O Último Shirian [hiatsu]
13 Capítulo 13 - Confiança
Notas iniciais
Os passos eram tão ligeiros quanto delicados, a velocidade era rápida e ágil em um ritmo frenético que demonstrava tamanha a pressa de Toriam. Era atraente, até mesmo quando a face parecia se retorcer em certa inquietação e desespero.
O olho ardia latejando ligeiramente. Nem parara para olhar seu estado, mas se não estivesse vermelho estaria roxo, tinha certeza; o olho já não mais lacrimejava apesar de dor pulsar ali relembrando de que apesar de tudo, aquilo era realmente real.
Por quê? Talvez essa seja a pergunta que sempre façamos a nós mesmos quando tudo parece dar errado, quando tudo o que construímos aos poucos começa a ruir e despedaçar-se diante de seus olhos. E então procuramos motivos, achamos milhares, mas mesmo assim nunca nos convencemos que merecemos mesmo passar por tudo aquilo.
Parecia uma tempestade repentina que o pega desprevenido. Que mudança seu mundo dera, e quando pareceu que se iluminaria a partir do momento em que toda a inquietação e os sentimentos saíram, errou! Casar-se? Logo agora? Por quê? Por que Gors teve que saber de tudo aquilo em tal situação?
—Gors — Gritou Toriam olhando em volta sem um único sinal de vida. Nada, absolutamente nada. Para que lado era mesmo o bosque? Direita? Não, esquerda! Virou-se escorregando na terra pela pressa. Não
sabia o que dizer e também pouco se importava com isso, queria apenas vê-lo.
Entrou no caminho estreito do bosque sentindo o tecido fino que trajava rasgar-se em alguns pontos pelos galhos que lhe impediam a entrada, não se deteve, prosseguindo sem se importar com os arranhões.
Avistou-o parado no pequeno espaço aberto entre as árvores, o bosque parecia mais silencioso que o normal, fazendo com que o jovem pudesse notar o quanto afoito a sua respiração estava. Ela estava lá, a metros de distância, o mesmo cabelo longo preso pela macia fita vermelha que voava com o vento.
Deu um passo, amassando as folhas secas sob seus pés, notando que mesmo Gors ciente de sua presença não se dera ao trabalho de encará-lo. E se ele partisse? Nada mais justo não?
Não! Claro que não, era o que Toriam pensava, mesmo ciente do quão egoísta aquele pensamento era. Gors era seu! Disse que o amava e ficaria consigo, ou não ficaria? Em pensar no fato de que o que falasse agora decidiria a devoção do outro a si, se ele quisesse partir teria que deixar; afinal, porque se apegar a alguém que já estará compromissado e pertencerá a outra pessoa?
Um aperto, como se um leve baque tivesse ocorrido, fez seu coração parar por breves instantes. E se Gors fosse? Se ele partisse? Toriam era forte, mesquinho e metido, mas no fundo realmente não conseguia imaginar uma vida sem Gors. Engoliu o seco, respirando fundo enquanto formulava as palavras que fugiam de sua mente. O que dizer? O que raios poderia falar? O clima pesou, incomodando-o e o pressionando a pronunciar algo.
—Gors — Chamou novamente sendo ignorado — Olha sobre isso eu não tive escolha, eu... Não queria te perder e... —Remorso, talvez algo mais intenso, podia notar-se no modo em que o corpo de Gors enrijeceu-se que ele estava incomodado com isso. Não era para ele se culpar, Toriam também não queria que nada disso tivesse acontecido, não queria... Mas o que podia fazer? Não podia mudar, ou poderia? Não, maldito passado que não poderia ser alterado. Era tão triste não poder voltar atrás, mudar a atitude — a seu ver covarde — de aceitar o que o pai dissera quando viu que a chance de rever Gors estava em jogo.
Era tão errado assim querer vê-lo? Querê-lo para si? Se sim, que mundo injusto esse! Fechou os olhos temendo a resposta. Era agora, sabia! Era ali que tudo que desejou acabaria em apenas segundos. Felicidade de pobre dura pouco? Ô mentira, olha Toriam ali com dinheiro até a boca e ainda assim vendo tudo o que tinha partir. O que tinha de valor mesmo, não notas ou moedas de ouro, algo mais valioso para si, e que agora poderia perder.
—Irá casar-se por minha culpa — Proclamou Gors com um tom descrente, movendo a cabeça e um lado para o outro ainda sem encarar Toriam. —Não devia...
—O que eu deveria ter feito? Poderia ficar sem ver-te —Defendeu-se Toriam —Acha que eu queria me casar? Acha mesmo isso? Não fale que eu gostaria, porque estará mentindo, sabe muito bem disso! —Ladrou Toriam, atropelando-se nas palavras— Eu poderia ficar sem te ver? Se você não pudesse me ver nunca mais, como reagiria? Faria o mesmo que eu, não? Eu tive que me casar Gors, meu pai poderia ter feito o pior e...
—Uma hora isso aconteceria, eu sabia disso, mas... não deveria ter feito em tal situação. Não por minha causa, não tendo eu como motivo para tudo isso, Toriam!
—Eu sei, mas... —Começou Toriam calando-se sem argumentos, vendo as palavras sumirem de seus lábios sem justificativa. Encarou Gors, vendo o punho do maior cerrar-se em raiva.
—Tudo bem — Falou Gors, o tom frio fez os olhos de Toriam se arregalarem em surpresa pela súbita mudança de atitude. Como poderia descrever... Pouco caso? Não, Indiferença. Porque Gors tinha aquela
reação? Franzindo o cenho, Toriam balançou a cabeça afastando os pensamentos, e sem perceber o coração magoou-se mais com isso do que teria se ferido se ele apenas tivesse brigado consigo por ter aceitado a proposta do pai.
—Tudo bem? —Repetiu Toriam. Ele estava falando serio? Ah, ele só podia estar brincando, ele tinha que estar brincando! —É só isso? Irei casar-me e tudo o que você diz é que está tudo bem? — Aquela reação nunca esperaria isso dele, podia notar pouco a pouco uma muralha
crescendo a sua volta, fechando Gors em segundos. Eles estavam se afastando, se fechando, fazendo uma barreira, podia notar isso.
—Nós dois já sabíamos que isso iria acontecer de um jeito ou de outro— Exclamou Gors, a face tão serena quanto poderia expressar — Um dia ou outro esse nosso momento acabaria Toriam, é um fato.
—É- é um fato? —Gaguejou Toriam descrente, como assim era um fato? Então isso era tudo que Gors falaria? Era essa a sua reação? Poupe-me. Ele estava ali, prestes a casar-se, à oficialmente se afastar de Gors e tudo que ele falava era um “tudo bem”. Tudo bem? Depois de tudo o que passaram junto? Como raios Gors tinha a cara de pau de falar isso para ele?
E afinal, o que passaram juntos? Questionou Toriam cabisbaixo. Nada, não é? Os olhos do jovem cintilaram, ameaçando transbordar lágrimas, a face ainda ardia do soco que recebera. Precisava de Gors, queria sentir aqueles braços o acolhendo, dizendo que o protegeria e aturando até o ultimo instante; o queria ao seu lado.
Uma noite de paixão, um dia de revelação, anos de sentimentos, era até mesmo irônico ver tudo isso desabar e cair em destroços na sua frente. Como se um espelho refletindo tudo o que haviam passado juntos se espatifasse no chão rachando e se despedaçando em cacos em câmera lenta.
—Vai ficar por isso mesmo? Ciente de que irei casar-me com outra pessoa, é isso tudo o que me dirá? —E tudo o que Toriam recebeu em resposta foi o silencio, ele não se pronunciaria mesmo? A postura de Gors enrijeceu-se se virando na direção das árvores; o que Toriam queria que ele dissesse? Que o amava e que não permitiria que ele se casa-se? Seria fácil de mais, não é? Um rápido e “viveram felizes para sempre” relatado nos contos de fada, do qual, para seu azar, não possuía.
E no fundo Gors queria falar isso, gritar a pulmões e esfaquear o primeiro que o tentasse afastar de Toriam, agarrando o menor. E mesmo assim calou-se engolindo o seco. Toriam não sacava que assim era mais simples? Mais fácil? Ambos cortarem os laços e se afastarem pouco a pouco, seria menos doloroso e o mais justo, e mesmo assim parecia uma decisão tão dolorosa para si. Em pensar que talvez aquela fosse uma das poucas soluções, já não estava na hora de por um ponto final em tudo?
—Não vai mesmo falar nada? —Porque o coração sentia-se partido? Não compreendia, e talvez no fundo temesse compreender. Recuou um passo virando-se na direção oposta, sentindo uma lágrima deslizar por sua bochecha em meio ao drama feito. Afinal, porque estava bravo? Gors estava ali, aceitando, sem discutir e brigar, porque então? Talvez por ser exatamente isso, se fosse o contrário nunca aceitaria, nunca entregaria tudo de bandeja — Entendo —Murmurou baixo — A verdade é que você nem liga para isso, não é? Nunca me amou... E se algum dia disse algo parecido, foi apenas para deitar-se comigo... — Queria correr, ordenou a si mesmo para sair dali naquele instante, entretanto suas pernas não obedeciam à ordem, não queriam se mover, ficando paradas e inertes.
A mão brusca de Gors puxou Toriam em sua direção, a tempo de impedir que ele fugisse, assustando o menor. Não esperou reação nem ao menos proclamou algo, puxou-o para si tomando seus lábios com gula. A mão envolveu a cintura do pequeno, chocando os corpos, a língua explorava atentada aquela cavidade que tanto conhecia, as faces moviam-se de um lado para o outro naquela sincronia perfeita e harmoniosa. Toriam estava derretendo-se naquele ato, obrigando a si mesmo a recusar o beijo e com força cerrou os lábios.
—Nunca mais repita isso —Bradou Gors em um fio de voz —Por que você não ajuda Toriam? —perguntou melancólico — Sabes muito bem o que eu sinto e que estou me segurando para não te pegar e fugir para longe — Admitiu acariciando a face do pequeno, os dedos roçando sobre o olho machucado —Sabes que tenho que me segurar toda vez que vejo sozinho ao seu pai, que não posso opinar enquanto a casar-se...
—Mentiroso, estavas a pular de felicidade — Gritou Toriam sendo prensados contra o tronco, aqueles olhos de Gors pareciam mais sombrios do que nunca — Aceitou tudo como se não tivesse solução.
—Não tem solução —afirmou Gors irritado — Isso é o mais correto agora, afastar-me.
—Mais correto para quem, Gors? Está é me enrolando! —Gritou Toriam se debatendo tentando se soltar do soldado —Me larga —Falou, se remexendo, notando enfim que mesmo se continuasse, a diferença de forças era enorme. —Deve ser um alivio para você, não é? —Murmurou baixo, fechando lentamente os olhos ao perceber que lhe machucava falar aquilo olhando-o — Se ver livre de um estorvo como eu. Agora você não terá mais tanto trabalho e nem terá que se contentar com uma criança para satisfazer seu prazer, poderá ter uma mulher ao seu lado! —Arriscando, encarou-o, vendo a inexpressiva cara dele. Então era isso, Gors realmente não ligava. Com raiva, empurrou-o sem efeito, sendo prensado com mais força contra o tronco — Me largue, estou mandando!
—Não —Bradou Gors —Agora é minha vez de falar — Falar o que, afinal? Iria apenas confirmar tudo. Com raiva, Toriam olhou-o nos olhos, sentindo as pernas fraquejarem, ficando bambas, aquele arrepio de medo lhe subindo a espinha. Que olhar era aquele? Em anos ao seu lado, o soldado nunca o olhara de tal forma, a Iris se possível conseguia exalar ódio e raiva. Era como se a ultima bolacha do pacote havia sumido, ou então a última gota da água tivesse caído transbordando o copo.
Toriam estava com medo, e mesmo ciente disso, Gors o manteve preso, a mão pousada no tronco tremia vagamente em raiva, ansiando por socar algo. Se acalme — falava para si mesmo. Mas como fazer isso com Toriam lhe dizendo tais palavras?
—Retire o que disse — Ditou Gors, mantendo a compostura por breves segundos.
—Claro que não, porque eu iria? —Ok, adeus compostura. Só faltava sair fumaça de seus ouvidos, ele estava no limite — Além do que... — Não deu tempo de terminar a fala. Bufando, Gors jogou Toriam no chão, caindo na terra áspera — Seu... —Começou Toriam, pronto para desferir quantos xingamentos conhecesse em direção ao outro.
—Cala a boca —Vociferou Gors mais rápido —Me satisfazer? Usei-lhe para meu prazer? Escute a droga que está dizendo, Toriam, fala como se isso fosse a verdade.
—É A VERDADE!
—Claro que não é. Você e sua boca maldita que só fala o que lhe vem a cabeça e nunca pensa nas consequências. Reflita antes de falar qualquer merda, tenta pensar um pouco!
—Pensar? Eu? Eu que tenho que pensar nessa joça depois de tudo. Ah, claro. É você que joga tudo pro ar na primeira chance e eu que tenho que pensar? Fala sério Gors. Você nem liga, essa é a verdade — Retrucou Toriam a plenos pulmões.
—Não ligo? Poupe-me, Toriam. Estou aqui tendo que engolir toda essa história para me segurar de não ir até seu pai e lhe dar o que merece. Primeiro por me usar para te obrigar a casar, e depois por tocar em ti, ou achou mesmo que não tava na cara de que ele te bateu?
—Só quer me defender porque é o seu trabalho, na primeira chance me dará as costas e irá embora atrás de uma vadia qualquer!
Gors respirou fundo, afundando os dedos por seu cabelo, enquanto nervosamente jogava alguns fios que caíam por sua face. Será que Toriam era tão cabeça oca a ponto de não lhe ouvir? Ou ele estava escutando e só ignorava?
—Tem razão, talvez elas sejam mais maduras — Acusou Gors vendo que Toriam ficara estático com o comentário, os lábios se abriram em surpresa enquanto as sobrancelhas caiam demonstrando mágoa — Acha mesmo que se eu quisesse alguém já não teria ido atrás? Eu estou com quem eu quero, não vou lhe deixar — Afirmou tentando usar o tom mais calmo que conseguiu, com um suspiro se abaixou se aproximando do menor — Que pessoa problemática por quem eu fui me apaixonar, quantas vezes tenho que dizer que te amo para você acreditar?
—Está mentindo... —Murmurou Toriam, receoso.
—Mesmo? Pois um dos maiores motivos na demora da missão foi por conta de eu não conseguir realizar direito minha função já que eu fiquei pensando em um certo garoto. —Gors suspirou aliviado quando notou a calma ainda leve rondar Toriam, e novamente, sem perceber, o
soldado conseguiu domar a fera.
—Ele deve ser bem bonito — Brincou Toriam abaixando a face enquanto um riso tímido tomava sua face.
—Ele é lindo — Afirmou Gors, tocando o rosto de Toriam, erguendo-o para encarar a expressão serena do jovem príncipe.
—Gors... —Chamou Toriam, fazendo com que o soldado lhe encarasse com uma cara de “o que foi?” — Se vai ficar comigo, então nunca me deixe — Falou firme, vendo um sorriso se abrir nos lábios do
outro. Só não sabia se era de felicidade ou de deboche — É uma ordem. —Ditou fechando a cara como quem firmava ainda mais o argumento.
—Como quiser, vossa alteza — Sussurrou Gors alegre, sem conseguir conter o sentimento que crescia em si, e mesmo assim o sorriso murchou-se ao encarar o olho que começava a tingir-se de roxo. Irritava-lhe o maldito status e pode que lhe impedia de poder dar o troco no rei e socá-lo como fez a Toriam. Porque ele não poderia ser um simples camponês, e seu pai um nobre ou alguém menos que um rei? Seria tão mais fácil...
Aproximaram-se, os rostos na altura, os olhos se encarando sem piscar, os lábios já abertos prontos para o contato tão esperado. E então, um grito os faz parar. Ao longe, rouco e baixo, como quem se segurava para a voz não sair, sem conseguir amenizá-la.
Duas vezes? Não, três! Não foi preciso escutar mais que isso para que Toriam se erguesse e se pusesse a correr, as roupas já molambos se mexiam com o vento, os cabelos esvoaçando na brisa que lhe passava rápida.
Derrapou no chão na hora em que fez a curva, escorregando sem parar a corrida, e logo atrás sem entender nada Gors o seguia.
—Toriam— Gritou Gors segurando-lhe no pulso —se acalme, o que foi? —Perguntou sem compreender, a respiração afoita pela corrida, e nada ouviu como resposta — Ei... —Chamou sem efeito, seguindo o olhar de Toriam.
Distante, mesmo agachado sobre o chão era possível reconhecê-lo. A camisa já se encontrava jogada no chão enquanto nas costas gotas de sangue escorriam das feridas abertas. Os cachos negros tampavam os olhos, que inexpressivos olhavam o nada.
Locse, mas por quê? Toriam não esperou mais nenhum segundo e correu na direção do jovem, mesmo tropeçando nos próprios pés.
—Locse — Gritou se abaixando ao lado do empregado sem saber o que fazer. Das costas quatro vergões erguiam-se vermelhos e latejantes; no maior deles, uma fresta de sangue descia em um rastro de dor — Quem fez isso? —Foi tudo o que conseguiu pronunciar, a mão tremeu com medo quando tentou tocar no jovem.
Um tapa afastou de modo brusco a mão de Toriam. Locse por fim o encarou, os olhos sem vida recuperaram um mínimo de brilho.
—Não toque, vai se sujar—Murmurou Locse tentando se levantar, ao seu lado o chicote de couro estava jogado de mau jeito. Se sujar? Pelo amor! Toriam estava imundo, porque mesmo depois de tudo Locse insistia em manter a distancia? Era sempre assim, quando não estavam sozinhos nunca agia como se se falassem, nem como se já houvesse trocado alguma palavra, era como se ele fosse mais um dos empregados.
—Quem fez? —Repetiu Toriam sem argumentos.
—Isso importa? —Retrucou Locse fechando a cara quando ergueu-se, sentindo descer mais gotas doloridas por seu dorso — Se eu lhe falar você ira tirar satisfação com ele, correrá boatos sobre você defendendo um empregado. Não gostaram disso e sobrará tanto pra mim quanto pra você —Murmurou Locse encarando-o, já se acostumando ao olhar indignado e repleto de raiva que Toriam possuía quando lhe dava respostas desse tipo —Por que essa cara de surpreso, nem foram muitas chibatadas —Tentou argumentar, dando de ombros, suportando em silencio o grito que queria sair.
— Nem foram tantas? —Repetiu Toriam descrente, empurrando Locse para o lado enquanto no chão apanhava o chicote — Quem ousou bater-lhe? Você é o meu empregado, só eu e ninguém mais tem o direito de punir-lhe seja lá qual tenha sido o motivo!
—Seu pai tens o direito — Argumentou Locse serio vendo a expressão de Toriam congelar —espero que tenha falado com Gors.
—Falei...
—Então não estou arrependido de ter feito — Retrucou Locse rapidamente, apanhando a camisa e batendo-a no ar espantando a areia grudada — Nem de ser punido — Completou com desdém calando-se com o olhar do príncipe.
—Foi por ter me soltado? —Foi tudo o que Toriam conseguiu pronunciar, recebendo apenas um movimento afirmativo —Isso é impossível, ele não saberia que foi você.
—Ele não sabe.
—Mas então...
—Ele é o rei —Explicou Locse —tem o direito de fazer o que bem entende. Eu estava limpando o corredor e você passou por lá para sair. Se é a minha culpa, ele me puniu com razão, se não for ele não se importará pelo erro! Se retrucar e mostrar que não fui eu, o máximo que ele irá falar é que o castigo já é um alerta para eu futuramente não fazer.
—Isso é ridículo!
—Isso é a realidade.
A realidade? Que realidade? Injusta, sem critérios ou normas? Só porque Locse era um empregado seu pai não poderia ter feito isso, não tinha tal direito!
—Aonde pensa que vai? —Gritou Toriam quando viu Locse se afastando, e tão rápido que o empregado se afastou, retornou. Os cachos esvoaçando no ar sem acompanhá-lo, a mão tampou os lábios de Toriam em sinal de silencio.
—Alguém está vindo, pare de gritar e saia daqui antes que seu pai lhe pegue —Sussurrou Locse —Volte na hora do jantar, ele não lhe repreenderá com suas noivas presentes.
—Me largue — Murmurou Toriam irritado tentando afastar a mão de Locse. Gors com certa indelicadeza puxou o braço do jovem, afastando-o do príncipe.
—Vou trabalhar, e você não vai impedir, ou quer me ver ser punido novamente? —Falou Locse cortando qualquer ação futura do jovem — E você, finja que não sabe de nada do que o rei tramou, se não tudo vai por água abaixo. —completou virando-se na direção de Gors.
Gors em silêncio apenas empurrou Toriam como em uma ordem para ele sair dali, os olhos focados em Locse sem compreender, porque ele estava a ajudá-los, e nem eram simples dicas ou argumentos, o menor parecia disposto a passar por milhares de coisas se fosse necessário.
—Por que nos ajuda? —Perguntou Gors, notando como o corpo de Locse travara ao ouvir tais palavras — Passar por tanto por desconhecidos, não faz sentido.
—Você não entenderia — Argumentou Locse, curvando-se enquanto se retirava, os passos firmes se dirigiram aos quartos de hóspedes, fazendo com que uma máscara simpática lhe assumisse a
face, deixando Gors para trás.
Tinha que continuar seu trabalho, provavelmente a blusa branca manchar-se-ia com seu sangue, cuidaria disso depois.
Com duas batidas na porta, a permissão de entrar lhe foi concedida, adentro a cama enorme estava desarrumada e sobre ela jogada de modo qualquer uma jovem de cabelos longos e louros se remexia.
Lizia, uma das noivas de Toriam, os olhos azuis carregavam um sarcasmos próprio, e o vestido rosa lotado de babado lhe cobria as pernas finas, a face retorceu-se em uma expressão de repulsa e deboche ao encarar Locse. Um empregado, concluiu ela com nojo. Não entendia porque deixavam um tipinho como aquele andar pelo castelo, não tinham tal honra para isso. Em seu pensamentos a família real deveria ter no mínimo nobre como empregados, e não se contentar com tão pouco.
—Desejas algo, madame? —Questionou Locse, oferecendo seus serviços se curvando de modo que não conseguiu ver olhar de escárnio que lhe fora enviado.
—Se eu quisesse algo mandava lhe chamar, escória maldita. Não
apareça na minha frente fora do meu desejo. Não presta mesmo. Anda, saia, saia antes que mande lhe prender por ser um estorvo. —Ditou ela irritada, a mão abanava o ar como quem ordenava a um cachorro para buscar algo, o nariz empinado dava lhe mais ainda um ar superior e irritante.
Calado, Locse apenas curvou-se e se retirou, os olhos tão inexpressivos como poderia estar, com leveza fechou a porta ouvindo-a bufar uma última vez. “Bastava dizer não” pensou ele, já cansado. As costas ardiam, e só de pensar que deveria oferecer seus serviços a mais duas moças lhe fazia exaustar-se em pensamento. Mas talvez para sua alegria, fora interrompido antes.
—Locse — Chamou uma empregada próxima, os peitos fartos se moviam de acordo com as saltitadas dela, a expressão cansada e as rugas de idade davam-lhe uma fisionomia gentil e bondosa. —Leve isso pro quarto 4 que eu servirei o 5. —Explicou ela, estendendo a bandeja de
chás —As princesas pediram. —Princesas. Repetiu o jovem em mente, já temendo o futuro de qualquer reino que tivesse elas como rainhas.
Não conhecia todas, mas nenhuma tinha boa fama, e a possibilidade dos boatos estarem errado eram mínimas. Com um suspiro, o jovem concordou, na mão carregou a bandeja com elegância e se depositou em frente à porta, abrindo-a.
—Licença, o chá, madame —Avisou adentrando, o olhar que recebeu em resposta se possível transmitiria raios. Os cabelos negros estavam presos em um rabo de cavalo enquanto em tédio a jovem encarava as unhas longas e bem cuidadas.
—Seja rápido, não tenho tempo pra gastar com alguém de seu calibre —Vociferou ela sem paciência, apanhando a xícara da bandeja em pressa. Ótimo, provavelmente essa também apenas reafirmava os boatos. Um gole bastou para que a jovem virasse o copo sobre Locse, o liquido sendo atirado de modo proposital na face do jovem, molhando-o — mas que droga é essa, nem está quente. Ande vá e me traga algo que preste. Como podem deixar trabalhar pessoas como você aqui? —Falou ela sem compreender, as sobrancelhas curvadas em duvida —o que está fazendo parado, ande —Gritou ela vendo Locse erguer-se —Bicho imprestável, olha só respingou em meu vestido, e agora quem pagará por isso? Argh —Falou ela sozinha, descabelando-se.
—Desculpe, irei trazer algo novo para a senhorita — Argumentou Locse se retirando. Um suspiro deixou os lábios de Locse ao fechar a porta, pediria pra uma das empregadas levar uma nova xícara à ela, não gostaria de oferecer seus serviços novamente pra essa ai.
—Como aguenta isso? —A voz tomou conta do corredor, o tom grave e firme chamou a atenção de Locse que o encarou. Gors o olhava sério, sem ao menos tentar disfarçar sua incompreensão, explícita na sua expressão de dúvida. Olhava as roupas molhadas do jovem que já se manchavam de carmim por conta do chá derramado.
—Isso não foi nada — Exclamou como se aquilo fosse uma resposta que justificasse tudo — Creio que se referiu a trabalhar aqui —Adiantou-se vendo Gors fechar a cara, demonstrando que Locse acertara —Comparado ao que passava, esse trabalho é um sonho —Afirmou, soltando uma risada sem humor, baixa e rouca —Tenho trabalho, se me dá licença — Falou curvando-se enquanto saia as pressas, tinha que passar na cozinha, arranjar um novo chá e ainda ajudar Toriam a vestir-se, pouco trabalho na sua visão.
Um jantar ocorreria a noite, da qual as três pretendentes participariam, o que para Toriam pouco importava qual fosse, para ele o casamento não seria importante, nem ao menos a lua de mel. Era como se tudo aquilo que deveria ser a felicidade do reino estivesse se transformando em um grande agouro para o jovem.
E bem distante dali uma leve garoa despencava dos céus, molhando a face de Kyo que acabara de deixar a reunião, no alto da testa uma veia pulsava em irritação.
Mais que raios de informação era aquela que havia recebido? “Uma mulher quem deu o comando”. Foda-se isso, no que ajudava essa informação? Ok, talvez bastante analisando que metade dos suspeitos foram eliminados, já que eram homens. Mas para Kyo isso não bastava, era como se a cada passo que dessem em direção à verdade, dois eram retrocedidos. Precisava de mais, descobrir mais.
Os olhos dos Saries estavam pregados no Shirian enquanto ele passava, os cenhos se franziam pelo odor fixo em seu corpo, que até mesmo foi reclamado na reunião.
Cheiro humano, o odor de Hiroshi perceptivo ao olfato tão evoluído dos seres estava em seus trajes, dando uma sensação boa de como se o jovem ainda estivesse ali.
Com necessidade o Shirian apertou o passo, acelerando, e em poucos segundos estava a correr, a cauda esquivando-se dos galhos que ficavam no caminho.
A paciência encontrava-se curta como sempre ficava após as reuniões, as bochechas doíam pelo sorriso forçado que se obrigava a ter. Ignorantes,era assim que Kyo os via, sempre a falar e repetir coisas óbvias, tirando Kyo do sério. Os olhares enviados a si sempre carregados de deboche ou admiração excessiva fazia com que sua compostura caísse aos poucos.
Deveria encontrar Hiroshi em tais condições? E se surtasse? Ah, que se dane, se não fosse vê-lo agora ficaria se remoendo em arrependimento. Melhor arriscar, o que teria a perder?
Não tardou para que pudesse avistar a entrada da caverna , as orelhas ergueram-se tentando captar um único som que lhe alertasse se estivesse sendo seguido. Nada, apenas o mover das árvores e folhas com as rajadas de vento se faziam presentes.
Adentrou a ela, os olhos azuis refletiam o brilho das pedras preciosas no minério, um arrepio aos poucos lhe subia a espinha quando captou o cheiro de Hiroshi.
Era agora, tentaria descobrir o que houve. Convicto nessa ideia, aproximou-se mais, vendo Hiroshi no canto, encolhido com a cabeça entre as pernas, escondendo a face.
Já Youru estava encostado em um tronco morto, os cabelos bancos presos no alto para que os fios não caíssem sobre os olhos vermelho-sangue.
—Ele não disse nem ao menos uma único palavra —Avisou Youru, encarnado Kyo, soltando um suspiro ao ver que o olhar não era correspondido.
—Ok, obrigado— Falou o Shirian, os olhos pregados em Hiroshi nem ao menos piscavam, o corpo em modo rígido só demonstrava o estado desconfortável em que se encontrava sempre que saia das reuniões. Consciente disso, Youru caminhou até o amigo, bagunçando lhe o cabelo de modo descontraído antes de se retirar.
O silêncio caiu sobre ambos. Não se encaravam, não falavam. A única coisa que podia ser ouvida era a respiração baixa, calma e lenta que saia de seus lábios.
“Ele deve estar bravo comigo” pensou Hiroshi amuado, afinal tinha vindo do nada, chorando e carente até o Shirian. E se ele estivesse ocupado, e se tivesse sido um incômodo? Fechou os olhos assim que ouviu as folhas secas amassarem-se com os passos de Kyo. Ele estava se aproximando, era agora ele perguntaria o que tinha acontecido, e o que falar? Contar a verdade? Tudo? Mas... talvez não conseguisse, não conseguiria... não era um assunto que pudesse falar com tanta liberdade e descontração.
Ainda perdido em pensamentos, Hiroshi sentiu os lábios de Kyo serem pressionados em sua testa, e sem que notasse o corpo já havia relaxado em um conforto único.
Uma calma que lhe foi transmitida, como se dissesse “está tudo bem, tudo ficará bem”, era como se todas as más lembranças se esvaíssem. Afinal, o que o Shirian tinha? Que poder era aquele que o fazia sentir-se confortável e seguro? Não é que todos os problemas sumissem, mas é como se quando Kyo estivesse ali, todos eles seriam nada, apenas pedras minúsculas em seu caminho, algo que lha dava força para superá-los e esquecê-los.
Minutos se passaram e Kyo continuou na mesma posição, os olhos azuis tentavam inutilmente descobrir alguma informação, uma dica, uma atitude, algo que lhe fizesse compreender o que estava acontecendo.
Mas nenhuma única pista aparecia. O que tinha acontecido de tão grave pra fazer Hiroshi chorar, tremer, gritar?
—O que houve? —Questionou Kyo, querendo compreender. Precisava saber, necessitava saber.
Hiroshi abriu os lábios sem saber o que falar; as palavras fugindo-lhe da mente. O que falaria?
—Eu... na verdade... eu ... ahh. Não consigo — Falou Hiroshi amuando-se ainda mais enquanto encolhia o corpo. —E-eu tenho que ir — Apressou-se logo Hiroshi erguendo-se com pressa. Nem ao menos um único passo foi dado, o pulso rapidamente fora segurado por Kyo, o olhar nunca fora mais frio e autoritário como agora.
—Não, não vai — Falou Kyo rapidamente, fechando mais o punho quando Hiroshi ousou dar mais um passo.
—Está tarde, tenho que ir.
—Veio chorando de lá, acha que eu vou te deixar voltar tão rápido? Não, não antes de me contar. Como vou saber se não foi de lá que veio o motivo de suas lágrimas?
—Kyo...
—Hiroshi, me dói ver o que está acontecendo e não poder fazer nada. Eu sofro com isso.
—Sofre? —Repetiu Hiroshi com certa ironia.
—Sim —Falou Kyo, a seriedade em seu tom fez com que o ruivo se arrependesse de sua ironia —Sabe o que é ver alguém importante se machucar e não poder fazer nada? —Questionou Kyo, as palavras fazendo Hiroshi ficar sem argumentos.
—E -Eu não posso te contar — Cortou Hiroshi tentando se soltar.
—Por que não? —Gritou Kyo. Se acalme, perder o controle agora não ajuda, falou para si mesmo. Por que Hiroshi não contava o que o atormentava? Não entendia, não tinha motivo, não fazia sentido, a não ser que... —Você não confia em mim — Falou Kyo soltando Hiroshi —É por
isso, não é?
—Não é verdade!
—Não? Então porque não me fala o que houve?
—... Kyo, por favor não insista.
—Não insista? Acha que a vida é assim tão fácil? Você vem e eu te consolo e depois quando não precisa mais você vai embora? — Explodiu Kyo, não medindo as palavras — Fala sério, você nem ao menos gosta de mim.
Se gostasse dele falaria não? Afinal se confia em quem se ama, e se Hiroshi estivesse apenas brincando consigo? Rindo internamente de sua preocupação, manipulando-o de acordo com seu desejo.
Claro que não era isso que o menor estava fazendo, mas Kyo não pensava mais. Ele sentia com se entre os dois, só ele estivesse perdidamente apaixonado, e realmente estava, por isso temia tanto. E se não desse certo?
Já estava amando-o demais para se afastar, e temia isso, o fato de que estava preso ao outro. Temia aquele sentimento em si que o fazia amar Hiroshi mais e mais.
—Pare com isso —Gritou Hiroshi —Vim te ver porque confio em você, porque gosto de você!
—Não, veio me ver porque não tem mais ninguém, só a mim — Alfinetou Kyo, ávido e maldoso nas palavras fazendo Hiroshi arregalar os olhos com tal frase. Era como um soco em seu orgulho.
Essa era a realidade, não? Ele só vinha me ver porque só tinha a mim, não porque gostava ou me amava, simplesmente por não ter opção...
—E é só de você que preciso —Rebateu Hiroshi sentindo as bochechas enrubescerem —Eu confio em você Kyo, pare de duvidar disso.
—Se confiasse mesmo, iria me falar.
—Não, não iria — Disse o jovem magoado, virando-se para sair.
—Mas que droga —Gritou Kyo, voltando a puxar Hiroshi —Pare com isso, pare de fingir que está tudo bem, porque não está. Pare de fingir que pra onde você vai terá companhia melhores porque não terá, e acima de tudo, para de me esconder as coisas! —Gritou Kyo — Acha que eu gosto de ficar me preocupando a toa? De te ver chorando? De querer te proteger e não poder? De me sentir um inútil por não proteger quem eu gosto e que ainda mais parece não sentir nada por mim e....
—Para! —Gritou Hiroshi, tapando lhe os lábios com a mão — Para com isso, pare de falar como se eu fosse o egoísta aqui, como se eu não gostasse de você! Eu não posso te falar porque eu sei disso! Sei que você vai engolir tudo o que eu falar pra não surtar na minha frente, sei que vai guardar toda a revolta para si e sei que isso vai te destruir por dentro. Eu não quero saber que fui responsável por isso.
Como? Então Hiroshi não estava te falando por isso? Porque estava preocupado consigo? Kyo boquiaberto não retrucou, abaixando a face, fazendo com que também as orelhas felinas recolhessem-se para trás. Os cantos dos lábios caíram em uma expressão carrancuda.
—Kyo — Chamou Hiroshi tocando-lhe a face com os dedos, um toque tão sutil que Kyo não resistiu em deixar-se levar pela caricia recebida. Como ele conseguia ser tão delicado? Como se fosse frágil a ponto de despedaçar a cada segundo.
—Desculpe —Falou Kyo — Por gritar contigo. Não entendo porque fiz isso, sempre fui tão controlado, mas depois que eu convenci a mim mesmo que te amava não consegui mais te olhar do mesmo jeito.
—Como? —murmurou Hiroshi envergonhado, enquanto as bochechas ficam de carmim para um intenso vermelho — V-V -Vo-Você... me... —Gaguejou nervoso recuando um passo.
O pé deslizou sobre uma das folhas secas, escorregando, fora rápido e em instantes Hiroshi perdeu o equilíbrio, e antes que caísse para trás sentiu os braços de Kyo contornando sua cintura.
Hiroshi não entendeu sem conseguir acompanhar a velocidade do Shirian, mas ao invés do chão sentiu o colidir com o peito de Kyo. Mas o que é isso? Perguntou a si mesmo. O peito parecia que queimava em chamas. E não era só ele, era o corpo inteiro, o coração que nunca antes batera tão rápido como se fosse explodir naquele instante.
Ele o amava? Ouvira isso mesmo? Feliz, não mais do que isso, muito mais, algo forte o bastante para fazer-lhe sorrir por dias, um sorriso intenso e gracioso tomava-lhe os lábios, ele o amava! Pelos deuses, ele o amava! o amava! Ouvira isso com todas as letras sendo ditas por aquela voz do dono de seu coração.
—Eu quero que você me conte — Murmurou Kyo encarando-o, sentindo-se vibrar com o fato de que o corpo de Hiroshi estava colado ao seu —Mas antes de tudo, quero saber se não estou cometendo um erro em confiar em você —Falou firme puxando a face de Hiroshi para si, os olhos se encarando, revezando a atenção dos lábios para o rosto sucessivamente. —Hiroshi —Sussurrou Kyo deixando os lábios a milímetros —Você também gosta de mim? —Questionou, a mão deslizou pelas costas do ruivo ameaçando chegar até as nádegas para então retroceder.
—Maldito —Reclamou Hiroshi atordoado —Está fazendo isso tudo apenas para eu não poder falar não.
Kyo riu, uma risada alegre enquanto invertia as posições, o corpo deitando-se sobre o de Hiroshi, as pernas colocando-se entre as do ruivo, excitando-se com a expressão nervosa do pequeno que se remexia sem saber como lidar com a aproximação. Fez questão de deixar a cauda roçar no braço do menor, divertindo-se ao ver os pelos se arrepiarem.
—Eu não ouvi resposta — Afirmou Kyo, aproximando os lábios disposto a beijar Hiroshi. Pelos céus, o que estava acontecendo? O que eu faço? Porque sinto como se a temperatura tivesse subido tanto? Por que meu coração bate tão forte que quer sair pela garganta? “Ah” Murmurou Hiroshi em pensamento quando sentiu a cauda do Shirian roçar em si, o corpo arrepiou-se. Merda, pare com isso Kyo, pare de me provocar, deixe-me pensar. Falava Hiroshi a si mesmo.
—E-Eu também... —Murmurou o ruivo inebriado, aproximando os lábios dos de Kyo. Quanto mais sua face se aproximava mais a de Kyo se afastava, fazendo o Shirian rir. E quanto mais Hiroshi se aproximava mais Kyo retrocedia em um jogo de gato e rato que irritou o menor, não contendo um gemido de frustração.
—Também o quê? — Pergunto Kyo, provocativo.
—Eu... Também te amo... —Gaguejou Hiroshi fechando os olhos, sentindo por fim os lábios de Kyo nos seus, em uma daqueles beijos que deixaria qualquer um sem fôlego, a euforia e necessidade de tal contato fazia com que a pressão exercida de ambos os lábios ultrapassasse o
limite do que o coração aguentava. Estava quente, podiam sentir um mormaço fora do normal envolvendo-os.
As bocas mexiam-se com decisão e firmeza, a provocação contida nas leves mordiscadas que Hiroshi recebia, corando quando notava os arrepios subindo-lhe a espinha, prazerosos e lentos que aumentavam de frequência a medida com que Kyo avançava.
A mão já pousada sobre a nuca do Shirian trazia para mais perto seu rosto, de encontro ao de Hiroshi. Os corpos com naturalidade já se juntavam mais, as pernas se encaixando entre si, os peitorais colados, a mãos acariciando a pele desnuda do braço e pescoço.
Não tinha como se segurar, na realidade Kyo não queria se segurar. Era indescritível a sensação de ser correspondido, de ver que aquele que você ama, que você quer proteger, que você que cuidar, que você quer para si, sentir o mesmo.
Foi ciente disso que Hiroshi separou os lábios, dando fim ao beijo, o peito subia e descia em descompasso. Uma paixão proibida, uma louca paixão proibida, era isso que aquilo havia se tornado. E se tudo isso um dia se tornasse um erro, seria um erro que ambos estariam dispostos a cometê-lo milhões de vezes sem se arrepender.
—Kyo — Chamou Hiroshi, envergonhando-se com o modo com que o Shirian o encarava, analisando-o, gravando as mínimas reações do ruivo como uma preciosa lembrança —Se eu te falar, promete que não me impedirá de ir depois?
—Depende —Falou Kyo, aderindo ao tom serio —Vamos ver antes o que tem a me falar.
Não teria jeito não é? Com um suspiro Hiroshi fechou os olhos. Tanta coisa pra falar, tanta história pra uma noite apenas. Notando o receio, o Shirian roçou os dedos em um toque leve pelo braço de Hiroshi, descendo até que a mão se envolvesse com a do ruivo, entrelaçando
os dedos, transmitindo confiança.
E enquanto Hiroshi dava inicio a história, a face de Kyo ia ficando cada vez mais estática, sem reação, tentando não interromper e digerir a informação recebia. E no mesmo instante, não muito longe dali, Dilan não conseguia dormir.
Alexander idiota, como pode? Pensava o príncipe irritado cerrando o punho, sorte que a caneca era e madeira se não já teria se despedaçado pela força exercida nela.
O beijo fora interpretado como um deslize, que Dilan tentaria evitar na próxima vez que visse Alexander, mas não era isso que estava lhe tirando do serio, ele nem dava a importância que devia a tal ato.
Na mesa, papéis se espalhavam de modo desarrumado. Anotações, leis, bilhetes, cartas, mandamentos...
O tempo estava se esgotando, o tique taque do relógio soava alto em sua mente, os dias no calendário jaziam todos riscados, faltando apenas duas semanas, só duas semanas. Como agiria?
Como jogaria? Que peça moveria? Com que arma atacaria? Estava difícil prever os próximos movimentos de Edward, e a cada segundo de demora, mais perigoso parecia.
Dilan tinha que se livrar de Edward, claro que seria a primeira coisa que faria ao se tornar rei, mas aí é que estava a questão: Edward faria algo para impedir, sabia disso, tinha ciência de tal fato.
Mas quando? Não fazia sentido, não tinha lógica, ainda mais agora que Alexander não estava ao seu lado. Para que decidir visitar a filha logo agora? Droga, mais que droga, reclamou Dilan a si próprio ao notar como não conseguia pensar direito sem Alexander por perto.
Mas isso não significada nada não é? Não é? Né? Falava para si próprio tentando convencer-se de que não estava apaixonado pelo outro.
E que mal havia nisso? Todos! Temia o fato de que um dia pudesse acordar e vê-lo enforcado, punição, de acordo com muitos, justa a aqueles que pecavam, que se apaixonavam pelo mesmo sexo.
Dilan era o príncipe, mas ainda não detinha todo poder, podendo não impedir nada disso. Pelos deuses isso não fazia sentido! Dilan era filho do melhor amigo de Alexander, Alexander já era pai, tinha uma filha até mais velha que Dilan, então porque se apaixonar logo por ele?
Concentre-se Dilan, não é hora para romance, Edward é a questão em jogo. O loiro balançou os cabelos, jogando os fios louros para trás em nervosismo. Esperaria Alexander voltar e decidiria o próximo passo de Edward, isso era o melhor a se fazer.
Só que uma coisa ele ainda não sabia: talvez, algo pior o aguardava, talvez não houvesse tempo dele próprio agir, ou de até mesmo Alexander o salvar.
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