O senhor do tempo

11 “Quo vadis? ”


Notas iniciais
Para onde vais?

— E agora, Alex. O que faremos? – Jessica questionou, ansiosa pelo desenrolar da história, assim que ficaram sozinhos.

— Vamos atrás do meu pai – Alex revelou, pegando um pedaço de carne e colocando no pão e depois riu. — Acabei de inventar o sanduíche! – Deu uma mordida.

— Como iremos atrás dele? – ela indagou, aflita.

— Eu posso fazer, exatamente, o que ele faz, posso segui-lo até a casa do meu avô.

— E assegurar-se que ele seja feito prisioneiro – Jessica afirmou, mas percebeu uma nuvem passando pelos olhos de Alex. – Você sabe que é necessário, tudo deve ocorrer exatamente igual.

Naquele momento, Enlil estava ansioso, como se caminhasse na beira de um precipício, seu irmão Enki estava fazendo uma enorme campanha a favor da guerra e sabia que alguns dos filhos do Senhor do Ocidente, também, queriam escravizar os mortais, torná-los meros instrumentos de trabalho, mas, ele não concordava com isso, porém, seu pai estava pendendo para o lado do outro filho, já que suas terras estavam sendo invadidas pelos Ocidentais. Por isso, preferiu ir sozinho, ao encontro como sinal de boa vontade. A casa do Senhor do Ocidente lembrava um imenso templo grego, com enormes colunas de mármore, no alto de uma colina, mas que não podia ser vista pelos mortais, foi na frente da escadaria que ele se materializou, um dos filhos do Senhor do Ocidente veio recebê-lo.

— É uma honra tê-lo conosco, príncipe Enlil, Senhor dos Ventos! Meu pai o aguarda ansiosamente. Sou Hermes – Apresentou-se o belo rapaz de cabelos encaracolados louro escuro e um porte atlético, inclinando, levemente a cabeça, em cumprimento.

— Obrigado. Também estou ansioso pelo encontro com o Senhor do Ocidente. Desejando que essse encontro traga bons frutos – declarou Enlil, repetindo o cumprimento.

O jovem indicou o caminho pelas escadarias. No alto dela, dois enormes portões de bronze se abriram para uma antessala com chão e paredes em esplendorosos mosaicos em mármore, em grandes piras douradas, incenso queimavam, perfumando o ar, e fogo ardiam nas tochas presas as paredes. Agora, pararam na frente de portas douradas, forradas de ouro, que se abriram sozinhas, revelando um grande salão ricamente decorado, com chão e paredes de mármores em cores variadas, criando intrigados desenhos, o teto alto era sustentado por imensas colunas e no fundo, sobre um patamar, sentado em um trono de ouro, estava o Senhor do Ocidente, ladeado por alguns dos seus filhos e outros imortais, que esperavam por Enlil, como sinal de boas-vindas, todos vestidos no máximo da sua glória. Aquela cena poderia impressionar os mais jovens ou os mortais, mas não Enlil, que vinha de um reino ancestral e tão poderoso como aquele, além de ser mais antigo do que seus anfitriões. Ele se aproximou do trono e inclinou levemente a cabeça em saudação.

— É uma honra tê-lo conosco, príncipe Enlil – Júpiter o saudou do alto do seu trono.

— A honra é minha, poder ser recebido na sua casa, Senhor – retribuiu Enlil.

Alex e Jessica se materializaram um pouco mais distante de onde passava-se aquela cena, um lugar onde podiam observar, mas que não podiam ser vistos.

— Não consigo me acostumar com isso! – Jessica resmungou, aquelas viagens por outras dimensões a deixava tonta e enjoada, Alex a puxou para trás da base de uma das imensas colunas.

— Está vendo! O homem de cabelo mais escuro é o meu avô Júpiter, ou Salvatore no nosso tempo. Aquele ruivo é meu tio Hélio, nesse tempo, ele se chama Apolo. Aquela é Hera, a primeira mulher do meu avô, ela não é a minha avó, desapareceu durante a guerra. Estão recebendo meu pai pessoalmente, que é uma grande honra– Alex explicou baixinho para Jessica. – Sabe, meu pai é mais antigo que todos eles, do começou dos tempos — Jessica o encarou com a boca entre aberta.

Enlil vestia sua meia armadura feito de fios de ouro e um capacete dourado.

— Nossa! Seu pai está demais! – Jessica disse cheia de entusiasmo, ele a olhou com ar de reprovação.

— Eu não vejo minha mãe – Alex observou, mudando de assuto. – Se ela não estiver aqui tudo dará errado.

— O que vocês estão fazendo aqui? – Alex e Jessica ouviram atrás deles, voltaram-se devagarzinho, encontrando um enorme guerreiro, que os mirava com o olhar zangado.

— Caio! – Alex deixou escapar o nome do homem.

— Então, você sabe quem eu sou, mas quem são vocês?

— Curiosos! –Jessica gritou.

— Sim, e o mais curioso é por que um jovem imortal está fazendo aqui com uma mortal? – Os olhos de Caio eram duas fendas negras. – Acho que precisamos conversar com mais alguém.

Entraram pelo palácio por uma porta lateral, talvez, por Caio não julgar que fossem tão importantes assim, para incomodar os ilustres senhores.

— Olhe que eu encontrei! Ratos! – Caio brincou, falando com Nix, uma assistente de trabalhos escusos do seu avô, bela, muito alva e com longos e sedosos cabelos negros. Encontravam em uma grande sala decorada com o chão de mármore em várias cores e desenhos complexos nas paredes.

— O que são eles? Espiões? — Nix parecia surpresa com tamanho audácia.

— Acho que não, são muito jovens e muito descuidados. No entanto, você notou como o rapaz se parece com nosso ilustre convidado, talvez, um filho, seguindo o pai – Caio observou de forma perspicaz.

— Então, rapaz, quem é você? – Nix perguntou a Alex, ignorando Jessica.

— Viajantes curiosos – Alex respondeu, com desdém.

Caio pegou Alex pela roupa e o ergue do chão, deixando seus olhos na mesma altura.

— Não brinque conosco, rapaz – Alex engoliu seco e calou a boca.

—Vamos prendê-los até o desenrolar da ceia. Depois, decidiremos o que fazer com eles – Nix orientou Caio, também, não parecendo muito simpática.

— Você não acha que ele poderá fugir? – Caio indagou, em dúvida, quanto os poderes de Alex.

— Não. Nunca ouvimos falar dele. Não pertence a nenhuma das cortes, provavelmente, é um imortal secundário, não conseguiria sair do palácio. Ele está selado com encantamentos muito poderosos.

Alex interpretava bem o papel, olhando para o chão com um jeito indefeso, foram levados até um dos aposentos, sem janelas, não eram uma prisão com grades, só havia uma pesada porta, possivelmente, encantada, para evitar a sua fuga. No momento em que a porta se fechou, ele se virou para Jessica,

— Fique aqui! Vou ver o que está acontecendo. Volto já, Jessica.

— Aonde você acha que eu iria com a porta estava trancada? – Sua voz estava cheia de ironia.

Ele desapareceu, sem responder, reaparecendo escondido na sala onde era servida a refeição, todos estavam deitados em divã, cercados de almofadas de seda, uma mesa baixa e farta com variados tipos de comida, como pães, carne de caça, diversas frutas, que eram sempre reabastecidas por servos, assim como as taças de vinho de ouro, que brilhavam nas mãos dos comensais.

— Sei da sua preocupação sobre o que está acontecendo nas suas terras, mas, fatos como esses sempre ocorreram em várias épocas e, no final, continuamos todos aqui, com todos os nossos poderes e glória, não continuamos? — O Senhor do Ocidente ponderava, provável, depois de Enlil expôs a sua opinião, sobre o que se passava no Oriente.

Ele pressentia no ar uma nova crença surgindo e os povos do Norte estavam mais fortes, pronto para lutar contra os seus conquistadores.

— Mas, nunca houve nada como o que está ocorrendo agora, Senhor. As mortais procuram respostas que não podemos dar a eles. – Enlil argumentou e prosseguiu: – É que os mais carentes estão encontrando, na nova crença.

— Somos muito benevolentes com os mortais – alguém retrucou.

— Contudo, essa situação não poderá durar para sempre, não podemos brincar de deuses com os mortais pela eternidade. Há muito tempo, nosso povo vem diminuindo de números, não há mais jovens da nossa raça, só aqueles que concebemos com os mortais. Estamos sujeitos à extinção – Enlil continuou.

— Está sendo um tanto dramático, príncipe Enlil, somos imortais, duraremos para sempre. E se os mortais se voltarem contra nós, simplesmente, os destruiremos – Júpiter retrucou, sem emoção.

— E nosso outro assunto? – Enlil continuou encarando o Senhor do Ocidente. – Meu pai não concorda com a expansão do seu povo para nossas terras. Sempre respeitamos de nossos limites e as fronteiras. Queremos as terras que vocês nos tomaram de volta.

Em onda de tesão se espalhou pela sala, os presentes se movimentavam demonstrando o desconforto.

— Apenas nos posicionamos em terras não muito importante para vocês. Sabemos como esta divisão foi injusta, vocês têm toda aquela terra infinita e maravilhosa, enquanto nós estamos confinados a essa terra cansada, presa entre os mares – Júpiter se lamentou.

— A divisão foi feita a milénios, quando vocês partiram para conquistar novas terras, não sabíamos qual seria o tamanho delas – Enlil rebateu, com tranquilidade.

— Exatamente, não sabíamos o seu tamanho. Precisamos crescer, expandir, conquistar. – O Senhor do Ocidente se entusiasmou.

— No entanto, isso poderá levar a um conflito entre nossos povos, o que não será predente em um momento tão difícil, Senhor – Enlil ponderou.

— Sim, infelizmente, se for necessário – o Senhor do Ocidente declarou com ironia, Enlil arregalou os olhos, sem acreditar, no que ouvia. – Príncipe Enlil gostaria de se tornar um hóspede na minha morada, assim, teremos tempo para conversar.

— Hóspede ou prisioneiro, Senhor?

— Como preferir, príncipe.

Enlil se levantou e uma espada de fogo apareceu em sua mão, os outros presentes fizeram o mesmo, havia muitas espadas voltadas para ele, então, tentou desaparecer, porém não conseguiu.

— Um pequeno encantamento – o Senhor do Ocidente disse, com um sorriso de escárnio. – Isso evitará que você possa nos deixar.