O reverso do Diamante
7 O seu passado
– Fogo! Vais contar-me ou vais esconder o que quero saber para sempre. – diz ela cada vez mais preocupada pois a expressão do Daniele estava cada vez mais triste.
– Depois dava cabo do meu corpo e alma. Quando dizia a minha mãe que ele não gostava de nós, ela dizia que na verdade ele amava-nos muito, mas por vezes perdia a cabeça. Tinha o diabo no corpo dizia ela.
– Daniele, eu …- Luísa quase deita uma lágrima pelo rosto abaixo, embora não ouvisse os pensamentos de Daniele sentia uma dor grande vinda não sabia de onde.
Pôs a mão sobre o peito e sentiu seu coração bater rapidamente. Ele percebendo que ela tinha ficado surpreendida com a sua revelação, puxa com o seu braço contra o peito e diz:
– A verdade é que até a algum tempo pensava que todas as famílias eram assim. Mas já passou. Agora minha vida é a dança, a música e a arte.
– Tu fostes muito corajoso.
– Não, não fui Podia ter sido mais, ter impedido a morte dela e o desaparecimento dele. Podia ter segurado aquela “família” e torna-la mesmo numa verdadeira família.
Enquanto ele dizia estas palavras ela abre bem os olhos e duas grandes lágrimas caem-lhe do rosto. Nunca pensar em nada daquilo para ele que sorria e ponha os outros a sorrir. Luísa mexeu seus lábios e disse baixinho:
– A tua mãe onde está?
– Ela morreu, está no céu, espero. Tipo suicidou-se, ela queria-o à muito tempo, depois disso eu também pensei nessa hipótese mas não tive coragem disso. Nunca viram seu corpo, dizem que os animais o levaram, depois do comboio passar. Meu pai ficou com uma mulher, minha madrasta que é minha encarregada de educação, eles discutiam. O meu pai nunca lhe batia, pois ela conseguia sempre seduzi-lo embora eu a ache mais feia que a mãe. Depois meu pai desapareceu e deixou-me com ela. E agora vivo assim.
– Como pensaste nisso?
– No que?
– Em matares-te.
– Bem, era uma hipótese para fugir ao sofrimento mas … não. Tinha outra coisa em mente. Fui dois ou três anos para casa da minha tia na Alemanha e ensinei meus primos a cantar e tocar instrumentos. Minha mãe me ensinou muito sobre música. E eu sei cantar, dançar e tocar um pouco de tudo. A dança fui eu que aprendi sozinho e foi aí que o Pedro me encontrou. Estava a dançar com um velho rádio que encontrei no lixo e que pedi a um senhor que o consertasse. Dançava às escondidas de meu pai, num beco da rua, ninguém me via e assim ninguém contava ao meu pai. O Pedro viu-me, tinha eu 4 anos. Mesmo antes de ele me encontrar eu dançava muito. Para soltar tudo o que tinha aqui dentro. Para soltar a dor ou a alegria de nesse dia (o que era raro) de nem ter levado uma palmada. Era um sonho dançar. O Pedro ficou tão surpreendido com os meus passos e disse…
“- Uauu! Danças mesmo bem pequenote! – disse Pedro.
Eu tremia, tinha medo do que ele podia fazer ou contar ao meu pai.
– Não diga nada a ninguém por favor! Peço-lhe. – disse quase chorando.
– Queres continuar a esconder… isto! Tu não deves esconder o teu brilho. Tu brilhas como uma estrela enquanto danças. Nem penses, não vou deixar que pares de brilhar.
– Eu sou mau…
– Mau, não. Queres ser meu aluno? Queres dançar e te tornares melhor ainda.
Eu olhei para ele como se não percebesse nada. Ele levou-me para demonstrar o que ele queria dizer. Quando vi o grande espelho fiquei como alucinado. Ele pôs música e meus pés não paravam quietos, parecia o “Happy feet”. Ele dançou, eu dancei imitando-o e por vezes dava um toque diferente à dança. Fui o seu primeiro aluno. Após descobrir o que meu pai fazia comigo, falou com ele e meu pai lá deixou, não fosse ele contar à polícia a nossa situação. Pedro tratava-me como um filho e durante as aulas era um aluno. Vinha sempre cedo para a aula. E fazia muitas coisas novas e assim tornei-me no que sou agora. E nunca desisti do meu sonho, de conseguir brilhar mais e voar mais alto.”
– Que história! Uma pergunta o Pedro é o professor? – diz Luísa tirando as suas conclusões.
– Sim, é! Hahahah! Não sabias durante este tempo, que parvinha.
– Nunca ninguém mo disse. – diz Luísa fazendo uma careta.
– És mesmo parvinha.
– Sim, ton…- ela para com receio de o fazer lembrar do seu passado.
– Tonto. Podes dizer, fica tudo na mesma, mesmo que saibas o meu passado, louca.
– Sim tonto, parvo e inteligentemente reduzido ao zero.
– O quê? Não percebi vais ver.
– Meninos…
Eles viram-se, era Pedro.
– Bem, vamos ver agora como dança. Espero que tenham aprendido a lição.
– Parece-me que não professor Pedro. – diz Luísa e Daniele em coro.
O professor solta-os e eles preparam-se para o “exame final”.
Daniele ergue-se, seu cabelo louro que lhe caia sobre os ombros é posto para trás, ele sorri amigavelmente para Luísa. Ela, criatura que nunca percebera que tipo de bicho era aquele, nega o seu olhar. Olha para o chão que brilhava e sorri. Ele pede lhe para ela lhe dar a sua mão. Luísa estende a mão rabiscada pela sua caneta roída durante as aulas desinteressantes. Ela é puxada para ele ficando então enrolada entre os seus braços, só assim os seus olhos castanhos como o mais doce dos chocolates vêem o céu nos olhos de quem ela mais detestava e menos compreendia. O professor de pé olhava-os como que dizendo mostrem-me de que são capazes de fazer. Luísa move os pés não sabia como, mas era diferente agora. Não temia nada que entrasse, não receava por errar, porque sentia que ali nada erraria. Daniele segurava-a, ela sente novamente aquelas mãos que seriam capazes de lhe ocupar a toda. Já não sentia vergonha, não sentia receio dos seus toques, a única coisa que sentia era...........................................................
Ela ergue seus lábios e mostra os seus dentes todos direitos que no passado estavam presos a um aparelho, ela sorria dançando, ela sentia felicidade. A liberdade de não estar presa, de poder voar, sem ser um pássaro preso a uma gaiola de preconceito, de negação. Eles movem-se igualmente, como se um soubesse o que o outro faria depois, ela dá um passo para a direita, ele olha-a com olhar esperto e move-se para a esquerda. Ela percebeu e fazendo movimentos leves dirigiu-se para ele, dançou junto a ele, sentiu novamente todo o seu corpo tocar-lhe. De surpresa sem estar nada no "contrato" ele ergue-a ao ar, ela olha para baixo e nega com a cabeça. Não tinha mesmo remendo. O professor bate palmas. E dirige-se a eles:
– Meu Deus!!! São mesmo vocês? Ou são robots?
Eles ficam ambos embaraçados.
– Sinceramente dançam tão bem, Luísa, tu devias fazer disto nas aulas. Espectacular! Eu disse que eram um bom par e acertei. Luísa liberta-te assim nas aulas por favor. Daniele tu já sabes, tu danças muito bem e gostei da ideia do final fica bem no final da música.
– Professor, eu tento dar sempre o máximo.
– Sim eu sei Daniele. Bem, podem ir tomar banho acho que necessitam de um.
– Professor...Obrigada. – diz Luísa com as mãos juntas.
– De nada, eu gostei do espectáculo!
Ambos foram tomar banho sozinhos. Luísa acabou de tomar banho por último, sentiu um cheiro no ar, era Daniele. Estava muito bonito como sempre, mas ela sempre o achava um parvo. Ela olha para o lado e pergunta:
– Porque ainda estás aqui?
– Não sei, apeteceu. Não estou brincando, queria ter a certeza que todos saiam para eu fechar isto. — ele ergue uma chave e diz. — Ele deu-me isto.
– Ah. — diz ela não muito interessada olha para o céu.
– Demoras muito a tomar banho, mais de uma hora. Cada canto deves esfregar, bem esfregado e com muito cuidado. Como te lavas?
Ela dá-lhe um soco.
– Não faças perguntas estúpidas!!! — grita vermelha — E tu como é que te lavas? Que pergunta estúpida.
– Eu lavo-me com gel de banho ou sabão é natural. — diz ele muito naturalmente e como se fosse muito santo.
Luísa quase caí para o lado, cada coisa que ele dizia. Agora via que ele não era tão mau de todo, mas mesmo assim teria cuidadinho. Foi então que ficou paralisada de boca aberta, hoje teria de ir sozinha de autocarro e ela não sabia os horários nem como apanha-los. Começou a andar de um lado para o outro. Depois parou e suspirou, Daniele olhava-a, parado, com os olhos abertos a tentar segurar o seu riso. Ele quase derrete-se de tanto rir. Ri até quase se mijar, mas depois vê Luísa como com uma nuvem de nevoeiro sobre ela, e a dar voltas com os seus dedos perto de sua cara. Ele percebe que algo a preocupava e diz:
– Buuuuuuuuuhhhhhhh!!!!!
Luísa salta. Ele ri, era mesmo engraçado gozar com ela.
– Pareces… Sei lá, algo muito engraçado. Tipo Pato Donald, Pateta ou coisa assim. Ahahah. Mas, porque raio estás assim miúda?
– Os... blabliduba. — ela acalma-se e diz. — Tenho que apanhar o autocarro para casa.
– E qual é o drama pequena inteligência universalmente evoluída?
– Prometes que não dizes a ninguém e nem te ris ? — diz ela com vergonha.
Ele põe as mãos atrás da cabeça. Pensa e diz:
– Bem, eu contar não conto... mas vindo de ti não sei se me consigo conter.
– Claro, como fui pensar que esta pobre alma, não faria isso. Logo vi. — diz Luísa amuada.
– Conta. Eu contei-te o meu passado mereço isso.
– Eu já te paguei isso dançando contigo.
– Não é nenhum sacrifício, até algumas raparigas dizem que sonham em dançar comigo. Contigo é que é mais difícil. — diz ele olhando-a de lado.
– Pois elas sonham pesadelos, por isso é que sonham com isso. — diz ela amostrando a língua.
– Que grande!!! E lindinha!!! De certeza que o teu namorado deve ser mais santo que eu (para te aturar), mas com essa língua ele deve ser um diabo. Queres que eu a prove?
– Não tenho namorado! Ninguém me irá querer a menos que seja cego, para só ver o interior, e não ver este monstro que sou por fora. Pensando bem, até seria bom porque ele veria o mais belo e o mais importante e isso sim seria amor. — diz Luísa quase voando imaginando.
– O amor... Não, acredito que existe. — diz Daniele olhando para o chão. — Isso é só nos livros com princesas e príncipes. São histórias tiradas da imaginação das pessoas. O que é o amor? Ninguém sabe. Por isso ele não existe. — ele ia dizer-lhe para parar de sonhar com isso, mas em vez disso. — Para mim não há AMOR...
Luísa fica triste e zangada ao ouvir aquilo. Bate-lhe e não pára. Tinha tanta raiva, acreditava nisso e mesmo que fossem apenas histórias, ela acreditava na mesma que existia o amor. Ele agarra as suas mãos, olha-as eram tão pequenas aquelas mãos que o queriam ralhar, ela era mesmo uma tontinha engraçada. Era mesmo tonta. Perguntou-lhe:
– O que te ponha tão nervosa? Eu, não me riu. diz-me.
– Não digo, tonto, parvo, bruto.
– Está bem, então xau. Adeus!
– Não espera, eu não sei apanhar os autocarros é isso. — ela agarrava o braço dele com as duas mãos e olhava para o chão.
Ele ri baixinho e depois diz-lhe sorrindo:
– Desculpa, mas isso é que é estúpido.
– Pronto, lá vens tu com essas conversas. — depois meigamente ela pede-lhe. — Podes ensinar-me a apanhar os autocarros?
– Acho que não tenho nada que fazer agora, eu vou lá. Vais aprender direitinho como apanhar os autocarros, como andares neles e tu. Vou ser um bom professor dos autocarros! — diz ele rindo.
– Brinca, mau. És mesmo mau. Um brincalhão Daniele! — diz ela rindo dele.
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