O Último Shirian [hiatsu]
12 Capítulo 12 - Remorsos
Notas iniciais
— Ahhhhh —Foi com esse grito que pela 9º vez Kyo ergueu-se em um salto, os olhos sonolentos já caíram sobre Hiroshi, sabendo que era ele quem o dissera —Me larga — Gritou o menor socando o ar, os olhos fechados enquanto se debatia no chão.
Mais um pesadelo, concluiu Kyo com um suspiro, as mãos esticaram-se até alcançar as madeixas ruivas, passando delicadamente os dedos em um carinho.
No olhar, frieza. Não importa o motivo, a pessoa que tenha feito isso com o Hiroshi pagaria, ah como pagaria. Kyo faria essa pessoa se arrepender de ter se aproximado dele, de tê-lo deixado assim!
Na face, um misto de remorso e irritação. O que havia ocorrido para deixar Hiroshi nesse estado? O que o atormentava tanto? Inútil, era assim que o Shirian se sentia por não poder fazer nada. Se acordasse Hiroshi, ele cairia em prantos como ocorreu a algumas horas atrás, quando tentou fazer isso. Tudo que ele poderia fazer era zelar pelo sono do outro, e nada mais.
Deixou seu tronco cair ao lado de Hiroshi, enquanto, com calma, fechava os olhos, se deitando, a mão ainda nos cabelos do pequeno, trazendo-o para si de modo possessivo.
Podia notar leves olheiras abaixo dos olhos esmeraldas sempre tão vivos para si. Há quanto tempo ele não dormia direito? Balançou a cabeça, afastando tais pensamentos. Se continuasse eles com certeza chegariam em conclusões que apenas piorariam seu humor.
—Você tem que dormir — Reprimiu Youru, a voz ecoando sobre o local pequeno e abafado pelos troncos das árvores. Os cabelos brancos caíam por seus ombros alvos, e o corpo encostado na parede de rochas frias da caverna. Ao fundo os cristais azuis iluminavam aleatoriamente sua pele dando-lhe um ar sombrio.
E tudo que o Shirian fez em resposta foi passar a mão em seu cabelo que caía por sua face, jogando-o para trás. HÁ quantas horas estava acordado? Não sabia, e também não se importava. Os olhos nem ao menos piscavam enquanto encaravam o menor.
—O que quer aqui? —Perguntou frio; não estava com climas para brincadeiras, mas pela expressão de Youru, o amigo também não estava.
—O que ele está fazendo aqui? —Rebateu o mestiço, os olhos focados no pequeno corpo estirado na grama rala em que o outro dormia.
—Não estou com tempo para suas besteiras Youru, seja direto — Rude? Talvez um pouco, entretanto, Youru não esperaria reação menor do Shirian, ainda mais com aquele olhar.
Era já a segunda vez em menos em um mês, mas o que raios estava acontecendo? Aqueles olhos, azuis e brilhantes, não estavam mais ali; eram escuros, sem vida, e totalmente tenebrosos. Ficou em silêncio por alguns segundos, programando a fala. Quando Kyo está assim, até o mínimo deslize nas palavras seria motivo para uma discussão.
—O líder quer te ver — Informou, recebendo um olhar do amigo que fez seus pelos se arrepiarem — não me olhe assim, eu também não quero ir vê-lo.
O Shirian ergueu-se nervoso, os passos se direcionaram até a mais grossa árvore, enquanto em forma de punho a mão se cerrava, socando-a. Isso diminui a raiva? Não, porém minimamente a aliviou.
—Invente uma desculpa. Não estou com cabeça para aquelas reuniões sem sentido.
—Eu não posso comparecer à ela, os mensageiros fizeram questão de deixar isso bem claro para mim — Ladrou o mestiço, trincando os dentes, relembrando os olhares que recebeu, e o tom de deboche. Ah, como queria se vingar. E aqueles seus olhos vermelhos não podiam estar mais cintilantes como quando prosseguiu a fala — Se eu for, irei matar um... Não que isso seja um problema, o faria de bom grado.
Kyo revirou os olhos, fixando-os por fim em Hiroshi.
—Eu não posso deixá-lo aqui. —Comentou com pesar. Deixá-lo sozinho depois do estado em que ele tinha chegado? E se ele acordasse? E se chorasse novamente? Kyo queria estar ao seu lado, ainda mais naquele instante.
—Pode sim — Falou Youru convicto. O que raios estava acontecendo? Ele só ficaria algumas horas fora. Que o Shirian parasse de chilique! O que de mal poderia ocorrer nesse pequeno espaço de tempo? Nada.
—Você não viu o estado em que ele chegou — Afirmou Kyo, sem conseguir deter o rosnado que escapou de seus lábios. Fechou os olhos, revendo a imagem de Hiroshi no chão, as lágrimas saindo dos olhos sem descanso; a face com medo, o corpo tremendo.
Uma dor passou por si só por recordar. Não queria que isso ocorresse novamente. Não queria vê-lo chorando, não queria vê-lo tremendo, não queria vê-lo com medo. Não queria vê-lo com nada além do sorriso alegre que sempre possuía.
—E pelo seu estado, aposto que nem se deu ao trabalho de perguntar o que houve. E se for mais um chilique? —Youru sabia muito bem como Kyo era, odiava surtar sem motivo. Era do tipo que preferia, ao invés de surtar, consolar aquele que sofrera, guardando o rancor para si; para depois, com as próprias mãos fazer justiça ou descontar a raiva em outra coisa.
—Não é um chilique. — o tom era frio e direto, e nem mesmo o próprio Shirian reconheceu. Não era mais um chilique, não era algo sem motivo.
—Como você sabe?
—Eu apenas sei. —Há quanto tempo conhecia Hiroshi? Um mês e meio, talvez mais. Então, por quê? Por que mesmo sem perguntar sentia que sabia tudo sobre o outro? Por que em sua mente o conhecia o suficiente para saber disso, e mesmo assim parecia pouco para si? Queria mais, conhecê-lo mais, conviver mais com ele.
—Kyo, você já tem faltado à reuniões demais; se continuar assim, vão mandar Saries para te vigiar. E se eles veem Hiroshi? —Qual era o problema do Shirian? Não consegue ver o quão arriscado era estar agindo daquele jeito? Sempre faltando às reuniões, sempre colocando Hiroshi em primeiro lugar... Aquilo já estava sendo um erro, do qual somente Youru conseguia notar.
Já estava passando dos limites, e isso fazia a
paciência do mestiço diminuir drasticamente.
—Ele precisa de mim, Youru, não posso deixá-lo sozinho. —De novo isso? Está tudo bem gostar de Hiroshi, ele pouco se importava com isso, era bom para Kyo ter alguém que amasse, isso ele não negava. Mas aquele amor cego, Youru não conseguia compreender. Pegando fôlego, surtou.
—Mas que droga Kyo! Escute o que está falando, nunca ouvi tanta asneira! Está arriscando a sua segurança pelo o quê? Por ele? Se te encontram com um humano tem noção do interrogatório que lhe fariam passar? E se descobrem que namora ele? Céus, eles te matariam! —Não era a intenção ser rude, ou até mesmo menosprezar a importância de Hiroshi, mas se for para escolher entre a segurança de um humano e a de Kyo, então escolheria a do amigo, que agora já estava no fim. Kyo já estava se arriscando demais. — Ele vale realmente todo esse risco?
—Vale. —Respondeu Kyo convicto. Por algum motivo, tinha tanta certeza naquelas palavras do que em qualquer outra coisa.
—Eu não entendo. Isso não é mais paixãozinha, já é doença — Ladrou Youru, revoltado — Por que enfrenta tudo isso? Porque se arrisca tanto? —Perguntou, virando-se na direção de Kyo, que abaixou as orelhas pensativo.
A mente repetia tais palavras. Por quê? Questionou para si próprio. Por que se arriscava tanto por um humano? Logo a raça que mais odiou. Por que para si parecia que o bem estar de Hiroshi era mil vezes mais importante do que esse risco?
A memória retornou ao momento em que o conhecera. Nem fazia tanto tempo, e para Kyo já parecia distante demais, tantas eram as lembranças tinha conseguido em pouco tempo. Hiroshi o libertara da armadilha do qual havia ficado preso, por qual motivo? Por que se importava tanto com o pequeno? O que ele tinha tanto de bom ?
Um sorriso tomou a face do Shirian. O pequeno sempre tímido aparentava fragilidade, mas era forte por dentro, sempre alegre, odiava preocupar os outros, se importava mais com o bem estar dos próximos do que o dele próprio. Era humilde, bondoso, alegre, sincero... Se Kyo fosse falar tudo o que pensava ficaria recitando por horas. Ele sabia o motivo de ter coragem de arriscar tudo, sempre soube.
—Por que o amo. —Declarou sem receio ou vergonha. As palavras faladas de um modo tão carinhoso que tiveram um amplo impacto na resposta que dera a Youru.
É, parece que Kyo não mudaria essa opinião. Com um suspiro, o mestiço caminhou até o amigo, sentando-se na grama ao lado de Hiroshi.
—Ok, eu fico com o Hiroshi. Agora vá — Propôs Youru, desistindo de se opor, e nada foi mais gratificante que o sorriso que Kyo deu em agradecimento.
Há quantos anos que não via um sorriso como aquele em Kyo? Há muitos. Assim que Youru ficou sozinho, virou-se na direção de Hiroshi. O que aquele menino tinha para fazer Kyo ficar daquele jeito? Se arriscar tanto? E mesmo assim o deixar tão feliz?
—Seja lá o que tenha feito para conhecer Kyo... —Começou Youru o encarando — Obrigado —agradeceu com um sorriso.
Kyo mal havia saído da caverna e já pegara uma incrível velocidade, mas para ele a rapidez não fazia jus a velocidade que desejava.
Queria ir mais rápido, ir logo para voltar logo. Talvez dois minutos ou até mesmo três haviam se passado quando alcançou uma distancia considerável da caverna.
O corpo obrigou-se a parar, fixando forte os pés contra o chão, a coluna indo para frente em um cambaleio pela mudança brusca de ritmo; as orelhas ergueram-se em atenção, na tentativa frustrada de reconhecer o som que se aproximava cada vez mais rápido. Estava vindo! Os dentes caninos ficaram à mostra enquanto rosnava em um aviso mudo de incômodo e irritação.
Em instantes o Sarie entrou em seu campo de visão, os olhos pregados em Kyo não desviaram nem ao menos quando pousou no chão, em um toque tão sutil que não emitiu som.
— O que quer? — Grunhiu Kyo sendo direto. Mal tinha paciência para ir ao reunião, e trombar com um Sarie não ajudava nem um pouco a melhorar seu humor.
—Estou apenas seguindo ordens — Retrucou o outro, dando de ombros como quem realmente não se importava. Nos lábios, um sorriso de canto se abriu, carregado de ironia — Do jeito que anda, só te escoltando para comparecer.
—Não preciso de um cachorrinho me seguindo para saber onde vou ou não —Falou o Shirian avançando um passo, disposto a seguir em frente e deixá-lo para trás.
—Tem razão, Youru já faz esse trabalho como seu mascote — Segundos, talvez até menos tempo tenha demorado para a mão de Kyo estar apertando a garganta do Sarie.
O ser revirou os olhos, debatendo-se na tentativa de se soltar. Não conseguiu, e a medida que o aperto ficava mais forte menos ar conseguia puxar para seus pulmões. Kyo estava no limite de sua paciência, não tinha pior hora para o outro debochar de Youru.
Os olhos faiscaram de desejo quando sentiu a vontade de cravar as unhas e os dentes no pescoço do Sarie. Kyo deteve-se, soltando-o quando percebeu que já estava saindo do controle.
—Sua cara me da ânsia, sua voz me irrita. Então, se não quer me tirar do sério, sugiro que saia agora da minha frente — Cada palavra de Kyo foi ditada com lentidão e sarcasmo, enquanto os lábios pareciam finalizar cada sílaba com um sorriso de certo modo maníaco.
Os lábios de Sarie se abriram prontos para proferir uma resposta, que perdeu-se em sua mente ao visualizar o semblante de Kyo. Mesmo odiando o ato, tremeu.
Trincando os dentes, o Sarie ergue-se, entrando floresta adentro, a mão no pescoço massageando o local dolorido. Ah, como Kyo queria matar um naquele instante, descontar toda a raiva acumulada em si. “No que estou me tornando?” — perguntou a si mesmo, reprimindo-se pelos pensamentos. Respirando fundo, virou-se, dando uma última olhada na direção da localização da caverna, a imagem de Hiroshi lhe vindo a mente enquanto suspirava pesado em frustração e ia em direção à reunião do clã.
E Bem distante dali, Toriam não poderia estar mais nervoso. Embaixo das cobertas, recusava-se a sair da cama a todo o custo.
—Tens que comer príncipe — Advertiu Locse com o prato nas mãos, encarando o amigo que detinha a face vermelha pelas lágrimas que derramara.
—Vá a merda Locse, me deixe sozinho —As palavras rudes nem ao menos afetavam Locse, que se aproximou mais alguns passos deixando sobre a escrivaninha o prato repleto de comida.
—Não pode continuar assim para sempre. Você sabia que uma hora isso aconteceria...
—Eu sei, mas por que agora? Logo agora que Gors me aceitou, que a gente ficou junto, logo agora que ele disse que me ama... —Novamente a voz se elevou, e se continuasse assim, mais pessoa ouviriam. Percebendo isso Toriam calou-se.
—Nós dois sabemos que só há uma opção, Toriam — Afirmou Locse a contra gosto, os cachos lhe caiam sobre a face preocupada. Aquilo que o rei fizera... foi desprezível.
—Sim, e- eu tenho que fugir daqui, e fazer as malas, pegar um pouco de ouro e... —Falava Toriam eufórico levantando-se enquanto apanhava o casaco, crente dessa ideia.
—Pare com isso, sabes muito bem que o que tem que fazer é contar para Gors. —Interrompeu Locse segurando-lhe o braço. Claro que um empregado nunca teria tal audácia. Foda-se essa merda de classe social, nem Locse nem Toriam estavam se lixando para isso, ainda mais naquele instante.
—Está louco? Se ele souber que eu aceitei isso por causa dele... —Começou Toriam amuado. Gors nunca concordaria de fazer isso. Mesmo que o rei insistisse, e quando ele descobrisse que Toriam havia aceitado por sua causa? —Eu não sei como ele reagiria. Desde pequeno fez de tudo para satisfazer meus mimos, mas saber que eu estarei fazendo isso contra minha vontade e que ele foi usado para eu aceitar...
—Você não tem outra opção. —É, aquela era a triste realidade. Toriam não esconderia, não era de fazer isso, mas também não iria contar.
—O que eu faço Locse? —Perguntou alto, massageando as têmporas sem conseguir arranjar uma solução.
—Você quem sabe príncipe —Infelizmente, conselhos eram o máximo que o jovem poderia dar a Toriam. Virando-se em direção à janela, um sorriso triste tomou-lhe a face — Ele vem vindo ai. —Avisou, vendo Toriam erguer-se. Do outro lado, no pátio do castelo, Gors caminhava com um braço enfaixado, provavelmente por conta de alguém corte em batalha, e na cintura a espada estava presa com firmeza pelo laço do kimono.
Locse já se virava para se retirar quando sentiu o tecido da sua blusa sendo segurado. Virou-se, deparando-se com Toriam. O mesmo o olhava quase como se pedisse um socorro, que Locse não poderia dar.
—Tenho afazeres majestade — Informou com pesar, curvando-se e saindo.
Não tardou para Gors entrar no quarto, um
sorriso na face rubra não conseguindo conter o receio ao encontrar Toriam.
Queria desculpar-se. Desculpar-se por ter saído
sem se despedir, por não ter dado noticias...
Em pensar que Gors não conseguiu tirar Toriam da cabeça nem um único instante em toda a viagem, a missão fora um sucesso e um incrível desafio ao mesmo tempo. À cada passo que se distanciavam do castelo, mais vontade tinha Gors de retornar e beijar Toriam.
Aquele soldado frio em batalha e sério em missões estava se desfazendo mais a cada instante. Afinal, como se concentrar em papeladas de informações desnecessárias enquanto poderia estar ao lado de Toriam.
O menor poderia ser mimado, maníaco em certo ponto, exagerado, infantil, esnobe, e principalmente safado. Mas tudo isso tornava Toriam único, cada característica, cada mínimo detalhe.
Toriam ergueu-se, encarando-o. Gors esperou, vendo-o abrir a boca. Talvez para falar “você está atrasado” ou então “estava com saudades” — pensou Gors prevendo as palavras dele.
—Seu idiota —Falou Toriam, fazendo Gors surpreender-se. Com a mão em punho Toriam socou-lhe o peito sem o mínimo efeito —Eu estava preocupado, custava mandar noticias? —Bradou socando-lhe mais vezes.
Os lábios de Gors se abriram em um sorriso sincero, enquanto os dedos passavam entre os fios castanhos de Toriam.
—Desculpe.
—Cala a boca — Sussurrou Toriam, erguendo-se na ponta dos pés enquanto beijava Gors, os lábios se movendo em sincronia.
As mãos de Gors pousaram na cintura de Toriam. Era agora, Gors o afastaria — pensou o menor sabendo que talvez estivesse passando dos limites.
Entretanto, Gors segurou mais firme, trazendo o pequeno para si. Era errado? Talvez, mas quem pensaria nisso depois de tudo o que haviam passado?
Ainda beijando-o, Gors inclinou-se, deitando Toriam na cama. A boca parecia nunca se cansar de explorar a de Toriam, tão pequena e mesmo assim tão experiente.
—Você é uma delicia — Sussurrou Toriam assim que os lábios se afastaram, dizendo-o ao pé do ouvido de Gors, que vibrou com o comentário particularmente típico de Toriam — Por que demorou na missão? —Indagou, não conseguindo conter o receio da possibilidade de Gors estar envolvido no plano de seu pai.
—Recebemos uma informação de que havia exércitos vindo do reino vizinho, e ficamos dias à mais, porém ontem confirmaram que era um boato —Comentou Gors beijando-lhe o pescoço.
E cada toque de Gors fazia o corpo de Toriam vibrar, apaixonado, um arrepio único que ele sentia só com o soldado. E isso piorava tudo, saber que aquele toque, aquelas mãos, aqueles lábios não seriam mais seus.
Tinha que falar para Gors. Tinha que dizer que havia aceitado, tinha que arcar com as consequências, e absolutamente tinha que o deixar ir se ele quisesse... E esse pensamento o fazia remoer-se em dor por dentro.
—Gors... —Começou o menor com receio. Entretanto, antes que pudesse prosseguir com a fala, duas batidas na porta foram ouvidas.
Com certa pressa Gors saiu de cima de Toriam, que sentou-se na cama, gritando um “entre” em permissão para que Locse entrasse.
—O rei que lhe ver — Informou o jovem, nos olhos uma preocupação que não passou despercebida por Gors, que virou a face para encarar Toriam. O peito falhou ao notar a dor explicita eles. O que havia ocorrido? Por que aquele clima tenso?
—Toriam —Chamou Gors, saindo do quarto, mas foi ignorado —Toriam —Chamou novamente, segurando-lhe o pulso, impedindo que o menor continuasse a andar e ignorá-lo —O que há com você?
—Nada — Mentiu Toriam em pura apreensão.
—Não minta para mim —Repreendeu Gors —Lhe conheço a tempo suficiente para saber quando fala a verdade!
—Eu... —Toriam engoliu em seco, sentiu um temor passar por si. Ignorou-o. Respirando fundo, manteve-se firme, erguendo a face — Tenho que te falar uma coisa — Informou resoluto.
—Diga — Falou Gors, mas algo em seu íntimo parecia alertar-lhe que as próximas palavras ditadas pelo menor seriam um agouro.
—Quando você estava fora... —Começou Toriam, respirando fundo —meu pai me disse que só deixaria você voltar da missão se eu prometesse que me-
Antes que pudesse prosseguir com a fala, a porta do salão principal escancarou-se em um baque estrondoso, por ela o rei adentrou com um sorriso satisfatório na face.
E logo atrás, do lado de fora, três carruagens se estacionavam, os cavalos belos e brancos relinchavam inquietos.
As pequenas portas se abriram e pelas mesmas pode ser visto as três belas garotas aparecerem. A primeira, de pele morena e cabelos negros, trajava um vestido azul bordado que lhe ia até os tornozelos, vestimenta que na época até poderia considerar-se vulgar por não tampar-lhes os pés. Um ar esnobe a rondava, como quem sempre se achava superior.
A segunda, loira de olhos azuis vívidos, o vestido rosa lhe caía justo e formoso, a face transparecia o caráter mimado e ignorante. A terceira detinha cabelos castanhos claro eolhos cor de mel, o vestido laranja combinava com as joias pesadas que pendiam no pescoço, um sorriso de deboche era lançado às outras duas garotas.
Três jovens, três belas e ao mesmo tempo convencidas e mimadas — pode concluir Toriam apenas com o olhar.
—Que são elas? —O menor fora direto. Toriam aproximou-se alguns passos, enquanto Locse se colocava ao lado de Gors, um
olhar de poucos amigos sendo jogado no pai em tom acusatório.
—Suas candidatas — Informou o Rei com empolgação, vendo a expressão de Toriam tornar-se confusa.
—Locse — Chamou Gors, sem desviar a atenção das as três moças afora, uma conclusão lhe vindo a mente, da qual internamente rezava para ser mentira —O que Toriam teve que prometer?
Locse encarou receoso, sem saber se deveria ou não pronunciar-se e mesmo com duvida decidiu-se, suspirando.
—Que se casaria — Aquilo pareceu ser mais doloroso que o mais forte golpe de espada que Gors já recebera em todos esses anos —O pai dele o fez prometer... —Gors já não ouvia, parecia que tudo havia ficado em silencio. Aquilo era mentira, certo? Certo?
—Está falando que por minha causa... Toriam teve que prometer que se casaria? —Murmurou Gors, em instinto pousando a mão sobre a bainha da espada para reprimir a revolta.
—Isso aconteceria de qualquer modo... —Falou Locse, tentando amenizar a situação —Gors —Chamou pelo soldado, que virou-se, se afastando.
E no meio do salão, pai e filho ainda discutiam.
—Candidatas a que? —Perguntou Toriam não vendo
Gors distanciar-se.
—Como assim a que? Ao noivado é claro! —Falou o rei, e boquiaberto Toriam as encarou, ainda paradas em frente ao castelo, olhando-o como animais selvagens prestes a apanhar a presa.
Casar-se com elas? Com mulheres que se interessam nele apenas por ser o príncipe? Mulheres esnobes e metidas? Mimadas e frescurentas? Não, não se casaria com elas. Não as amava, não as conhecia, não gostava delas. No fundo não queria casar-se com ninguém que não fosse Gors.
E foi ao lembrar-se do soldado que se virou, sem encontrá-lo. Os olhos percorreram o salão, parando na porta distante, aonde ao longe pode avistar a fita vermelha de Gors sumir rumo ao pátio, retirando-se do salão.
Entretanto, antes que pudesse ir atrás do soldado, a mão de seu pai firmou-se em seu pulso como da ultima vez, apertando-o brutalmente.
—Aonde pensa que vai? —Bradou o rei, censurando-o com o olhar.
—Tsc —Exclamou Toriam, trincando os dentes —Me largue. Já conseguiu o que queria, tem a minha palavra. O que quer mais?
Um sorriso tomou a face do rei, que puxou o filho até o corredor, adentrando o primeiro quarto que viu.
Com força empurrou o menor para dentro, tirando a máscara de calma que detinha.
—Não seja criança, Toriam. Trouxe sua babá de volta, mas não é para perder seu tempo com ele. Agora volte para o salão e cumprimente as moças, zele pela pouca reputação que lhe resta — Bradou o rei.
—Perco meu tempo falando com alguém como você, não com ele — Respondeu Toriam, ávido nas palavras. Sabia dos risco, mas não ficaria calado diante de tais ofensas, ainda mais quando proclamadas a Gors — E de nada me adianta cumprimentar aquelas vagabundas. Conheço-as a dedo para saber o pouco caráter que têm. —Retrucou, vendo uma veia saltar no pescoço do rei. Ele estava nervoso — E não venha falar de reputação só porque eu tenho uma
a zelar, muito diferente de você.
Com um soco, o corpo de Toriam caiu ao chão. O Rei ainda bufava, o olhar com raiva, a face sem o mínimo remorso pelo ato.
—Acho que perdeu a noção de com quem está falando.
—Digo o mesmo — Murmurou Toriam com a mão sobre o olho que lacrimejava com o impacto. Com certeza ficaria roxo. Não foi preciso levantar a face para constatar que o pai havia saído, o baque da porta e o som do trinco foram o bastante para alertá-lo de que estava trancado.
Não tinha como aquele dia ser pior, tinha? Com um pesar, Toriam sentou-se no chão. Mesmo sabendo o quão errado era, não pode impedir a vontade de ter Gors ao seu lado naquele instante.
Era errado, certo? Querê-lo só para si, desejá-lo, e pedir para que fique consigo mesmo quando ele mesmo se casaria. Era errado torná-lo nada mais do que seu amante. Isso apenas prejudicaria a vida do outro, o impediria de ter uma mulher, filhos e alguém que o ame... Não, a última parte ele tinha, Toriam o amava. Há anos!
E no silêncio do quarto, o som do trinco destravando chamou a atenção do jovem príncipe. A porta se abriu e o menor não pode deixar de sorrir ao encarar aqueles cachos negros de seu amigo.
—Rápido, Gors está no bosque — Informou Locse, olhando para os lados com receio que o pegassem no flagra.
—Estás louco, vão lhe punir por não seguir as regras.
—Eu nunca as sigo — Falou Locse com rapidez, puxando Toriam para fora —E serão apenas três ou quatro chibatadas —Concluiu trancando novamente a porta —Vá logo.
Tudo o que Toriam pode dar fora um olhar de agradecimento, enquanto corria castelo afora.
O sol já se punha manhoso, mesclando o céu em um tom alaranjado e vivo, iluminando a face de Dilan, que com os mapas nas mãos falava com o soldado ao seu lado.
—Se você for por aqui pegara uma rota melhor — Falou com calma.
E encostado na parede, Alexander o encarava de modo repreensor. Desde que haviam contado aquilo para Hiroshi, Dilan não parar um único segundo, tentando distrair-se. Ele estava fugindo, e saber disso irritava Alexander.
—Mas majestade, por aqui há montanhas e...
—Está me repreendendo? — Bradou Dilan. O olhar frio fez o homem calar-se a contragosto e negar com a cabeça — Bom mesmo, pois se estivesse, o faria se arrepender. Agora vá, quero vocês de volta em três
dias.
O homem se curvou, retirando-se com certa pressa, na face, óbvio o desgosto de receber ordem de alguém jovem como Dilan. E mal ficaram sozinhos, que Dilan soltou um suspiro.
—Ele ainda não retornou — Falou, referindo-se a Hiroshi. Com certa impaciência virou-se em direção a janela encarando as árvores afora, o corpo recostado na mesa de modo charmoso — Eu sabia, ele não vai mais voltar. Ele...
—Dilan — Falou Alexander, tentado reprimir o menor, que parecia mais nervoso do que qualquer outra coisa.
—Ele estava na biblioteca, certo? O que ele estava fazendo lá? —indagou consigo mesmo, tentando compreender o motivo.
—Dilan! —Chamou novamente, sem sucesso.
—E se ele estiver se escondendo? —Questionou, pensando na possibilidade.
—Dilan !!! —Gritou Alexander impaciente, pondo-se de pé na frente do loiro —Se acalme —Bradou, pousando a mão no ombro de Dilan para que ele parasse de andar.
E Dilan parou, a face abaixada fazia com que os cabelos cobrissem os olhos azuis, impedindo que Alexander olhasse sua face.
—Foi a coisa certa a se fazer — Informou Alexander, sabendo que esse era o motivo da inquietação do outro.
Silêncio. Aquele silêncio estava se tornando torturante na opinião de Alexander.
—Eu sei — Murmurou Dilan. Aquela realmente havia sido a coisa certa a se fazer, mas mesmo assim... Não eram boas memória para Dilan nem para Hiroshi. Como teria preferido esconder tal verdade eternamente de todos. Como queria que não tivesse acontecido. —Mesmo assim... —Começou, a voz tornando-se trêmula e fraca.
Ele choraria novamente? Por favor, não. — Pediu Alexander em pensamento. Desde que Hiroshi havia saído, tudo o que Dilan fizera
fora erguer-se e sorrir, mas ainda assim caíam, aquelas lágrimas caíam.
Revolta, raiva, nervosismo. Por quê? Em pensar que Dilan chorava por causa daquele inútil, imprestável, cafajeste do Edward, e em pensar que, por conta dele ser da família real, não poderia chegar e socar-lhe a cara simplesmente.
—Me desculpa — Murmurou Dilan com pesar —Você tem família, uma filha, certo? E... Fica perdendo seu tempo comigo. Hiroshi passou aquilo por minha culpa, você perdeu seu tempo aqui por minha culpa, no fim-
Alexander não permitiu que Dilan prosseguisse. Curvando-se e sabendo que se arrependeria mortalmente disso, beijou Dilan.
Os lábios se encostaram em um pedido mudo de “Cala a boca” do maior, os olhos de Dilan se arregalaram surpresos pela ação,
recuando um passo, sentindo o corpo bater contra a parede.
As bochechas enrubesceram com brutalidade. O que Alexander pensa que estava fazendo? — Pensou Dilan, disposto à gritar com o outro. Pensando assim, abriu os lábios com xingamentos na ponta da língua.
Mero erro. Foi ao abrir os lábios que a boca de Alexander encaixou-se na sua, e novamente um onda de prazer tomou-lhe o corpo, fraquejando as pernas antes firmes.
A língua invadiu-lhe a boca, encostando-se à sua. Não tinha mais como negar, também o queria. Foi com essa decisão que retribuiu o beijo, a culpa se esvaindo de sua mente, assim como tudo. Como era bom não pensar em nada a não se naquele beijo.
Mas era claro que a felicidade pouco durou. Não tardou para que a imagem de Edward lhe viesse a mente, fazendo os olhos de Dilan se arregalassem em medo. Aquelas mãos lhe tocando o corpo, a boca obrigando a sua a abrir-se, a língua tocando a sua, causando ânsia.
Com força Dilan empurrou Alexander, que retrocedeu alguns passos. Um tapa foi ouvido, em um estralo forte.
—Desculpe, eu não... —Começou Dilan. Não queria bater nele, não queria afastar ele, não queria parar aquele beijo. Só que quando a imagem de Edward lhe veio a mente não pode deixar de fazer tal ato —Eu pensei que tivesse superado —Falou, caindo ao chão, enquanto os dedos envolviam os cabelos, os puxando para trás— Eu tinha certeza que havia superado, mas ele ainda me vem a mente, ele...
Alexander ignorou a ardência em sua bochecha, abaixando-se ao lado do jovem, que lhe abraçou como uma criança com saudades. Era incrível como era frágil em alguns momentos.
Sentia raiva quando o via frio, com aquela máscara de forte que o obrigavam a usar como um futuro rei. E agora, a face estava totalmente tenebrosa e irritada, em pensar que Edward ainda lhe vinha a mente, em pensar que Dilan ainda se recordava daquele... desprezível.
—É minha culpa, desculpa por te beijar — Falou Alexander com certo remorso.
Dilan ergueu a face, encarando-o enquanto aproximava os lábios da boca do outro, dando-lhe um selinho.
—Não se culpe por isso — Falou rubro, desviando a face, enquanto se erguia, jogando os cabelos para trás — Tenho uma reunião daqui à uma hora. Está dispensado se quiser.
—Já disse que estou aqui porque quero há anos, do mesmo jeito que eu já disse que o protejo por espontânea vontade. Não venha falar novamente o contrário — Ditou Alexander antes de Dilan retirar-se porta afora.
Ele o beijara. O coração de Dilan ainda saltava, quase querendo sair por sua garganta, o estômago pareceu embrulhar e revirar. Por que se sentia assim, tão vivo e caloroso? Muito diferente do que se recordava, ali não tinha ódio ou dor, não sentia medo ou nojo com aquele toque.
Aquilo era muito diferente do que tinha vivido, era muito diferente de Edward.
Fale com o autor