O som bruto de seu coração quebrando
1 pétalas de Hortênsia
A existência de Madalene é bastante... Mínima. Teve uma vidinha medíocre até então, as estações passavam por seus olhos e ela tinha muitas poucas experiências colecionadas. É apropriado que a história de suas mágoas tenha começado no verão, em dezembro, o mês do mpb, do ano novo, de visitar Copacabana, das regatas, dos shorts e do amor.
Ela conheceu Gal — que logo mais iria ser conhecida como a "principal vítima de seus sentimentos egoístas" — um mês antes, na primavera, em setembro. Ela descobriu que a amava na última aula de sociologia que tiveram juntas. Madalene estava ocupada até então, pensando sobre si mesma e em como estava desperdiçando sua vida. Ela pensava bastante sobre isso, em como deveria fazer algo pra mudar, provavelmente era por isso que ela não tinha percebido antes, pensou depois: estava ocupada demais para notar como a luz do sol fazia o cabelo de Gal parecer mais claro, ou como seus olhos brilhavam quando falava sobre algo que amava; estava distraída demais para perceber como suas mãos se moviam enquanto falava, ou como um canto de sua boca se curvava para cima quando percebia que alguém a estava observando. Que ela tinha o mesmo nome da sua cantora favorita — Gal Costa, e para Madalene Gal Costa era sua egéria, o que só impulsinou sua constatação —. Elas não foram exatamente próximas imediatamente, não como as famigeradas "melhores amigas", duplas dinamicas, sempre juntas. Gal tinha outras amizades, que poderia considerar mais importantes que Madalene, mas elas se entendiam, Gal às vezes fazia questão de sentar próxima de Madalene, passar o braço por seus ombros e sussurrar recomendações de músicas muito pouco conhecidas, e discorrer em como a graça de compartilhar elas estava em serem como segredos que poucos poderiam saber.
"Era ela que poderia me salvar. Foi nela que depositei minhas expectativas de um futuro tão belo quanto as flores desabrochadas"
Madalene escutou a discografia inteira de "Cidade Dormitório" por todas as madrugadas daquele mês, utilizando de "Relacionamentos São Extremamente Complicados e Meu Cachorro Sabe Disso" como a trilha sonora de seus dias. Ficou contente ao saber, que apesar de nunca ter conhecido Gal Costa, ela tinha a sua própria, e essa tinha se apaixonado por "Modinha Para Gabriela " por sua causa.
Madalene não estava familiarizada com o "amor". Não estavam surgindo mais tantas oportunidades para compartilharem seus gostos, e ela tentara convencer-se de que não precisava dela, que tinha outros amigos, que estava melhor sem ela, até. Sentimentos são passageiros, assim como tudo em sua vidinha pacata. Tentou não notar como a luz do sol clareava seus cabelos, ou como seus olhos brilhavam quando falava de algo que amava, ou como suas mãos se moviam inquietos. Ignorou- a quando a flagrou observando, embora precisasse dela tanto quanto antes. Talvez até mais.
Sentiu uma sensação meio repugnante quando percebeu que a simples presença dela a afetava. O quanto um simples detalhe podia alterar completamente o seu estado, como se ela não tivesse mais controle nenhum sobre si. Pra alguém tão acostumado a não ter que lidar com nenhum sentimento além do tédio do dia a dia, foi bem desconfortável.
Permaneceu em uma deliciosa negação, se fez ausente, até a aula de sociologia, a última.
Foi ai que apreendeu que a ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, assim como o vento apaga a vela e atiça a fogueira...
Ela a observava. Estavam sentadas a duas fileiras de distância, e ela não percebeu que estava a observando, não percebeu até se dar conta de que não conseguia mais enxergar seus defeitos, ou pelo menos os enxergava e não ligava. Ela não gostava dos sapatos dela, e sua postura era levemente torta, mas isso não importava porque ela era linda de qualquer jeito.
"Ela é mais bonita do que qualquer pessoa que eu já tenha visto."
Não era mentira, era a mais pura verdade. Ela nunca tinha visto ninguém mais bonita do que Gal, embora soubesse que havia muitas pessoas que eram. Ela não chamaria dezembro mês do mpb, de visitar Copacabana, das regatas, dos shorts e do amor se não fosse por Gal. Ela representava tudo isso. Naquele momento, ela era perfeita, e seu coração doía só de olhar para ela.
Ela queria sentir como seria ter Gal em seus braços, não o toque casual de sempre. Realmente tê-la só pra ela. Ela jura por Deus e por tudo que há de mais sagrado que não a largaria.
Ela havia aprendido muito sobre ela nos momentos em que conversavam baixinho. Gal falava sem parar sobre sua vida e sobre o que sentia, Madalene só acenava e ria ocasionalmente, ela não tinha muito o que falar sobre si, invejando tamanha vivência e personalidade que emanava de Gal. Imaginava que um futuro muito mais que promissor para ela, uma vida sem sucessos simplesmente não combinava com Gal.
Aprendeu que ela odiava o pai, adorava a irmã, não gostava de uma de suas melhores amigas, queria viver da arte e de músicas experimentais, se mudar para São Paulo ,capital, só gostava de pão de queijo recheado com frango e chorava ao ler livros tristes. Que tinha uma devoção por filmes nacionais e mais ainda das música, e que se pudesse ser onipresente em algum momento, ela gostaria de existir em todos os carnavais do país. Aprendeu que ela jogava Mario Kart como uma profissional, faria qualquer coisa por um amigo, não gostava de batata frita, que sua flor favorita era Hortênsia azul, nunca tinha lido Harry Potter e que pretende continuar assim, e se lembrava, principalmente, da forma como ela olhava para o garoto da fileira do meio, a que separava elas. Seu nome era Félix, ou algum derivado disso.
Um pequeno sorriso quase imperceptível que surgiu no canto de Gal. Se ela não tivesse observando Gal com tanta atenção, provavelmente qualquer um teria perdido esse detalhe. Ele se virou, e retribuiu o sorriso.
A atenção de Madalene se voltou a eles denovo no final daquele dia, quando encontrou ambos conversando lado a lado, sentados no meio fio. Ela se perguntou, sem entender muito bem, o porquê deles parecerem tão deslocados. Gal estava quieta, olhando para a rua, enquanto que em suas conversas ela não conseguia tirar o olhar do rosto de Madalene, mesmo que essa não retribuisse o olhar. A resposta estava no olhar do menino moço. Durou uma fração de segundo, mas foi o suficiente para fazê-los rirem, como se fosse um segredo apenas deles, um segredo que Gal não havia compartilhado com Madalene.
Seus olhos voltaram para Gal. O sol estava brilhando. E havia um adorável sorriso em seu rosto.
Foi então que percebeu por que eles estavam agindo de forma tão atípica. Afinal, não é de se surpreender que ele, assim como Madalene, tenha decidido observar o objeto de sua paixão.
Depois disso, Madalene começou a observar cada vez mais, ora, quem podeia a julgar? Ela não tinha mais nada para fazer, nada além de tentar buscar o momento perfeito para expor seus sentimentos para Gal, queria a todo o custo. Na verdade, estava sendo egoísta pois sabia que seus sentimentos não deveriam ser expostos, que iria se machucar. Ela precisava disso, precisava dessa dor para confirmar que algo estava acontecendo em sua vida pacata.
" Minhas expectativas ainda estavam com ela. Estava tudo com ela. Será que ele não entende, que preciso dela muito mais?"
Quando eles começaram a conversar de verdade, surgiram os boatos que eles foram pegos se beijando entre as prateleiras da biblioteca. Foi como se o chão de Adelaide tivesse sumido de seus pés. Passou tanto tempo os observando que havia esquecido do risco que o garoto representava a seu futuro. Eles estavam juntos agora.
Tudo o que ela sempre quis fazer já havia sido feito.
E quando chegou na primavera desse novo ano, ela ainda se culpava por ter feito Gal a vítima de seus sentimentos egoístas. Pois lá estava ela, com uma pétala de flor em sua boca, de uma flor azul, a favorita de Gal.
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