O significado da dor

18 O Assassino Vermelho


Vermelho pintava todo o cenário onde um dia sonhei ser meu tão desejado casamento. A lúgubre tristeza preenchia todo o lugar onde deveria estar cheio de felicidade, As mesmas flores que enfeitariam meu casamento, irão enfeitar o seu triste velório. E é assim que me despeço do meu amado, apenas com palavras. E minha única lembrança será essa aliança que um dia estará no fundo de uma das minhas gavetas do quarto, enquanto eu transo com um cara interessante que conheci no trabalho. Puxa, que vida previsível.

A tristeza é o terreno mais fértil para se trilhar o caminho da infelicidade. A dor angustiante me trouxe até o fim e vi que ainda existia muito caminho depois, caminho que me leva até a dor angustiante novamente. E assim continuo o ciclo do sofrimento. O dia amanheceu e o sol disse "vai se foder", e logo em seguida, descobri que o sol não era o único que me odiava, dia após dia sinto que minha vida é só isso, ser odiada.

Lua e sol, amantes separados, amantes que só vivem por causa da luz esperançosa que brilha na manhã todos os dias, e os rastros dela todas as noites, isso é tudo o que preciso, esperança. Esperança de encontrar o filho da puta que matou meu marido, esperança de um dia aceitar o fato de ele não ser mais nada meu e aceitar que não poderei mais chama-lo assim.

Senti a esperança me reconfortar e senti cheiro de bacon de manhã, mas não sentia vontade de acordar ou de comer, não mais. "bom dia filhote, que avental fofo, mas você não tem mais idade para esse tipo de coisa" minha mãe, como sempre sorridente, como se ontem não tivesse sido a porra de um velório "tanto faz, se quiser queime essa porcaria, jogue gasolina, álcool, pinga, o que quiser, pela casa, e me veja queimar como esse bacon" falei sem esboçar alguma animação ou algum sentimento na fala, falei apenas por falar "Melissa" ela agora estava brava "que foi?" "pare de dizer coisas horríveis" "não entendo. Francamente, meu noivo morreu não faz nem três dias, a porra do velório dele foi ontem e todo mundo tenta fingir que ele nunca existiu" lágrimas desciam meu rosto e ela me abraçou "é assim que funciona, é isso que todo mundo faz" "mas, mas e se eu não quiser ficar bem? Se eu não quiser seguir em frente e nem fingir estar bem? E se eu não quiser ser todo mundo e continuar de luto até, sei la, que dia?" "faça o que quiser, mas não mudará nada" "nada... Ah, então fingir que meu noivo não existiu faz ele voltar? Por favor, eu não quero que ele seja esquecido, mamãe" eu agia como uma criança, mas mesmo assim ela estava lá, estava me abraçando e seu conforto engasgava a minha dor. Com a voz mais fofa do mundo, que só ela consegue fazer, disse "vamos minha melzinha, coma um pouco, vida" "mamãe me desculpe, mas eu não consigo, sabe? Algum problema se eu me afogar e afogar minhas magoas em sorvete?" "nenhum, mas vai acabar uma tia gorda e feia e lembre-se que misturar pistache e morango te dá diarreia" eu ri, mas foi apenas um riso superficial, logo entristeci novamente "talvez eu tenha sido fadada a ser uma tia gorda, feia e encalhada, pois o único cara que me quis esta debaixo da terra" "oh, mel".

O sorvete tinha acabado e eu estava de pijama assistindo filme de terror, vendo o Daniel sendo morto no lugar das pessoas do filme, quase uma obsessão. A autópsia seria terminada às 14:30 e ja eram 16:50. Estava impaciente como um bêbado. chegará o dia em que todos nós seremos apenas bêbados tiranos e o desejo de morrer será maior que o de ser feliz, acho que só falta eu ser bêbada. A campainha tocou. Era o detetive Roccher acompanhado de dois policiais, parecia ser um da perícia e outro que esta liderando o caso "boa tarde Srta. Blake" "boa tarde" meus olhos ainda estavam inchados de tanto chorar "estamos com todo o relatório da autópsia pronto. A senhora gostaria de acompanhar o caso?" "ah, esta bem" ele falava muito rápido e isso me constrangia "bom vamos começar pelo o que a autópsia concluiu. Tom, queira começar" disse o primeiro policial, um cara gordo e baixo, mas durão e com um cavanhaque tão preto quanto os olhos cor de chumbo e o outro era alto e corpudo de olhos azuis "queiram se sentar, desejam chá ou algo do tipo?" perguntei, mas ninguém quis nada "bom, para começar, ele tinha hematomas nos pulsos, calcanhares, joelhos, nuca e contusões na barriga, coxas, rosto e costas, o que supõe um claro cenário de luta, terminada, obviamente, quando ele foi amarrado, para ser preciso, com algo parecido com arame farpado" tudo parecia mais horrível na voz suave do segundo policial, uma voz tímida e cheia de falsetes roucos e tosses "também há cortes com diversos tamanhos, o que indica que foi torturado por diferentes tipos de facas. Nas costas também há marcas de chicote, propondo algo sadomasoquista, e as contusões foram causadas por um objeto grande e pesado ainda não indentificado, enquanto estava amarrado e vendado, pois a pupila de um dos olhos encontrado no chão estava dilatada . A causa da morte foi asfixia causada pelo próprio vômito, de uma overdose causada por diferentes tipos de drogas, como cogumelos alucinógenos, lsd, heroína, esses tipos de drogas usados para atiçar os sentidos para a tortura ser algo além de dor, causar um pânico psicológico maior. Os pés foram cortados com serras de dentes finos e após a morte, o que sugere o início de um esquartejamento, porém alguma coisa o parou, talvez tenha sido distraído por vizinhos e quando voltou percebeu alguma movimentação estranha e simplesmente deixou o corpo lá e saiu. há cerca de 52 ossos quebrados, três hemorragias internas, três infecções em fase inicial e mais 2 em fase agravada. Encontramos um dos olhos no chão, dois dedos e uma orelha, mas ainda não foram encontrados cerca de cinco dedos, a outra orelha e a língua. Suas mãos foram pregadas em um tipo de cruz improvisada de madeira como um claro tipo de deboche a Deus ou a qualquer tipo de figura religiosa. Ah, e sem esquecer que foram achadas e contadas exatas cinquenta letras "v" espalhadas pelo o corpo dele, uma marca registrada do assassino vermelho" e o policial gordinho interrompeu "temos uma pista sobre a próxima vítima, seu nome é Wendy Siberious, tem 24 anos e sua foto foi engolida inteira pela vítima e encontrada no estomago, pelo o que parece, o Daniel em algum momento conseguiu se livrar das amarras e antes de ser pego novamente engoliu a foto com o desejo de que ela seja salva antes do assassino vermelho sonhar em procurá-la. Ele ja sabia de seu destino, a morte e sabia que encontraríamos ela de algum jeito. E temos quase certeza de que o assassino não possui nenhum conhecimento sobre isso" Era uma moça deslumbrante, olhos verdes como safiras, safiras verdes são ainda mais belas do que as azuis, acompanhados de um cabelo tão ruivo que era laranja como as sardas que enfeitavam as bochechas rosadas, era simplesmente bela "existem centenas de fotos do seu marido, por todo o 'estúdio torturador' do assassino vermelho, ele seleciona as vitimas, sabe seu cotidiano e espera o momento mais propício" completou o detetive Roccher "eu não consideraria Wendy uma vítima, ja que ela foi encontrada em gravações de apenas um estacionamento, com todas as vítimas, duas horas depois de serem dadas como desaparecidas" era muito complexo para mim "mas, mas, como?" "não sabemos, mas em todas, sem exceção, são contados exatas duas horas e ela aparece beijando cada uma das vítimas, homem ou mulher. Se o beijo foi forjado? Eu não sei" "e vocês sabem onde ela mora?" " Rua misericórdia de Santo Antonio, 444" "vocês vão pegá-la?" "não temos provas suficientes para conseguir um mandato de busca para achar provas e prendê-la e demorará no máximo três dias para conseguir um, mas como ela é a principal suspeita, não será avisada e nem surgirá alguma suspeita para ela desconfiar e fugir, caso seja a assassina".

Assim que ambos os três se retiraram e sumiram pela linha do horizonte, peguei um pé de cabra, um gravador e uma câmera, indo direto para a pista da trilha que faria meu caminho cruzar com o do assassino vermelho. Assim que cheguei, um frio percorreu por toda a minha espinha dorsal e conforme eu ia chegando cada vez mais perto da porta a adrenalina no meu corpo me dava um mal estar, mas não estava disposta a ir embora, não agora. Era uma casa estilo norte-americana, sem portão e com um jardim simpático, mas era isolada. Tinha dois ou três terrenos baldios na frente e nos dois lados, tornando a única casa no quarteirão. Toquei a campainha com o pé de cabra atrás de mim para precaução e sorridente Wendy atendeu. Demorou cerca de quatro segundos para ela me reconhecer, mudar a expressão e eu simplesmente descartar a hipótese dela ser mais uma vítima inocente "posso te ajudar?" perguntou tentando disfarçar o conhecimento de quem eu era, mas eu já tinha percebido "claro que pode" tirei o pé de cabra e golpeei controladamente a cabeça dela, para que não morra antes da vingança. Com o gravador ligado, fui para a garagem, um lugar óbvio para se matar alguém, mas lá achei um lugar bem pior. Uma sala de tortura escondida, com todos os tipos possíveis de instrumentos mortíferos e imaginei o Dan sendo torturado e depois de morto, sendo levado para aquele falso estúdio. O dia vai ser longo.