O senhor do tempo

12 O que temos aqui?


Alex se materializou no quarto onde Jessica estava, e ela levou um susto ao vê-lo ali, parado.

— Está feito. Meu pai agora é um prisioneiro do meu avô – um tanto contrariado, Alex relatou a Jessica tudo que se passou na sala de refeição.

— Família legal! – Jessica ironizou.

— Você sabe toda família tem problemas – Alex replicou, com cinismo.

— Principalmente, quando são formados por serem imortais, com milhares de anos.

— É, eu sei, mas eles ainda são minha família, apesar de não saberem disso ainda. O que me preocupa é que minha mãe não estava aqui. Assim, precisaremos garantir que ela venha.

— Então, temos que achá-la e convencê-la a vir para aqui — Jessica ponderou, racionalmente. — Isso não parece ser muito simples, pelo o que me lembro da mitologia romana. Era tudo verdade?

— Algumas histórias eram, mas, a maioria das histórias foram modificadas ou interpretadas de maneira errada, através dos tempos. Mas, acho que não vai ser mesmo fácil convencer Diana a vir até aqui, e primeiro temos que sair desse lugar e achá-la.

— Sair daqui? Como? Se você não disse que havia um encantamento para seu pai não fugir.

— Sim, para meu pai, mas você se esqueceu que faço parte das duas famílias, por isso que posso entrar e sair daqui, sem problemas. Esta é a parte mais fácil. Venha me dê a mão. Vamos embora!

— Como você pretende encontrar sua mãe? – Jessica quis saber.

— Vou pensar nela, porém, preciso concentrar-me na antiga Diana, pois senão poderemos voltar para nossa época.

Quando Caio retornou e abriu à porta do aposento, onde havia aprisionado os jovens invasores, o encontrou vazio.

— Mas como? – perguntou a si mesmo, olhando ao redor, não podia compreender como eles poderiam ter fugido, já que o palácio estava encantado, para não permitir fugas de quem não pertencesse ao clã.

Finalmente, o príncipe do Oriente e o Senhor dos Ventos, Enlil foi convencido que sua presença ali como “hóspede” poderia adiar um conflito, talvez, ele mesmo esperasse por isso. O que ele não sabia que na casa do seu pai Anan, o Senhor do Oriente, seu irmão Enki tramava uma armadilha contra ele, na tentativa de tomar o poder, se aliando ao Ocidente, para subjugar os mortais. Enki era o irmão mais jovem, o impetuoso Senhor dos Mares, sempre sentiu ciúmes do irmão mais velho e poderoso, que influenciava o pai deles com suas ideias de mudanças e que deveriam viver juntos com os mortais, não os oprimir. Enki havia conseguido seguidores fiéis aos seus ideais de manter o poder a qualquer custo. Para isso, precisaria eliminar primeiro o irmão e, depois, o pai, se esse não mudasse de opinião.

— Recebemos uma mensagem do Ocidente, príncipe Enki. O plano continua como o combinado, seu irmão está na casa do Senhor do Ocidente, como prisioneiro.

— Guardaremos essa notícia para nós, Utu. Avise aos que estão em Roma que não façam nada, só aguardem próximas ordens. Comunique–os que meu irmão não quer um conflito agora. Contudo, meu pai não deve saber de nada, por enquanto.

— Com certeza, meu príncipe. Mandarei a mensagem e aguardarei suas ordens.

O bosque, onde Alex e Jessica estavam, era formado por moitas baixas e árvores não muito altas, mas suficientemente densas para filtrar a luz do sol, ao longe, ouvia-se o som de uma queda d’água.

— Acho que deu certo, pois esse não parece nosso tempo. Aonde estamos, Alex?

— Em um bosque aos arredores da cidade, acho que é um bom lugar para começar a procurar minha mãe. Vamos seguir o barulho d’água.

Caminharam com cuidado, o mais silenciosamente que conseguiram, Jessica estava irritada com sua roupa, uma túnica longa, que se prendia nos galhos, e a sandália de couro fina, que machucava seus pés, desejava estar vestindo seus jeans e tênis, que ficaram na casa de Isinu. O som de água ficou mais forte, se misturando com as vozes e risadas femininas e latidos de cachorros, os dois se abaixaram atrás de uma moita para tentar observar o pequeno lago formado por uma cascata, que surgia entre as pedras, em suas margens, havia jovens mulheres, aparentando terem quase a mesma idade deles, eram fortes, vestiam-se como caçadoras, roupas curtas presas com tiras de couros, junto a elas, arcos, aljavas e espadas jaziam no chão em repouso. Elas conversavam em volta de uma fogueira, onde uma caça era assada.

— Vê a garota de cabelo ruivo? É a minha mãe – Alex apontou a mulher que estava sentado sobre um tronco, Jessica se lembrou da Diana que conhecera na casa dele, eram ao mesmo tempo parecidas, mas diferentes, a outra era mais feminina, embora elegante e segura, e essa que via agora a sua frente, era forte e parecia mais rude, quase selvagem, e tinha um olhar mais duro.

— Ela parece ter a nossa idade – Jessica observou. — Você vai falar com ela?

— Não posso. Essa é Diana, a caçadora, reza a lenda que ela odeia os homens, não permite que eles se aproximem, assim, eu não poderei me chegar perto. Terá que ser você, Jessica.

— Eu?! – exclamou, assustada.

— Ora, o que temos aqui? – Eles ouviram a voz sarcástica feminina, ao sentirem as pontas das lanças nas suas costas, viraram lentamente para verem duas mulheres vestidas de túnicas, meia armadura de couro e capacetes. Um era morena com os cabelos negro, preso em uma trança e a outra tinha os cabelos louros quase brancos, amarrado descuidadamente com uma fita de couro.

Alex levantou em uma velocidade surpreendente, na sua mão direita, uma espada com um brilho pálido, azulado apareceu, ele se pôs em guarda.

— Devemos matá-los agora, Calisto? – perguntou a morena a loura.

— Se você conseguirem! – Alex desafiou.

As mulheres atacaram, elas eram boas, rápidas e ágeis no manuseio de suas armas, mas Alex era mais habilidoso, seus mestres eram os melhores dos dois mundos, desarmou a mulher morena e atacou a loura, até no fim ter a ponta da espada, encostada na garganta dela.

— Alex! – Ele ouviu Jessica chamar, virando a cabeça na direção do som, onde uma terceira mulher a segurava e a ameaça com uma faca. Alex, lentamente, abaixou a espada, que desapareceu

— Você pode ser um imortal, rapaz, mas sua amiga não – ameaçou a loura.

— Vamos matá-los agora? – A morena repetiu a pergunta.

— Não, vamos levá-los a nossa senhora.

Eles caminharam, sobre o incentivo das lanças, em direção as outras mulheres.

— Você está louco? – Jessica reclamou, baixinho – Viemos achar sua mãe e você se mete em uma luta com as seguidoras dela? Comporte-se, Alex!

— É foi mal – Alex se desculpou, envergonhado.

— O que andou caçando, Calisto? – Diana perguntou, seu tom era irônico, ao vê-los chegar ao acampamento.

— Curiosos – Calisto respondeu, parecendo que se divertia a custa deles. – Podemos matar o rapaz e ficar com a moça para nos servir.

Diana os encarou com os olhos em fenda, analisando a situação, seus olhos iam de Jessica para Alex.

— Vocês são espiões? – por fim, perguntou.

— Não, estamos... – Alex começou a falar, mas foi interrompido por um golpe do cabo da lança nas suas costelas deferido por Calisto, ele se dobrou com a dor.

— Como se atreve a se dirigir a Diana, rapaz?

Jessica ficou assustada, tentou chegar até Alex, mas seu braço foi seguro pela outra mulher ao seu lado.

— Senhora, por favor — suplicou Jessica. – Ele é meu irmão, tem problemas, nos perdemos no bosque, não sabíamos como sair daqui – Diana continuava olhando-os, impassível.

— Estão mentindo, vimos com o rapaz lutou, Senhora – revelou a mulher de cabelos escuros. — Ele é um imortal, talvez, um espião do Oriente.

— Mais uma razão para matá-lo – Calisto brincou, levantando a ponta da lança na direção de Alex. Jessica esperava que ele desaparecesse a qualquer momento.

— Não, espere! – Diana gritou, com firmeza, erguendo a mão. – Não o mate! Há algo muito estranho nesse rapaz e eu quero descobrir o que seja.

Todas as mulheres do grupo olharam boquiaberta para Diana, sem entender a atitude da chefe.

— Mas, senhora... – ensaiou Calisto.

— Já dei minha ordem – Diana reafirmou, levantando a mão para que a outra se calasse. – Leve para junto dos cães. E não esqueça, rapaz, a sua amiga está aqui conosco!

A mulher morena espetou as costelas de Alex.

— Vamos! – ordenou a ele, a contragosto, que deu uma última encarada em Jessica, que entendeu o que precisaria fazer.

As outras mulheres se dispersaram pelo acampamento, umas foram cuidar do assado na fogueira, outras limpavam as armas e outras só conversavam. Jessica ficou sozinha com Diana.

— Sente-se, garota! — Diana mandou, apontando para o tronco ao seu lado. Jessica obedeceu, sentando-se rígida sobre o tronco. – Qual o seu nome? – Diana continuou.

— Jessica – ela respondeu, olhando para o chão como prova de respeito e, também, porque aquela mulher a intimidava.

— Jessica, você quer? – Diana lhe estendeu um prato com algo marrom dentro, como prova de boa vontade, querendo ganhar a confiança da garota.

— O que é isso, Senhora? – Jessica indagou, com um misto de repulsa e receio.

— Urso assado – Diana respondeu, pegando um pedaço com a mão e dando uma grande mordida.

— Não, obrigada – respondeu, tentando disfarçar a cara de nojo, Diana deu de ombros e pôs o prato de lado.

— E o seu companheiro, como se chama? – Diana perguntou, todas as mulheres olharam para ela, atônitas com a curiosidade da chefe, pois ela nunca tinha interesses por homens.

— Aleph – Jessica se lembrou de usar o nome que Alex se apresentava naquele tempo.

— São nomes orientais?

— Sim, senhora – Jessica manteve a mentira.

— De onde?

— Anatolia – Jessica respondeu, lembrando se do nome que Alex disse ao pai.

— Vocês estão muito longe de casa.

— Sim, senhora.

— Agora, me responda Jessica, o que uma mortal está fazendo viajando com um jovem guerreiro imortal? – Diana perguntou de forma casual, pegando uma taça servindo vinho e entregando para Jessica, que recebeu grata e tomou um gole, pois além de sua garganta estar seca, teria um pequeno tempo para pensar na resposta. O vinho desceu queimando a sua garganta.

— Estamos fazendo uma viagem de conhecimento – Jessica disse a primeira coisa que veio a sua cabeça.

— O que vocês querem conhecer?

— O mundo – Jessica falou, um tanto animada pelo vinho.

— Então, você mentiu quando disse que ele era seu irmão – Diana manda a voz calma, encarando Jessica.

— Desculpe. Mas, a senhora queria matá-lo e eu só quis protegê-lo.

— O que mais é mentira, Jessica? Você é prisioneira dele? Vocês são espiões do Oriente? Por que realmente estão aqui?

A mulher morena levou Alex para um lugar pouco mais distante do acampamento, onde um grupo de cachorros grandes, como molossos e mastins e alguns vira-latas, descansavam esperando seu quinhão da caça, e começaram a latir, ferozmente, quando eles se aproximaram.

— Quietas! – gritou a mulher para os cães e depois se voltando para Alex comunicou. – Não tente fugir, pois elas o caçarão e o destroçarão, como uma lebre. – Depois, pegou uma corda e amarrou Alex em uma árvore. No momento, que a mulher se afastou as cadelas vieram cheirá-lo.

— Veja só isso! Minha mãe nunca me deixou ter um cachorro – Alex reclamou com elas, enquanto deitavam ao seu lado, com intimidade, na verdade estava preocupado com o que acontecia na outra parte do acampamento, no entanto, precisaria esperar.