O som bruto de seu coração quebrando
2 A dignidade em ser o jardim de alguém
Seu coração estava batendo diferente. Alguns profissionais que a atenderam se designaram a dizer que, por enquanto, seu coração ainda estava trabalhando bem, mas Madalene acreditava piamente que ele batia diferente.
Ela conseguia ouvir seus batimentos cardíacos agora, constantemente, a lembrando que seu coração estava lá, batendo. Ela contava eles como o tic tac de um relógio, sem parar. O que soa irônico, pois o tempo de Madalene, aparentemente, estava curto.
— Você tem merda na cabeça?! — Elias sempre fora o exemplo de pessoa calma, então era meio cômico o ver tão descontrolado. Madalene olhou pra ele, distante, sentada sozinha num banco de Praça. Ele estava em pé, como se tivesse a pego no flagra, o olhar acusatório.
— Bem, acho que não. Não, não tenho não. — Sua voz está rouca, opaca, algo que parece chocar ambos. Sua voz sempre foi boa. Mas isso não impede Madalene de usar sua má atitude.
— ... Então você pode perceber o absurdo da situação, já que está em plenas faculdades mentais. — Ele está meio que tentando se segurar pra não gritar, visível. — Na verdade, não, de jeito nenhum você está sã consciência, fala sério Mada, pela Gal?
O nome a atingiu com força. Bem, ele meio que estava certo, Madalene estava sim em plenas faculdades mentais, e ela era a pessoa que mais pensava sobre o absurdo da situação. Mas ela não podia evitar, começou a torcir. O som era engasgado, doloroso de se ouvir.
— Droga, eu... — Elias se aproxima, sua voz voltando a ser mansa. — Eu... Que merda, Mada... Por que?
— ... Não fique bravo comigo, eu não queria isso. — Falar é como arranhar espinhos de rosas em sua garganta.
— Como? As pessoas não morrem mais disso hoje em dia.
— ... Tá falando da cirurgia?
— Olha Madalene, se você quiser eu posso ir co-
— Não vou.
— Como pede pra eu ficar com raiva? Você virou suicida ou algo assim?
— Não vou cometer suicídio, a morte é algo que vêm pra todos, pessoas morrem todos os dias — esse tipo de humor mórbido que eles já estavam acostumados, teriam rido em qualquer outra ocasião. Madalene se arrependeu imediatamente ao ver a expressão de Elias.
— Como você... Não pode jogar sua vida fora, não por ela. Está tentando provar algo,está tentando provar que algo está acontecendo nessa sua vida? Não seja estúpida! Ela não fala com você desde do carnaval passado. — Isso foi um baque novamente.
—Se eu quisesse provar algo, eu estaria contando sobre isso pra todos.
— Então por que não conta pra ela?! Ela pode, sei lá, ver que realmente gosta de você, todos gostamos de você Mada! —Elias estava começando a se desesperar, Madalene o lançou um olhar simpático. Ele sempre fora muito positivo e altruísta. Mas era mais complicado que isso.
— Eu sei... Mas eu também posso morrer com isso. — Dessa vez, ela esticou a mão para apertar a dele.
— Você já está morrendo...
— Não, Elias... Isso tem haver com emoções. Se ela descobrir e dizer o que todo mundo sabe que ela vai, eu vou pro último estágio, e normalmente, não tem volta. — Sua voz embargou.
— Não tem volta... A maldita cirurgia... Madalene...— Ele se levantou, sua expressão uma mistura de descrença com tristeza.
Madalene observou ele se afastar, e novamente pôde se concentrar em seus batimentos cardíacos. Ela se lembra bem de quando explicaram sobre a cirurgia, de como ela era prática e segura. Sem sequelas no geral, tirando o fato, de que os sentimentos do enfermo pela pessoa amada desaparecem.
Madalene tem 18 anos e sempre viveu todas as estações tediosamente em um padrão monótono. Até claro, o verão onde suas mágoas se iniciaram. Parecia tão distante, como se os momentos com aquela —sim, aquela com cabelos brilhantes e atitude de moça bonita — tivessem durado uma vida inteira, até o momento que ela decidiu que não mais estaria lá. Uma vida inteira que agora parece se desvanecer.
Madalene caminha de volta para sua casa, andando contra dezenas de pessoas que estão lá, vivendo suas vidas. Está barulhento, mas o som de seu coração segue em seus ouvidos. A lembrando.
É inverno, o vento frio a corta como lâminas. O que a faz repensar no porquê saiu de casa.
A resposta, é tão óbvia que dói. Ela não se encontra com Gal desde do outono, mas ela não sai em busca dela. Ela sabe extamente onde ela está, e com quem ela, na pior das hipóteses, pode ter como companhia. O simples pensamento trouxe bile até sua garganta, e junto a ele provavelmente o inconveniente que Madalene não queria revelar em público. Elias estava certo, ninguém morria por essa doença hoje em dia. Mas era opressor, o jeito que falaram sobre a cura para Madalene, ela sentiu que não seria apenas uma cirurgia, que iriam retirar uma parte significativa dela. E ela iria voltar a ser quem era antes.
Ela não queria morrer, mas, Deus sabia que a cada respiração parecia que ia morrer. A doença começava a dominá-la; em certas partes dos braços, era possível ver os filamentos começando a aparecer sob a pele. Sentia-se cansada o tempo todo, sem fôlego. Ainda conseguia reter a maior parte da comida, o que era bom. Mas só tinha a piorar, então estava aproveitando. Ela queria que fosse como antes, que Gal a encontrasse e percebesse como seu coração batia mais rápido por ela. Para que podessem voltar a compartilhar segredos. Embora ela própria, tenha segredos que não se dignaria a revelar.
Seu peito sempre fora um pouco apertado, sua respiração um pouco curta, quando era criança fazia promessas impossíveis, cenários inacreditáveis, para ao menos imaginar que não estava desperdiçando sua vida tão cedo. Ela sempre sonhou por um dia onde tudo parecesse real, um mundo nl qual ela existe. Então, quando tossiu uma pétala, azul, ela se surpreendeu por algo tão belo ter saído dela. Mas não ficou confusa, sabia o que era aquela doença. Como sua saudade da garota de olhos castanhos a causara. Como continuaria a comprimir seus pulmões, a obstruir suas vias aéreas com lindas flores. Sabia como curá-la, e que jamais a curaria. Sabia que isso significaria sua morte. E, de alguma forma, sempre soube que terminaria assim, tossindo flores até que o sangue, as raízes e as pétalas não deixassem espaço para o oxigênio. É uma controversa óbvia, que todos seus amigos perceberam, porém que só Elias apontou. Ninguém morria disso hoje em dia, ninguém.
Aquela luta final e a escuridão que viria depois a aterrorizava, mas vê-la finalmente começar a tranquilizou. Ela tinha algo agora. Foi meio parecido quando ela descobriu que amava Gal, quando descobriu algo novo. Ela tinha incertezas agora, algo para batalhar ou se lamentar. Mas ela já deveria saber, que seu amor estava fadado ao infortúnio.
Como pétalas desabrochando, mas por dentro ela estava triste, a dor transparece. A cada palavra não dita, o amor cobra seu preço, uma maldição, em seus pulmões, um jardim de amor não correspondido,
cada tosse, uma lembrança da infecção do seu coração. Centáureas azuis, um amor secreto não dito, mas as flores continuam a desabrochar, as pétalas ficando vermelhas. Delfínios sufocando sua respiração,
enquanto a dor se aprofunda, dançando com a sua morte.
Madalene sentou-se na cama, a visão turva bailando entre as sombras do quarto. O esforço para manter as mentiras — para os outros e para si mesma — era agora maior do que o esforço para expandir o tórax. A voz de Gal, aquela lembrança melódica que outrora era seu norte, agora parecia vir debaixo d'água, abafada pelo som ensurdecedor do próprio coração. Estava mais alto do que nunca.
Ela deslizou os dedos pelos braços, sentindo o relevo dos filamentos sob a pele. Não eram mais apenas veias; eram raízes buscando solo. Havia uma estranha dignidade em ser o jardim de alguém que nunca a cultivaria. A cirurgia teria devolvido a Madalene a monotonia cinzenta de seus quinze anos, a asfixia do tédio que ela sempre confundiu com vida. Ao recusar o bisturi, ela escolheu a cor, mesmo que o azul das pétalas fosse a última coisa que visse.
O ar tornou-se pesado, denso com o perfume insuportável de flores frescas e terra molhada.
— Só mais uma vez... — sussurrou para o vazio, mas o som não saiu. Em vez de palavras, uma pequena Centáurea azul, intacta e úmida, repousou sobre o lençol.
Ela não sentia mais medo. Pela primeira vez em dezoito anos, Madalene não era apenas um rastro de poeira no inverno; ela era algo que florescia, que ocupava espaço, que possuía uma verdade inegável encravada no peito. Se o preço de sentir algo real era ceder o oxigênio para que a beleza crescesse em seu lugar, ela estava pronta para quitar a dívida.
Deitou-se devagar, sentindo o peso suave das flores preenchendo os últimos vãos de seus pulmões. O tique-taque do relógio na parede começou a desacelerar, fundindo-se ao ritmo errático de seu peito, até que ambos se tornaram um único silêncio vibrante.
Madalene fechou os olhos e, no escuro, viu Gal sorrir. O aperto no peito cedeu lugar a um calor sonolento. Pela janela, o vento de inverno soprava, mas dentro dela, a primavera havia finalmente vencido. O quarto estava em paz, mergulhado em um aroma doce e absoluto, onde nada mais precisava ser dito, e ninguém mais precisava mentir.
Foi possível ouvir o som bruto de seu coração quebrando.
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