bom eu imaginei ele assim: http://www.zerochan.net/437224 Vocês querem que eu tenha um infarte néh? Se ja não bastou os agradecimentos no cap passado, para minha felicidade tenha que agradecer mais duas recomendações Muitissimo obrigado aos usuarios: .Leitor .Ange-chan E tbm muito obg aos que deixam review, não sabe como eu me alegro com eles hehe. Proximo cap o vilão ainda desconhecido que atomentou Dilan aparece, estão louco para conhecece-lo néh? Rsrs Ah e não fiquem bravos com Youru ele apenas está preocupado com Kyo... e não ele não está afim do Shirian ¬¬ haha.