Notas iniciais
O capítulo ficou um pouquinho grande, mas leiam até o fim, porque os acontecimentos deste são importantes!

O capítulo 4 começa com mais um dos pesadelos recorrentes de Guido, mas dessa vez ele tem uma surpresa muito grande durante um deles.

Depois um almoço com sua amiga Natasha, e uma conversa muito séria.

Em seguida, a visita de Thomas.

São partes realmente importantes do virá acontecer em seguida, nos próximos capítulos!

Já passava das onze da noite, e Guido sentia muito sono. A jornada de trabalho foi longa, mas terminara a maquete, deixando-a pronta para apresentá-la ao cliente na manhã seguinte. Sentia-se satisfeito. Normalmente, estagiários do escritório fariam aquele serviço, mas dessa vez, Guido quis fazê-lo. E aquilo lhe deu prazer e orgulho. Mas agora, em seu quarto, se sentia como um tolo encarando a cama. Vontade de jogar-se nela não lhe faltava. O que de fato não possuía era a coragem. Estava começando a sentir medo de dormir, algo que só conhecia através de filmes “B” como A Hora do Pesadelo. Riu de si mesmo ao pensar naquilo. Isso é ridículo, acrescentou mentalmente. Mas era um ser humano afinal, e precisava dormir.



Minutos mais tarde, após uma ducha morna, ele decidiu que podia atrasar seu sono mais um pouquinho. Pegou seu habitual livro da semana e pôs-se a ler algumas páginas. Sentiu-se interessado e tentado a continuar a leitura, que estava realmente boa, mas seu cansaço não era piedoso e, meia hora mais tarde, o corpo implorava por cama. Chegara ao ponto final, e precisava dormir. Pensou em outra ducha, mas seu senso de integridade adulta e crítica não lhe permitiu. Ele fechou o livro, e seguiu para o quarto. Embora seu coração sentisse medo, Guido não voltou atrás. Apagou as luzes, deixando aceso apenas o abajur do seu lado, e deitou-se. O corpo imediatamente relaxou, e a sensação foi deliciosa. Só então percebeu o quão cansado estava. Estou desacostumado aos trabalhos braçais do escritório, pensou. Cinco minutos depois, o sono sumira. Ele não sabia se agradecia aos Céus, ou se chorava. Enfim, ligou a TV, e nela estava passando um filme qualquer. Não lhe interessou muito, mas não fazia diferença. Olhou o relógio ao lado da cama, no criado mudo. Meia-noite e trinta. Repassou a atenção para a TV, e acabou por assistir parte do filme. E quando já se interessava pelo tal, seu sono ressurgiu. No fim das contas, adormeceu sem sentir.


Guido acordou em uma ruela: o seu velho e recorrente abismo. Ele não quis andar, então encostou contra a parede, e ficou ali, de olhos fechados. Quis chamar por alguém, gritar por socorro. Mas ninguém o escutaria. Nunca! Aquele era seu pesadelo. Estava usando a mesma roupa com a qual dormia: calça de moletom preta e camisa de um tecido fino, de cor branca. Estava descalço, e o chão era úmido, fedendo a esgoto. Mas Guido sabia que aquela rua conduzia a um prédio aparentemente abandonado, onde havia um hall que por sua vez conduzia a um corredor com cinco portas de madeira ricamente trabalhadas e bem lustradas. Um vento frio e cortante passou por Guido, provocando arrepios. Desejou ter ido dormir de casaco. Percebia agora que, espantosamente, já sabia que estava num pesadelo. Era como se estivesse vivendo aquilo realmente. E essa hipótese era a pior de todas! Desde o corte no braço, os sonhos se tornaram mais confusos e reais, mas agora parecia tudo verdade. Não pode ficar aí parado a noite inteira. Vá e veja o que há pra ver, disse uma voz na sua mente. E Guido, com frio e com medo, permitiu-se abrir seus olhos, com muito cuidado e muito lentamente. Sua respiração estava agitada, mas ele não conseguia controlá-la. Ainda estava na rua escura e deserta quando abriu os olhos por completo. Olhou o céu, não havia estrelas ou lua. A única luz era emitida por um poste enferrujado. O lugar era o pior que Guido já vira. Prédios abandonados com janelas quebradas ou sem esquadria. Um vento mais forte e gelado soprou por ali, fazendo Guido tremer novamente. Encolheu-se, abraçando-se para espantar o frio. Não adiantou quase nada. Precisa seguir em frente. Vá, já!, disse a voz em sua mente. E Guido a obedeceu. Deu o primeiro passo, e depois o segundo, mas sempre rente ao muro áspero em que se encostara antes. Enquanto se andava, olhava ao redor. Não havia ninguém por ali. Nunca havia ninguém por ali. Mas Guido sentia que era observado, independente de haver ou não alguém em seu campo de visão. Quando já se aproximava da entrada do prédio onde havia o hall, atravessou a rua. Segundos depois, estava entrando no local para onde devia ir. E como em todos os sonhos, ali havia um lustre envelhecido e esplendido, com suas lâmpadas boas e potentes. Ele pendia do meio do teto do hall. As paredes eram vermelhas, com arabescos brancos, e o rodapé era de madeira, a mesma utilizada como forro para o chão. A madeira era muito bem polida, parecia até nova. Mesmo dali, Guido já conseguia sentir o cheiro de cachimbo invadindo suas narinas. A princípio, quis voltar para fora. Mas não conseguiu. Não teve coragem. Já estou aqui, e vou até o fim. Já sei o que acontece agora, disse a si mesmo. A única parte do sonho que nunca se repetia era o que ele encontrava naquele salão repleto de fumaça e apinhado de pessoas estranhas, das quais nunca via o rosto. Ás vezes via-se comendo pedaços de pessoas. Outras vezes, via a si mesmo contorcendo-se no chão, feito um bicho possuído. Houvera dias em que se viu pendurado pelo pescoço em um lustre maior que o do hall, enquanto sangue lhe pingava da boca. Uma vez, viu a si mesmo nu, em uma orgia deplorável. Pessoas estranhas e sem rosto lhe tocavam, tocavam seu pênis ereto, beijavam-no, e o outro Guido parecia gostar daquilo. Tudo era estranho, sempre. Mas sempre havia cheiro de cachimbo, fumaça de cachimbo e objetos vermelhos.

Caminhando pelo corredor, Guido passou pelas impecáveis outras portas de madeira. Não olhou nenhuma delas. Já as conhecia. Candelabros dourados iluminavam o caminho, com chamas de fogo ardendo. O fogo era bom, espantava o frio. Finalmente, parou diante da porta certa. A última do corredor. Respirou profundamente, e depois soprou o ar. Então teve o impulso automático de tocar na maçaneta, mas antes de fazê-lo, retraiu-se. Guido estava apavorado agora. Ele tinha medo do que encontraria dessa vez, e seu coração batia descompassado. Sua respiração chegou a enfraquecer... Vamos logo com isso. Abra!, disse a voz. E Guido não teve escolha, precisava ver o que tinha de ver, para acordar e encerrar aquilo. E de uma vez só, juntando toda a sua coragem e petulância, ignorando o ribombar frenético no seu peito, tocou a maçaneta de bronze e a girou abruptamente. Entrou no salão com passos pesados. Como sempre, gargalhadas sinistras e fumaça. Pessoas em sua frente pareciam não vê-lo ali, e ele as empurrava com força, xingando-as, mandando-as sumir de sua frente. E finalmente, quando chegou ao fim do enorme salão avermelhado, viu o que havia para ver. Vislumbrou a si mesmo, como de costume. Mas dessa vez, estava apenas deitado, dormindo, e Thomas estava ao seu lado. Estavam abraçados, quentes e ternos. Mas Guido só conseguiu sentir pavor ao ver aquilo. Não o envolvam nisso, gritou, com fúria nos olhos. Não sabia para quem gritava, mas gritou mesmo assim. Virou ao redor, e as pessoas sem rosto pareciam não se importar. E então, subitamente, mãos geladas agarraram seu pescoço. Eram mãos de homem, ele tinha certeza. Lutou desesperadamente para se soltar, e foi atirado ao chão, com violência. Ao virar-se, finalmente pôde ver quem era... Ronald Matthew, o ex-namorado de Thomas. Guido estava assombrado, mal acreditando no que seus olhos viam. De repente, as pessoas ao redor pararam de rir, as gargalhas cessaram. Todos se viraram para ele e Ronald, e um círculo se formou em volta de ambos. Era apavorante. O olhar de Guido mirou no seu outro eu abraçado a Thomas, os dois dormindo, calmos e pacíficos. Mas então foi obrigado a olhar novamente para Ronald. Gritando xingamentos e injúrias, este caiu sobre ele com as mãos direcionadas ao seu pescoço, mas Guido foi mais rápido e se esquivou, tentando se levantar e correr para longe. No exato momento em que se erguia, Ronald agarrou seu pé, puxando-o com toda força para baixo, de volta ao chão, e os dois se atracaram raivosamente. Guido deu socos em Ronald, que também o agredia sem piedade. E ficaram assim por alguns minutos. Então tudo apagou, e Guido obviamente não viu mais nada.

Ao despertar, sentia o corpo dolorido, como lhe tivessem espancado. Tudo doía. E ele já sabia por quê. E embora aquilo fosse uma das coisas mais estranhas do universo, não sabia como resolver. Ao menos dessa vez pôde socar alguém de quem não gostava. Poderia ter rido, mas a situação era séria demais. Tudo estava saindo do controle. Mas então entendeu que a situação nunca esteve controlada. Olhou o relógio no criado mudo, e percebeu que ainda estava escuro lá fora, não eram nem quatro da manhã... O abajur estava aceso, como o deixara. E a TV ligada, exatamente da mesma forma. Sentindo dor, Guido apalpou a cama mais para o lado, em busca do controle remoto. Em seguida, automaticamente, virou para procurá-lo. E foi então que viu o sangue. Havia gotas de sangue na roupa de cama. Sangue úmido, ele percebeu. Levantou-se num salto e correu assustado para o banheiro, e pensamentos horripilantes passaram por sua mente naqueles dois segundos que levou o trajeto. Já diante do espelho – o coração acelerado – constatou o motivo do sangue no lençol: líquido vermelho vivo brotava de um corte bem no meio dos lábios, além de também escorrer de sua narina direita.

— Que merda... — sussurrou para si, e não soube o que sentir primeiro, ódio ou medo.

(...)

Guido adentrou ao restaurante Pera, onde (ele queria acreditar) Natasha já o esperava no bar. Mas ele conhecia Natasha perfeitamente para saber que ela não era pontual. A melhor amiga de Guido era quase uma aventureira na cidade de Nova York. Charmosa, atraente, e forte. Essa era Natasha. A garota da cidade, jornalista da Vogue, devoradora de homens héteros... e tinha acesso exclusivo a tudo que era Vip ou badalado naquela cidade. E sempre que podiam, ela fazia questão de almoçar com Guido. E naquela sexta feira não foi diferente.

O maitre do local o encaminhou para uma mesa, já que Guido não quis esperar no bar. Enquanto se sentava, o celular vibrou, e quando foi ver do que se tratava, descobriu uma mensagem de Natasha avisando que demoraria alguns minutos para chegar. Ele riu.

— Típico. — disse, sozinho.

O Pera era um restaurante muito requisitado, mas para jantares. No horário do almoço, não era necessárias reservaras. O lugar era muito charmoso, e bastante iluminado. A decoração consistia em tons creme, e peças em madeira. Logo na entrada, uma grande bancada feita do tronco de uma árvore, envernizado e lixado, servia como uma espécie de “mesão” para o bar. Mais ao fundo, ficava o salão. A decoração se harmonizava com a arquitetura. Era muito sofisticado. Uma genial mistura do rústico com o requintado, e tudo fluía naturalmente, sendo bastante suave aos olhos. Para Guido, um local que combinava beleza e boa comida. Um de seus restaurantes favoritos. E era próximo do seu trabalho, próximo de sua casa, próximo da casa de Thomas...

Já se passavam oito minutos desde que Guido havia lido a mensagem de Natasha. Estava distraído lendo uma revista quando foi surpreendido por um beijo no rosto, e um perfume tão gostoso que ele soube imediatamente que só podia ser uma pessoa.

— Até que enfim você chegou. – disse, e ela sorriu. Sua pele parecia estar mais branca, mas devia ser a luz do lugar. O cabelo negro, liso e brilhante descia solto e sedoso. A maquiagem suave completava a beleza de Natasha. Uma de suas marcas registradas era o batom vermelho. Sempre com ele. E as roupas, sempre impecáveis também. Não poderia ser diferente naquele dia. O que ela estava vestindo? Um modelo Chanel, ou Gucci. Talvez um Versace casual... mas era lindo, e jovem. Perfeito para ela.

— Eu gostei desse. — elogiou Guido, referindo-se ao vestido cor vinho. Natasha sorriu abertamente.

— É claro que gostou, você tem bom gosto. Por isso andamos juntos! — eles riram. — Nossa, que saudade que eu senti de você, Gui! — Natasha acariciou suavemente o maxilar de Guido.

— Faz só três dias que não nos vemos, Nat. — ele rebateu, e a expressão dela foi de falsa ofensa.

— Quer dizer que não sentiu saudades de mim? Fiquei magoada...

Guido a encarou, dramaticamente: — É claro que senti.

— Você está com uma cara muito feliz, rapazinho. Andou vendo recentemente algum ex?...

— Sim, eu passei a noite com o Thomas, recentemente. Sim. Mas dormimos muito pouco, se quer saber. — e um sorriso de canto surgiu em seus lábios. Pelos traços de seu rosto, Natasha só poderia estar surpresa, ou chocada. Talvez os dois sentimentos juntos, mas Guido se divertiu ao observar isso. E saboreou o primeiro momento revelador do dia.

— E porque não me ligou pra contar, menino? — disparou ela, dando um tapinha leve no braço dele. — eu sempre te conto sobre os caras que eu fico...

— Por isso me liga tantas vezes, né? — ele rebateu, dissimuladamente. Ela chegou a abrir a boca, e por uns dois segundos, considerou respondê-lo, mas então seus lábios sorriram no final.

— Você. É. Um. Viado. — disse, pausadamente. Os dois explodiram em risadas. — Você vai me contar tudo o que rolou com o Thomas, eu quero saber de tudo. E pelo visto, essa semana sua vida está mais emocionante que a minha, sabia? — disse Natasha, enquanto olhava-se em um espelhinho de mão, e ajeitava a sua franja reta.

— O que quer saber sobre eu e Thomas? — perguntou Guido.

— Tudo, na verdade. Vocês se falaram depois?

Foram interrompidos pelo garçom, e fizeram os pedidos rapidamente. Praticamente o de sempre, até as bebidas: chá gelado de limão para Guido, e coca diet para Natasha. Após o garçom se retirar, Guido prosseguiu:

— Não. Nenhuma mensagem, mas a culpa é minha. — disse. E então semicerrou os olhos, e sua expressão se tornou dolorida. Natasha olhou para ele. — Eu... eu deixei um bilhete pra ele, Natasha...

A fisionomia dela murchou.

— Um bilhete?

— Sim. Um bilhete. — Guido assentiu.

— E o que havia nesse bilhete, Gui? — ela ficou séria.

O jovem mordiscou uma torrada, e então pôs-se a falar: — Eu disse que nós não deveríamos nos ver por agora, e que não deveríamos ter ficado juntos...

— Guido...

Ele largou a torrada.

— O que você queria que eu fizesse, Natasha? — disparou, contraindo a sobrancelha. Sua voz soava cansada, e ele estava claramente triste por ter de dizer aquilo. — O Ronald ainda tem a gravação que, mal ou bem, compromete o Thomas. E eu não quero que ele perca a licença de trabalho. O Ronald é louco, de vez em quando ainda me manda umas mensagens de ameaça...

— E o Thomas nunca vai poder ficar com ninguém? Guido, vocês precisam resolver isso, e logo. Deve haver um jeito de contornar isso...

— A advogada do Thomas disse que a gravação do Ronald não pode ser usada como prova oficial, mas que pesaria na decisão do juiz. No final, sairíamos machucados. — fez silêncio. E Natasha o examinava, com piedade no olhar. — Eu o amo muito, Natasha. Como nunca amei nenhum outro cara. Ele é tudo que eu preciso. Se eu pudesse escolher, ficaria com ele. Mas não dá pra ser assim, não por agora.

— Mas não foi a primeira vez que ficaram juntos desde o rompimento, né? — perguntou ela, sentindo todo pesar do amigo. Segurou sua mão.

Guido assentiu com um aceno.

— Nos últimos seis meses ficamos juntos muitas vezes. Não nos separamos totalmente, desde que fomos forçados a terminar...

— E se não conseguirem ficar juntos, Gui? Como vai fazer?

— Eu não sei. — ele percebeu que a resposta foi mais difícil do que achava que seria. Depois de responder, sentiu um pesar doloroso em seu peito, como se o peso do mundo estivesse em suas costas. Se não estivesse na presença de Natasha, teria chorado, e teria chorado muito. Mas não queria estragar o clima de estar almoçando com sua melhor amiga. Então apenas tentou esquecer.

Natasha segurava forte a mão de Guido, e por um instante nenhum dos dois disse nada. O momento foi até propício, já que um dos garçons se aproximou da mesa, e serviu-os as bebidas pedidas.

— Eu sei que você ama o Thomas, mas vamos supor que vocês não fiquem juntos. Você não se interessa por nenhum outro? — questionou com cuidado, assim que o garçom se afastou.

A pergunta era amarga, mas cabível. Embora, na realidade, Guido nunca houvesse pensado nisso. Para ele e para o seu coração não havia, simplesmente, hipótese de não ficar com Thomas. Mas agora, diante daquela pergunta, ele ficou mudo. E sério. Era realmente uma pergunta amarga, mas o tipo de pergunta que só um amigo lhe faria. Ele chegou a querer dizer algo, mas desistiu. Doía muito mesmo. Não ficar com Thomas? Deu medo... Guido pegou o copo de cristal contendo seu chá gelado de limão, levou-o até próximo de sua boca e simplesmente virou a bebida para dentro. E enquanto ele fazia isso, Natasha abaixou a cabeça com um inocente e conformado ar de riso. A ação até que foi engraçada, mesmo carregada de tensão. Quando terminou de beber, e ele bebera tudo, enxugou a boca com as costas da mão e depositou o copo vazio de volta na mesa. Encarou Natasha de volta.

— Eu só vejo o Thomas na minha direção, e se eu não puder ficar com ele, fico sozinho. — respondeu, finalmente.

— Sim. Eu entendo o seu sentimento, mas não quero ver você abatido. — fez uma pausa. Foi então que lhe ocorreu... — E você e o Nate? Ele ainda gosta de você, é bem visível...

Guido mostrou-se surpreso.

— Não Natasha... nunca mais! — ele falava como se aquilo fosse o maior dos absurdos, e chegou a apontar para o nada. — O Nate teve a chance dele, e jogou fora. Acabou ali. E eu não sinto mais nada por ele, aliás, eu nunca cheguei nem perto de sentir por ele o que eu sinto pelo Thomas...

Fizeram silêncio. Guido cheio de dúvidas. Natasha cheia de piedade do amigo. A situação dele era difícil, ela sabia. Mas queria de verdade melhorar seu humor. Quis, por um momento, sair dali e carrega-lo para uma boate, mas não era esse tipo de distração que o amigo precisava. E ela não soube o que fazer, então apenas disse: — você vai precisar de outra bebida. — e os dois riram, como os irmãos que eram. Ainda seguravam na mão um do outro.

(...)

O celular tocava insistentemente. Guido o ouvia, e sabia quem estava ligando. Mas não o atenderia. Não é que não queria, ele não podia. Travara essa batalha ferina consigo mesmo, e não atenderia Thomas. Por amá-lo tanto, precisava ser forte e resistir aos encontros. E assim o estava fazendo. Embora sofresse por não atender, com seu coração sempre acelerando a cada ligação, não quis desligar o telefone. Alguma coisa nas chamadas de Thomas o fazia sentir tranquilidade. Mas assumira para si mesmo que já não conseguia se concentrar em seu trabalho. Estava terminando algumas plantas no computador, enquanto – ainda que com pequenos intervalos – o celular voltava a tocar. Até que, depois de inúmeras chamadas, simplesmente parou. Guido reparou que última não chegou a ir até o final como as anteriores. Olhou o telefone, o coração apertou. Mas não se moveu da cadeira, e voltou a tentar se concentrar no trabalho que concluía.

Vez ou outra, ele tomava um gole do seu chá de Erva Doce. Cerca de vinte minutos de passaram desde que o telefone tocara pela última vez, e Guido estava imerso em seu trabalho quando a campainha da casa soou, parecendo-lhe mais feroz do que nunca.

— Guido, abra a porta! — gritou a voz masculina do lado de fora. Ele reconheceu a voz, reconheceu a deliciosa voz que tantas vezes falara baixinho ao pé de seu ouvido, soprando o hálito doce em seu pescoço, provocando-lhe arrepios. — Guido! — a cada batida, a cada vez que Thomas gritava seu nome, o coração de Guido saltava, estava alarmado. — Guido! Por favor! — outro berro veio, seguido por batidas. — Eu vou sentar aqui, na frente da porta, não vou sair! — outra vez ele gritou.

Então as batidas cessaram.

Guido se levantou, devagar. Caminhou até a porta de seu apartamento e chegou a ter o impulso de tocar a maçaneta. Mas retraiu-se. Em lugar disso, apoiou-se na parede, e ficou pensando naquilo tudo. Ele sabia que Thomas estava do outro lado, esperando, e não sairia dali. O coração de Guido sangrava com aquilo tudo, e ele não sabia o que fazer. Mas o cheque-mate veio quando, inesperadamente, os primeiros acordes de uma canção especialmente familiar atravessaram a porta. There For You, do Bryan Rice, começava a tocar do outro lado. Essa mesma música estava tocando no exato momento em que ele e Thomas se beijaram pela primeira vez, dois anos antes. Ao ouvir a música, o arquiteto deu uma risada involuntária, e no segundo seguinte, sem que pudesse contê-las, lágrimas invadiram seus olhos, escorreram por seu rosto e pingaram no chão. O choro de Guido vinha misturado a risos, e tudo aquilo lhe fez sentir mais leve que nunca, como uma criança novamente. Guido abriu a porta, imediatamente. E chorando, encontrou Thomas sentado no chão, de frente para ele, com os braços apoiados sobre os joelhos e o celular em uma das mãos. O celular que, Guido soubera desde o início, era o responsável pela música que tocava.

Ao vê-lo, Thomas se levantou e se aproximou de Guido. Tocou suavemente seu rosto, enxugou uma lágrima. Dois vizinhos, uma mulher e um adolescente, estavam parados á porta de seus respectivos apartamentos, observando tudo. Mas para os dois não havia nada ao redor. E os lábios de Thomas se aproximaram dos lábios de Guido. Sem palavras, eles se beijaram. Cheios de vontade e paixão, e o medo fora embora, subitamente.

There For You ainda tocava.

Com os lábios ainda colados, Thomas pressionou seu corpo contra o de Guido, e os dois adentraram ao apartamento, aos beijos. Em seguida, a porta bateu, com estrondo. Os vizinhos que observavam, riram, e foram tratar de suas vidas.

Agora sozinhos, esqueceram-se do mundo. Só havia eles dois. Arrancaram as roupas um do outro com tanta pressa que pareciam não se ver a meses. E se beijavam intensamente nesse processo, com seus corações acelerados repletos de excitação e desejo. Não havia nada melhor para ambos do que ficarem juntos, e faziam questão de aproveitar cada segundo ao lado um do outro.

Então a noite virou madrugada, e depois o sol veio, trazendo um sábado de céu azul e suave brisa fresca. Quando Guido despertou, Thomas estava ao seu lado, sentado em uma poltrona. Vestia apenas uma cueca boxer, e o observava. Sua expressão parecia tranquila, porém séria. O primeiro pensamento de Guido fora por quanto tempo teria tido seu sono observado. O arquiteto sentou-se na cama, e o encarou. Você é tão lindo, pensou, e sorriu. Thomas tinha um corpo perfeito, esculpido, com pernas fortes e braços fortes, mas não exageradamente. E havia pelos, perfeitamente distribuídos nas regiões certas. Isso tudo atraía Guido, mas o que realmente lhe fazia amá-lo, era a pessoa por dentro. O homem que era Thomas. O olhar que o psicólogo possuía e lhe dirigia. As palavras que dizia – não apenas o que Guido queria ouvir, mas sempre a coisa certa: havia sempre honestidade em suas palavras e caráter em suas ações. O seu ar sério e reservado também atraía o arquiteto, porque Guido sabia que depois viriam os tais sorrisos descontraídos, que eram os mais belos que Guido vira na vida, a sobremesa mais doce em qualquer hora. E Thomas tinha um jeito de franzir o cenho, e de contrair o lábio inferior, que lhe assegurava um ar sexy, incomparável. E havia a sua incrível vivacidade e energia. Tudo isso fazia Thomas ser o único homem capaz de ser amado por Guido. E Guido achava que, em todos os aspectos, fora construído para Thomas.

— Você dormiu bem? — perguntou Thomas, sua voz soou um pouco rouca no início.

Guido deu um riso.

— Sim.

— Eu sei que você não teve pesadelos. — disse Thomas, um pouco mais sério do que antes. E ele estava certo, Guido não tivera pesadelos. Guido não tinha pesadelos quando estava na companhia de Thomas, e durante dois anos e meio, pôde ter ótimas noites de sono. Mas nos últimos cinco meses, desde que foram forçados a se distanciar, os sonhos ruins voltaram, e muito piores. Mas a noite anterior fora calma e pacífica.

— Não, como sabe?

— Você sempre diz que não tem pesadelos quando estamos juntos. E eu acredito em você. — respondeu Thomas. E por um instante, pelo seu olhar examinador, parecia que estava estudando Guido.

O arquiteto soltou uma risada.

— Está me analisando?

— Sim.

— Hm... e o que acha?

— Que você está mais lindo do que nunca.

O rosto de Guido se ruborizou. E ele não conseguiu segurar um sorriso encabulado. Thomas sorriu de volta. Mas havia algo em sua fisionomia, em seu olhar. Algo que Guido reparou desde o primeiro momento após despertar.

Thomas abaixou a cabeça, e massageou a nuca com uma das mãos.

— O que aconteceu, Thomas?... — o rosto de Guido ficou sério. E Ronald surgiu em seus pensamentos. — o Ronald veio aqui? Ameaçou você outra vez?

Thomas voltou a olhá-lo, suas sobrancelhas contraídas. Agora era visível: algo havia acontecido.

— Gui, ligaram pra você mais cedo. É o seu avô...

Ainda sentado sobre a cama, Guido se retesou.

— O que tem meu avô, Thomas?

Thomas respirou fundo, e mirou seu olhar seguro nos olhos de Guido.

— Ele morreu, pouco antes do dia amanhecer.

Guido não soube como reagir. Mas sentiu uma tristeza profunda, e imediatamente pensou em sua avó. Em como ela estaria, agora. Quis abraçá-la. Ele quis muito abraçá-la.

— Como? E quem ligou?

— Sua mãe ligou. Ela disse que ele morreu dormindo...

— Minha avó... — sussurrou Guido.

— Ela está bem. Sua mãe disse que ela está triste, é claro, mas vai ficar bem...

— Eu vou pra Hither Hills. Eu preciso ver minha avó. — disse Guido, já se levantando da cama. Correu para o closet. Thomas se levantou, e foi até ele. Ficou parado na porta do closet, observando os movimentos do outro. Guido abriu uma gaveta, puxou uma camisa, depois abriu uma das portas e pegou uma calça que estava pendurada. Parecia frenético. E quando se virou para sair do closet, foi interceptado por Thomas. Só então parou e respirou. Olhou nos olhos do homem que amava.

— Eu te amo, Thomas.

— Eu também te amo, Guido. — e se abraçaram, apertado. Ficaram por alguns instantes assim, em profundo silêncio.

Notas finais
Se leu, obrigado! E se gostou, (obrigado também!), deixa uma review? Motivação é sempre bom!

Abraços! :]