O reverso do Diamante
8 Os autocarros
Daniele acompanhava Luísa pelos caminhos que ele já bem conhecia. Esta seguia-o. Daniele falava de cada canto como se fosse único, de cada pedra pequena da rua que ele encontrava, dos sinais de transito, das lojas abertas até ao final do dia, das pessoas que passavam e tudo dizia com pormenor. Para ridicularizar Luísa até falava dos postes, de como ela devia parar quando visse o sinal vermelho no semáforo, de como devia andar pela rua, explicava que aquilo era uma planta, aquilo era uma pedra negra e bem, Luísa quase o matava. Ele exagerava de propósito e ela sabia-o. Não tinha culpa, afinal ela vivia maior parte das vezes no Caniço lugar donde era raro sair a não ser de carro do papá Edgar. Já farta das brincadeiras daquele rapaz com um cabelo que ela pensa não ter sido lavado a mais de um secúlo, ela pára juntando os seus dóis pés:
– Podes parar com isso! Eu não tenho culpa de não perceber nada desta cidade enfadonha.
– És memo de campo!... – diz Daniele com as mãos atrás da cabeça. – Vá, vamos, já falta pouco.
– Que pouco que carapuça! Eu só te oiço a falar de coisas ridículas e isso deve estar a me atrasar tudo por tua culpa! – diz ela com os punhos cerrados para trás.
Ele percebe que ela está mesmo zangada e pronta a tudo até a dar-lhe um soco onde quer que fosse. Ergue a sobrancelha, como se questionando. Luísa fica a olha-lo com uma cara de poucos amigos. Ele corre em sua direcção, Luísa põe os seus braços em volta da cara, não fosse ele lhe bater. Ele pega nela e põe-a nas suas costas. Luísa bate-lhe com os pés e ficou ainda mais irritada que antes. Ele ri-se:
– Só te ponho no chão se ficares quietinha, e pronto me seguires.
– Está bem, mas põe-me no chão.
Ele a põe no chão suavemente. Ele era mesmo forte, mas não era daquele tipo de rapaz só músculo. Talvez fosse da dança pensava Luísa. Ele apenas disse-lhe o essencial e finalmente chegaram a uma paragem:
– Bem, chegamos é aqui. Onde todos os dias, terás autocarro para a tua zona a estas horas. Já deves ter o passe, todos os meses tens que renovar a senha, pode ser na tua escola. Sobes no autocarro sobes alguns degraus, encontras um senhor a segurar o volante mostras o passe e ele deixa-te entrar. Normalmente vais ter sorte, porque os condutores para a tua zona são muito simpáticos. Depois o autocarro vai andar, andar até diversas zonas, quando quiseres que ele pare carrega, num botão vermelho, pode estar no tecto ou numa barra. Carregas lá, quando chegares ao local que queres ficar! Aquilo faz um barulhinho, tipo ding dong ou coisa assim. Depois aquilo para e tu sais do autocarro pelas escadinhas e está lá. Fogo explicar-te dá trabalho! Percebeste?
Ele olha para ele como um Deus e abana a cabeça que sim. Uma porta do autocarro abre-se, um homem velhinho estava no volante e diz:
– Daniele, então desta vez para onde vais? – diz ele sorrindo.
– Bem, não sou eu que vou é esta minha amiga. A Luísa, vê leva-a direitinho para o sitio a onde ela pertence. Caniço, amigo, Caniço! Bem, Parvinha. Adeus! E não…
– Espera, já sei. Não te percas no autocarro. – diz ela pondo o dedo espetado no ar.
– Pois, isso. – diz ele olhando-a fixamente percebia que ela estava nervosa, olhava para tudocom medo de se perder. – Vai, ele avisa-te. Não, avisa senhor Rogério?
– Sim, suba senhorita. – diz o velhinho sorridente.
– Sim, sei, já vou. – ela morde o lábio.
– Ok, pronto, eu levo-te até casa.
Ela olha para ele surpreendida e diz logo que não, não era preciso. Além disso atura-lo mais alguns quilómetros é um sacrifício dos que garante o céu e ele poderia gastar dinheiro nisso, e depois começar a dizer que ela lho devia. Ele olha-a nos olhos, como ela ficava encantada com aqueles olhos azuis, que ao mesmo tempo lhe metia medo. Pareciam o mar, o céu, os seus olhos tinham uma cor única. Ele espeta-lhe o passe mesmo à frente da cara, pondo o dedo mais grande que tinha na foto, para não revelar-lhe a foto que possivelmente devia estar horrível. Afinal quem é que gosta das fotos que eles põem nos bilhetes de identidade, passes e outros cartões esquisitos. Sinceramente porque têm de ter uma foto nossa, pensava Luísa. Com aquele tom de voz tranquilo ele diz:
– Eu tenho passe não te preocupes. – depois ele entra para o autocarro, mete a cabeça de fora da porta e pergunta. – Vens ou vais, anda logo ou preciso de te pegar ao colo sua alteza do reino da fantasia?
Luísa acorda daquele estado pensativo, entra timidamente no autocarro, amostra o passe e o senhor do autocarro sorri gentilmente. Depois vai aguentando-se nas cadeiras, procurando pelo talbotãozinho que faria a sua aventura com aquele louco terminar (por hoje). Quando finalmente chega ao lugar onde ele já estava sentado à sua espera, este se levanta, olha para ela com um sorriso amigável e faz gestos para que se sente à janela. Ele mexia no telemóvel, estava mandandomensagens… Quem sabe talvez à namorada. Luísa queria dar-lhe a desforra de tudo o que aturara.
Luísa de uma só vez tira o telemóvel da mão do Daniele deixando-o incógnito:
– Hei, devolve-me isso! Estou a falar com uma pessoa!
– Não sem antes saber quem é. – diz Luísa segurando o telemóvel à frente dele.
– Queres levar um soco!? – diz Daniele de braços cruzados amuado.
– É para aprenderes. Deve ser uma namoradinha. – diz ela rindo como uma bruxa. – Agora vou ver os seus segredos senhor Daniele.
– Nem penses! Luísa olha ali uma garça, aqueles pássaros são mesmo raros. – diz ele apontando para a janela e fazendo cara de surpreendido.
– A mim não me enganas. Essa já é velha. Bem vejamos. – ela ia começar a carregar nosbotões para descobrir.
Daniele puxa a cabeça dela fazendo com que ela se deite no seu colo. Ela só arregala os olhos e fica vermelha. Afinal o que ele estava a fazer, ele não tinha o direito de colocar as suas grandes mãos, que pelo tamanho ela diria patas, e puxa-la para aquele lugar. Ele rapidamente tira-lhe o telemóvel. E como em hino de vitória diz:
– Ahahah! Estás a ver já o tenho, tontinha. Ficas mesmo engraçada com a cara vermelha. – diz ele rindo.
– Cala-te e deixa-me.
– Está bem.
Ele continua a escrever no telemóvel e parece que termina a conversa. Ficam ambos em silêncio. Daniele de vez em quando olhava para o relógio. O tempo não passava. Luísa olhava através da janela, quantas coisas belas ela podia ver. Tantas plantas, gaivotas, o céu, as Desertas…. Tantas coisas. A natureza dava um espectáculo e parecia que só ela admirava. O mar é o que a acompanha sempre, belo, mau e bom, ele é enorme, grandioso. Aquelas paisagens definitivamente eram o que prendiam muitos olhares de todo o mundo. O autocarro passa perto de um penhasco com um miradouro, Daniele levanta a cabeça mas como se aquilo o queimasse olha depressa para as suas mãos. E lembra-se…........
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