O som que me chama

1 Primeiras impressões


Era como um alarme.

Era como um som, uma vibração que pulsava intensamente por debaixo da minha pele e percorria todas as extremidades do meu corpo, assim como seu interior.

Eu o sentia procurando cada vez mais, procurando alguma coisa por debaixo de meus pensamentos, por partes da minha mente que eu nem sei que existem... e envolvendo meu coração num aperto forte... e arrasador.

Era um chamado. Desde sempre, alguma coisa me chamava por todos os lados e eu nunca sabia o que era.

Trilhava todo esse caminho em um segundo e de repente... parava. E é nesse momento em que selava meu coração e guardava esse sentimento tão estranho e familiar, como se fosse um bonito segredo, e sorria.

E é aí que sabia ia ficar tudo bem.

Eu tenho um problema. Não é um problema como o alarme que me chama, este é intelectual e formado dentro da minha mente absurda, e um tanto mais problemático.

Não, é um problema genético. É engraçado pensar em como as características se movem por um fileira de gerações, como se parte das pessoas se desintegrasse quando estivesse nesse mundo, conectando-se a tantas outras.

Minha tataravó tinha uma penca de problemas respiratórios, muitos dos quais eu mesma adquiri. Minha avó gostava de dizer aos meus pais que eram os mesmos, iguais em toda forma.

É claro que pode ter sido uma enorme coincidência eu chegar no mundo com as mesmas condições que minha antiga parenta, mas meus pais preferiam pensar que era genético. Será que tinham algum tipo inconsciente de alívio?

Em resumo, não era totalmente grave a minha condição. Na verdade, só era extremamente chato. Eu tinha que frequentar o hospital, passar por vários e vários procedimentos e exames médicos, tomar alguns remédios em certos momentos e pronto, tudo ficava bem.

Só era chato. Era como estar sempre fora de forma, como estar constantemente sem fôlego. Respirar era complicado, mas não impossível.

Às vezes eu me sentia meio rebelde — rebelde dentro do possível, rebelde com apenas o que eu tinha para ser rebelde — e respirava fundo e longamente, juntando todo o ar e o sentindo, por dois segundos era a melhor sensação do mundo. Parecia que o ar tinha até sabor.

Mas então meu corpo me traía e o ar me deixava, meus pulmões queimando e o cérebro embaralhado procurando pelo oxigênio. Era um incômodo físico, mas ah... a sensação era ótima.

Naquela tarde, nem estava incomodando muito. Lembro de pensar que meus pulmões estavam calmos. Eu estava com aquele ânimo empolgante de viagem, uma sensação gostosa.

Estava chovendo muito e os pingos batiam violentamente na janela do ônibus e assim eu sabia que meus pais estariam preocupados com estradas molhadas. Mas isso não me desanimava.

Já sentia um alívio por poder pensar sozinha, sempre foi complicado conversar, para mim. Criar as expressões certas e prestar atenção, eu falhava nisso miseravelmente quase todo dia. Eu me sentia mais jovem assim, sozinha e sem expectativas para atender.

Quando contei aos meus pais meus planos de vir para a casa de campo sozinha por três meses, senti seus olhos paralisarem, foi quase como se um ponto de interrogação saísse de dentro deles e pairassem em cima da minha cabeça.

Eu gostava da cidade, mas precisava pensar e, ironicamente, respirar. Um plano foi criando raízes dentro de mim por um tempo, e logo senti que era algo certo.

Havia muito tempo que meus pais usaram a casa de campo, eu nem ao menos lembrava exatamente quando. Eles nunca a venderam, posto sua tamanha insignificância.

No começo, ficaram receosos com meu derradeiro plano maluco de passar as férias na casa, mas logo consegui convencê-los com o argumento de que seria ótimo para minha saúde. É claro que imediatamente comunicaram com uma antiga vizinha que conheciam razoavelmente, para que ficasse de olho em mim na futura viagem.

A casa ficava quase literalmente no meio do nada. A região, a muitos quilômetros de qualquer outra civilização, era cercada de longos campos íngremes, alguns cheios de plantações de cores e formas lindas, cortados por rios que corriam calmos e intensos. As casinhas de madeira largas e esparramadas eram espalhadas pelo local, distantes, mas ao mesmo tempo conectadas pela região peculiar.

Parecia que o mundo atual e real não havia chegado ali, como se aquele pedacinho do planeta tivesse parado no tempo.

Era assim que me senti quando cheguei ali. E adorei. A casa estava como eu vagamente lembrava, pensamentos escurecidos retirados dos tempos da infância — os únicos em que estive ali.

Estava razoavelmente inteira, eu sabia que a vizinha a limpava algumas vezes por ano, a pedido de meus pais. Mas parecia muito abandonada.

A madeira, apesar de aparência macia e lisa, parecia enfraquecida em alguns pontos, e a casa, um retângulo comprido com um telhado liso, parecia que poderia ser levantada pelo vento.

Por dentro estava bastante nebulosa e poeirenta, mas firme e ainda bonita. Eu me sentia ótima ali, ao tentar começar a limpar todos os cômodos e explorar todos os cantos. Lá pelo fim da tarde, estava ficando cada vez mais familiar e acolhedora.

Sob o crepúsculo, ouvi passos se aproximarem. Sentada nos degraus de entrada da propriedade, observei uma velhinha enrugada e corpulenta se aproximar, sorria toda maternal.

— Olá — ela disse — você deve ser a Kiki. Que menina mais bonita!

Ela era mesmo maternal, como uma avó carinhosa. Deu-me um abraço quente e apertado.

— Sou eu — dei um sorrisinho — ei, a casa está ótima. Obrigada pela ajuda e tudo mais.

— É bonita demais essa propriedade... sinto-me honrada em poder cuidá-la — e não era mentira, ela falava da casa como se fosse uma deusa muito linda a ser bajulada. Senti uma linguagem antiga na essência de suas palavras, que não consegui explicar para mim mesma.

— Você fez um trabalho incrível — tentei ser elogiosa, mas isso só fez um rubor que eu sabia que era incrivelmente rosa tomar as maçãs do meu rosto.

— Você é muito gentil — de repente me entregou a enorme cesta que segurava em seus braços firmes — aqui está um pouco da minha comida, querida. Você deve estar com fome. Os lugares que temos para comprar comida já estão fechados agora.

Aquilo me pegou desprevenida, eu esquecera totalmente de buscar por mantimentos. De repente, eu estava faminta.

— Obrigada mesmo... eu não ia... obrigada.

— Tenha uma boa noite, querida. Venha conversar comigo sobre qualquer problema. Procure conhecer bem a região, você irá gostar — ela piscou duas vezes com seus olhos lacrimosos e começou a retornar para sua casa.

Mais agradecida do que poderia demonstrar, comi rapidamente aquela comida gostosa e pude sentir a noite passando devagar.

Ao adormecer na cama de baldaquino, sentia como se estivesse em uma casa que esqueci que tinha. Quando meus sentidos iam diminuindo e eu ia adormecendo, pensei ouvir uns sons esquisitos ao longe, como uma grande festa ou um grande falatório, até que eu dormi completamente.

A luz do luar que entrava pela janela e pintava meu rosto dizia que algo esperava por mim. Eu só não sabia ainda o quê.

Mas tinha certeza que era aquele o lugar em que descobriria.