—Não, foi a do lado. Ou não conheces a Megan Fox? Deves ver mesmo muitos filmes. A Bee é apenas uma amiga chegada.

— Não respondeste à minha pergunta.

— É te desnecessária essa informação. E então não vais sair daí? – Daniele estava calmo, não pensava nem no raspanete que o seu tutor poder-lhe-ia dar.

— Só se pedires desculpa.

— Dou-te um snicker. – tenta negociar o loiro.

— Eu não me deixo comprar. – provoca Luisa novamente.

— Ta bem, então eu vou-me embora e deixo-te aí com esse bafo de retrete. Vou avisar o Pedro para trancar o ginásio, já que hoje dormes aí. É melhor avisares os teus pais que vais faltar às aulas amanhã. – Daniele tentava retira-la uma vez que sabia que a nerdezinha nunca faltaria a uma aula. Marchou no mesmo sitio na esperança que ela saísse daquele buraco. E… assim foi. Ela destrancou a porta e olhou-o com uma confiança rara no seu olhar, ripostando em seguida:

— Vou sair que não vale a pena perder uma aula por tua causa. – ela dá meia volta e saí decidida em direção à sala. – Este beijo não contou para nada.

— Claro, aí as aulas e os beijos que são tão importantes. – goza Daniele imitando a voz e gestos de uma rapariga histérica a falar, enquanto segue atrás dela.

Os amigos dançantes olham de esgueira preocupados com a pequenina de óculos. Pedro de braços cruzados sobre o peito pergunta logo:

— Então já pediste desculpa? – a pergunta até parecia mais uma ordem.

— Já. – mentiu rapidamente o aluno aborrecido já com aquela pergunta.

— Eu não ouvi. – esclarecer logo a rapariga.

— Ela está a ficar surda, não digas muito alto para ela não ficar ofendida. – o discípulo ao professor.

— Claro, tu és um esperto. Luisa, eu peço desculpa em nome do Daniele. Ele não devia ter agido assim.

— Não precisa de pedir desculpa, Pedro.

— Afinal gostaste.

— Tá mas é calado. – Pedro bate uma vez mais na cabeça de Daniele.

— Ele não sabe o que diz. – tenta ela não se enervar mais com os comentários idiotas do loiro.

— Bem, podem então começar a dançar. Tenho que a avaliar a vossa evolução. – o professor já tinha os pensamentos a navegar pelos movimentos fluidos entre aquelas paredes.

Naquele dia os dois dançaram tão distantes ao ponto de parecer que o outro não estava presente. O homem forte imaginava sobre como tornar aquele par num singular. Era complicado faze-los ver que as diferenças os tornavam melhores e mais fortes. Como o cimento que encontra a água e faz dela um lar duradouro. Ou o frio do mar que sem querer torna um dia de calor no mais maravilhoso dia de praia. Talvez só mesmo o tempo pudesse desmistificar aquele rancor em esplendor.

Os dias passavam a correr eram os exames, os ensaios, os passeios com a família e Luísa via o calendário ficar com menos páginas. Andava com o cérebro repleto de informação. Nem olhava em redor. Estava no Funchal com o nariz enfiado nos livros. Como ela gostava do cheiro das palavras saídas de páginas recentes. Entre deambulações estudiosas, leva com uma bola na cabeça.

— Au! – Luísa esfrega o local de embate para acalmar a dor.

Observa um menino de cabelo castanho-escuro com cores desbotadas que anda de um modo estranho sobre os membros. Ao deduzir que deveria ser o dono do objeto redondo Luísa pede:

— Tem mais cuidado, por favor.

— Au. Au au auuuuuuu. – uviava o menino com a língua a pender pela sua boa aberta.

Luísa pensava que ele estaria a brincar com a sua interjeição anterior.

Entretanto aparece uma jovem menina com lianas loiras a caírem-lhe pelos ombros. Onde já vi isto? Questionou-se Luísa. Ela agarra na bola e faz uma festinha na cabeça do pequeno rapazito. Olha para Luísa e sorri para a mesma. Depois faz uns gestos que parecem indicar ao menino a direção para casa. Este deita-se no chão recusando seguir as instruções. Luísa apenas assiste atónita. A menina joga então a bola na direção pretendida. Imediatamente o menino corre a persegui-la. Depois a rapariga de roupas largas faz sinal com a sua mão pequena para Luísa segui-la.

— Não, desculpa. Tenho muita coisa que estudar.

A menina abanava a cabeça que sim, agarra o braço de Luísa e puxa-a em direção em que enviou a bola. Ela andava desajeitadamente coberta por roupas que mais pareciam de rapaz. Boné na cabeça, uma T-shirt branca de tamanho XL e umas calças de ganga gigantes. Cada vez mais lembrava-lhe alguém. Após atravessar algumas ruas, chegou até duas portas de vidro com algumas inscrições. A menina abriu logo as duas portas não oferecendo qualquer percentagem de tempo para Luísa terminar a sua curta leitura. Havia muito movimento ali. Pessoas em todos os lados. Ao longe avista uma freira com uns 60 anos dizendo não com a cabeça como uma mãe prestes a dar um raspanete.

— Joaninha, Joaninha… Onde andaste tu, minha querida? – ela beija-lhe a face e abraça-a.

A menina em resposta gesticula e aponta para Luísa.

— Oh… Desculpe, a Joaninha. Às vezes ela gosta de fazer amigos em todo o lado. – a menina faz uma cara de desagrado. – Eu sou a irmã Clara Santos e este é orfanato do Sagrado Coração de Maria.

— Eu sou a Luísa. A menina é que me trouxe até cá…

— Eu sei, ela disse-me. Veja... é que ela sabe que estamos a precisar de ajuda e pensa que a Luísa parece ser adequada para nos auxiliar. Não a leve a mal. – desculpa-a a irmã de ar sereno.

— Estão mesmo a precisar de ajuda? – Luísa fica com uma certa pena daquelas pessoas que pareciam mesmo esforçar-se por criar algo de bom ao mundo.

— Estamos, mas não se preocupe. Nós cá nos arranjamos. Se não puder vamos tentar arranjar outras pessoas.

— E se eu ajudasse? Hoje tenho o resto do dia livre. – com estas palavras encerra o livro que estava a estudar.

— Era prefeito. Eu mostro-lhe já as instalações.

De repente o dia tinha-se tornado mais apetecível e vivo. O coração de Luísa estava tão acalentado que ela levava uma curvatura estranha na cara, um sorriso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.