O rumo do destino
4 Eu te conheço?
A mulher de cabelos grisalhos e coluna torta me olhava com serenidade, pela porta, a espera do que me interessava. Suas rugas deixavam claro a sua idade, e toda a sua experiência.
–Olá senhora Keller, a Anne está?
–O que? – ela disse com aquela voz rouca que mal saia de sua garganta, com a feição totalmente atônita – Não tem doce aqui não, minha filha.
–A Anne está, senhora Keller? –repeti mais alto, tentando ser compreensiva. As rugas em sua face formaram uma face de duvida.
–Já disse, não tem doce. – Ela se afastou e fechou a porta na minha cara
Quando ela se afastou notei que usava um aparelho auditivo, e que para minha sorte ele estava muito baixo, o que a fez ouvir a campainha estridente mas não a mim. Quando as coisas querem ficar incomodas realmente ficam, pensei.
Então pela segunda vez toquei a campainha, a mesma senhora saiu, da mesma maneira. Esperou eu dizer as palavras que não saíram. Ao invés disso gesticulei para que ligasse o aparelho, ela me encarou e finalmente notou que estava desligado
–Obrigada , minha filha.- ela me deu um tapa nas costas que tinham a força completamente diferente do de uma senhora na idade dela- O que você queria mesmo? Era doce?
–Não , a Anne está? – repeti a pergunta pela terceira vez , já estava impaciente.
–Ah sim, minha filha. Entre a casa é sua ... Bri...
–Brielle... Onde ela está? –indaguei, finalmente pisando no tapete que havia dentro da casa.
–Está no quarto dela... Suba a escada, a primeira porta a direita... Acho que ela está com companhia, mas pode entrar a vontade. – Ela caminhou até o sofá da sala de visitas e ficou lá, na frente da TV.
A casa de Anne era enorme. Possui mobílias lindíssimas e muito caras, os pais de Anne eram empresários japoneses, e ela um gênio. As aulas de álgebras perto dela eram humilhantes, meu dom era biológicas e até nisso ela me humilhava, ela era a estudante perfeita e brilhante que todos os professores gostariam de ter.
Tirei os sapatos e o deixei na entrada, junto com os outros da casa, mania de limpeza. Uma vez que fui e não fiz isso a mãe de Anne quase surtou: Meu tapete persa, não pise nele com esses tênis imundos garota. Depois falou para Anne melhorar as amizades. Nunca mais me esqueci de retirar o sapato lá, melhor não manchar esses tapetes caros.
–Sobe logo, minha filha! – a idosa me fuzilou com os olhos
Eu estava parada na entrada tirando a sapatilhas ainda e olhando os pares envolta, havia um sapato que não era dali. Um tênis esportivo da Nike, masculino. Apenas o observei ali e a senhora já estava mandando ir rápido. Sinceramente, aqueles “minha filha” me irritavam profundamente.
Subi os degraus , cheguei na porta do quarto dela. Mal deu tempo de bater quando a japonesa de olhos puxados estava abrindo, e um garoto de cabelos castanho mel saindo ao seu lado. Espero que tenha entendido a matéria, ela dizia a ele. Eu apenas vi o final do que parecia um aceno de sim com a cabeça, vindo dele.
–Brielle! O que está fazendo aqui? – o menino saiu pela porta e nos encaramos, aquela sensação de familiaridade com as feições apareceram novamente
–Ei! Eu te conheço? – ele estava se virando, quando segurei –o pelo pulso fortemente.
Ele simplesmente deu de ombros e se soltou seu pulso facilmente, e apenas disse: Obrigada Anne. Continuou andando me ignorando completamente.
–Desculpe-me, eu achei que o conhecia... vim passar um tempo com minha amiga, não posso?
–Mas é claro que pode... Venha, venha.. Comprei uns livros maravilhosos essa semana, olha essa capa – ela já estava indo em direção a uma das prateleiras, olhando fixamente a um livro verde de capa dura
–Desculpe, podemos fazer algo diferente dessa vez ? Como ir no parque ou passar o dia jogando algum jogo?
–Claro... Se é isso que você quer... Vamos... – Ela parecia desapontada, mas concordou .
Saímos da casa, Anne avisou para a senhora onde iria e que horas voltaria e fechou a porta a suas costas. Entrelaçamos os braços e saímos caminhando. Ela era uma típica japonesa de olhos puxados e pretos, o cabelo liso e curto com uma leve franja se acentuava perfeitamente com seu rosto. É linda, qualquer garoto em sua sã consciência iria gostar dela com facilidade. Cada passo que dava sua saia balançava levemente e seus olhos acompanhavam os passos, e o livro, na sua mão oposta do meu lado, parecia perfeitamente correto ali.
Anne não tinha erros, não tinha tantos traumas. A maioria das pessoas tem que insistir com o que querem, mas não ela. Tudo caia perfeitamente para ela, e Anne usava-os corretamente. Era perfeccionista ao extremo. Se disse-se que voltaria as cinco horas da tarde, assim que o relógio da igreja soasse ela estaria em casa. Por outro lado, ela nunca fez loucuras suficientes, tinha o passado completamente limpo, o histórico escolar perfeito e apenas faltava por doenças. Eu me inspirava nela e ela aproveitava minha companhia.
–Você esta namorando com aquele garoto? – Perguntei assim que chegamos ao parque e sentamos nos balanços
– O Bernardo? Filho de um dos amigos de papai. Só estou ajudando-o com álgebra. –ela olhou pro céu, e deu um impulso em seu balanço
– Ele estava na festa da Sa... – e engoli as palavras. Anne não saia, por isso as garotas que eu conhecia dificilmente a chamavam. Sara era amiga dela desde de quando usavam fraudas, e nunca a chamou para uma única festa.
–Oi? – ela parou o balanço.
–Nada, na volta você me fala dele. – e impulsionei o meu
Fiz o balanço ir o mais alto que podia. Olhava para o céu, as nuvens se mexiam lentamente, eu me sentia livre podia voar. Anne parecia ter o mesmo sentimento, ela ria para o céu. O balanço ia e voltava, céu e chão. Minha amiga me observou e disse sem som, “Três”. Continuei, “Dois”.
–UUUM! – Ela gritou
Nossos pés colidiram com o chão, havíamos saltado do balanço e eu estava tentando me equilibrar ainda. Anne ria imensamente feliz.
–Brielle, só você para me divertir com um balanço... – Olhei para ela e a abracei – Você está bem?
–Sim... Vamos antes que dê seu horário
–Tenho mais doze minutos livres, gastarei treze até chegar em casa e mais uns dois minutos até a porta realmente abrir... Você sabe, senhora Keller é uma mulher difícil com sons.
–A gente faz um caminho mais longo... Te garanto que não vai ter problemas com horários
–Mas outras rotas, ainda tenho que calcular o tempo que ....
–Relaxe ... –Puxei ela, fazendo-a abandonar a estranha conta feita no ar- Agora me conte, quem é esse Bernardo?
–Já disse! Filho do amigo de papai. – Ela me encarou com uma cara de duvida – Porque está tão interessada?
–Tenho a impressão de que o conheço... Você tem o numero dele? – Tentei ser o mais inocente possível.
–Claro, em casa eu te passo ... Apresse o passo, você me desviou dois quarteirões, tenho que chegar a tempo em casa
Ela andou mais rápido e eu fiz o mesmo, já nem contestava o motivo disso. Sempre que perguntava ela dizia “Pontualidade é essencial na vida”. Chegamos lá exatamente na hora que ela havia dito para a babá, a senhora estava com uma bandeja de biscoitos e duas canecas com capuccino. Anne tirou o sapato as pressas, pegou a bandeja e foi para o quarto, eu a acompanhei.
O quarto de Anne era bem disposto, uma cama confortável ao canto do lado da janela, uma biblioteca em na parede ao lado, onde os livros já estavam brigando por espaço. A parede que sobrara era cheia de imagem de escritores, formulas matemáticas e físicas, e para finalizar uma tabela periódica enorme. Ao lado oposto da cama havia uma escrivaninha enorme, empilhada de apostilas. As roupas todas guardadas no closet e o banheiro era na frente do quarto. Cada quarto na casa havia um banheiro na frente ou era suíte. Creio que só haviam dois quartos que não eram, o de Anne e o mais um mais ao fundo onde a Sra. Keller gostava de dormir.
Deitei na cama da minha amiga me espreguiçando... Ela pegou seu celular e anotou o numero de Bernardo. Ora que me viu desarrumando a cama começou a me puxar para fora, pelos pés.
–Saia! Vai desarrumar minha cama... e o numero do garoto está na escravininha – ela puxou mais forte, uma força que eu não sabia que tinha.
–Está malhando? De onde vêm essa força? – eu disse já caída ao chão depois de algumas puxadas fortes.
–Sabe nem todos são preguiçosos como você. – “Desculpa senhora perfeição”, pensei em dizer. Me contive, ela não merecia ouvir aquilo afinal havia passado a tarde comigo e ainda estava me passando o numero de alguém que eu acreditava que conhecia.
– Queria posar aqui... mas seus pais não deixam de ultima hora assim. Acho que vou indo. Anne, se cuida e nada de ficar sozinha com garotos no quarto. – fiz uma cara de terror e ela riu de mim – Nunca se sabe o que eles pensam.
– Pare de ser boba! – ela me abraçou e nós apertamos as mãos.
Fui embora quando a lua cheia já estava linda no céu escuro , andei as mesmas quadras que havia passado mais cedo, olhando para as estrelas, apenas conseguia ver uma constelação zodiacal aquela noite. Quando cheguei em casa sentei na calçada e fiquei olhando em busca de mais pontos se ligando e formando imagens mas não achei nenhum, quando senti falta de algo que estava em minhas mão na volta de minha mãe no carro...
Cadê? Onde coloquei aquele celular?
Me perguntei enquanto segurava o papel com o numero de Bernardo. Agi igual boba procurando na calçada, olhava para as mãos e então veio a resposta óbvia a cabeça. Está no carro! Olhei para traz e o veículo não estava lá, meu pai ainda estava trabalhando no restaurante. Por mais que minha mãe chegasse hoje, ele não estava dispensado do trabalho.
Meus olhos já se pesavam quando decidi que iria me deitar. No intuito do movimento olhei para esquerda e parada ao longo do poste eu vi uma sombra alta, exposta a pouca luz.
–Psiu, garota! – Ele parecia bêbado, as pernas se transavam, quase caindo para os lados.
Aproximou-se cantando, não entendi basicamente nada. Quando estava perto de mais eu recuei e então reconheci a face. Era meu pai, com um olho inchado e uma garrafa de cerveja na mão. Totalmente bêbado.
–Sabe garota, nunca aposte pelo esporte que não pratica mais! – ele foi andando em zigue-zague até a porta.
Peguei sua mão, tirei a cerveja de sua mão e fui guiando-o até o quarto onde ele caiu, igual a pedra que sempre fora naquela cama. Minha mãe já estava descansando da viagem provavelmente a muito tempo.
Sai do quarto o mais silencioso possível e só ouvi meu pai falando: Xe eu pinga aquele rapax de... e não completou a frase não podendo mais. Fui até meu quarto e pensando como minha casa era diferente da de Anne.
A casa dela era bela, tudo perfeitamente planejado, a minha mudava o sofá de lugar o tempo todo. Meu quarto não tinha nenhum livro, nenhuma apostila, muito menos fórmulas. Não tínhamos tapetes persas, e sim um comprado no centro popular comercial, que eu tanto gostava. Coisas boas a preços bons, sempre dizia isso quando entrava lá.
A cozinha era apertada, com apenas a mesa ao centro e um fogão com uma geladeira e alguns balcões posto. Não tínhamos closet e sim guarda-roupas, eu diria que um só daria para por todas as roupas de casa, afinal as minhas ficavam mais no chão do que no próprio móvel, mas minha mãe insistiu para termos dois. O melhor lugar da casa era sem duvida a sala, com uma TV grande e um sofá que era delicioso. Tudo bem que o gato da vizinha já o estragou um pouco, mas ainda era o sofá.
Não era uma casa cara e totalmente confortável, mas era o meu lar. Eu me sentia bem ali, e isso me bastava mais do que ter todas as coisas de Anne. Minha mãe daquela forma, meu pai bêbado... Sabe faz parte, as vezes saímos de nós, mas de qualquer forma eram meus pais. Me amavam, tem que me amar, sou fruto deles.
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