Para o primeiro ano colegial, mamãe me matriculou também no período da manhã, na Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau Professora Yone Dias de Aguiar.

Primeiro dia de aula: onze de fevereiro de um mil novecentos e noventa e um, sete horas da manhã. Quando, pequenininho, de uniforme, sendo muito observado pelos demais colegas, todos na faixa etária entre quinze e dezoito anos, atravessei o portão de entrada e fui barrado pelo inspetor de alunos, senhor Marcelo, que me segurando pelos braços, perguntou:

— Aonde você vai garoto?

— Pra sala de aula! — Respondi surpreso — Vou estudar aqui, no primeiro ano.

— Aqui não tem primeira série no período da manhã — informou-me ele. — Você deve estar matriculado no período da tarde.

— Não estou na primeira série! — Neguei — Estou no primeiro ano colegial.

Ele me olhou dos pés à cabeça, se lembrou de algo e disse:

— Espere aí! Estou conhecendo você. Você é aquele garoto que esteve no espaço?

Acenei que sim.

— Venha comigo.

Levou-me até a presença da diretora, dona Luciana.

O fato era: Quando mamãe me matriculou, não informou quem seria eu. Quer queira, quer não, isto seria necessário, pois, mesmo tentando ser igual aos demais, eu era muito diferente, tipo assim, uma aberração da natureza[1] e com isto, ninguém me esperava por lá.

— Ele está no primeiro ano do segundo grau e vai estudar conosco — informou o inspetor à diretora.

Ela me olhou por cima dos óculos e disse:

— Não é que finalmente vou conhecer o menino que veio do espaço!

Fiquei calado.

— Sente-se — pediu-me educadamente. — Me desculpe o transtorno. É que não sabíamos de sua vinda.

— Acho que mamãe deveria ter explicado melhor, no ato da matrícula.

— Tudo bem. Pra você enfrentar uma escola secundária, não haverá problemas?

— Não! — Neguei sério.

— Pra nós também não. Você não é tão diferente assim! — a confirmou rindo.

— É que eu me camuflo muito bem! — Insinuei me levantando e representando — Escondo minhas garras afiadas... Minha cara enrugada... Minha língua comprida... E meu cuspe ácido que corrói qualquer pessoa.

— Você não é um alienígena tão feio assim! — Brincou ela. — Mas acho melhor que eu o apresente a sua nova sala de aula. Pode ser?

— Até agradeço à senhora — tornei a me sentar.

— Esperemos que as aulas se inicie e iremos até sua sala.

Voltou a seus afazeres matutinos, enquanto eu aguardava o início daquele primeiro dia letivo.

Dois minutos depois, soou o sinal. Mesmo assim, ela esperou mais alguns minutos e só depois, se aproximou dizendo:

— Vamos lá!

Levantei-me e ela prosseguiu:

— Saiba que me sinto privilegiada, em contar com você em nossa escola.

— Obrigado, de coração. É muito bom ser bem recebido.

— Eu sei! — riu ela — Espero que não mostre suas garras.

— Consigo me controlar.

— Então vamos lá?

Seguimos pelo corredor, até a sala, onde estava escrito no alto da porta: 1º Colegial A. Pediu licença e entramos:

— Classe: — chamou a atenção ela — professora Janete: primeiramente quero desejar-lhes muito boas vindas ao primeiro ano do segundo grau. Tenho certeza de que entre vocês, muitos são novos em nossa escola, vindo de outros colégios, aonde o ensino fundamental só vai até a oitava série. Portanto, entre vocês, quem veio de outras escolas?

Doze adolescentes levantaram as mãos.

— Desejo a vocês que vieram de outras escolas, que sintam-se felizes em nosso meio e aos que já eram de nossa escola e nos conhecem, que recebam bem os novos companheiros e continuem se dedicando. Agora ainda mais, pois o segundo grau é um pouco mais… não digo difícil, mas sim, esforçado. Aparecerão novas matérias: Biologia, Física, Química, Fisiologia… Com isto, temos que nos dedicar ainda mais. Estamos de acordo?

Alguns da classe, principalmente as meninas, disseram sim. Dona Luciana prosseguiu:

— Agora quero apresentar a vocês, inclusive a você Janete — disse segurando o braço da professora. — Mais um coleguinha de classe. Trata-se de Regis Fernando. Acho que a maioria de vocês já o conhecem e aqueles que ainda não o conhecem, Regis esteve ausente da Terra por um longo período e após seu retorno há quase... três anos — me olhou, perguntando — É isso Regis?

Acenei positivamente e ela prosseguiu:

— Então Regis voltou à escola e agora nos dará o privilegio de sua companhia, durante os próximos três anos. O que peço a vocês, é que o tenham como a um grande amigo, lhes dando apoio e contando com o apoio dele também. Regis é um menino muito especial e tenho certeza de que ele vai nos ajudar muito, principalmente trazendo fatos que ele aprendeu, visitando outros lugares desconhecidos por nós. Outros planetas… a NASA… Podemos contar com você, Regis?

— Claro que sim! Se eu for útil…

— Como não sobrou nenhum lugar vago aqui na frente, gostaria de pedir: se alguém aqui da frente puder ceder o lugar à Regis. Ninguém é obrigado — riu ela carinhosamente — É que ele é um pouco menor do que vocês. Então seria útil sentar-se à frente do grupo.

— Não se preocupe dona Luciana — pedi timidamente — Estarei bem, mais ao fundo também!

— Lembre-se: — prosseguiu a diretora — Não é privilegio. Digamos assim, que se faz necessário.

Dois meninos se levantaram ao mesmo tempo.

— Pode usar este lugar — disse um deles, seguindo a um lugar vago, cinco cadeiras mais ao fundo.

— Como você se chama? — Perguntou a diretora.

— Leandro — respondeu ele calmamente.

— Obrigado Leandro. Pode se sentar Regis.

Sentei-me na primeira cadeira da terceira fila, ao lado da porta. A diretora se retirou e Janete prosseguiu:

— Muito bem então. Seja bem vindo a nossa sala, Regis. Eu me chamo Janete e lecionarei Biologia, que é uma matéria que estuda…

— A vida! — Exclamei.

— Isso mesmo! É quase a mesma coisa do que vocês estudaram em Ciências, no ginasial. A diferença, é que aqui a gente vai se dedicar mais ao estudo de vidas microscópicas: amebas... Protozoários e seres unicelulares. Alguém sabe dar um exemplo de algo que tem apenas uma célula?

— Gema de ovo! — Disse Leandro.

— Parabéns!

Ao contrário do que imaginava, fui muito bem recebido no início de meu segundo grau.

Imaginava que muitos colegas iriam caçoar de meu pequeno tamanho, me chamando de tampinha, grilo, anão, mascotinho, pequeno polegar… Mas não. Acho que por isto mesmo, todos me tratavam super bem e com muito respeito. Parecia que cada um deles, queria cuidar melhor ainda de mim... Tinham-me, realmente como uma mascote e admiravam eu saber tanto quanto eles; acreditavam que eu era um menino prodígio; não conseguiam me imaginar com vinte anos de idade. Para eles, a aparência era o que importava e então eu teria apenas nove anos e pronto.

No começo do ano letivo, minha classe tinha trinta e quatro alunos. Três deles: André, Daniel e sua irmã Andréia, vieram do Marcos Trench e já eram meus velhos conhecidos. Os demais eram: Leandro, que me cedeu o lugar, Felipe, Lucas, Renato, Marcelo, César, dois Paulo Sergio, dois Alexandre, Mateus, Leonardo (não eram meus vizinhos), Pedro Henrique e Fabio. As meninas eram: Lucia, Cristiane, Mariana, Joana, Mirian, Lauriana, Letícia, duas Fátima, Ivana, Maria Eduarda, Márcia, Eliane, Luana, Conceição e Sonia.

Quase meio dia, chegando de volta à minha casa, acompanhado por Paulinho, que após um ano separado, voltara a ir para a escola comigo, estando ele no segundo ano do colegial, também estudava no Yone. Quando mamãe nos viu chegar, perguntou-me:

— Como foi seu primeiro dia de aula?

— Surpresa pra todo mundo! — Aleguei — Até pra diretora. Ninguém esperava um menininho de nove anos no segundo grau.

— E então?

— Até o inspetor de alunos me barrou na entrada. Disse que lá não tinha primeira série.

— Queriam te mandar de volta pra primeira série Regis? — Se admirou Leandro, que já estava almoçando.

— Pra você ver o que tenho que passar!

Segui para o quarto e me troquei de roupas, vestindo um velho short cinza e camiseta sem cavas branca; depois, descalço, segui para a mesa, almoçar com os demais.

Quase cinco horas da tarde, após almoçar, dormir um pouco e ajudar mamãe a passar pano molhado pra limpar o chão, apanhei minha bicicleta e fui até a casa de Beth, contar minhas aventuras, em meu primeiro dia de aula no segundo grau. Chamei no portão e sua mãe me atendeu, pedindo que entrasse.

Coloquei a bicicleta na varanda de entrada e segui com sua mãe até a sala, onde a encontrei sentada, quase no colo de um rapaz de sua idade. Meu coração bateu desesperado. Ela deu um risinho pra lá de fingido, me dizendo:

— Oi Regis! Este é meu amigo Peter!

Amigo! Pensei trêmulo. Nem eu, que a namoro a tantos anos, jamais me sentei tão próximo.

— Como vai garoto? — Perguntou-me ele cínico — Beth fala muito em você.

— Es…tou bem… Obrigado — quase nem consegui falar.

— Sente-se! — Pediu ela. — Estamos planejando um trabalho.

— Não… — Neguei. — O... brigado… Só dei uma passadinha… Também tenho um trabalho…

— É verdade! — Disse ela — Agora você está no colegial. Terá muitos trabalhos. Quando precisar posso ajudá-lo.

— Está bem. Agora já vou indo. Tchau.

Saí que nem uma bala da casa dela e acho que cheguei à minha casa em menos de trinta segundos; joguei a infeliz bicicleta no chão do quintal e corri a meu quarto, onde, deitei-me de bruços e estava chorando. Fazia muito tempo que não chorava mais. Porém, desta feita, não era choro bobo de criança saudosa ou mimada. Parecia mais um choro de adulto. Meu coração batia dolorido, assustado e com raiva. Beth era muito ingrata, cínica e fingida.

Acho que mamãe me viu entrar quase correndo. Então entrou em meu quarto e me vendo de bruços soluçando, sentou-se a meu lado e perguntou:

— O que há com você, Regis?

Sentei-me a seu lado e parecendo querer um forte abraço, disse, soluçando muito:

— A Beth é uma safada.

Acho que ela percebeu do que se tratava. Abraçou-me, perguntando:

— Ela terminou com você?

— Pior que a safada nem fez isso! — Disse chorando — Mas acabei de vê-la, sentada praticamente no colo de um rapaz.

— Ela não pode ser sua, filho.

— Sei disso mamãe. Mas eu a amo muito!

— Esse amor não daria muito certo.

— Fale isso pro meu coração.

Ela riu carinhosamente, deu um beijo suave em meu peito e tornando a me abraçar apertado, disse:

— Chore mesmo. Isso lhe fará muito bem. Eu não consigo encontrar nada pra lhe confortar.

Papai, que acabara de chegar do trabalho, chegou até a porta do quarto; mas mamãe, o vendo, colocou o dedo indicador na boca, esboçou um leve sorriso, como a pedir silêncio. Ele, sem entender muito, se afastou.

— Mamãe… O que vou fazer agora? — Chorei ainda mais.

— Por enquanto, só chorar — disse ela carinhosamente — Depois, aos poucos, essa dor se cicatrizará.

— Ela é uma falsa.

— Acho que não filho. No fundo, ela te quer muito bem. Pode ter certeza. Depois, eu mesmo vi você aconselhando ela a arranjar outro namorado.

— Eu sei! Mas eu não queria isso.

— Faz o seguinte: Vou te deixar sozinho. Pode chorar até acabarem essas lágrimas. Você ficará bem.

— Meu coração dói muito, mamãe — chorava ainda mais.

— Eu sei que dói! — Acariciou meu peito, como se fosse uma massagem.

— Dá vontade esquecer que sou homem e dar um murro na cara dela!

Mamãe riu de meu jeito de falar, se levantou e na saída da porta ainda me disse:

— Se precisar, é só me chamar.

E se retirou.

Voltei a me deitar e permaneci ali, imaginando um milhão de coisas: ora a favor de Beth, ora contra ela. O fato era que, embora concordasse que ela deveria arranjar alguém para lhe fazer realmente feliz, como mulher; por outro lado, não aceitava perdê-la assim, para um estranho, que acabava de chegar do nada.

[1] Não gosto de usar este termo, pois dá a impressão de algo horrível e monstruoso, o que felizmente não se aplicava a mim.

Notas finais
Só falta mais um capítulo para darmos uma solução à "eterna infância" deste menino humilde. Vai um comentário aí?