O Último Chamado
5 Capítulo 5
Notas iniciais
O sol brilhava sobre a cidade quando deixaram Manhattan. Thomas impedira Guido de dirigir, e este concordou sem relutar. E assim, a viajem para Hither Hills acorreu um tanto silenciosa. Pouco depois de East Hampton havia uma nuvem negra no céu, e mais a frente, a chuva surgiu chicoteando o veículo. Ao lado de Thomas, no banco do carona, Guido parecia distante. Sua cabeça estava inclinada e recostada no vidro da janela. Seus olhos observavam os pingos de chuva que se quebravam e percorriam caminhos pela superfície externa. Vez em quando Thomas o olhava, e se sentia mal por ele. Embora soubesse que a tristeza sofrida pelo arquiteto fosse completamente natural, ainda assim dividia-se entre ficar atento a estrada, e observá-lo, como que querendo tomar conta dele. E na realidade era bem isso. Queria vê-lo melhorar e sorrir, mas sabia que devia deixá-lo quieto.
Os pensamentos de Guido estavam longe. Muito longe. Voltara no tempo. Era novamente a criança, livre e solto em seus dez anos, infantil e ingênuo, apaixonado por filmes e seus bloquinhos de madeira. Lembrava-se do avô, sim, mas sua emoção estava mais voltada para sua avó. Ela nunca foi do tipo frágil, não superficialmente. Era até forte, e demonstrava isso. Mas estaria arrasada, agora. Guido precisava vê-la, e dizer que a amava. Sempre foi muito ligado a ela, e até hoje o era. Sentiu-se aflito.
— Preciso de água... — sua voz saiu rouca, abafada. Thomas o olhou um pouco surpreso. Mas se sentiu aliviado por vê-lo falar, finalmente.
— Tudo bem. — disse ele de modo terno — Eu paro assim que ver um local. — e olhou Guido de soslaio, na expectativa de uma nova palavra.
— Está me estudando desde que saímos de Nova York. — Guido disparou, mas sem olhá-lo.
— Está triste, e eu me importo com você.
O silêncio pairou por alguns minutos, e então Guido voltou a falar: — Estou preocupado com a minha avó...
— Ela vai ficar bem, ela tem pessoas que a amam perto dela...
—... se eu morresse amanhã, ficaria bem depois de quanto tempo? — e olhou-o.
Thomas correspondeu ao seu olhar, com certa amargura, e sua reação quase beirou a distração. Mas então voltou a observar a estrada.
— Eu não ficaria bem, Guido. Por mais psicologia que eu estude, não posso explicar o amor. Mas sei que a hipótese absurda de perder você é por si só um motivo pra não ficar bem. — fez silêncio, depois.
— Então acho que a minha avó não vai ficar bem. — disse Guido.
A chuva dera uma trégua. Mas o céu ainda estava cinza e fazia bastante frio quando chegaram. O clima estava totalmente oposto ao de Manhattan. Mas ali era Hither Hills. Por ser próximo ao mar, o local ficava gelado em dias como aquele. Agora atravessavam a pequena cidade, que Guido conhecia como a palma de sua mão. Passara dezoito anos de sua vida morando em Hither Hills, e quando entrou para Universidade de Nova York, mudou-se para a capital. Os pais permaneceram morando no litoral. Entretanto, a família Mitchell sempre se reunia no último domingo de cada mês, e por isso era comum Guido passar o final de semana ali, com seus pais, seus avós maternos e, quando podiam vir, seus dois irmãos.
Sem tirar os olhos da direção, Thomas pegou a mão de Guido. Apertando, entrelaçam seus dedos. E o arquiteto se sentiu aconchegado com aquilo. Avançaram pela rua principal da cidadezinha, e em seguida viraram à direita em rua pavimentada com pequenos paralelepípedos. Já dali podia-se avistar a residência dos Mitchell. A casa dos pais de Guido era na verdade uma mansão, e situava-se no topo de uma colina arborizada. Era uma construção muito bonita, de três pavimentos, com uma enorme varanda frontal, janelas com venezianas e um telhado de duas águas. Quase toda ela branca, com colunatas e soalho polido. Do alto da colina onde ela fora erguida, podia-se ter uma vista privilegiada do litoral de Hither Hills, e de parte da cidade.
Quando se aproximaram do portão principal, o caseiro reconheceu Guido. Após um rápido cumprimento simpático, deixou-os passar. Pararam o veículo na garagem, onde havia mais quatro carros. Já dentro da casa, a primeira pessoa que viram foi Eliot, pai de Guido. Seu semblante parecia triste, com as sobrancelhas grisalhas contraídas, e suaves olheiras abaixo dos olhos. Mas ainda possuía uma aparência jovial, atlética e charmosa. Deu um beijo na testa, e depois um grande abraço no filho, como sempre o fazia quando encontrava Guido. Em seguida apertou a mão de Thomas e puxou-o para um abraço amigável. Eliot gostava de Thomas, aprovava-o como namorado do filho, aceitava e respeitava o relacionamento dos dois.
— Fizeram boa viajem, meninos? — perguntou, com um sorriso entristecido.
— Fizemos, sim. — respondeu Thomas.
Eliot fez um aceno com a cabeça, satisfeito.
— Ótimo, ficamos preocupados por causa da chuva na estrada. — disse ele, e então olhou o relógio em seu pulso. Parecia impaciente. — Vamos para a cozinha, estão todos lá. Menos sua mãe — Eliot mirou o olhar em Guido, e o filho percebeu que havia algo errado.
— O que houve com minha mãe? — perguntou Guido, sentindo o coração disparar.
— Está tudo bem com ela, filho. Tenha calma. — disse Eliot, enquanto passava um braço por cima do ombro de Guido, e o outro por cima do de Thomas. E os três foram caminhando até a cozinha, enquanto Eliot explicava tudo: — a pressão da sua avó baixou, e sua mãe achou melhor que ela ficasse deitada. Está lá em cima com ela. O médico a está examinando, depois você poderá subir para vê-las.
— Isso é perfeitamente normal, Gui. — disse Thomas, percebendo o assombro em seus olhos. Quis abraçá-lo e confortá-lo.
— Eu entendo... — respondeu Guido, quase como um sussurro. Quando entraram a enorme cozinha, Guido viu sua irmã Giulia sentada em frente a uma grande mesa de madeira, tomando chá. Ao seu lado estava um rapaz desconhecido aos olhos de Guido. Também estavam ali tia Anne, de quem Guido tanto gostava, e o primo Steve, que crescera com ele. O clima teria sido de grande festa se não fosse à ocasião pelo qual se reuniam. Havia tristeza nos quatro cantos da residência naquele dia. Mas mesmo assim Guido e Thomas foram recebidos com abraços e sorrisos pelos familiares.
— Onde está o John? — perguntou Guido, referindo-se ao seu irmão do meio.
— Ainda vai levar algumas horas pra chegar — respondeu o pai enquanto se servia de café. John morava em Montreal, no Canadá, e mesmo depois que seu avião pousasse em Nova York, ainda teria de fazer a viagem para Hither Hills. — já tomaram café? — Eliot perguntou aos rapazes.
— Obrigado, Eliot, mas estou sem fome agora. — disse Thomas. Olhou para Guido. — Quer comer alguma coisa, Gui? — perguntou. Guido balançou a cabeça, negando. Depois se sentou em uma cadeira qualquer próxima da mesa. Thomas se sentou ao seu lado, e o abraçou. Guido recostou a cabeça em seu ombro.
— Faz quanto tempo que elas estão lá em cima? — perguntou Guido, mirando o olhar em seu pai.
— Quase meia hora. Sua avó quase desmaiou, e o Steve ajudou a subir com ela. — disse, indicando o primo de Guido. — chamamos o Richard, ele chegou aqui minutos antes de vocês chegarem.
— Ah, sim. — Guido pensou um momento, e então voltou a falar: — e meu avô?
Eliot baixou o olhar.
— Vai ser enterrado ás duas, no cemitério de Hither Hills. Oswald queria ser enterrado aqui...
— Já providenciaram tudo? — perguntou Guido, interrompendo o pai. Eliot o olhou, e percebeu seus lábios arroxeados.
— Sim. — franziu o cenho. — Está tudo bem, filho?
— Sim. — respondeu, estranhando a reação do pai.
— Guido, seus lábios estão roxos... — reforçou tia Anne, e sua expressão facial era quase a mesma de Eliot, assustada — está com frio, filho?
— Um pouco. Mas está frio, tia. Não é? — indagou Guido, e de repente se sentiu um idiota. Retesou-se, e Thomas lhe tocou o rosto com calma, virando-o para si. Ao ver os lábios de Guido, entendeu o espanto de todos.
— Gui, você está gelado... — disse, tocando a mão do namorado. Depois tocou seus lábios... — E sua boca está muito roxa. — Thomas raramente demonstrava susto ou pavor, mas ao ver a cor dos lábios de Guido... aquilo o assustou. Ele se levantou.
— Calma, Thomas... — disse Guido, espantado. Todos na cozinha o olhavam agora. Os lábios do arquiteto estavam tão roxos que pareciam pintados — vocês estão me assustando...
Desconcertado, Thomas pegou na mão de Guido.
— Eliot, tem algum quarto vago lá em cima?
Eliot também estava assombrado. Aproximou-se do filho e tocou sua testa. E pôde sentir a pele gelada sob a mão.
— Tem sim, Thomas. — disse, com os olhos arregalados. — É melhor subir com ele. Vou pedir ao Richard para examiná-lo. Leve-o para qualquer uma das suítes que estão vazias no segundo andar. —Guido se levantou, e pela mão, foi quase que puxado por Thomas para o segundo andar. Entraram em uma das suítes. Era ampla e arejada.
Thomas estava nervoso, agitado, e extremamente preocupado com Guido.
— Eu quero que você se deite — disse ele para Guido, e como se o namorado fosse uma criança, ajudou-o recostar-se sobre a cama. Em seguida caminhou até um enorme armário de madeira, e o abriu. Encontrou edredons limpos e dobrados dentro de bolsas plásticas transparentes. Ao retirar um deles, sentiu um suave aroma de lavanda.
— Você está sentindo frio? Porque seus lábios estão roxos e sua pele gelada, mas você parece indiferente a qualquer uma dessas coisas... — comentou, enquanto cobria Guido com o edredom.
— Thomas, eu to com frio, sim. Mas não entendo porque meus lábios estão roxos, eu não estou congelando...
Thomas tocou novamente o rosto de Guido. A pele continuava gelada. Nesse momento, uma mulher entrou no quarto, e parecia agitada. Era esbelta, mas não tão alta. Seus cabelos eram loiros e lisos, só que tingidos. A pele era muito branca, e em seu rosto, olhos castanhos claros enxergavam hoje com um profundo ar de tristeza e dor. Ela era muito bonita, com traços delicados em sua face, mas estava abatida. Ao redor de seu pescoço havia uma fina corrente de ouro, e dela, pendiam três pingentes em formato de “criança”. Embora agora todos fossem adultos, cada um representava um filho.
— Guido! — disparou Carrie, angustiada. Inclinou-se e abraçou seu filho de forma apertada e terna. Guido sentiu o delicioso e suave perfume da mãe. Depois de uns instantes abraçados, ela se afastou e sua expressão contorceu-se em susto. — seus lábios! O que houve?
— Eu não sei... — Guido tentou dizer, mas Carrie começou a passar a mão por sua testa, e depois seu rosto. Os olhos dela estavam vermelhos, como se tivesse chorado muito, por muitas horas. Era perfeitamente compreensível, afinal, pois seu pai acabara de falecer. Entretanto, naquele instante, ela parecia mais ativa do que cansada. Então seus olhos encontraram os de Thomas. — Oi Thomas, tudo bem meu anjo? — perguntou, com um sorriso triste nos lábios. Assim como Eliot, ela gostava bastante de Thomas, e se sentia segura por Guido tê-lo por perto. Ela confiava nele.
— Tudo, Carrie. — Thomas se aproximou dela, e a abraçou, com ternura. — Eu sinto muito pelo Oswald. — disse ele. Quando se afastaram, Carrie tocou suavemente a face de Thomas.
— Obrigada, meu filho. — disse, com lágrimas nos olhos. Depois virou para Guido. — seu pai está falando com o doutor Richard, e ele vai examinar você. O que está sentindo, Gui?
— Eu não sei, acho que só frio. Mas não a ponto de congelar. Não sei por que meus lábios estão roxos. — disse ele.
— Começou de repente, ele não estava assim quando chegamos aqui. — acrescentou Thomas, parado ao lado da cama, de braços cruzados. Olhava Guido, e sentia medo de que fosse algo grave. Sentiu o coração apertado. Não posso perdê-lo, pensou.
Carrie sentou ao lado do filho, e começou a acariciar seu rosto.
— Como está minha avó, mãe?
— Ela vai ficar bem. — disse Carrie, com alívio pesar na voz. — Mas ela está muito abatida, e triste. Ela amava muito seu avô, você sabe. Doutor Richard a examinou e lhe deu um calmante. Ela já deve estar pegando no sono...
— Ela sabe que estou aqui?
— Não, ainda não. Por enquanto não é bom que ela se agite, entende?
Guido assentiu com a cabeça. Então Eliot adentrou o quarto, seguido por um homem alto, de pele negra. Seu cabelo era curto, e grisalho, mas ele ainda era jovem. Sorriu ao ver Guido.
— Guido! — saldou Dr. Richard, sorridente. Ele conhecia Guido há quase dez anos, desde quando se tornara médico da família Mitchell. — Tudo bem? Quanto tempo, hein?
Guido assentiu, com um riso, enquanto recostava-se na cama. Ele e Richard se cumprimentaram com um rápido aperto de mão.
—... ficaram roxos de repente, Richard. Como eu te disse. — falou Eliot, olhando o filho.
— É, é realmente estranho. — disse o médico, sentando-se na cama, e examinando os lábios de Guido. — O que você comeu hoje?
— Nada. — respondeu Guido.
— Nem tomou nada?
— Só água. Compramos uma garrafa na estrada, enquanto vínhamos pra cá. — disse.
— Hmmm, entendo. — respondeu Richard. E então tirou um estetoscópio de sua maleta de couro. — está sentindo muito frio?
— Não. Na verdade estou começando a sentir calor com todos esses cobertores...
Richard deu uma risada.
— Ok. Pode tirar a camisa? Gostaria de ouvir seus pulmões. É só um procedimento padrão...
— Tudo bem. — assentiu Guido, e tirou a camisa rapidamente. Após quase três minutos examinando, Richard guardou o estetoscópio de volta na maleta, e da mesma pegou um termômetro. — Ponha-o embaixo do braço, assim...
Todos no quarto permaneciam em silêncio. Carrie estava abraçada a Eliot, enquanto Thomas continuava parado com os braços cruzados, encostado em uma cômoda ao lado da cama. Não tirava os olhos do arquiteto, completamente atento ao exame.
Após um tempo, Richard tirou o termômetro que estava sob a áxila de Guido, e o olhou.
— Nada. Você não está com febre, mas está realmente muito gelado. — disse, enquanto tocava a fronte de Guido. — Pode vestir a camisa.
O último procedimento do médico foi medir a pressão do jovem. E novamente, tudo estava normal. Richard não deixou transparecer, mas achou aquilo profundamente estranho. Não havia nada naquele momento que pudesse explicar os lábios roxos de Guido, e o mesmo não parecia estar sentindo um frio tão exagerado aquele ponto. O médico soprou o ar, cheio de tensão.
— O que você acha? — perguntou Eliot a Richard.
— Não há nada errado, pelo superficialmente. — respondeu ele, com um meio sorriso. E depois virou para Guido e Thomas. — eu recomendo um banho nem tão quente e nem não frio. Morno, se possível. — enfatizou seu olhar sobre Thomas, como se soubesse que ele poderia controlar Guido. — E depois seria bom que ele não saísse, de jeito nenhum. Lá fora está muito frio...
— Mas eu vou ao enterro do meu avô... — interpôs Guido.
— Não, meu filho. Você não vai, ouviu o Richard. — disse Carrie. — Fique aqui em casa, com o Thomas pra tomar conta de você.
Thomas sorriu para Guido.
— Você não tem escolha. Nós já decidimos isso. E você fica. — disse o psicólogo, e Guido achou sexy o modo como ele falou aquilo. Mas é claro que não expressou seu pensamento. Então apenas ficou calado. No fundo gostava de ser cuidado pelo seu namorado.
Após o banho morno, Guido vestiu suas roupas. Thomas o esperava no quarto. Quando Guido voltou ao aposento, encontrou o namorado olhando através da janela observando a chuva fina que banhava o litoral e deixava o mar cinza. Guido se aproximou dele. Ao senti-lo do seu lado, Thomas o abraçou, e lhe deu um suave beijo na boca. Um beijo doce e realmente delicado, carregado de muito carinho, e preocupação.
— Está tudo bem — disse Guido, depois do beijo. — Eu vou ficar bem.
Thomas sorriu.
— Seus lábios ainda estão roxos, e sua pele ainda está fria. — disse ele, com aquele sorriso que desconcertava Guido. — É melhor você deitar, e ficar coberto. Eu deito junto, e te abraço forte, e quem sabe posso te aquecer e te deixar bem quente?
Guido sorriu.
— Pode ser. — respondeu.
Os dois se dirigiram a cama, de as mãos dadas. Deitaram juntos, e Thomas ajudou Guido a se cobrir. Depois passou sua perna por cima da de Guido, e o abraçou tão apertado que o arquiteto podia sentir sua respiração suave e seu hálito de menta, deliciosamente próximos. Além disso, mesmo que um tanto inapropriado para o momento, era gostoso sentir o membro rijo de Thomas encostado em sua perna, ainda que com um edredom entre eles. Essa excitação era perfeitamente normal entre os dois.
— Não poderíamos... — comentou Guido, rindo levemente.
— Eu sei... — respondeu Thomas, com um riso descontraído.
Então ficaram somente abraçados, e quietos. Depois de um tempo profundamente silencioso, adormeceram.
Guido despertou, naturalmente. Thomas ainda o abraçava, mas dormia calmamente. Um pouco sonolento, o arquiteto olhou seu relógio de pulso e percebeu que já passava das duas da tarde, embora ainda não fossem três. Àquela altura, todos já teriam saído para o enterro do avô. De repente lembrou-se de seus lábios roxos, e tocou-os, sentindo curiosidade. Ergueu-se da cama com cuidado. Ainda dormindo, Thomas virou-se para o outro lado. Guido caminhou devagar até o banheiro, e olhou-se no espelho. Um profundo alívio tomou conta de seu corpo: os lábios estavam outra vez vermelhos, embora ao tocar sua própria pele não soubesse dizer se estava fria, quente, ou em temperatura normal. De repente sentiu o estômago roncar e se deu conta de que ainda estava em jejum. Preciso comer, disse achando graça.
Ao deixar o quarto, Guido caminhou pelo corredor em passos normais. Estava distraído quando passou a frente de um quarto cuja porta estava aberta, mas de alguma forma registrou que havia alguém em seu interior, repousando. Deu dois passos para trás, e mirou seu olhar para dentro do cômodo.
— Vó?... — ele franziu o cenho. Era realmente sua avó quem estava ali, deitada sobre a cama. Parecia dormir. Com cautela, Guido se aproximou da cama. E ao ver sua avó, um sorriso triste desenhou-se em seus lábios. Ela não estava muito diferente desde a última vez que se viram, há pouco mais de um mês. Seus cabelos continuavam loiros, como ela os tingia (assim como sua mãe). E seu rosto branco permanecia terno. Mas, mesmo dormindo, Guido pôde perceber que havia tristeza no semblante de sua avó. Subitamente, uma dúvida lhe ocorreu: porque ela não teria ido ao enterro? Em seguida a resposta lhe pareceu óbvia. Ela deve estar muito abalada, pensou ele. E realmente estava.
Com o máximo de esforço para não acordá-la, Guido se sentou na cama. Com suavidade, pôs-se a acariciar sua testa. Ela cheirava ao mesmo perfume de que Guido se lembrava desde a infância. E era delicioso. Com delicadeza, beijou seu rosto. E no exato momento em que seus lábios a tocaram, os olhos se abriram. Guido afastou-se, e a encarou. Sorriu ao vê-la acordada.
— Oi vó. A senh...
De súbito, a mão esquerda de sua avó segurou um de seus braços, apertando-o tanto que os nós de sua mão tornaram-se brancos. O coração de Guido disparou, mas ele não teve reação. E ao mirar os olhos dela novamente, percebeu-os diferentes. Não era o olhar de sua avó. Parecia outra pessoa.
— Vó? Ca-calma... — Guido tentou dizer qualquer coisa, mas não sabia o que. E por um momento, sua avó nada falou. Somente seus olhos cinzentos miravam Guido, e neles havia frieza e evasão. — O que está havendo, me fala... — disse ele, com certa apreensão. E então os lábios dela se desgrudaram, como se fosse dizer algo. Mas não saíram palavras. Não de imediato...
O braço de Guido já doía no local onde sua avó o segurava. Mas ele não tentou se desvencilhar. Em lugar disso, tentou manter a calma. Seu coração batia intensamente...
— Vo-voc... você... é o... é o séti... — os olhos cinzentos o olhavam, vidrados. Ela simplesmente não piscava. E Guido estava assustado.
— O quê?... — as palavras saíram sem que Guido as pudesse conter.
— sé-sétimo filho... — ela estava arquejante. E seus arquejos eram horríveis, como se algo a sufocasse. E tão de repente, a mão soltou o braço. Guido estava apavorado! Tanto pela respiração aguda de sua avó, quanto por aquilo que ele, momentaneamente, não conseguia compreender.
— Vó?! Calma... — Guido agitou-se. Pensou em gritar por Thomas, mas a voz lhe faltou. Na verdade, ele mal conseguia falar qualquer coisa. Você é o sétimo filho. A sensação era horrível.
Notas finais
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