O Último Reino da Terra

7 Capítulo 6: O custo da Verdade


O corpo de Dr. Evelyn Hargrave foi encontrado na madrugada, jogado à beira de uma rua deserta, seus olhos fixos no céu sem estrelas. A notícia se espalhou rapidamente, e em poucas horas, o cadáver da bióloga foi transportado até o centro da capital. Seu corpo, já frio e sem vida, foi exibido na praça principal, em um palco improvisado, com uma placa metálica amarrada ao seu pescoço: "TRAIDORA".

A multidão se reuniu em silêncio, o olhar deles, uma mistura de curiosidade e repulsa. Pessoas de todas as classes sociais, algumas com rostos marcados pela indiferença, outras com expressões de desespero, observavam o espetáculo público. Os soldados mantinham a segurança, mas sabiam que a verdadeira batalha estava acontecendo nas mentes das pessoas. A morte de Hargrave significava mais do que uma simples punição. Era uma mensagem.

Dentro do palácio, Dalila Stewart observava a cena pela janela, os olhos fixos no corpo da mulher que, por um momento, parecia representar tudo o que havia de errado no sistema. O que mais poderia ser feito com ela além de expô-la ali? A traidora nunca entregou os nomes de quem a ajudaram a infiltrar-se no laboratório, e agora seu silêncio parecia mais pesado do que qualquer palavra.

Dalila virou-se para o resto da sala, onde o monarca Allison Stewart a observava sem dizer uma palavra. O peso da cena era uma opressão no ar, e o silêncio entre elas era quase palpável. Dalila sentia a tensão no seu peito, e uma raiva profunda se acumulava em seu interior. Ela sentia como se tudo o que acreditou, tudo o que defendeu, estivesse desmoronando diante de seus olhos.

O vento soprava com força enquanto as folhas secas se espalhavam pelo pátio do palácio. Dalila Stewart estava sozinha, observando o horizonte, com os ombros curvados como se o peso de todo o Domo estivesse sobre ela. A morte de Dr. Evelyn Hargrave ainda ecoava em sua mente, mas não era só isso que a atormentava. As imagens das crianças deformadas na vila, as expressões de medo e dor, continuavam a persegui-la, como fantasmas que não conseguiam deixar seu campo de visão.

Ela sentia que, a cada dia, mais e mais o sistema que sempre defendeu começava a desmoronar diante dos seus olhos. Mas ela ainda estava presa, como todos os outros, ao papel que lhe foi designado. A lealdade à família, ao Domo, ao monarca, às regras… tudo o que sempre acreditou parecia ter perdido seu valor. A cada passo, ela se via mais distante daquilo em que havia confiado, mas não sabia como voltar atrás.

Foi quando ela ouviu os passos suaves atrás de si, antes de ouvir a voz familiar de sua irmã mais nova.

— Dalila, você precisa vir com a gente.

Dalila não se virou, mas a voz de Maddy tinha um tom que Dalila nunca ouvira antes. Algo entre desafio e preocupação. Ela manteve o olhar fixo no horizonte, mas seu coração acelerou.

— Não agora, Maddy — respondeu, sua voz baixa e cansada. Ela sabia que a irmã estava tentando fazer com que ela voltasse à realidade, mas Dalila não estava pronta para confrontar seus próprios sentimentos ainda.

Maddy não desistiu. Em um movimento rápido, ela se aproximou de Dalila e colocou a mão em seu ombro, forçando-a a olhar para ela. Seus olhos eram firmes, mas havia uma tristeza sutil ali, como se Maddy já soubesse que sua irmã estava prestes a tomar uma decisão crucial.

— Você viu o que aconteceu na vila. Viu as crianças… as deformidades. Elas não estão vivas, Dalila, elas estão presas em seus próprios corpos. E a morte de Hargrave, tudo isso não é um acaso. Você sabe disso, não sabe? — Maddy perguntou, sua voz quase suplicante, mas também acusatória.

Dalila tentou desviar o olhar, mas Maddy a segurou com mais força, os olhos dela agora cravados nos de sua irmã.

— Você não pode continuar ignorando. Não pode fingir que não viu. Eu sei o que você está sentindo. Você não está mais alinhada com isso, com o sistema. Está cada vez mais claro, Dalila. O que aconteceu na vila não é só um erro do sistema, é a essência dele, é o que ele realmente representa — Maddy disse, suas palavras afiadas como facas. — Não é só o que você viu, é o que você sabe agora.

Dalila mordeu o lábio, uma batalha interna acontecendo dentro de si. As palavras de Maddy estavam tocando em um ponto que ela vinha tentando ignorar, e a dor no fundo de seu peito parecia cada vez mais difícil de ignorar. Era como se ela estivesse segurando uma bomba prestes a explodir.

— Maddy, isso não é tão simples. Você sabe o que está em jogo. O que aconteceu com Hargrave foi uma mensagem, e não podemos desafiar isso sem consequências graves. Você sabe do que estamos falando. O que eles farão conosco se ficarmos contra eles?

Maddy deu um passo para trás, cruzando os braços, mas não desistiu. Ela sempre soubera como fazer sua irmã ver além das regras, como quebrar as barreiras invisíveis que Dalila construíra ao longo dos anos.

— Eu sei. Eu sei das consequências. Mas e as crianças? E nós? O que nos restará se continuarmos cegas diante disso? O que acontecerá se ficarmos do lado de quem nos matou, Dalila? Você não vai ser mais uma peça nesse jogo, vai? — Maddy disse, a frustração em sua voz agora misturada com um toque de raiva.

Dalila sentiu um nó apertar em sua garganta, mas não sabia mais o que responder. Maddy estava certa, ela sabia disso. Cada passo que ela dava, cada decisão que tomava, estava sendo guiada por uma verdade que não podia mais negar. E, pela primeira vez, Dalila percebeu que talvez fosse hora de fazer algo que nunca imaginara.

— E o que você quer que eu faça, Maddy? — Dalila perguntou, a voz baixa, como se se permitisse finalmente ouvir a dúvida que sempre esteve lá.

Maddy olhou diretamente nos olhos da irmã, sem hesitar.

— Eu quero que você vá até eles. Vai até o grupo. Você sabe que não podemos mais confiar no sistema. Juntos, podemos fazer a diferença, mas só se você estiver ao nosso lado. Você não pode mais ficar de fora, Dalila. A escolha é sua.

Dalila ficou em silêncio por um momento, as palavras de Maddy reverberando em sua mente. Era uma escolha difícil, talvez a mais difícil de sua vida. Mas ela sabia que, de alguma forma, sua lealdade ao sistema estava se desintegrando. O conflito interno estava explodindo em sua mente, mas algo, uma centelha, a impulsionava a fazer o que parecia impossível.

Finalmente, Dalila deu um suspiro profundo e olhou para sua irmã, a raiva agora se misturando com algo mais: um desejo de mudança, de redenção.

— Eu vou. Vou com vocês — disse Dalila, sua voz mais firme agora, embora ainda houvesse incerteza. — Mas não será fácil. Estamos indo contra tudo o que nos ensinaram.

Maddy sorriu, um sorriso que, embora pequeno, trazia consigo uma sensação de alívio.

— Eu sei. Mas não podemos mais esperar, Dalila. O futuro está na nossa frente, e não vamos deixá-lo escapar.

As duas irmãs se olharam por um momento, o peso da decisão ainda pairando no ar. Mas, no fundo, Dalila sabia que aquela era a única escolha que restava. O caminho à frente seria incerto, mas algo dentro dela dizia que, finalmente, elas estavam no caminho certo.

O clima dentro da sala escondida onde marcaram o encontro era denso, e o ambiente repleto de tensão. Dalila, June, Alex e Maddy estavam juntos, e os olhos de todos se encontravam com intensidade, cada um ponderando os próximos passos.

— Isso não faz sentido — Alex começou, a irritação em sua voz claramente audível. Ele dava passos curtos para frente e para trás, suas mãos espalmadas no corpo, a impaciência óbvia. — A bióloga foi uma peça importante, ela não iria agir sozinha. Temos que descobrir mais, e rápido.

Maddy estava quieta, mas seu olhar estava aflito, ansioso por respostas. Ela não falava, mas seu silêncio carregava uma sensação de desconforto que todos podiam perceber.

— Se ela foi capaz de fazer tudo o que fez, por que não disse nada antes de morrer? — Maddy questionou, finalmente quebrando o silêncio. Sua voz estava tensa, como se estivesse lutando contra a sensação de impotência.

— Porque ela sabia que o sistema nunca a perdoaria — respondeu June, olhando diretamente para Dalila. Seus olhos pareciam vasculhar a mente de todos, buscando uma resposta que só agora começava a tomar forma. — Porque pelo arrependimento que ela sentia, talvez fosse a última atitude que ela poderia tomar para se redimir. Redenção era a palavra que mais vinha a sua mente... ela sabia que não poderia ter o perdão daqueles que já morreram, mas queria ao menos tentar se redimir.

Dalila, visivelmente incomodada pela situação, deu um passo à frente. Sua expressão estava séria, seu olhar fixo no trio à sua frente. Ela sabia que algo estava prestes a estourar, mas não conseguia manter a calma por muito mais tempo.

— Não podemos ficar aqui discutindo sem ação. Se a bióloga sabia de algo, precisamos encontrar isso agora, antes que o sistema enterre ainda mais essa verdade — Dalila falou com firmeza, sua voz cortante, tentando manter o controle.

Nesse momento, a porta se abriu abruptamente, e Lisa e Maddox entraram. As duas pareciam sérias, seus passos firmes, e, pela primeira vez, o grupo percebeu que a pressão sobre eles havia aumentado consideravelmente.

Lisa, a mais calma do grupo, olhou diretamente para Dalila, dizendo com voz firme:

— Precisamos de mais segurança. Agora. A morte da bióloga não foi uma simples punição. Eles estão atrás de todos vocês. Não podemos continuar assim, correndo risco de sermos pegos sem qualquer proteção.

— Acha que isso é fácil? Não temos respostas, mas temos que estar preparados. Cada passo que damos agora pode ser o último — ela disse, olhando para cada um deles com seriedade. Maddox, sempre com sua postura agressiva, cruzou os braços, sua expressão um misto de preocupação e desafio.

Dalila respirou fundo, antes de olhar novamente para o grupo. Ela estava à beira do limite, mas sabia que tinha que se manter firme.

— Não podemos perder tempo. Vamos procurar mais respostas. Precisamos entender o que mais o sistema está escondendo.

— Nós podemos ganhar algum tempo se divulgarmos as fotos — ela disse observando diretamente Dalila.

— Desse jeito vamos entregar outro bode expiatório para morrer! — Dalila não parecia aceitar bem e June entendeu o porquê: mesmo sem conhecer a bióloga, ela sentiu uma culpa avassaladora por sua morte.

— Estou aberta a ideias, mas caso você não tenha percebido, se isso não vier a público logo, aquelas aberrações lá embaixo vão morrer e junto com elas as provas. A sua família vai passar por cima de tudo para manter o seu status de vida.

— Olha quem fala, você também nasceu em berço de ouro igual a mim.

— Tem uma diferença bem distinta entre nossas duas famílias, meus pais não apoiam essa merda e só me mandaram para o Casulo para não me arremessarem para fora da cidade. Eles me achavam perfeita quando nasci, mesmo sem poder nem nada. E a sua família não deu a escolha a eles de criarem uma criança normal!

Maddox, percebendo que as coisas estavam saindo do controle, começou a mudar as emoções, forçando cada um a quase entrar em um estado de transe, meditação. Como se uma nuvem de paz envolvesse todos e sinalizassem que eles faziam parte do mesmo time.

Lisa, por outro lado, estava pronta para teletransportar a irmã se fosse necessário, caso ela não conseguisse conter o problema. Mas sabia que isso seria pouco provável. Maddox sempre foi muito bom em manipular emoções e sentimentos. Poderia facilmente acalmar um exército enfurecido se isso fosse necessário.

— Okay, Maddox, já entendemos, se continuar com essa nuvem vou acabar desmontando aqui — disse Maddy, que já estava ficando tonta.

— Minha culpa, esqueci de dosar melhor para você. Agora que todos se acalmaram, podemos pensar no próximo passo ou ainda querem jogar a culpa de uma família para outra? Porque desse jeito, quem ganha é o sistema. Não é hora de nos dividirmos e sim de aumentarmos nossa força. Mas primeiro, vamos embora daqui, já estou ficando preocupada de alguém nos encontrar.

Com um aceno de cabeça de Dalila, todos concordaram em se mover rapidamente. Lisa e Maddox agora faziam parte da equipe, não apenas como aliados, mas como uma proteção vital para garantir que o grupo chegasse até a verdade sem mais perdas.

Mas, à medida que deixavam a sala, o que se passava nas mentes deles era claro: a investigação havia tomado um rumo perigoso, e ninguém estava a salvo. A caça aos responsáveis por tudo o que estava acontecendo havia começado, e as peças do jogo estavam se movendo em um ritmo frenético, prestes a explodir.