O rumo do destino
3 A chegada
Uma... Duas… Três vezes! O celular de meu pai tocou e caiu, eu estava no banho filosofando sobre chegadas e partidas quando minha mãe ligou pela quarta vez. Pensava comigo, alguns chegam e querem ficar, mas não podem, e vão. Outros por mais que vão embora, ficão, eles implantão uma sementinha em nossos corações, e aquilo germina dentro da gente. A distância não separa quando o sentimento é plantado, na verdade, ela nos fortalece. Quando chegamos de novo a alegria florece dentro de nosso peito. Era isso que eu sentiria assim que visse a minha mãe. Sentia falta dela… Pela quarta vez o celular tocava.
Mas não é possível! Atenda pai!
Sai do banheiro as pressas. Já que ninguém atendia, eu atenderia. Por onde eu passava havia uma poça d’agua, meus cabelos estavam encharcados e gotejavam muito. Segui o som do toque para encontrar o aparelho que soava mais forte na porta do quarto dos meus pais, e seguindo a melodia cheguei até … Adivinha aonde? No bolso da calça jeans do ex-jogador! Meu pai estava jogado naquela cama, provavelmente no décimo quinto sono, parecia uma pedra dormindo, nem um dedo se movia. Depois que chegou do trabalho ontem ficou planejando como seria o jantar para minha mãe, queria que tudo saisse perfeito...Já começou errado.
–Pai! Acorda! Não vou por a mão na sua bunda! -Chacoalhei-o bem forte para ver se ao menos falava algo, já aos berros.- Pai! Pai!
–Han? Que foi filha? — Disse com a voz de sono, porém assustado.
–Atenda esse celular, deve ser a mamãe! É a quarta vez que está tocando.
Assim que eu disse no amor da vida dele, pronto, pulou da cama e já estava dizendo alô. A primeira fala dela eu ouvi, “Amor, porque não atendeu o telefone antes? Agora temos pouco tempo conversando!”, estava relativamente calma, mas ainda dava para notar o que sentia de tão alto que falou, meu pai até afastou o celular. Eu estava sobrando enquanto eles conversavam, então fui pro meu quarto me trocar. Ao final de contas estava de toalha ainda e… Ai, meu Deus! Deixei o chuveiro ligado, ainda bem que meu pai estava ocupado, se não eu levaria uma bronca daquelas bem dadas.
Fechei-o , e fui decidir o que iria por para a chegada da minha mãe. Estava entre um vestido rosa, que usei em um aniversário dela e o azul, que foi comprado por ela no natal. Decidi usar o azul, era mais especial para ela, sempre dizia que o azul ficava bem em mim.
Fazia um mês que eu não a via, tinha ido a Boston em nome da empresa que trabalhava. Tudo bem, eu já acostumei com ela viajando, mas nunca demorou tanto para voltar. Um mês era tempo demais, o suficiente para quando ela voltar tudo estar a mil maravilhas em casa. Um dia antes de ir meus pais haviam discutido, coisas como dinheiro, e você fez o que eu não gostei, devia ter me dito antes que iria viajar… Enfim, essas coisas de casal, bobagem. Eles não brigam sério, normalmente. São bem romanticos um com o outro, então eu nem ligava muito para as brigas, menos quando meu pai está bêbado, ai a história é outra.
Não vejo a hora de vê-la. Era sempre muito bom quando meu pai ficava olhando todos passando a espera da pessoa que ele ama. Os olhinhos castanhos brilhavam de uma forma impressionante. Nem tudo que reluz é ouro, uma verdade, poderia ser os olhos do meu pai também. O cabelo dela vinha sempre em um coque, essas viagens eram fatigantes. Ela sempre abria um sorriso enorme, abandonava as malas e abraçava meu pai , isso me chatiava…quando eu tinha seis anos! Depois ela me abraçava e deva um beijo na minha testa. Nisso meu pai já aparecia magicamente com as malas nas mãos e iamos todos para o carro, felizes. No caminho ela ia me contando o que havia acontecido, quem conheceu, mas mal falava das reuniões. Claro, ela sempre inventava umas histórias, hoje eu vejo como é de verdade, mas eu gostava daquilo, fazia a chegada em casa ser mais divertida. Esse é o nosso ritual. Mesmo que eu já saiba a verdade, as coisas ainda são da mesma forma.
Dessa vez, por algum motivo, foi diferente. Ela não estava com seu coque, não foi correndo ao meu pai, nem a mim. Talvez seja o cansaço, pensei. Chegou até nós e deu as malas ao meu pai , ele beijou sua mão, e ela concentiu com a cabeça. Quanto a filha dela? Havia se esquecido. Passou por mim e eu só a observei, meu pai me olhou e viu que eu estava chateada, deu um olhar de concentimento e continuamos até o carro. A volta nunca fora tão silenciosa. Minha mãe estava quieta, pensativa, olhava pela janela e observava os carros passarem por nós, nem um olhar para mim, nem reparou no vestido azul, nada.
Comecei a ver os carros passando quando me recordei da mensagem do dia anterior. “Você fica linda pálida kkk”. Não vi ninguém que conhece-se, então decidi mandar uma mensagem com “Quem é?”, nunca tive vergonha de perguntar quem a pessoa era, nem mesmo quando eram meus parentes. Assim que enviei o sms, observei a minha mãe, os cabelos louros dela não estavam brilhantes como ela mantinha, seus olhos estavam cercados de olheiras, sua unha toda comida, ela estava totalmente abalada com alguma coisa, apenas não quis dizer para ninguém… O celular vibrou… “ Me encontrou ontem e nem notou, que decepcionante”. Eu não vi ninguém que eu conhecesse, tinha certeza disso. “Só me responda. Quem é?”, minha mãe abriu a boca! E só saiu um suspiro, realmente a volta parecia muito longa, mesmo não sendo.
– Pai, liga o rádio?
– Já estamos chegando filha. Não vai dar tempo nem de ouvir uma musica completa.
Bufei. Minha mãe me olhou com uma cara que parecia que iria me matar. Que verbo eu usei? Olhar? Nossa! Ela me finalmente notou que eu estava ali. Observei novamente para fora do carro, já estavamos no bairro de casa. Virou mais uma vez para esquerda e outra para direita, até que finalmente o carro estacionou.
– Amor, você vai adorar o que eu fiz para você! — Meu pai saiu, abriu a porta para minha mãe e entraram , eu fiquei ali. Esquecida.
– Quer saber? Vou na casa da Anne! Assim os pombinhos ficam sozinhos.
Sai do carro, bati a porta forte para poder ser ouvida. Duvido muito disso. Fui andando alguns quarteirões até chegar na casa laranja de porta alta, toquei a campainha e a doce senhora de cabelos grisalhos que tomava conta de Anne apareceu.
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