O Último Reino da Terra

8 Capítulo 7: A Caixa de Pandora



Na noite anterior

A casa dos pais de June estava silenciosa, a única luz vinha da lâmpada da cozinha, onde o pai de June, Marcus, e sua mãe, Lúcia, estavam sentados à mesa. A caixa de madeira repousava diante deles, ainda lacrada, com a mensagem de Evelyn escrita à mão, suas palavras simples, mas carregadas de um peso que parecia quase palpável. “Só abram em caso de emergência. Se algo acontecer comigo. Isso é para você, June.”

Lúcia olhou para a caixa com uma expressão de desconfiança. O medo estava claramente estampado em seu rosto. Ela sabia o que isso significava, mas não queria admitir. Marcus, por outro lado, não conseguia mais ignorar o que estava em jogo.

Após a morte da Dr Evelyn

“Não podemos esconder isso dela, Lúcia. Evelyn... ela confiou em nós”, disse Marcus, a voz baixa, mas firme. Ele pegou a caixa e a virou nas mãos, sentindo a suavidade da madeira contra os dedos, como se aquilo fosse uma chave para uma porta que eles não queriam abrir, mas sabiam que precisavam.

Lúcia suspirou, os olhos marejados. “Eu sei, mas você acha que é seguro? Depois de tudo o que aconteceu, você acha que devemos envolver nossa filha nisso? Ela... ela já está no meio dessa luta, Marcus. Não podemos colocá-la mais em risco.”

“E se o que ela descobrir aqui for o que a fará lutar ainda mais? O que se... isso puder ajudá-la a entender o que está acontecendo? Evelyn fez uma escolha, Lúcia. Ela acreditava que June precisava saber. Precisamos acreditar que isso fará sentido.”

Lúcia olhou para o marido por um longo momento, a expressão carregada de incerteza. Ela tocou a caixa, hesitando. “Mas e se isso for um erro? Se ela se afastar de nós... Se tudo isso for demais para ela?”

A sala parecia diminuir em tamanho, o ar mais denso. Eles estavam à beira de uma escolha irrevogável, mas o peso da verdade os empurrava para adiante.

Finalmente, Marcus se levantou e abriu a caixa. A tampa se afastou com um leve rangido, revelando um conjunto de documentos organizados em pastas e algumas anotações rabiscadas. Ele retirou a primeira folha e leu em voz alta.

“‘Protocólo X’. Parece que Evelyn já sabia que o governo estava criando crianças... não, máquinas humanas. Não crianças com habilidades, mas crianças sem vontade própria, usadas como ferramentas para o regime.” Ele pausou, o choque evidente na sua voz. “Estavam criando soldados, Lúcia. Pessoas que não podiam questionar ou rebelar-se, apenas obedecer. E essas crianças... são escolhidas.”

Lúcia levou a mão à boca, os olhos arregalados. “Escolhidas... de onde? De nossas vilas?”

“Sim.” Marcus continuou virando a página. “As crianças das vilas afastadas, as mais pobres, eram usadas nos experimentos mais cruéis, aqueles que destruíam suas capacidades cognitivas. As de famílias mais ricas, no entanto, eram expostas a ‘protocolos suaves’, mas ainda assim... a dor era a mesma. A diferença estava na forma como o regime as tratava. Eles não tinham escrúpulos.”

Lúcia sentiu o sangue gelar. “E June... Ela... Ela faz parte disso. Ela está no meio disso, Marcus. Não podemos simplesmente... podemos simplesmente...?”

“Eu sei”, respondeu ele, com a voz embargada. “Mas não podemos ignorar. Eu... eu sei o que isso significa para ela. E o que significa para nós. Evelyn confiou que saberíamos o que fazer com isso.”

Os pais de June ficaram em silêncio por um momento, absorvendo as informações que tinham diante deles. As palavras sobre o “Cesto” e o “Casulo” estavam mais claras agora, mas os horrores eram mais reais do que nunca. O que o governo fizera, o que Evelyn tentara evitar, tudo parecia se encaixar de maneira dolorosa e perfeita.

“Você acha que devemos contar a ela?” Lúcia perguntou, sua voz quase inaudível. “Sabemos o que isso pode custar, Marcus. Não é mais só sobre ela. Isso envolve todos nós.”

“Não podemos mais viver com essa mentira, Lúcia. O que estamos fazendo, escondendo isso dela? Não importa o quanto tente... Ela já está envolvida, já sabe mais do que nós desejávamos. E talvez... talvez agora ela precise saber o quanto antes. Ela está no meio da luta.”

Lúcia abaixou a cabeça, o peso da responsabilidade esmagando-a. “E se a verdade a destruir? Se ela se perder nesse mundo, Marcus?”

“Ela já está perdida, Lúcia.” Ele olhou para a caixa, seus olhos tristes. “Mas talvez, se a verdade a guiar, talvez ela consiga encontrar um caminho.”

Lúcia balançou a cabeça, uma lágrima escapando. “Eu... Eu não sei o que fazer.”

Os dois se entreolharam. Eles não podiam mais voltar atrás. Não depois de tudo o que haviam aprendido. Não depois do que Evelyn os fizera entender.

Então, com a mão trêmula, Lúcia pegou os documentos e os colocou na mesa. “Vamos contar a ela. Afinal, não temos muito como esconder isso dela, temos? Deste que ela saiu do casulo, todos os pensamentos de qualquer um ao seu redor ficam bombardeando a cabeça dela.”

Ambos dois se olharam com a sensação de que haviam falhado com a filha, mesmo sabendo que o Casulo era a única coisa que daria uma chance a ela de continuar perto deles. Mas no fundo, se perguntavam se o lado de fora não era melhor para ela?

mbos se olharam, e um peso invisível pareceu se instalar entre eles. O segredo estava rompendo suas barreiras.

Lúcia suspirou, e foi quando June entrou na cozinha. Ela estava parada na porta, a respiração calma, mas seus olhos estavam intensos, como se estivesse ouvindo algo muito além da conversa deles.

“Eu já sei”, disse June, sua voz carregada de uma tristeza quase imperceptível. Ela se aproximou da mesa, os olhos fixos nos pais. “Eu sei o que estão dizendo. E o que vocês não estão dizendo. Sei o que o governo fez com as crianças. Sei o que vocês estão tentando esconder de mim.”

Marcus e Lúcia congelaram, os corações batendo mais rápido. A conexão mental era clara agora. June ouvira seus pensamentos. Ela podia sentir o medo, a culpa e a preocupação deles como se fossem seus próprios sentimentos.

“Eu… eu não queria que você soubesse assim”, disse Lúcia, tentando se controlar. “Mas… você já sabe, não é?”

June olhou para a caixa na mesa, sua expressão calma, mas seu olhar estava distante, como se já tivesse processado tudo aquilo. Ela sentou-se silenciosamente, seus olhos agora cheios de algo que não se podia ignorar—um entendimento profundo, talvez até um começo de aceitação.

“Eu sempre soube”, ela disse, a voz baixa. “Eu posso ouvir o que os outros pensam. Eu já sabia que algo estava muito errado, mas agora entendo. Eu entendo tudo.”

Havia uma estranha sensação de tristeza no ar, mas também uma determinação crescente no olhar de June. Ela não iria se perder nessa verdade. Ela já havia perdido tanto e, agora, sabia exatamente o que estava enfrentando.

“Vamos fazer isso juntos, então”, ela disse finalmente, com a mesma voz serena que sempre usava, mas com uma força inegável por trás.

Marcus e Lúcia a olharam, sabendo que, embora a verdade fosse dura, ela já havia escolhido seu caminho.

A cozinha estava mergulhada em um silêncio denso, quebrado apenas pelo som do relógio marcando as horas. Lúcia e Marcus ainda estavam sentados à mesa, os documentos espalhados diante deles, quando June deslizou para dentro do cômodo, fechando a porta atrás de si com um movimento cuidadoso.

“Vocês sabem que não há mais volta, não é?” ela disse, cruzando os braços.

Lúcia suspirou, passando a mão pelo rosto. “Sabemos. E se você quer mesmo lutar contra isso, então precisa de um lugar seguro.”

Marcus assentiu, o olhar firme. “Não podemos mudar o que aconteceu, mas podemos ajudar vocês a não serem pegos. Não faz sentido ficarem se escondendo pelo parlamento quando podemos garantir que, aqui, ninguém suspeite de nada. Mas isso tem que ser feito com cuidado. Lisa precisa trazer todos sem levantar suspeitas.”

June sentiu um alívio contido se espalhar por seu peito. Não esperava que seus pais tomassem essa decisão tão rápido. Ela conhecia os riscos—se alguém descobrisse, eles seriam executados como traidores. Mas, naquele momento, eles estavam dispostos a enfrentar isso por ela.

“Lisa vai dar um jeito. Ela sabe como evitar os olhares certos.” June hesitou por um momento. “Mas Alex… ele não pode ser visto. Não pode ser reconhecido.”

O nome pairou no ar como uma nuvem carregada. Lúcia mordeu o lábio.

“O garoto que vê o mundo em câmera lenta,” ela murmurou, como se estivesse assimilando o peso daquilo. “Se alguém perceber que ele está aqui, ele não vai ter para onde correr.”

Marcus cruzou os braços, pensativo. “Vamos encontrar um jeito de mantê-lo longe dos olhos curiosos. Mas vocês precisam ser cuidadosos. Não é só você, June. Se algo der errado, estamos todos perdidos.”

Ela assentiu. Não precisava que repetissem isso.

Respirando fundo, puxou a cadeira e sentou-se diante deles, deslizando a caixa de Evelyn sobre a mesa. A luz fraca refletiu no verniz da madeira, e seus pais a olharam com expressões carregadas.

“Evelyn deixou isso para mim,” disse ela, empurrando a caixa para o centro da mesa. “Ela sabia que não tinha muito tempo, então confiou em vocês para garantir que eu recebesse isso. Eu não sei tudo o que está aqui dentro, mas sei que… seja lá o que for, pode mudar tudo.”

Lúcia passou os dedos pela borda da tampa, um arrepio percorrendo sua espinha. Marcus apenas olhou para a filha, esperando.

June então abriu a caixa.

Os papéis estavam empilhados cuidadosamente, algumas páginas amareladas pelo tempo, outras mais recentes. Havia arquivos com carimbos do governo, gráficos que ela ainda não compreendia completamente e anotações escritas à mão—rabiscadas às pressas, como se Evelyn não tivesse tido tempo suficiente para organizá-las.

O silêncio se prolongou enquanto June pegava a primeira folha e começava a ler.

Ela não sabia exatamente o que esperava encontrar ali, mas à medida que os olhos percorriam as palavras, o peso das informações começou a se instalar sobre seus ombros.

Marcus e Lúcia observavam sua filha com apreensão. Eles sabiam que, a partir daquele momento, não havia mais espaço para dúvidas.

Finalmente, June soltou um suspiro trêmulo e levantou os olhos para eles.

“Agora faz sentido.” Sua voz era baixa, mas carregada de algo perigoso. “O que eles fazem com as crianças. O que fizeram comigo. Com Alex. Com todos os outros.”

Ela apertou o punho sobre a mesa.

Lúcia estendeu a mão para tocá-la, mas June recuou instintivamente. O bombardeio de pensamentos dos pais ainda girava em sua mente.

Será que ela está pronta para isso?

E se estivermos cometendo um erro?

E se for tarde demais para ajudá-la?

Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo para dissipar as vozes. Quando os abriu novamente, havia apenas determinação.

“Nós vamos expor tudo isso,” disse ela, passando os olhos pelos documentos. “Mas primeiro, precisamos trazer os outros para cá.”

Marcus e Lúcia trocaram um olhar. Eles estavam com medo—ela podia sentir. Mas, mesmo assim, assentiram.

Eles estavam juntos nessa.

E, com isso, o destino de todos começava a ser traçado

A noite pairava densa sobre o bairro, e o ar parecia carregado de eletricidade, como se algo estivesse prestes a acontecer. Lisa havia planejado tudo meticulosamente—cada um chegaria em um momento diferente, por rotas seguras, sem levantar suspeitas.

Os primeiros a chegar foram Maddy e Alex.

Lisa bateu na porta com o ritmo combinado. Quando Marcus abriu, Maddy entrou primeiro, seus olhos atentos percorrendo o ambiente como se buscasse armadilhas escondidas.

Alex veio logo atrás, hesitante. Cada movimento era calculado, cada passo uma luta contra o tempo distorcido que ele experimentava. Seus olhos encontraram os de June, e, mesmo sem dizer nada, sua mente gritava.

"Eles me veem como um monstro?"

June sentiu a angústia dele, aquele turbilhão de pensamentos ecoando em sua própria mente.

Ela não desviou o olhar.

— Você não é um monstro.

Alex abaixou a cabeça rapidamente, desconfortável com o fato de que ela havia captado aquilo tão facilmente.

Maddy, ao contrário, parecia indiferente ao peso emocional do momento. Ela olhou para os pais de June, notando a tensão no olhar deles. Era óbvio que eles a reconheceram—ser uma Stewart tornava impossível passar despercebida.

— Seu esconderijo é melhor do que algumas alas do palácio — comentou ela, seca, como se quisesse testar o clima.

Ninguém riu.

Lúcia fechou a porta atrás deles e indicou os assentos.

— Fiquem à vontade.

Mas ninguém parecia confortável.

Vinte minutos depois, um leve toque na porta anunciou a chegada de Maddox. Lisa havia garantido que ela não fosse seguida, mas, ainda assim, Maddox parou do lado de fora por alguns segundos antes de entrar, avaliando os arredores.

Quando June abriu a porta, Maddox a encarou com uma expressão séria.

— Você tem certeza que isso é seguro?

— Não.

Ela soltou um suspiro curto.

— Bom, pelo menos estamos na mesma página.

Ela entrou, mas não se sentou. Seu olhar varreu o ambiente, analisando todos ali. Quando seus olhos pousaram em Alex, ele desviou, desconfortável.

— Precisamos conversar sobre os próximos passos — Maddox disse, voltando-se para June.

— Precisamos esperar os outros — foi a resposta curta.

Maddox apenas cruzou os braços e esperou.

Dalila chegou por último.

Lisa tinha sido a responsável por trazê-la, o que já era um feito por si só. Ela ainda era oficialmente uma das figuras mais poderosas do Domo—e, agora, estava prestes a trair tudo o que sempre conheceu.

Quando Marcus abriu a porta para ela, demorou um segundo a mais do que deveria. Havia um misto de surpresa e receio em seu rosto, mas ele não questionou.

Dalila entrou sem hesitar. Diferente dos outros, não tentou se misturar à sombra das paredes. Sua postura era reta, seus olhos firmes.

Ela encarou June por um longo momento antes de falar.

— Então, é isso que vocês estão fazendo.

Não era uma pergunta.

June cruzou os braços.

— É isso que estamos fazendo.

Dalila soltou um suspiro lento, como se finalmente aceitasse algo que vinha evitando há muito tempo.

Lúcia e Marcus trocaram olhares. Nada poderia prepará-los para ver uma Stewart em sua sala—muito menos ao lado de sua filha.

— Você tem certeza disso? — Lúcia perguntou, olhando diretamente para Dalila.

— Pela primeira vez na minha vida? Sim — Dalila respondeu, sem hesitação.

O silêncio na sala era quase palpável.

Então, June caminhou até a mesa e colocou a caixa de madeira sobre ela.

— Agora que estamos todos aqui — disse ela, olhando para cada um deles —, é hora de descobrir a verdade.

E decidir o que fazer com ela.