O sorriso de Sarah
2 O vazio de Sarah
Notas iniciais
A ansiedade era inquietante e descomunal. Afinal, quanto tempo levaria até que pudessem se encontrar de novo? A garota lhe intrigara, lhe causara um sentimento contrário e fizera com que sentisse que tinha um desafio pela frente. Se era verdade o que a assistente Mary Lancaster lhe dissera, talvez aquele fosse o momento mais importante de sua vida. Que iria definir se ela era capaz de provar o que tanto queria provar.
Para si mesma. Para os outros. Para a senhora Jenny, seu marido e seus netos perfeitos. Para a linda família perfeita dos Boulevard, que moravam ao seu lado. Poderia ser disfuncional, diferente, mas ainda sim, ela e Sarah poderiam ser uma família. Quem sabe, uma família com mais amor do que todas as outras que moravam na sua rua. Uma família mais verdadeira do que os falsos sorrisos que todos esboçavam em épocas especiais.
Observou mais uma vez os laudos de diferentes psicólogos. Havia cerca de oito avaliações nas quais constavam a presença de “traços de frieza e ausência de sentimentos” e “clara personalidade psicopata, sem perigo potencial”. Não amava. Mas também não odiava.
Bianca crescera lendo histórias nas quais o amor superava tudo. Não era apenas uma crença qualquer, mas uma certeza que ela tinha dentro de si, desde que se entendia por humana. Ela sabia que aquele sentimento era capaz de transformar as pessoas. Fazia sofrer, mas também podia apresentar um mundo totalmente novo. Ela queria proporcionar isso a alguém. E aquele garota parecia precisar disso.
– Bianca, estou lhe dizendo… — Tentou Mary mais uma vez.
– Pode me dizer o que estou pedindo? Por favor. — Esboçou sua melhor cara de pedinte necessitada e Mary suspirou pesadamente. Abriu alguns arquivos no computador.
– Quem doou foi a avó paterna. Veio pra cá com quatro anos. Nasceu no dia 15 de julho de 1991. Atualmente tem sete anos. A família morreu queimada e ela foi entregue aos avós.
– Queimada? — Perguntou, sentindo a garganta fechar. Um nó se formou em seu estômago e ela desejou não ter almoçado. — Foi isso que a deixou assim?
– A história é pior. Parece que o incêndio foi provocado pelos pais, mas eles não conseguiram fugir. Ela já era assim. — Afirmou, calmamente. Mary estava acostumada a ver histórias horríveis e lidar com aquilo. Ela tomou um longo gole de café, esperando Bianca se recompôr.
– Eles queriam matar Sarah. — Bianca esperou a confirmação, duvidosa se realmente a desejava. Mas Mary assentiu.
– Os avós afirmaram que a mãe esperou muito por um filho. Quando ela nasceu e descobriram que era psicopata, sentiu-se frustrada. Até tentou fazê-la mudar, mas não deu certo. Então, ela enlouqueceu de vez. Os pais se sentiram incapazes de criá-la e resolveram colocar um ponto final na situação. Então, planejaram o incêndio, mas acabaram ficando presos em um dos quartos. Sarah estava no quintal e escapou sem ferimentos. Ficou com os avós durante um mês, até resolverem a burocracia para doarem-na.
– Eles deviam estar com medo que ela tentasse matá-los ou algo assim. — Completou Bianca. Ela apoiou a cabeça nas mãos. Estavam tonta, como se pudesse desmaiar ali mesmo. Ela também queria ser mãe, mas era incapaz de fazer isso com alguém. Como aquela garota teria se sentido sendo abandonada por algo que não tinha culpa? Será que aquilo não a atingiu além dos panos da indiferença?
Se conseguisse engravidar depois de tanto esperar, tinha certeza que aceitaria um filho do jeito que fosse. Ali estava ela, adotando uma garota que poderia ter grandes problemas psicológicos no futuro. Sua mente deveria ter uma rachadura incurável. E seu coração, provavelmente era partido. Ela queria juntá-lo. Precisava cuidar daquela criança. Mais do que nunca, sabia que precisava adotá-la.
– Eu preciso adotá-la, Mary. — Soltou Bianca, de repente. — Ela não pode mais ficar aqui, abandonada.
– Se é o que você quer, sei que não adianta discutir. Mas Bianca, digo isso como sua amiga: você não vai curá-la. Isso é um problema patológico. É incurável. Não tem jeito de voltar atrás. Ela nasceu assim. É como uma deficiência física. Grave. — Mary a encarou e Bianca não desviou o olhar. Encarou-a com ainda mais intensidade.
– Como amiga, você tem que acreditar que eu consigo
– Isso não é um conto de fadas. É vida real. A força de vontade não move montanhas. E digo por experiência própria.
Talvez, em um momento menos carregado, a loira teria perguntado o que ela quis dizer com aquilo, mas apenas levantou-se.
– O que eu preciso fazer?
Mary deu seu famoso longo suspiro e ajeitou os óculos que deixavam seus olhos ainda menores. Desligou a tela do computador e cruzou as pernas.
– Primeiro eu preciso avaliar sua rotina e as condições que você vai oferecer para ela. Se estiver tudo ok, ela vai passar uma semana com você. Faremos uma nova visita, ela dirá o que achou e eu e um psicólogo daremos o veredicto, caso ela goste. Depois, faremos uma visita a cada três meses para checar se está tudo bem.
Bianca sorriu.
– Posso ir conversar com ela?
Mary revirou os olhos.
– Vá logo.
***
A pequena estava sentada, lanchando sozinha como sempre. Bianca sentou-se ao seu lado e tentou induzir um pequeno diálogo.
– Você quer conhecer minha casa, Sarah?
A garota a encarou.
– Não.
Bianca desviou o olhar, mesmo que a criança não a olhasse. Precisava pensar em outra abordagem. Sempre foi boa com crianças, mas Sarah era diferente. E se realmente pretendia que ela passasse a amá-la como mãe, precisava jogar com as mesmas cartas.
– Pode passar apenas uma semana? Se não gostar, pode ir embora. Me faria muito feliz ter sua companhia.
Silêncio.
– O que você gosta de fazer, Sarah?
– Eu gosto de ficar sozinha.
– Você não conversa com ninguém? — Espantou-se. Toda criança conversava com alguém. A psicopatia a privava de ser uma criança como todas em absolutamente todos os aspectos?
– Já tentaram me fazer gostar de conversar. — Afirmou. Bianca não notou uma alteração sequer na voz: nem medo, nem raiva, nem tristeza. Mas algo lhe dizia que a garota se referia aos pais, que tentaram fazê-la amá-los. — Não deu certo.
– Você parece bem madura para sua idade.
– Eles te contaram o porquê.
– Como você sabe? — Desafiou Bianca, arqueando a sobrancelha. A garota a encarou, claramente não incomodada com o desafio.
– Eles sempre contam. Mas não entendo porque continua aqui. Geralmente, as pessoas vão embora depois disso sem nem se despedir. — Longe de ser uma reclamação, Sarah parecia até ligeiramente aliviada por evitar contato assustado com pessoas que provavelmente pensavam que ela era louca. Bianca respirou fundo.
– Eu também sei um pouco sobre ser rejeitada. Sobre terem medo de mim.
– Não o suficiente.
– As pessoas me tratavam com muita gentileza quando achavam que eu poderia entrar em depressão.
– É sensato.
– Você gosta de ler? — Mudou de assunto. Retirou da bolsa um livro infantil que havia comprado em uma livraria no caminho para o orfanato.
– Isso é para crianças de seis anos.
– Você tem sete.
– Pareço pensar como uma criança de sete anos?
– Não. — Bianca guardou o livro, derrotada. Provavelmente, ela não se interessava por brincadeiras bobas, já que não via qualquer razão para se divertir.
– É algo racional. — Afirmou, como se estivesse lendo seus pensamentos. — A maioria das pessoas segue instintos passionais. É aí que fica a “psicopatia”. Eu não tenho esses sentimentos. Apenas os instintos animais como a sobrevivência.
– Você sabe bastante sobre isso. — Surpreendeu-se. — Como aprende tudo isso?
– O psicólogo me contou. — Ela deu de ombros. — Me recomendou muitos livros. Passo esse tempo lendo.
– O que acha de vir comigo, então? Posso te levar a uma biblioteca e você pode me recomendar alguns livros. — Bianca piscou e sorriu, vitoriosa. Sarah levantou-se.
– Vou levar o pote de volta para a cozinha. Fale com Mary.
***
– Ela aceitou? — Mary parecia ter levado um tapa.
– Eu insisti bastante.
– Faz sentido. — Fez-se presente uma nova voz. Era um homem alto, na casa dos trinta e cinco anos. Tinha uma barba curta e olhos mel. Seu cabelo era curto e castanho. Ele estendeu a mão para Bianca. — Tristan Sprouse. Sou um dos psicólogos que acompanha Sarah. O que acompanha há mais tempo, por sinal.
Bianca apertou-lhe a mão e sorriu.
– Eu sou Bianca Fantini. Ela aceitou ficar comigo por uma semana. E ir comigo à biblioteca. — Contou com as mãos sobre o peito. O coração estava acelerado. Perguntou-se como seria a sensação de uma mãe que carrega o filho dentro de si. Seria uma ligação parecida? Será que Sarah poderia vir a sentir o mesmo?
– Desculpe, mas creio que como profissional, preciso de contar algumas coisas. — Ele olha para Mary e Bianca sentiu seus olhares cúmplices. Pelo visto, as informações que receberia já haviam sido discutidas antes, sem sua presença. Isso não lhe animou, mas ela sentou mesmo assim. Tristan tomou a cadeira ao lado e prosseguiu, encarando-a:
– Você já sabe dos problemas de Sarah. É um defeito racional. Digamos que ela esteja passando e alguém tenha sido atropelado. Ela está atrasada para o trabalho. Ela não vai parar e ligar para a ambulância porque isso a prejudicaria. Mais do que isso: porque mesmo que ela não estivesse atrasada para o trabalho, isso não a ajudaria. Não é lógico. É fruto de uma empatia que os humanos naturalmente tem uns com os outros. Mas ela não tem essa empatia. Ela tem esse defeito na ligação com os outros. Em enxergar os outros como semelhantes, como alguém que precisa de ajuda. Ela simplesmente não vai… Se importar. — As palavras dele soavam cuidadosas. Não eram palavras frias de um médico que dava um diagnóstico. Ela podia perceber que tinham um toque diferente. Como alguém que é o doutor de uma família há muito tempo e conta que descobriram uma doença terminal no filho da tal família. Ela respirou fundo. Mesmo com aquele cuidado, as palavras lhe machucavam.
– Está querendo dizer que é totalmente impossível que ela crie empatia por mim.
– Psicologicamente, sim. — Ele fez uma pausa. Um silêncio desagradável pesou sobre todos. Mary não os olhava, ela fingia estar digitando algo no computador. Bianca não o encarava, apesar de saber que ele a olhava. Colocou as mãos sobre as têmporas. — O que quero dizer, srta. Fantini, é que você não deve adotá-la com esperanças.
– Não vou desistir de adotar Sarah. Muito menos de fazê-la gostar de mim. Nem que isso leve mais trinta anos. E quando eu conseguir, talvez você precise rever seus conceitos de psicologia. — Afirmou, duramente, agora o encarando. Ele pareceu surpreender-se e desgostar de sua reação. Apenas assentiu.
– Como quiser. Com licença. — Ele levantou-se e saiu do ambiente. Mary estava de olhos arregalados. Ela tinha as mãos sobre a boca, que formava um “o” perfeito. Bianca levantou-se.
– Bom, você pode ajudar Sarah a arrumar as coisas dela? Eu volto para pegá-la às quatro.
Mary assentiu e Bianca saiu do local, com um gosto amargo na boca. Era difícil ouvir aquelas palavras, que ressaltavam aquele vazio de Sarah.
Um vazio que talvez ninguém fosse capaz de preencher.
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