O significado da dor
8 Vestido vermelho
Era uma tarde de domingo, que na verdade parecia uma segunda, uma segunda extremamente desagradável e gélida. Não parecia exatamente um frio primaveril, mas sim um inconveniente dia de inverno. Hoje era um dia mais frio do que de muitos de invernos. Meus pés estavam tão frios que causavam uma dor latejante em toda a perna, um desconforto no resto do corpo e formigamentos seguidos de câimbras que fodiam qualquer um. Mas o dia estava lindo. O sol ja estava alto dando uma impressão de três horas da tarde, os passarinhos não cantavam mais intensamente como se estivesse num começo de dia, nuvens com um formato definido parecendo algodões doces, o dia estava tão claro e o sol tão radiante que chegava a doer os olhos, vendo através da janela embaçada não se diria que era um dia horrendamente frio...
Querendo ou não ja estava acordada e não havia mais possibilidades para voltar a pegar no sono e voltar a ter o mesmo sono sereno e gentil que estava tendo antes de acordar tão cruelmente. De repente um néctar dos deuses chegou até meu olfato e nele continha bacon, bacon e bacon com cobertura de bacon. Sai do quarto com o mesmo pijama que estava usando ontem a noite, cruzei um corredor pintado de um azul esverdeado bem penetrante e característico que seria fixado no lado direito de qualquer cérebro, decorada com porta retratos antigos, tulipas meio murchas que tinham cores entre roxo e anil e um lustre todo enfeitado que não parecia ter saído de uma promoção de uma loja barata qualquer.
O cheiro estava cada vez mais forte e se espalhando por quase toda a casa, mas ainda dava para saber a origem dele, que obviamente, era da cozinha. E la estava ele com um avental de coelhinhos, que eu achei que ficou muito amável nele, desviando dos respingos de gordura fervendo que saia do bacon. "bom dia dorminhoca, você precisa de um avental bem menos gay que eu possa usar" disse ele com um sorriso pra mim "sabe que horas são?" meneei a cabeça "são quase quatro horas da tarde, agora sente-se que irei te servir o café da mantarde" olhei para ele e me questionei o que seria mantarde sem rir "mantarde?" "não acredito que você não sacou uma coisa tão simples... Café da manhã a tarde, burrinha " disse ele colocando o café numa xícara e desligava o fogo, tudo com o jeitinho meio atrapalhado que só ele tinha.
Eu estava extremamente estranha, com olhos e boca inchados, nariz vermelho devido à exposição ao frio e cabelo desgrenhado, mas meu cabelo não era enroladinho igual ao do Daniel para ficar charmozinho, o que me deixou mais estranha. " cade seus pais? Eles não vão ficar putos por causa da minha presença?" pergunta ele repentinamente preocupado "eu moro sozinha..." "fugiu de casa?" "não, com quinze anos me mudei para cá pelo incentivo deles para eu ter condições de estudos melhores e como eles tinham uma casa aqui, facilitou muito. Então todo mês eu ganho o suficiente para fazer compras e as contas, pois eles são extremamente super protetores e dizem que se trabalhar agora não vou me dedicar extremamente aos estudos e essa ideia de mudança será em vão" "uou, você deve ser riquinha... Estuda o quê?" "não, não sou riquinha bobão... Ganhamos a casa num bingo, parece mentira, eu sei, mas não é" falei fazendo uma careta que pessoas fazem involuntariamente " cara, sua vida é muito fascinante" disse ele com um meio sorriso puxando para a esquerda "mas ainda não me falou o que esta cursando" "bom, deve ser porque ainda estou no ultimo ano do ensino médio, mas definitivamente quero cursar algo relacionado a arte" disse meio envergonhada em falar minha idade implicitamente, sinto vergonha de dizer minha idade real " dezessete anos? Meu deus que neném" disse ele me deixando cada vez mais vermelha enquanto apertava minhas bochechas "E você senhor? Como é sua vida" falei com um olhar meio desafiador, conseguindo a proeza de erguer apenas uma sobrancelha, apenas para intimidar ele... Tentativa extremamente falha "bom... Digamos que minha vida não é assim tãããão emocionante, minha mãe e meu pai se separaram quando tinha sete anos e fui morar com meu pai, ele era um cara muito foda, mas se casou com a mulher errada que só fodia com a vida dele. Com dezessete anos fugi de casa exatamente por causa dela, meu pai deve estar muito puto comigo, mas fugir de la foi a melhor coisa que fiz. Morei com um amigo uns meses, o suficiente para completar dezoito anos, arrumar um emprego e ter dinheiro suficiente para alugar um apartamento. Desde então trabalho em uma padaria que me paga bem pra caralho, tipo da pra pagar a faculdade, fazer compras, pagar contas e o aluguel e ainda sobra um pouquinho pra dedicar à minha carreira de músico" " Como assim sua vida não é tão fascinante?" perguntei perplexa "cara você é independente, é músico e sabe o que quer" "também não é assim... E estou cursando arte, sua plagiadora de sonhos" eu ri, mesmo sendo uma piada extremamente idiota, mas eu sou assim, dou risada de coisas idiotas. "O que você toca?" perguntei "toco piano e violoncelo" definitivamente não consegui esconder a fascinação e admiração "Puta que pariu! Você toca meu instrumento favorito" ele estava impressionado com a minha admiração "que cara é essa?" perguntei confusa "ah, nada é só que você é a primeira pessoa que fica fascinada com o meu desejo de ser músico... As outras falam tipo "Nossa que legal você querer ser músico, mas no que você vai trabalhar? Oh meu deus, você vai viver da música? Corajoso" com uma certa decepção transparecida em seus rostos julgadores. Seu instrumento favorito seria piano certo?" "Definitivamente errado, cara eu sou apaixonada por violoncelo e eu não sou como essas pessoas, eu realmente acho foda isso... Se tivesse talento eu seria musicista". Enchi minha boca de bacon e corri para o quarto, ele me seguiu "Ei para onde esta indo?"sem resposta, ele entrou e me encontrou no quarto de sutiã "Sabia que é falta de educação ficar observando uma dama se trocando?" " oh, mil perdões minha rainha, prometo que isso não se repetira..." sem esconder o riso "Mas vou ficar só mais um pouco. Ja que nunca mais verei tenho que aproveitar enquanto estou olhando" enchi o braço de bichinhos de pelúcia e comecei a jogar nele "arranquem seus olhos e enforquem-no" "você tem que parar de assistir got" disse ele com um sorriso enquanto saia do quarto". Ficou apenas a cabeça para fora me espionando, peguei um travesseiro e acertei em cheio na cara dele. Ele caiu. Arregalei os olhos correndo até ele "ta tudo bem?" ele olhou para os meus seios e disse "agora esta" com um olhar safado. Levantei e pisei na barriga dele fazendo ele soltar um gemido grotesco meio sem ar parecido com "hugh".
Assim que sai do quarto, com um vestido vermelho e sapatilhas pretas e cabelo solto com brincos de pérola. Ele ainda estava deitado no chão admirando o teto, me olhou com uma careta e disse "preferia quando estava só usando um sutiã de bolinhas mostrando essa barriga que parece um sorvete de flocos" fiquei mais vermelha que o vestido, me virei para que ele não percebesse que fiquei constrangida " você quer outro chute?" "não, parei com a brincadeira... Você chuta muito forte sabia? Nem parece uma dama" disse ele esfregando a barriga " Essa carinha de neném com bochechas coradas e cabelo rosinha só engana as pessoas, ja pensou em ser pugilista? Não gostei desse vestido... Te deixa gorda" eu ri e pulei em cima dele "acho que não é o vestido que ta te deixando gorda não viu? Você esta realmente gordinha" mordi o mamilo dele e de novo ele soltou um gritinho fino "não serei pugilista, porque quero ser um pitbull" respondi ainda mordendo o mamilo dele, ele mordeu minha cabeça e eu soltei "ow, você babou na minha cabeça" disse fazendo voz daquelas crianças chateadas "não adianta fazer voz de criança... Não, pera, você tem voz de criança. E você babou na minha camisa, me passou raiva e eu não to reclamando!" "pois não mudarei de roupa se for assim" " eu não estou pedindo, estou mandando... Sou três anos mais velho e o adulto responsável". Voltei para o quarto e troquei o vestido por um jeans rasgado e uma camiseta mais larga que o normal, estampada com imagens aleatórias, um all star cano médio branco e lacinhos prendendo o cabelo dessa vez ele olhou maravilhado "uou, você esta linda... Assim você parece mais com você do que usando aquele vestigo gay... Mas pra onde você vai?" "para sua casa, burrinho. Quero ouvir você tocando violoncelo. Vamos Rápido, pegue a bicicleta enquanto vou na cozinha ver se sobrou bacon" "não sobrou, você comeu tudo e sem falar que acabou de comer... De onde surgiu tanto apetite?" fiquei vermelha e ele percebeu "bom... sua sorte é que eu gosto de mulheres com um apetite maior que o meu".
Enquanto ele pedalava eu estava apenas sentada no guidão balançando os pés e comendo uma maça. "Quer brincar?" perguntei me virando para ele "depende. Que brincadeira?" "é facil, tipo da pra brincar agora... Começa sussurrando uma palavra tipo "pênis" e vai aumentando até alguém pedir penico e perder" "definitivamente não!" "para de ser chato" "para de ser doida" "por favor" olhei pra ele fazendo uma carinha amável, "okay" disse ele ainda sem vontade de brincar, mas concordando. Comecei sussurrando "pênis" e ele respondeu um pouco mais alto "pênis", elevei a voz até ficar num tom normal "pênis" e ele quase gritando "pênis". Eu ja estava berrando o começo da palavra quando ele parou a bicicleta, me puxou para o colo dele e tampou minha boca "ja chega okay?" "como você quiser meu senhor... Mas confessa que foi divertido" "isso tenho que admitir, mas você ainda é doida em pensar em algo assim" "não é exatamente criação minha... No meu filme favorito tem uma parte assim que eu achei muito foda e pensei "um dia farei algo do tipo" e ai fiz".
Era um edifício único, bem conservado e muito alto. Tinha um porteiro simpático e um jardim muito fofinho, com bancos coloridos e crianças fofinhas e alegres.
O apartamento ficava no oitavo andar e enquanto subíamos eu cantava uma música da Clarice Falcão que era impossível não lembrar quando se fala "oitavo andar". Era simples por fora, como todo apartamento, mas por dentro era incrível. Parecia que ele parou no tempo. Era retrô, mas com alguns detalhes modernos e combinavam com a parede de um vermelho escuro e ficava tudo harmoniozamente foda. Corri e pulei no sofá macio e aconchegante decorado com almofadas que eu adoraria levar para minha casa e ele correu e pulou também. Chutei ele para fora deitei e me estiquei, ele me puxou e me abraçou no chão.
Ele não era exatamente musculoso com tanquinho que faziam mulheres assanhadas gritarem, era normal e com as medidas perfeitas para me agradar. 1,97 de altura, que me deixava muito pequena mesmo tendo 1,68 de altura, ombros largos, bunda grande e coxas bem definidas e grossas, uma barriga sequinha e deliciosa. Olhos com heterocromia azuis, mas um azul tão claro que parecia ser branco e o outro um azul marinho intenso. Eu acho muito lindo os olhos dele que ficam perfeitos com o cabelo castanho escuro dele. E ele fica perfeito comigo.
"Quando você disse que vivia com fome... Achei que não era sério" disse ele enquanto eu esvaziava a geladeira dele "você vai me dar um puta prejuízo", eu sorri de volta com o meu melhor sorriso que obviamente não chegava nem perto do dele... Eu estava comendo um pacote de bolacha enquanto ele afinava o violoncelo. Quando estava tudo pronto, ele começou "I never loved nobody fully, Always one foot on the ground, And by protecting my heart truly" ele mordia os lábios toda vez que pronunciava "b", "m" e "f" e botava levemente a língua para fora toda vez que pronunciava "d", "l" e "n" involuntariamente... Cara, é muito lindo ver ele cantando "pera, essa eu conheço! vou cantar também" e ele assentiu coma cabeça " I hear in my mind, all these voices. I hear in my mind, all these words. And breaks my heart" fizemos um dueto, como a Clarice diz, fora do tom. "Sua voz até que é bonitinha" diz ele com um meio sorriso "apesar de não ter acertado nenhuma nota".
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