O Último Chamado
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Uma forte trovoada estremeceu Thomas, mas não pareceu ter o mesmo efeito sobre Guido, que permanecia com o braço esticado e a ferida a mostra. Sua expressão era dura, e seus lábios começavam a tomar um suave tom de roxo.
Thomas se aproximou, tocando suavemente o braço de Guido, e examinando a ferida mais de perto. Tocou-a com dedos leves, e um olhar calmo. Depois voltou a observar Guido.
— Eu quero que você me conte isso melhor, mas antes eu preciso que você se seque, e troque a roupa. Seus lábios estão roxos — Thomas tocou com leveza os lábios de Guido. Depois acariciou sua face, com profundo carinho e paciência. — e você está gelado. — disse, por fim. Guido abaixou a cabeça, e retraiu o braço. Depois abraçou Thomas, novamente. E assim ficaram por alguns longos segundos, dos quais apenas o som da chuva foi companheiro. Então Guido se afastou, e olhou Thomas profundamente em seus olhos.
— Eu vou me secar, sim. E troco a roupa. Mas você ao menos ouviu o que eu disse? — questionou-o, muito sério. Thomas sorriu.
— É claro que sim. Esse machucado veio de um pesadelo. Nós vamos conversar sobre isso, mas agora eu quero que você vá se cuidar. Não pode se gripar...
— Eu já disse que vou.
Thomas ainda sorria. Um sorriso perfeito, que assegurava ainda mais encanto.
—... Tá. Pegue uma roupa minha, sabe onde está tudo nessa casa. Eu vou fazer um chá, e nós vamos conversar melhor. Pode ser? — Guido meneou a cabeça, assentindo. Depois subiu as escadas, indo em direção ao andar íntimo.
A casa de Thomas tinha muito estilo. Por fora, a tradicional fachada arquitetônica de Nova York. Por dentro, muitos livros, poltronas. As paredes eram todas em tijolinhos aparentes, sem emboço, muito menos pintura. Num todo, a residência era grande e espaçosa, mas muito aconchegante. Havia uma sala de vídeo, com TV e Home Theater e uma estante com quase três centenas de títulos em DVDs, além de uma sala com aparelhos de ginástica (diariamente utilizada por Thomas), biblioteca com mais de duzentos livros, um escritório, uma cozinha moderna e totalmente equipada, banheiros, lavanderia, quatro quartos e uma suíte principal. Quatro anos antes a reforma fora comandada por Guido, arquiteto e designer de interiores. Foi justamente nessa época que o relacionamento dos dois surgiu. Thomas conhecera Guido em um café que frequentavam todos os dias no mesmo horário. A circunstância os levou a amizade. Quando ficou sabendo que Guido era arquiteto, Thomas o contratou para reformar uma casa que estava comprando em Manhattan. A relação amorosa se desenrolou posteriormente. Eles ficaram juntos por dois anos e meio, até o passado chegar e assombrar a relação dos dois. O passado, nesse caso, foi o ex-marido de Thomas. Mas esse era um período dolorido demais para Guido, e ele preferiu esquecê-lo, ou pelo menos tentar. No fim, o relacionamento com Thomas prevaleceu. Naqueles últimos seis meses, nunca se separaram verdadeiramente...
Guido entrou na suíte de Thomas, e caminhou até o espaçoso closet. Lá dentro, abriu uma gaveta e tirou uma camisa qualquer. Depois uma bermuda simples, e uma cueca. Por ironia, a primeira que pegou fora uma que ele mesmo havia comprado para Thomas, um ano antes. Uma boxer preta, Calvin Klein. Guido dera várias dessas para Thomas. Mesmo submerso em um assombro constante, soltou um riso aleatório ao perceber que pegara uma cueca que ele mesmo comprou. Já no banheiro, olhou a banheira. Não quis esperá-la encher, portanto despiu-se e entrou embaixo do chuveiro. O corpo de Guido era atlético, assim como o de Thomas. Seus braços tinham músculos bem delineados, e suas coxas eram musculosas. Completamente nu, sentiu a água morna tocar sua pele, percorrendo todo o seu corpo, relaxando sua tensão e evanescendo o frio. Perdeu-se por alguns minutos, esquecendo-se de tudo.
A porta do banheiro estava aberta, mas mesmo assim Thomas anunciou sua chegada com duas singelas batidas. Guido foi trazido de volta para o mundo real. Virou o rosto para Thomas. Trocaram olhares sérios por alguns instantes, e então Thomas entrou.
— Eu trouxe uma toalha. — disse, pendurando-a no apoiador de metal inox ao lado do chuveiro. Depois cruzou os braços, e ficou observando Guido sob a ducha. Este pareceu não se importar. Ficaram assim por quase um minuto. Então Thomas disse: — você está muito bem. Fazia tempo que eu não te via sem roupa... — com um risinho furtivo, virou-se e caminhou para fora do banheiro. Guido corou, embora, por inúmeras vezes, Thomas já o tivesse visto nu. Viram-se assim não fazia nem um mês mais ou menos. Passados mais alguns minutos sob o chuveiro, Guido voltou a olhar o pequeno corte na lateral do braço esquerdo. Parecia estar cicatrizando um pouco rápido demais, ele pensou, e deixou que a água morna batesse diretamente sobre a ferida, depois a lavou com o sabão líquido. Um tempo depois, ele fechou o chuveiro, e puxou a toalha. Enxugou-se, e se vestiu rápido. Ao sair do banheiro, virou num curto corredor que ligava aquela área molhada ao closet, e adentrou ao quarto. Encontrou Thomas esperando por ele. Parecia que ele estivera algum tempo sentado na ponta da cama, e que depois deitou as costas. Ao ver Guido, ergueu-se sobre os cotovelos. Olharam-se novamente. Havia uma conexão muito forte entre ambos, e mesmo sem querer, dividiam intimidade. Tudo ainda era muito presente.
— Tem água quente lá embaixo, e chá. O tipo que você gosta. — deu um meio sorriso, tímido. — Quer descer? Ou quer que eu traga pra você?
Guido sorriu.
— Eu desço. Obrigado. — disse.
— Você quer me contar sobre o sonho que teve?
— Eu quero.
— Ok.
Ficaram em silêncio por alguns instantes. Suficientes para Guido se perguntar por que ligara para Thomas, e porque estava ali. Porque também havia tomado banho na casa dele? E porque estava usando as roupas dele? Por um instante, quis fugir e se esconder. Seu rosto ruborizou-se outra vez, mas agora Thomas percebeu. E voltou a sentar na cama.
— O que foi? — perguntou, olhando com ar de piedade.
— Nada.
Thomas sorriu.
— Pode mentir pros outros. Não pode mentir pra mim. Eu estudo você, sempre que te vejo.
— Então pare. Isso é muito cruel. — respondeu Guido, sentando-se ao seu lado na ponta da cama.
Thomas voltou a deitar.
— Sabe que não vou parar. É meu objeto de estudo favorito. Nunca vi alguém tão complicado, e tão fascinante...
Guido se levantou.
— Acho melhor eu ir pra casa...
Thomas também se levantou, dessa vez ficando de pé somente a alguns centímetros em frente a Guido.
— Não. Quero conversar com você. Quero te ouvir. Precisa por pra fora, Guido. Ninguém pode guardar tudo para si o tempo inteiro, precisa confiar em alguém...
— Eu sei! — Guido disparou, incomodado.
— Então haja de acordo. — disse Thomas, duro. — Vem comigo. — pegou-o pela mão, com suavidade, e desceram juntos para a cozinha.
Lá em baixo, Thomas serviu-lhe uma caneca de chá de hortelã. A cozinha cheirava a café e hortelã ao mesmo tempo. Era bom. E Guido pensou que só sentia aquele cheiro na casa de Thomas. Guido tomou um rápido gole do chá, e o sentiu descer, quente. Foi relaxante. Thomas estava do outro lado da bancada, servindo-se de café preto. Tomou um gole, e encarou Guido.
— E então? Quer falar?
— Eu só quero falar.
Eles riram juntos. Thomas puxou um dos bancos altos e o trouxe para próximo de si, do outro lado do balcão. Sentou-se de frente para Guido.
— Pode começar.
Guido tomou mais um gole do chá de hortelã, e respirou profundamente. E então começou a contar tudo.
—... Você já sabe dos meus pesadelos recorrentes. Eu os tenho há muito tempo, desde muito antes de nos conhecermos. — disse. Estava muito mais calmo agora. Sempre se sentia tranquilo quando podia contar coisas para Thomas. Ele continuou: — só que, meus pesadelos sempre se repetem. Eles nunca mudam. Sempre pessoas estranhas, com rostos embaçados, cheiro de fumo, e risadas. E sempre pessoas com feições de bicho, que se devoram. Muito sangue, coisas assim... — fez uma pausa, tomou outro gole. Thomas o observava, atento. Já estava acostumado a ouvir. Guido prosseguiu — Só que dessa vez foi muito mais assustador. Eu era um dos tais monstros que comiam aquelas coisas. Foi tão nítido dessa vez. Eu estava com a mesma roupa que eu usava enquanto dormia. E eu me via fazendo aquilo tudo, mas não era como se fosse eu. Não era eu. Era uma coisa que sentia prazer em comer aquilo... — Guido parou por um momento, sentindo uma pontada de enjoo ao lembrar-se de todo o sangue e vísceras, e pedaços de carne que viu no pesadelo. Um arrepio percorreu sua espinha, mas ele não sentiu medo. Apenas náusea. — Quando eu me deparei com aquilo tudo, e me vi naquela situação, eu comecei a dar passos pra trás, como que pra fugir sem ser notado... mas a coisa me olhou, me olhou com fome. Eu senti a fome. Eu senti pânico, e eu me lembro de senti-lo. Eu estava próximo de uma parede, ou algo assim, porque eu arrastei meu braço em uma moldura de madeira. Era uma moldura rude, mal lixada, com farpas apontando para fora... e eu me machuquei nela, Thomas. Eu tomei um corte pequeno no meu braço, e eu me recordo perfeitamente de virar e olhar meu sangue brotando dele. Então eu acordei. Ou fui acordado, na verdade. Olhando agora, eu confesso que não entendo porque eu acordei. — disse, sentindo-se realmente confuso. Encarou Thomas, mas este não disse nada. Guido soprou o ar, e franziu o cenho. Reunindo coragem, disparou: — você não acredita em mim? Acha que eu sou louco?
Mesmo muito sério, Thomas pareceu surpreso.
— Não, Gui. Não mesmo. Você não é louco. É que... — ele parou, por um instante. Estava pesando suas palavras com cuidado para não espantar Guido. — Gui, uma ferida aberta num sonho? Não é a coisa mais normal do mundo, entende? Eu lido com casos diferentes todos os dias no consultório, eu ouço pessoas contando coisas como se fossem confissões, mas nunca ouvi nada parecido com o que acabou de me contar. Não é que eu não acredite, eu nunca desconfiaria de você. — Thomas suspirou. Com suavidade, pegou em uma das mãos de Guido, apertando-a. Seus dedos entrelaçaram-se nos dele. Olharam-se profundamente.
— Eu acho melhor ir pra casa. — disse Guido, quebrando o silêncio.
— Passa a noite aqui? Não se preocupe, tem mais quatro quartos na casa. — disse Thomas. Os dois sorriram.
— Você sabe que se eu passar a noite aqui, eu vou terminar a noite na tua cama. — disparou Guido, e agora sorria como se nada o tivesse afligido. Como se o mundo estivesse perfeitamente em paz, com tudo em seu devido lugar. Thomas se levantou, e aproximou-se dele.
— Então a gente pode fazer diferente hoje. — ele tocou com delicadeza o rosto de Guido. Eram praticamente da mesma altura, e estavam muito próximos um do outro. — Você dorme em qualquer um dos outros quartos, e eu é que termino a noite na tua cama. Pode ser?
Guido sentiu o perfume delicioso de Thomas. Estava praticamente entregue por aquele toque, mas ainda faltava o seu consentimento. E se o desse, o ato iria do carinhoso ao selvagem. Thomas começou beijando o pescoço de Guido, que sentia a barba cerrada roçar em sua pele, provocando suaves arrepios. No momento seguinte, os lábios doces de Thomas encontraram os seus. No princípio, o beijo foi calmo. Então Guido cedeu, finalmente, e os lábios se aprofundaram, sedentos por mais. Sentiram o sabor do café e da hortelã, e o cheiro da grama molhada pela chuva no jardim invadiu a cozinha, trazido pelo vento. Nada era parecido com aquilo. Não existia algo como aquilo em lugar nenhum do mundo, e por isso Guido nunca se afastou totalmente de Thomas. Ele o conhecia como ninguém, e o tocava como ninguém. E a essa altura, o pesadelo fora soterrado pelo avanço docemente selvagem de Thomas. E no fim do dia, propriamente dito, partilharam do lado mais profundo do amor no macio sofá da sala, com apenas a luz do abajur acesa, o aroma do café, da hortelã, e da chuva que caía forte lá fora. Naquela noite, Guido adormeceu agarrado a Thomas, num sono sem sonhos, sem pesadelos. E realmente, nada era parecido com aquilo.
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