O som que me chama

2 As luzes ao longe


Caminhando pelas estradas de terra, eu observava a manhã se erguendo vitoriosa. Ao chegar na pequena — mas caprichosa — cabana de madeira da minha mais nova vizinha Madelane, esta me recebeu com um caloroso sorriso.

— Como foi sua primeira noite, querida? — ela me abraçou. Será que a quantidade enorme de abraços era característica daquela senhora ou algo normal da região? Bom, eu iria descobrir mais tarde.

— Foi ótima, obrigada — sorri, tímida.

— Você gostou da noite? — a pergunta era estranha. Parecia cheia de implicações e nada ajudava que os olhos daquela mulher, muito castanhos, pareciam que exploravam minha mente em busca de respostas.

— Eu só... dormi — foi quase mais uma pergunta do que uma declaração.

— Certo. Me ajude a colher os tomates?

E foi isso. Pelo resto da manhã, a conversa voltou ao normal, ou o mais normal que poderia ser. A senhora Madelane era uma mulher carinhosa, mas firme. Ela tinha um fôlego dos deuses, mais do que uma pessoa normal tinha, e muito mais do eu tinha.

Mexemos muito em todos os cantos de sua plantação, colhendo verduras e conversando. Eu me senti ótima. Era uma situação estranha, a terra parecia ter renovado algo na minha respiração, o que eu sabia que poderia ser fisicamente impossível.

Após almoçar com aquela velhinha simpática, parti novamente pela estradinha de terra, percorrendo cuidadosamente o caminho em que ela havia me apontado. Eu precisava comprar os mantimentos que faltavam em minha nova casa.

A região era mesmo bonita. Podia-se ver pessoas aqui e ali, cuidando de suas plantações e crianças correndo pela beira dos rios, todas absortas em sua própria vida calma. Alguns sorriram para mim, como se me conhecessem de muito tempo atrás.

Aquela sensação sobre o lugar não saía de mim, era como se eu estivesse vivendo em outra época.

Depois de subir um morro íngreme, cheguei ao mercado prometido por Madelane, um quadrado de concreto pintado em um tinta muito gasta. Encontrei tudo o que precisava.

Ao sair, perguntei ao dono sobre as construções que se erguiam atrás do lugar.

— Essas... casas lá atrás, o que são?

— Ah, não são casas moça. Ah, eram antigas propriedades de vendas, sabe, as pessoas costumavam comprar tudo ali, muita coisa diferente e manual. Devia experimentar as refeições, eram magníficas. Era uma alegria, sabe. Toda noite, uma reunião cheia de alegria, uma grande festa — os olhos do pequeno homem estavam em outro lugar, e eu estava curiosíssima só de observar seus olhos brilharem, certamente relembrando todas as suas antigas memórias.

A propriedade estava bem desgastada. Havia cerca de trinta pequenas casas espalhadas pelo enorme campo, todas sem porta e bem abertas, e certamente parecia que antigamente era um local de venda muito variado.

Agora parecia abandonado, com limo subindo pelas paredes e móveis quebrados espalhados por todo o canto, as mesas de madeira no centro, velhas e quebradas. Era mesmo uma imagem triste, e tentei imaginar o que teria sido.

O homem parecia perdido em pensamentos... e meio confuso. Agradeci a ele e retornei calmamente à minha casa.

A tarde passou lenta e quando a noite chegou, eu só pude ficar sentada na grama em frente a propriedade, de tão bom que era o vento. Parecia que limpava meus pulmões.

Meus olhos estavam fechados. Até que eu escutei um barulho. Era música, e barulhenta. Algo familiar, um grande falatório.

Comecei a caminhar, procurando pela fonte do barulho. De repente, ao longe, consegui enxergar muitas luzes e movimento vindo de um enorme campo. Quase não acreditei no que vi, pois era justamente o campo em que eu havia ficado maravilhada naquela tarde. A propriedade abandonada.

Mas certamente era lá. Alguma coisa parecia errada. Não era apenas o fato de que aquele lugar estava completamente abandonado havia anos, como havia declarado o dono no mercado. Eu sentia como se fosse algo que eu não pudesse ver, mas deveria saber.

Nada me impediu de caminhar até lá, é claro. Nem mesmo o fato de que era mais de meia noite e aquelas estradas de terra agora poderiam ser consideradas perigosas. Ao passar pela casa da senhora Madelane, parecia que não havia ninguém no lugar.

Caminhei o mais rápido que meus pulmões permitiram, e tive que sentar algumas vezes para recuperar o fôlego. Quanto mais eu me aproximava do local, podia ver que havia muita gente lá e as luzes ficavam cada vez mais fortes. Era mesmo uma festa. As circunstâncias eram completamente esquisitas.

Quando enfim cheguei ao mercado, parei para observar o cenário diante de meus olhos.

Eram centenas de pessoas, caminhando, correndo e rindo pelas banquinhas de vendas, sentadas ás mesas comendo pratos exóticos e quentes, comprando e se divertindo. Seria uma imagem normal em qualquer outro lugar, mas ali era tremendamente errado.

A primeira coisa que percebi era que a propriedade estava nova, brilhando, a tinta vermelha que predominava no concreto era forte e recém pintada, tudo estava perfeito, e globos de luzes estavam pendurados por cima do local, em cima dos telhados com cordinhas de aço.

Não, aquilo não era consertado. Aquilo parecia ter sido retirado de algum lugar e colocado ali... retirado de outra época.

A segunda coisa que notei foi as pessoas. Ninguém parecia — como eu — assustado ou perturbado com o evento. Agiam como se fosse normal, como se estivessem numa grande festa familiar. E mais, todos pareciam pintados em uma névoa brilhante, como uma luz forte de alegria.

E eram todos muito jovens, o que certamente me perturbou, já que a maioria das pessoas que eu vira naquela tarde eram muito velhos. Todos estavam radiantes.

Ao me aproximar da festa, percebi que ninguém achava minha presença fora do comum, apesar de meu olhar penetrante e confuso. Só notaram que eu estava ali, quando tentei conversar e chamar a atenção de alguém. Respondiam às minhas interrogações como se não entendessem o que eu queria dizer.

Andei pelo lugar, observando as casas de comida que tinham um cheiro maravilhoso, e os milhares de objetos variados a serem vendidos. Ao passar por uma casa que se intitulava "Temperos e outras ervas", um olhar me chamou atenção.

Era uma mulher corpulenta, seus cabelos macios e cacheados tapavam a maior parte de seu rosto, mas seus olhos predominavam. Ela tentava astuciosamente conseguir um bom preço por algum tempero cor de terra, mas a vendedora, bem humorada, recusava suas ofertas. Eu reconheci aqueles olhos. E corri o mais rapidamente que pude até eles.

— Senhora Madelane? — perguntei hesitante. Não poderia ser, afinal seu rosto estava impecavelmente liso, não havia rugas ou marcas de expressão. Ela era jovem e linda. Devia ter uns trinta anos.

— Senhora? Ora, eu estou tão velha assim? — perguntou-me com certa arrogância, mas divertidamente.

— Como... como pode isso ser real? O que está acontecendo? Eu estou sonhando?

Ela franziu a linha das sobrancelhas bem delineadas.

— Você está bem, querida? — a mesma voz macia e carinhosa — gostaria de se sentar um pouco? Quer um pouco de chá gelado?

Sem conseguir falar, me sentei na ponta de umas das mesinhas de madeira e bebi um líquido que ela me entregou, tinha um gosto fresco que eu nunca havia provado.

— Escute, você não viu uma menina com duas tranças, vestido azul? Estou procurando pela minha filha a noite inteira, mas ela parece ter me deixado para trás novamente — sua voz era de preocupação, e um pouco brava.

— Não vi, senhora... senhorita — comentei ainda experimentando uma sensação de incredulidade com o que estava acontecendo — esta festa acontece sempre?

Tentei perguntar alguma coisa, talvez algo fizesse algum sentido.

— Todos os dias, é claro. Não é uma festa, querida. Simplesmente estamos frequentando o que a cidade tem a oferecer. É uma feira de vendas. Mas não acredito que nunca tenha vindo aqui.

— Vou procurar minha filha, se está se sentindo melhor. Ela adora fugir. Me avise se a vir, por favor.

— Certo — respondi.

Quando consegui recuperar o pouco de sanidade que ainda tinha, voltei a explorar o lugar; era apinhado de pessoas e difícil de andar sem esbarrar em alguém.

Parei quando ouvi um som fraquinho, vindo do interior de uma das casinhas. Fui imediatamente atraída para dentro do lugar. A recepcionista me lançou um grande sorriso quando comecei a observar seus objetos de venda. Eram todos instrumentos musicais de madeira lisa e macia, muitos dos quais não reconheci pelo nome.

Me encantei com eles de uma forma que não pude explicar. Um homem agora tentava barganhar com a senhora atrás do balcão. Então ouvi novamente o som que havia me chamado atenção.

Cuidadosamente e de olho na vendedora, entrei no corredor que levava ao interior do lugar. Cheguei à uma pequena sala, cheia de retratos de crianças e mulheres angelicais. Em meio a almofadas, uma menina observava um garoto tocar uma flauta de madeira.

A menina, com grandes olhos curiosos, devia ter uns doze anos, e logo percebi, por suas tranças grossas, que era a filha de Madelane. Elas tinham os mesmos olhos sólidos. O garoto era mais velho. Devia ter uns dezesseis anos, a minha idade.

O som que vinha da flauta era maravilhoso. Era como se entrasse por debaixo de minha pele e agitasse meu corpo. Senti-me mais emocionada do que poderia dizer.

Ao me flagrarem os observando, a menina me olhava curiosa. O garoto sorria, como se estivesse me esperando. Ele imediatamente levantou.

Seus cabelos eram espetados para todos os lados, de um louro escuro impressionante. Os olhos, muito verdes e brilhantes, eram um convite de simpatia.

— Você gostou? — perguntou, e se referia à flauta em suas mãos.

— Sim, é muito bonito — é claro que eu não conseguiria falar o quão lindo era, falhando miseravelmente como sempre.

— Eu sou Katsuo e esta é a Mei, ela gosta de me ver tocar — ele parecia simpático, porém me surpreendeu perceber algum sentimento tímido por baixo de sua simpatia.

— Ei — rapidamente me lembrei — a sua mãe está lhe procurando, prometi dar o recado.

As feições de criança e simpatia de Mei rapidamente sumiram, e sua expressão era desagradada. Ela deu um longo suspiro, abraçou Katsuo, lançando seus olhos perspicazes dele para mim e deixou a sala. Katsuo deu uma longa risada, cheia de implicações, e me peguei achando sua risada bonita e familiar.

— Ela adora fugir da mãe — explicou-me.

— Elas brigam? — perguntei curiosa.

— Não, Madelane só é muito preocupada com a Mei, porque a garotinha adora passear pelos lugares mais inusitados e perigosos das redondezas. Dá para entender porque ela está sempre de olho na menina — ele falou de Mei com um grande carinho.

— Ela é sua parente?

— Não, é minha amiga. Acho que gosta de ficar comigo porque Madelane não a procura tanto quando ela estamos juntos. Você é nova na cidade?

— Pode-se dizer que sim. Estou passando as férias na casa de campo de meus pais. Respirar a natureza e pensar, sabe.

Ele riu.

— Casa de campo? Seus pais não moram na casa? Que estranho.

— Moramos na cidade.

Seus olhos brilharam. Senti uma agitação crescer no interior dele. Em um instante, ele veio para cima de mim e segurou minha mão, puxando-me para acompanhá-lo até a saída. Um estranho choque percorreu o braço em que ele estava segurando e meus dedos formigaram. A sensação era estranha, mas gostosa. Eu também não entendia porque de repente sentia um calor nas bochechas.

Katsuo me levou para longe do apinhado de pessoas, e sentamos na beira de um morro, observando os campos solitários e escurecidos pela noite, apenas iluminado pela lua e as estrelas brilhantes.

— Como é a cidade? — ele me perguntou, os olhos brilhando. Ainda não havia soltado a minha mão. Alguma coisa em mim estava meio preocupada por causa disso.

— Bem, é cheia de gente, e automóveis e prédios... barulhenta e bem, às vezes parece que estamos em uma gaiola, de tão altos que são os prédios.

Algo na sua expressão me disse que ele não conseguiu captar a reclamação em meu tom de voz, parecia ter adorado a minha definição de cidade.

— Gostaria muito de ver isso — ele me confessou. Aqui o máximo que temos é esta feira. E eu a adoro. Minha mãe diz que eu só vivo o dia para estar aqui, à noite — ele riu.

— Bem, no momento estou preferindo este lugar. A cidade às vezes é muito apertada, eu me sinto presa muitas vezes — era tão esquisito poder falar abertamente com um completo estranho, mas ele me passava confiança.

— Mas e todas as pessoas? As multidões? Acho que assim eu me sentiria muito vivo, vivendo na cidade. Aliás, como é o seu nome?

Eu ri de seu embaraço.

— Meu nome é Kiki. Ah, eu me sinto viva na cidade. Mas aqui parece uma vida muito mais... humana. Eu consigo até respirar melhor. Quero dizer, fisicamente.

— É mesmo? — ele levantou uma sobrancelha, curioso e concentrado em nossa pequena conversa.

— É... bem. Acho que tem um motivo. Eu tenho uns problemas de respiração. Não é nada grave, é meio tedioso às vezes, na verdade.

Ele pareceu verdadeiramente preocupado. Mas então sorriu lindamente, com uma alegria de tirar o fôlego. Eu estava tonta só de acompanhar suas emoções que mudavam rapidamente.

— É ótimo que consiga respirar aqui, temos sorte de termos você aqui agora — ele corou levemente e sorriu ironicamente para mim — na verdade, você tem sorte de nos ter. Somos perfeitos para você.

Eu ri, me divertindo.

— Vou manter vocês por perto de agora em diante, já que são tão perfeitos para mim.

Ficamos um tempo em silêncio, absorvendo nossa conversa alegre. Katsuo olhava para longe, como se estivesse a quilômetros de distância dali. Ele deu um longo suspiro, como se estivesse experimentando o ar.

Só então percebi que meus pulmões estavam diferentes naquela noite. Pareciam ótimos. Perfeitos. Como nunca estiveram antes. Por um momento me assustei com o ritmo impecável de minha respiração. Era como se nunca tivesse tido problemas para respirar.

Aquilo era algo a se pensar. Mas guardei em meu coração e deixei para pensar depois. Não queria estragar aquele momento agradável com Katsuo ao meu lado.

Conversamos o resto da noite. Ele era a pessoa mais alegre e otimista que eu havia conhecido na vida. Ria sem parar, mas ficava sério nos momentos certos. Às vezes tocava em minha pele sem querer, e a mesma sensação de choque elétrico percorria meu corpo, e eu comecei a gostar de verdade disso.

Poucas horas depois, quando parecia que o céu iria começar a clarear, as pessoas da feira começaram a se retirar, em grupos grandes, descendo pelo morro calmamente.

Eu fui também, acompanhada da Senhorita Madelane e sua filha Mei, ambas engajadas numa briga cheia de argumentos. Katsuo se despediu de mim com um grande sorriso e disse que esperava me encontrar novamente logo.

Percebi, olhando de canto, que ele me observava descer o morro, e sorri.

Ao chegar em casa, agora podendo pensar melhor — o que não ajudou nada — só conseguia formar mais perguntas do que respostas.

Que noite surreal.

Exausta demais para tirar conclusões do inimaginável, adormeci instantaneamente na cama, com a sensação mais gostosa que já havia sentido na minha vida.