Notas iniciais
Este seria o último capítulo, mas, acabei por criar um sub.capítulo final com apenas 400 palavras para conclusão da estória.

Só às sete horas da noite, me levantei indo direto tomar um banho demorado. Retornei ao quarto enrolado na toalha, acabei de me enxugar e me vesti com roupas de dormir: uma camiseta verde clara, sem cavas e uma cueca da mesma cor, tipo samba canção de algodão. Segui para a copa, onde papai, mamãe, Paulinho e Letícia, estavam reunidos para o jantar.

Durante aquela refeição, quase ninguém conversou. Eu também permaneci calado, só pedindo licença para ser o primeiro a sair da mesa e ir para a sala, assistir televisão. Nem sei o que estava passando, pois com milhões de pensamentos na cabeça, meus neurônios não conseguiam processar mais nada.

Em seguida, papai e Paulinho vieram juntar-se a mim, enquanto mamãe e Letícia lavavam a louça do jantar. Os demais irmãos, não jantaram em casa, devidos alguns compromissos. Percebi que papai queria tocar em meu assunto particular, para me dar alguns conselhos, mas talvez não encontrando palavras, preferisse calar-se.

Ainda não eram nove horas, quando me levantei, disse boa noite a todos e fui me deitar. Ninguém contestou, pois já era de costume mesmo, eu dormir cedo, pois sempre acordava no máximo às seis horas da manhã.

Logicamente não dormia mais com meus pais e mesmo com Paulinho, que desde quando papai encostara sua cama à minha pela primeira vez e eu amanheci abraçado a ele em sua cama, aos poucos esse velho hábito foi se tornando insignificante e nem mesmo sei, quando foi que acabei por abandonar tal costume bobo, de criança medrosa.

Era madrugada, quando tive um sonho diferente com Beth: sonhei que estava sem camisa e a beijava nos lábios, como nunca fizera antes; um beijo longo e apaixonado e ela acariciava meu corpo inteiro. De repente, apareceu Peter, com um chicote de couro cru nas mãos e quando me deu a primeira chicotada, acordei assustado, chamando:

— Mamãe!

Ela apareceu num instante. Sentei-me na cama e ela me abraçou dizendo:

— Calma. Já passou.

Eu estava suado.

— Você está ardendo em febre! — Disse-me ela — Vou lhe dar um remédio.

Enquanto ela foi preparar um remédio, papai, que também surgira, sentou-se a meu lado.

— Você teve um pesadelo? — Perguntou-me ele.

Acenei que sim.

Não era um pesadelo. A princípio era um sonho bom.

Mamãe retornou rápido, tomei o remédio preparado por ela e voltei a me deitar.

— Boa noite mamãe! Boa noite papai!

— Se precisar de algo, você chama — disse-me papai.

— Obrigado. Vou ficar bem.

Em menos de cinco minutos estava novamente dormindo.

Fazia muitos anos que não ficava doente. Não seria normal ter tal febre. Mas acho que a danada não vinha de meu organismo imortal e sim de uma alma apaixonada.

Acordei às seis horas e como de costume, fui direto ao banho. Encontrei papai na entrada do banheiro.

— Volte pra cama, Regis — disse ele. — Falte à aula hoje.

— Não papai! — Neguei — É começo de ano e eu estou bem. Não precisa se preocupar.

— Mas você teve febre alta, à noite.

— Era dor de cotovelo — insinuei com um sorriso forçado.

Papai riu e eu entrei no banho.

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Já eram mais de três horas da tarde, eu estava na sala, fazendo o que a maioria das crianças fazem: assistindo a um filme na televisão. Por ironia, se tratava de “Meu primeiro Amor”, uma linda história de amor, com final nada feliz, vivida por duas crianças.

Alguém chamou no portão e mamãe foi atender. Em menos de trinta segundos, Beth, sozinha, entrou na sala.

— Oi Regis — cumprimentou-me ela, com voz de piedade.

— Oi! — Respondi secamente.

— Posso me sentar?

Acenei que sim.

Ela sentou-se bem próximo.

— Está bravo comigo?

Não respondi.

— O Peter? Realmente já faz algum tempo que a gente se conhece. Nunca lhe falei dele, pois éramos apenas amigos.

— Não parece — duvidei.

— Realmente! A gente começou a namorar ontem. Eu deveria ter lhe contado. Mas nem deu tempo.

— E eu? — Cabisbaixo comecei a chorar.

— Regis — levantou meu queixo. — Olhe pra mim! Já tenho vinte anos e nunca namorei outra pessoa. Você era meu primeiro e único namorado. Mas pense bem: vou acabar ficando pra titia. Depois, foi você mesmo quem me aconselhou a arranjar alguém. Não foi?

— Mas era da boca pra fora — continuei chorando.

— Eu continuo querendo você. Mas é um amor especial! Um amor diferente.

— Vai namorar aquele rapaz?

— A gente se gosta.

— Então vou arrancar meu coração.

— Vai nada! — Riu ela — Você é muito especial pra mim.

Passou a mão em meus olhos e rosto, dizendo:

— Enxugue essas lágrimas. Não sofra. A gente vai continuar sendo os mesmos. Tenho certeza de que você gostará de Peter. A gente fala muito de você.

— O que vai ser de mim, Beth? Não consigo aceitar você com outra pessoa — continuava chorando.

— E quando eu estiver velhinha, parecendo sua vovó e você continuar sendo um gatinho como hoje. O que vai ser de mim?

— Você não será velhinha e eu gatinho!

— Imagine o ano de dois mil e trinta. Vamos estar na faixa dos sessenta anos. Só que você continuará com essa carinha bonita de nove anos.

— Será!

— É o que parece.

— Não quero perder você, Beth! — Falei soluçando.

— Você não me perderá! Mesmo eu namorando Peter, vou continuar a ter por você, o mesmo carinho que tenho hoje.

— E ele?

— Tenho certeza que ele vai ter um carinho especial por você também! Ele é muito bom. Garanto que não terá ciúmes de você.

— Estou com o coração partido — insinuei com sinceridade.

— Não fique assim.

Levantou-se.

— Vamos comigo visitar o Peter. Quero apresentar direito você a ele.

Acenei negativamente.

— Como não?

— Quem sabe depois que eu me recompor.

— Não quero vê-lo triste.

— Acho que vou ficar bem.

— Não tenha mágoa de mim. Pensa que eu também não sinto dor no coração, em tomar uma decisão assim?

— Acredito em você.

— Jura?

Acenei que sim.

— E me perdoa?

— Já sabia que isto teria que acontecer um dia.

— Pois é. Você mesmo me aconselhou.

Deu-me um beijo na face, disse tchau e se retirou. Talvez fosse aos braços de Peter.

Desliguei a televisão, deitei em minha cama e continuei chorando, ainda mais.

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Beth namorou firme com Peter, por mais de dois anos, então se casou na Igreja Matriz (Santuário de São Francisco de Assis), no centro da cidade. Eu, ainda sonhando com ela, vi como estava bela vestida de noiva. Não iria cumprimentá-la, mas como ela me viu, julguei que seria falta de educação, então a abracei em silêncio:

— Você está trêmulo Regis. O que há?

Ao olhar-me nos olhos, percebeu minhas lágrimas.

— Que isso menino? Já falamos muito sobre isso. Tenho vinte e três anos. Não poderia mais esperar por você.

— Sei disso Beth.

— Você será nosso filhinho! Lembra?

— Já tenho muitos pais. O que eu queria era um amor.

— Seja criança menino! Você tem esse privilegio.

Afastei-me dela, ainda com os olhos cheios de lágrimas. Até me esqueci de cumprimentar o noivo.

Agora era definitivo: dois anos separados e eu jamais aceitei a ideia de perdê-la, afinal, éramos namoradinhos desde os sete anos de idade, quando estudávamos juntos, na segunda metade da primeira série. Mas agora, teria acabado de vez: ela estava casada e nada mais podia fazer...

... Aliás, acabei por me tornar amigo de Peter e realmente, ele tinha um carinho especial por mim, assim como a maioria das pessoas o tem.

Mesmo depois que eles se casaram, menos vezes, mas continuei frequentando sua casa, que era próximo a casa de sua mãe. E para que não houvesse nenhum tipo de problemas, só a visitava quando Peter estava presente. Ela realmente não mudou muito. Mesmo depois de casada. Só mudou em respeito às responsabilidades, em cuidar de uma casa e de um esposo... E passou a me querer, dizia ela, como se eu fosse assim, o primeiro filhinho seu, com os mesmos abraços e beijos de antigamente. Beijos nas bochechas.

Quase coincidência, sua primeira filhinha natural, nasceu bem próxima à data de meu aniversário, em seis de março, de um mil novecentos e noventa e quatro. Recebeu o nome de Letícia. Dois dias depois, eu completava vinte e três anos de idade e continuava com o rostinho de nove.

— Nem pense em paquerar minha gatinha! — Disse-me Beth, brincando.

— Não vou não! — Neguei rindo.

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Consegui bolsa de estudos, abandonei papai e mamãe, indo estudar no centro de São Paulo, capital, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Só visitava-os nos feriados prolongados ou férias.

Muitas vezes, com saudades, eles acabavam indo me ver, visto uma distância de quinhentos quilômetros, sem nave espacial para a viagem.

Especializei-me em Pediatria e concluí meus estudos no final do ano dois mil. Retornando à minha já saudosa Penápolis, porém, por parecer uma criancinha, não pude exercer minha profissão, me tornando apenas médico assistente, realizando consultas simples (quando o caso era mais complexo, tinha que encaminhar a criança a outro médico[1]).

Todos meus irmãos já se casaram e se mudaram. Letícia se mudou com o esposo Jeferson para Recife e Leandro com Raisse, para Florianópolis. E todos, até Paulinho, me fizeram ser um jovem titio de seis sobrinhos: Leonardo, de meu tamanho, nove anos e Ricardo, seis, filhos de Carlos Henrique e Luana, que brincavam comigo de igual para igual; Michael, doze anos, filho de Letícia; Yasmin, oito anos, filha de Leandro; Mariana, sete anos, filha de Luis e Isadora; e mais um Regis (meu irmão me ama), seis anos, filho de Paulinho e Jussara, que mora bem próximo de casa e com isso, o menino fica mais tempo conosco, do que com os próprios pais.

[1] Qual pai confiaria seu filho pequeno a um menininho de nove anos de idade, com um bisturi nas mãos?

Notas finais
Só mais algumas palavras finais em um sub.capítulo. Que tal um breve comentário?