– O que é que se passa nessa cabeça? De repente desatas aqui a gritar merdas sobre a vida dos outros e nem te passa pela mona que isso é problema meu. – o alemão nem aumenta um tom de voz pairando no ar aquele ambiente de uma guerra pronta a despoletar.
Um circulo juntou-se à volta dos dois observando aquele espectáculo deprimente.
– Cada vez mais percebo que és vazio…Um porco.– a raiva contorcia-se na face da pequenina portuguesa.
– Admite andas com falta. Desejas comer este porco à muito… Vamos ali para trás. Querida acredita que a cada foda vais pedir bis. – Daniele aproximava-se dela provocando enquanto mordia o lábio.
– Algo tão puro, tu transformas em mais uns quantos trocos para essa carteira sem fundo.
– O quê? Amor? – Daniele dá uma gargalhada amarga. – Isso é apenas mais uma das maiores mentiras do mundo. Não percebes que isso não existe!
– Dizes isso porque nem mesmo a tua mãe te amou! – as palavras proferidas por Luísa trespassaram o gigante alterando pela primeira vez aquela feição para ira.

Daniele num impulso para destruir todos aqueles sonhos de menina rica, agarra-a enfurecido e dá-lhe um beijo. Luisa começa a bater-lhe tentando se libertar daquelas mãos gigantes. Ele estava a roubar-lhe um dos seus maiores desejos de adolescente. O seu primeiro beijo com um gigolo. Um rapaz sem princípios que já devia ter beijado mais de metade de meio mundo. Ela finalmente o afasta. Não se ouve nenhum choro. Os amigos ficam todos atónitos sem saber o que fazer ou dizer. Duas lágrimas caem pela cara de Luisa de modo simples. O som de uma estalada quebra o silêncio presente. Luisa corre envergonhada em direcção às casas de banho.

Sam chega-se ao pé do amigo e coloca-lhe a mão sobre o ombro demonstrando o seu apoio:
– Isso não foi legal, meu irmão.
– Sim Daniele, qual foi a tua? – questiona Joana indignada com aquela atitude do amigo. – Tu já devias desconfiar que aquilo era muito importante para ela. Aliás, para qualquer miúda. Tinhas mesmo que lhe estragar todo aquele cenário idílico que todas as adolescentes sonham.
– O quê? Desculpa, ela grita aquela porcaria toda e eu é que sou o mau da fita. Só podem estar a brincar.
– Ninguém está a brincar, tu agiste mal.
– Até tu Roxy. Vocês é que não estão nada bem. O que querem que faça agora? Desfaça-o? Isso é impossível.
– E que tal pedires desculpa? – ouviu-se do fundo do ginásio uma voz magnânima.
– Prof. Pedro, finalmente voltou. Não sei porque, mas isto parece um caos sempre que não está cá. – brinca Roxy mais aliviado.
– Atrasei-me um pouco. Daniele, tu e eu precisamos de falar. Os restantes treinem o que demos na última semana. Chega de vadiação. – dizendo isto bateu palmas e como por magia todas as pessoas naquela sala começaram a dançar.

Trazendo o Daniele para um canto, olhou-o não como um professor olha para um aluno, mas como um pai.
– Tu estiveste mal e sabes disso. Não preciso te repetir.
– Tu ouviste toda a conversa? Eu não sou o único culpado. – tenta justificar Daniele.
– Ouvi, contudo não justifica os teus atos.
–Pedro…
– Quem pertence a este grupo sabe muito bem que a honra e respeito é algo que tem que ser prezado. Um b-boy sabe reconhecer os seus erros sem temer. – recorda o dançarino mais experiente, enquanto amarra o cabelo em rabo de cavalo.
– Está bem, mas eu não errei desta vez.
– Daniele Stracietella Diamond se não te desculpas, não pões os pés dentro deste ginásio. — avisa-o sem pestanejar Pedro.
– Danço fora. – Pedro dá-lhe uma pancada na cabeça ao ouvir aquela resposta.
–Daniele!
– Ok, eu vou lá buscar aquela amuadinha do caraças.
O rastafári começou a procurar pela colega por todos os cantos do ginásio com pouco ou nenhuma vontade de a rever.

Enquanto isso, Luísa chorava desalmadamente. Como podia ele ser tão mesquinho?
O seu primeiro beijo. Devia ter sido com a pessoa que ela mais ama. Estúpido repetia ela na sua cabeça. Ainda por cima à frente de toda a gente. Era mesmo para humilha-la, pensava ela. Só lhe apetecia enfiar a cabeça num buraco e não ver mais ninguém.
– Chorona! Onde andas tu? Vá, pare de ser mariquinhas e aparece!
Luisa fingiu que não o ouviu e silenciou os soluços.
– Vamos fechar isto e vais ficar trancada aqui para amanhã. Não queres que te traga um lanche? Assim para não morreres de fome e ter que limpar o teu corpo. O Pedro não gosta de maus cheiros.
Ela remoeu aquelas palavras e não conseguiu esconder-se durante muito mais tempo.
– Eu saio quando fores embora. – explicou Luísa decidida a não o ver.
– Pareces mesmo amuada. Porque tanto drama por um beijo.
– Linguado! – protesta Luísa.
– Para quem não é entendida sobre o tema, tas muito bem informada. – ri Daniele que se encosta à porta do quarto de banho onde Luisa se encontra.
– Não era para ser assim. – Luisa ficava pensativa.
– Ta bem, também há muita coisa que quero ter e não tenho. Quer queiras, quer não um beijo não é nada mais do que um encostar dos lábios a qualquer coisa. Eu posso dar um linguado à parede e nada significar. Ela não fica assim como tu de certeza absoluta. – diz ele com toda a sua sinceridade e sem qualquer rasto de confusão.
– Tu és parvo. Isso é para ti que qualquer coisa serve. – diz ela ainda chateada.
– Desculpa, mas isto não me sai da cabeça.
– O que foi?
– Tu estás mesmo a gostar deste cheiro a retrete.
– O quê?
– Não, é só..
– Daniele.
– Faz-me apenas confusão… Pronto, tu gostas disso, eu gosto de outras coisas.
– Claro, isso é normal para ti.
– Vou mostrar-te um beijo sem significado, mas que poderia ser um grande triunfo para muita gente. – ele envia uma imagem para o telemóvel de Luisa.
– Não pode ser! Beijaste a Beyoncé? Ela não pode ter descido tanto. Esta mulher é uma diva. O que fazes nesta festa? – pergunta a madeirense ao explorar aquele cenário de festa luxuoso.