— Eu nunca poderei voltar para casa! – Jessica se queixava, enquanto saiam em direção a um jardim muito bem cuidado, cheio de flores e com delicioso aroma de jasmim. – Minha vida não é eterna como a de vocês – finalizou, irritada.

— Eu, também, não quero passar a eternidade, me escondendo ou acabar prisioneiro de alguma maluca, em um lugar inóspito – Alex completou, mal-humorado.

— Então, o que iremos fazer?

— O conhecimento pode ser uma grande vantagem. Por isso, iremos procurar uma pessoa que está sempre muito bem informada – expôs, com um sorriso travesso.

— Mas, não podemos sair daqui!

— Claro que podemos. Eles sempre esquecem que sou mais poderoso do que imaginam. Dê-me sua mão e vamos dar um passeio. – Ainda que receosa, Jessica fez o que ele pediu.

— Para onde vamos? – ela questionou.

— Ainda, não sei onde ela está – disse, antes de entrarem em um turbilhão como se estivesse no olho de um furacão.

Depois, de alguns segundos, seus pés tocaram o solo, Jessica se curvou apertado a barriga para não vomitar, mesmo com o estômago vazio.

— Você está bem? – ele indagou, enquanto a cor voltava ao rosto dela.

— Eu não consigo me acostumar com isso – respondeu, respirando fundo. – Aonde estamos? — perguntou, olhando o céu de um azul intenso, que se espelhava em um imenso mar, assim como as casinhas brancas refletiam a luz do sol.

— Acho que na Grécia, para ser mais preciso, em Mikonos.

— Grécia? Não acredito! O que estamos fazendo aqui?

— É uma terra antiga, há muita magia aqui. Quando os antigos se separaram, o povo que veio para o ocidente parou por aqui, foi a primeira geração, cresceram e se multiplicaram. Enquanto a Grécia era o berço da civilização, eles ficaram e prosperaram, mas quando o poder foi pra Roma, eles se mudaram para lá, com nomes diferentes – ele explicou. — Mas, como eu disse, estou procurando uma pessoa. Ela se muda muito, nunca sabemos onde está morando. Acho que deve ser aqui. – Apontou para uma casa branca e telhas vermelhas, com plantas com flores de um vermelho intenso enfeitando o muro.

— O que faremos agora?

— Vamos bater na porta – concluiu Alex, enquanto batia em um grande portão azul celeste, que se abriu, imediatamente. Eles entraram com cautela, pela casa, decorada com poucos e belos moveis, muitas almofadas e leves cortinas coloridas, que esvoaçavam com a brisa marinha.

Como não encontraram ninguém, avançaram, até chegarem a um terraço que dava para o mar, com chão em cerâmica colorida, onde em uma rede, uma mulher se balançava suavemente. Podiam ver seus cabelos compridos e negros, sua túnica no estilo oriental branca, em uma das suas alvas mãos estava um leque e na outra um copo de limonada com gelo.

— Alex, que bom que veio me visitar – falou com uma voz melodiosa, mesmo sem se voltar para eles.

Eles se aproximaram ainda mais, então puderam ver o seu rosto perfeito, encoberto, parcialmente, por grandes óculos escuros, então ela os ergueu revelando enigmáticos olhos verdes. Em um movimento gracioso, sentou-se na rede de frente para eles.

— Lilith, não é uma visita de cortesia, precisamos conversar, preciso da sua ajuda — Alex disse, sem rodeios.

— Por favor, sentem-se, minhas crianças. Como você cresceu, está tão belo quanto seu pai – ela apontou as poltronas de vime atrás deles, que tinham certeza, que não estava lá, há alguns segundos atrás.

— Essa é minha amiga Jessica – Alex a apresentou, quando viu o olhar de curiosidade de Lilith. – Jessica, Lilith é a mais antiga, a primeira de nós – esclareceu, Lilith lhe deu um sorriso misterioso. Jessica se lembrou vagamente da história da primeira mulher, anterior a Eva, que foi punida, por não querer obedecer a Adão. Seria ela? Imaginou.

— Então, que o trouxe até mim, meu jovem Alex? Os ataques que sofreu? – ela indagou direta.

Alex assentiu com a cabeça. Nesse instante, um homem jovem alto, vestido apenas uma sunga branca, exibindo seu belo corpo proporcionalmente musculoso e um bronzeado dourado e o rosto de traços perfeito, lindos olhos azuis e cabelos cacheados negros surgiu, trazendo nas mãos uma bandeja com copos de limonadas geladas. O queixo de Jessica literalmente caiu, mal conseguiu agradeceu, quando ele lhe entregou um copo e, depois, outro a Alex.

— Adônis, querido, por que não vai dar um mergulho no mar e deixar os mortais encantados com sua beleza, enquanto eu converso com esses jovens? – Lilith sugeriu, com um sorriso malicioso. Devolvendo-lhe o sorriso, ele se virou e saiu, Jessica e Lilith o acompanharam com os olhos, até sumir de vista.

— Alex, então, você quer saber quem o está perseguindo? – Lilith se voltou, questionando. O rapaz assentiu com a cabeça. – Essa resposta é não fácil. Sabemos de alguém antigo e muito poderoso, que habita o mundo inferior e está aliado a Eres, talvez, o seu irmão Namtar, mas não tenho certeza. Ela tenta levar você para o mundo dela, desde que era um bebê, para se vingar dos seus pais.

— Meu irmão? – Alex questionou em dúvida.

— Sim. Talvez, ressentindo por ter sido abandonado pelo seu pai e que, agora, tem você.

— E como poderei derrotá-los?

— Você poderá tentar enfrentar seu irmão, na próxima vez que ele aparecer – ela explicou, tranquilamente.

— Mas, como ele é muito forte! – Alex estava exaltado.

— Não tanto como você. Lembre-se, você não passou pela guerra entre nossos povos, nasceu depois dela. Seu poder é puro e imaculado. Mas, para enfrentá-lo, terá que antes enfrentar os seus próprios medos.

— Mas, como poderei derrotá-lo? – Alex indagou, ansioso.

— Pode ser muito perigoso – Lilith advertiu.

— Mas, eu quero tentar – insistiu Alex, Lilith refletiu por alguns segundos e deu um longo suspiro.

— O Velho tem a resposta – Lilith respondeu. – Ele vive entre os dois mundos, mas está preso ao mundo inferior, desde que seu avô o mandou para lá.

— Obrigado, Lilith, mas precisamos ir agora. — Alex se despediu.

— Tão cedo! – Lilith disse com pesar. – Por que não ficam mais um pouco e aproveitam o dia na praia e o sol?

— Não, precisamos ir! – Alex reafirmou e Jessica olhou para ele, preocupada.

— Jessica, eu poderia ter uma conversinha a sós com Alex, antes de irem? —Lilith pediu de forma encantadora.

Os dois jovens se entreolharam, Jessica assentiu com a cabeça e se afastou, entrando na casa. Lilith olhou bem nos olhos dele, ansioso pelo que ela iria lhe dizer.

— A moça, Jessica, ela está apaixonada por você.

— Não, não está.

— Sim, está. E ela tem o coração puro, o corpo e a alma imaculados, sendo assim, seja cuidadoso.

— Eu cuido dela.

— Eu sei que no seu coração, há sentimentos que nunca experimentou, por ser muito jovem. Assim, como ela, que seria capaz de se sacrificar por você.

— Eu nunca permitirei isso! — Alex fala com certeza.

— Há situações que estão fora do nosso controle, por isso, tome cuidado, Alex! E lembresse que nem tudo é o que parece.

— O que você está aprontando, Alex? – Jessica indagou, ele a encarou surpreso, enquanto saiam da casa de Lilith.

— Por que você acha que estou aprontando alguma coisa? – Alex interrogou, desafiador, parando para encará-la.

— Porque já conheço você – ela sustentou o olhar, no mesmo tom.

— Está bem! Eu não vou ficar parado, esperando outro ataque – Alex confirmou, Jessica o interrogou com os olhos. – Vou procurar o Velho.

— E onde esse tal Velho mora? – Jessica quis saber.

— Esse tal Velho não pode morar aqui! – Jessica exclamou, se espantando, assim que se materializaram, na frente uma entrada de caverna em uma pequena praia deserta de areias brancas e mar azul intenso, cercado por enormes falésias de pedra, a deixando isolado.

— Dizem que ele é meio maluco, não gosta de companhia – Alex esclareceu, um tanto receoso, sem saber o que iriam encontrar.

— Vamos entrar aí? – A garota olhou para dentro, tentando enxergar alguma coisa, mas estava muito escuro.

— Acho que teremos. – Ele também estava em dúvida, no entanto, antes que desse o primeiro passo para o interior da caverna, avistaram de longe a figura de um homem, que a medida que se aproximava ficava mais nítida. Ele era alto, com a pele bronzeada pelo o sol, tinha os cabelos, barba e bigodes bastante brancos, vestisse como um pescador e estava descalço, na cabeça, um chapéu de palha, e em uma das mãos segurava alguns peixes.

Eles aguardaram até o homem estar bem próximo, e parar na frente deles, os olhando com desconfiança.

— O que vocês querem aqui? – Ele indagou de um jeito rude, os desafiando com os claros olhos azuis escondidos pelas finas rugas que o envolviam.

— Eu procuro o Senhor do tempo, Cronos – disse Alex, já desconfiando quem ele seria.

— O que você quer com ele, jovem guerreiro? – o homem mantinha a cabeça erguida, imperioso.

— Preciso saber como derrotar Namtar – Alex revelou, o Velho o encarou surpreso, com a audácia.

— Namtar não pode ser derrotado, ele sempre vence. Ele é o destino, controla a vida de todos – O homem revelou, impassível. – Pergunte a sua mãe, ela pode ver o futuro – Aquelas palavras assustaram Alex, pois o homem sabia quem ele era.

— Senhor, me desculpe a intromissão, mas não acredito que o destino de cada um esteja selado ou que seja imutável. – Jessica afirmou, humildemente. O homem a olhou como se olhasse um inseto.

— Mortal, por séculos brincamos com suas vidas, traçamos seus destinos, usando suas ganância e ignorância – O homem proferiu. – Um dia tive medo do meu destino, quis mudá-lo, porém ele me perseguiu e me trouxe até aqui para o fim do mundo, onde vivo sozinho, cumprindo minha pena.

— Mas, agora, o mundo mudou – Jessica ergueu a cabeça, querendo defender a sua espécie.

— Sim, vocês podem ter ficado um pouco mais esperto, mas continuam gananciosos, por isso, são tão fáceis de manipular.

— Essa conversa filosófica está muita interessante, no entanto, eu preciso de uma resposta. Como poderei enfrentar Namtar? – Alex interrompeu, impaciente.

— O Senhor do destino é solitário e impiedoso, sua única companhia é a mãe, com que divide as terras do mundo inferior. Durante muito tempo, ela o envenenou contra o seu pai e, depois, contra você.

— Mas, deve haver alguma maneira de destruir Namtar? – Alex insistiu, se voltando para o Velho.

— Talvez, se você o pegar desprevenido no seu próprio mundo, como ele tentou com você – o Velho cogitou.

— Você está dizendo para ele ir ao mundo inferior? – Jessica questionou, sem acreditar naquela proposta.

— É uma possibilidade – reiterou o Velho.

— Como poderei chegar até lá? – Alex indagou, bastante interessado – Precisarei de um portal.

— Você está louco, Alex! Você não pode ir até lá, direto para asa garras dos seus inimigos! – Jessica exclamou, aflita.

— Claro, que ele pode, muito foram e voltaram — O velho declarou, dando de ombros. – O mundo inferior é tão grande como o nosso mundo, dividido em vários reinos, cada qual com seu dirigente. Não será necessário um portal, pois há algumas entradas secretas e só conhecer uma delas.

— Como assim, entradas secretas? –Jessica perguntou, sem entender.

— Há várias entradas, secretas e escondidas, que a maioria dos moradores dos dois mundos desconhecem. É assim, que Namtar chega até aqui. Como você acha que eu fugi de lá, depois que fui condenado? – o Velho esclareceu.

— Você fugiu do mundo inferior? – Jessica questionou, descrente.

— Sim, fugi, por isso, vivo escondido, pois não quero que meus filhos me mandem de volta para lá.

— Por que seus filhos fariam isso? — Jessica perguntou, chocada.

— Jessica, depois conversamos sobre isso – Alex se intrometeu. – Então, senhor, onde ficaria essa entrada?

— Bem ali! – respondeu, apontando para a caverna atrás deles.

— Ali? – Alex não podia acreditar.

— Sim. Ainda estou preso aquele mundo, não posso me afastar da sua entrada. – o Velho admitiu, com pesar.

— E como eu chego até lá?

— É só seguir em frente pedir e licença ao guardião.

— Como farei isso?

— Ele lhe exigirá um sacrifício – O velho explicou. — Se você estiver disposto a aceitar, ele lhe deixará passar.

— Um sacrifício? – Alex titubeou, sem imaginar qual seria. – Posso tentar – decidiu-se, sem muita segurança.

— Alex, não! Você não pode! Será muito perigoso! – Jessica ponderou, segurando o braço dele.

— Eu preciso, Jessica. Não posso continuar vivendo como um prisioneiro — respondeu, com uma falsa calma.