O sorriso de Sarah
1 A esperança
Poucas pessoas acreditavam mais no amor que Bianca Fantini. Uma descendente de italianos, cuja família fugiu do fascismo de Mussolini e se abrigou nos Estados Unidos. Bianca tinha uma boa casa em Oklahoma. Tinha um bom dinheiro. Uma boa vizinhança. Mas as más línguas vizinhas sabiam bem que sua vida costumava ser difícil.
A mãe morrera de falência múltipla de órgãos após um acidente no ano anterior. O pai entrara em depressão e mudara para o Texas. Bianca vivia sozinha desde os vinte e três anos, após sair da faculdade. Arranjou um bom emprego, que talvez tenha servido como atadura para o ferimento causado pelas perdas.
A linha tênue entre o desespero depressivo e a sanidade costumava ameaçar o rompimento. O amor também não lhe era simpatizante e habitualmente lhe pregava peças dolorosas que terminavam tragicamente. Tal como vinha, o amor ia. E assim, sua vida era pautada pelas idas e vindas do sentimento que lhe era vital.
Carente do carinho e incapaz de sustentar uma relação por muito tempo, Bianca havia feito tentativas frustradas de inseminação artificial, até descobrir-se infértil.
Os vizinhos jamais escutaram gritos de dor tão profunda.
***
Em 24 de março de 1998, Bianca Fantini completava 30 anos e definira a mais importante meta de sua vida.
- É precipitado. — Advertia Jenny, uma senhora acima do peso que vagava a casa dos sessenta anos. Os cabelos brancos estavam presos em um coque alto e a mulher suspirava, encarando um ponto fixo do outro lado da rua. — Adoção demora. Criar uma criança que não é sua. Não é o mesmo sentimento.
- Vamos ter muito tempo para nos conhecer, Jenny. — A mulher rebateu, estressada com a mesma história que se repetia todo dia. — Hoje, só vou conhecer as crianças. Acho que vou fazer uma quatro visitas até conhecer todas. A assistente social disse que neste orfanato, há mais de vinte.
- Não gosto dessa história. — Afirmou Jenny, grosseiramente. — Meu marido está esperando. Não se esqueça que May Duncan também adotou aquele criminoso. E agora, está morta.
A porta bateu e Bianca cerrou os punhos. Voltou para dentro de casa a passos largos, para checar novamente a aparência. As mãos tremiam, suava frio. Ela ainda tinha bastante tempo para decidir.
Os olhos castanhos brilhavam de emoção. O cabelo loiro estava preso em um coque. Parecia uma típica mãe dos anos noventa. Era o que pretendia. O vestido floral lhe caíra bem, mas seu rosto ainda exalava uma preocupação que poderia assustar.
***
- Spencer Christian. — A voz da recepcionista era sonolenta e arrastada. Parecia um emprego odiável. Fácil, mas odiável.
Meia hora. Uma. Duas. Bianca Fantini.
Levantou-se. Caminhou. Surpreendeu-se.
Mais de vinte crianças, com certeza.
Havia, no mínimo, trinta crianças que corriam, brincavam, lanchavam ou simplesmente estavam sentadas conversando ou caladas.
Um garoto jovem, sorridente, esbarrou na mulher.
- Desculpa. — Pediu, envergonhado. Ela sorriu. Os olhos dele eram escuros assim como o cabelo. A pele era tão branca que parecia papel. Ela assentiu.
- Qual seu nome?
- Leonard.
- Bem, eu sou a Bianca. Quer me apresentar aos seus amigos, Leonard?
Era difícil dizer quanto tempo havia se passado. Uma lista de nomes e diversos rostos. Toda vez que achava que tinha certeza, ele apresentava mais um e sua preferência mudava. Bianca pediu um tempo e se afastou, tentando memorizar todos os rostos e nomes. Sua cabeça girava. Sentou-se sem nem olhar e fechou os olhos.
- Saia de cima do meu lanche, por favor. — Uma voz baixa, calma e cética soou no ambiente. Bianca abriu os olhos para se deparar com uma garota que deveria ter seus sete anos e não mais que um 1,20 de altura. Seu cabelo batia nos ombros, liso e escuro. Seus olhos eram grandes e azuis claros. Algo em sua aparência lhe lembrava uma prima distante que não via há mais de uma década.
Levantou-se e sentou-se ao lado da garota, que agora pegava sua lancheira e comia um sanduíche. Algo apertou no peito de Bianca. Um sentimento não muito bem definido, mas que ela esperava fazia tempos.
- Qual o seu nome?
- Sarah.
- Eu sou Bianca. Podemos conversar um pouco?
- Eu gostaria de comer sozinha, Bianca. — Afirmou duramente. A mulher se surpreendeu com a grosseria e frieza, mas acatou o pedido. A assistente aguardava do lado de fora do pátio, resmungando no telefone.
- Achou alguém do seu agrado? — Indagou, um pouco irônica. Talvez estivesse irritada por conta da demora.
- Pode me falar sobre aquela garota, Sarah? — Pediu Bianca, ignorando a grosseria. A mulher pareceu surpresa e não tentou disfarçar.
- Está falando sério? Ela está lá há 2 anos, ninguém nunca perguntou sobre ela. — Afirmou, estupefata. — É psicopata.
A informação surpreendeu.
- Ela matou alguém?
A assistente revirou os olhos pequenos.
- Claro que não. Ela não sente empatia. Não ama, não odeia. É incapaz disso. Não presta pra ser filha de ninguém. — Afirmou, mordendo um chocolate que trazia na bolsa. Nada do que ouvira naquele dia deixou Bianca tão pasma quanto aquela afirmação tão fria. Como se a garota fosse um objeto.
- Bem, eu quero ela. — Afirmou, decidida. A mulher a encarou como se a um extraterrestre.
- Que parte do que eu disse você ignorou? — Perguntou. — Bianca, ela é psicopata. Não é uma criança normal.
- Que dia posso voltar? — Ignorou. — Amanhã?
- Pra ver alguém como ela? A hora que quiser. Não vai ter concorrência, de qualquer jeito.
Fale com o autor