O retorno do menino do espaço
10 Antipatia
A doutora colocou diversos apetrechos, que ela dizia serem eletrodos, grudados em meu corpo: no tórax, barriga, pescoço e testa.
— Pra que tudo isso? — Perguntei admirado.
— Queremos apenas acompanhar suas reações — disse-me ela.
— Saber se estou mentindo?
— Pode ser! — Riu Jack Schmitt.
— Falando sério — interrompeu Mark. — O que aconteceu a você, depois que retornou à Terra, em mil novecentos e oitenta e um?
— Estive aqui na NASA! O senhor Charles estava aqui!
— Depois disso, Regis? — Mark seria o interlocutor.
— Pra evitar tantas perguntas, contarei o que sei — aleguei. — Tentei continuar estudando, mas o senhor Frene, mandou me buscar novamente.
— Animado esse homem! Não? — Riu Jack — Pra gente dar um pulinho até a lua, existe um planejamento de muitos anos e muito dinheiro investido. O senhor Frene, portanto, resolve buscar um menino na Terra e vem imediatamente.
— Ele pode estar ouvindo o senhor! — Insinuei zombeteiro.
— Mais essa ainda! Tira sua privacidade.
— Com certeza!
— Como é essa nave? Como viaja? Quanto demora?
— É um enorme disco voador, construído em material parecido a níquel. Na verdade não sei direito o que é! Eles falam que é uma espécie liquida, como mercúrio ou estanho derretido. Viaja a uma velocidade muito superior a velocidade da luz e é totalmente controlada por computador. Existem os engenheiros que planejam a viagem e traçam toda a rota no computador. A nave obedece à risca esta rota. Caso haja risco de colisão com algum asteroide, ela automaticamente se desvia, retornando à rota original, segundos depois.
— Como são os alienígenas?
— Idênticos ao senhor! Até no modo de se vestir! Na verdade, são mais inteligentes... Não que o senhor seja burro! Mas são mais inteligentes devido à longa experiência, vivida em mais de cinco mil anos de vida.
— Ninguém vive cinco mil anos, Regis! — Negou Louis.
— Eu tenho quase dezoito. Pareço?
— Como você consegue falar minha língua? — Continuou Louis.
— Eu não consigo! Apenas interpreto — apresentei-lhe meu aparelhinho.
— Cinco mil anos? — Admirou-se Jack — Você estava no paraíso!
— Nem tanto! Apesar de tudo, lá também existem problemas e até mortes. Não por doenças.
— Ninguém fica doente? Jamais? — Perguntou Louis.
— Suster é um planeta maior, porém, idêntico à Terra. Tem muito oxigênio, gás carbônico, nitrogênio, vapor d’água, clorofila e saúde. É iluminado por dois sóis, fazendo com isso um dia de trinta e duas horas, de oitenta minutos cada. Sabe o que significa isso?
— O que? — Perguntou Louis.
— Um dia em suster é maior do que dois dias na Terra.
— Por que eles te queriam nesse lugar? — Prosseguiu Mark.
— Só queriam ter uma criança. Eles não tinham crianças por lá.
— O que aconteceu?
— Um problema radioativo os deixou estéreis. A doutora sabe disso.
— Realmente — confirmou ela. — Nos exames que fizemos em Regis, confirmou esse problema. Possivelmente ele jamais se tornará pai. Possivelmente, nem mesmo adulto ele se tornará.
— Vai ser um Peter Pan? — Gracejou Jack — Michael Jackson está construindo a Neverland real. Quem sabe você possa ir morar com ele.
— Obrigado! Prefiro voltar ao Brasil.
— Ele é muito famoso!
— Sei disso! Gosto de suas músicas. Principalmente “Ben”.
— Voltando ao assunto: — pediu Mark — qual à distância de Suster? Você sabe?
— Oitenta e sete anos luz.
— Quanto tempo de viagem?
— Setenta e um dias terráqueos! Quase trinta dias susterianos! Dentro da nave, parece que não são nem duas semanas.
— Tem lógica a questão de dentro da nave não parecer nem duas semanas. Se algo viajar além da velocidade da luz, é como se o relógio tivesse quase parado. Isso explica você não ter envelhecido nesse tempo, enquanto que seus pais e principalmente seus irmãos menores ultrapassaram você. Mas por outro lado, o que nos tá dizendo é impossível! Você teria que viajar mais do que um ano luz diário. Ninguém consegue esta façanha.
— Diga isso ao senhor Frene — gracejei.
— É o mesmo que acreditarmos em viagem no tempo!
— Acho que loguinho, isso será possível!
— Por que eles vieram tão longe? Não teria vida em um planeta mais próximo deles?
— Idêntica a nós humanos, só no planeta de Mira!
— Quem é Mira?
— Uma menina de minha idade. Só que bem maior.
— Maior? Adolescente!
— Não! Gigante.
— Quem lhe disse?
— Eu vi pessoalmente. Quase morri nesse lugar. Fiquei preso em uma teia de aranha, que era do tamanho de uma onça! Até hoje tenho pesadelos com aquele monstro.
— O que é onça? — Quis saber Jack.
— Um animal silvestre do Brasil! — Respondi, com cara de sabe tudo.
— Como esse cara é meio atrapalhado e já lhe buscou por duas vezes na Terra, não seria perigoso lhe buscar novamente?
— Nunca mais ele me buscará!
— Como pode ter certeza?
— Me prometeu.
— Da outra vez ele te prometeu também — afirmou o doutor Marcelo. — Lembro que você me disse.
— Dessa vez é diferente! Ele não me buscará mais!
— O que é diferente? — Insistiu Mark — Como pode ter certeza?
— Eles não precisam mais de mim.
A doutora Wendell se espantou. Ela sabia que eu acabaria contando meu segredo.
— Eles sabem que fizeram muito mal à Regis — emendou ela pra me ajudar. — Ele não suportaria ser sequestrado novamente. O stress o mataria.
— Seria isso Regis? — Insistiu Mark.
— O senhor Frene não é tolo e sabe que não seria nada bom pra mim. Ele ainda me ama.
— Concordam em viver sem crianças?
— Eles têm outra criança — contei.
A doutora Wendell se assustou.
— Criaram um robozinho! — Tentou me ajudar ela — Não é isso Regis?
— Não! Um menino de verdade! Nem é um menino! Ele é um adolescente e nesse momento está viajando pra Suster. O mesmo disco que me trouxe está levando pra lá, meu amigo Erick. Ele tem dezessete anos e concordou em ir.
— Como assim, Regis? — Se espantou ainda mais, a doutora.
— O que lhe disse ontem é verdade doutora Wendell. Só ocultei o Erick. Ele é praticamente abandonado na Terra e disse que será feliz no mundo do senhor Frene. Nesse momento ele e Luecy viajam pelo espaço e ainda estão a três quarto de distância. Não viajaram nem a metade do caminho. Só deverão chegar lá no início de dezembro.
— Quer dizer que existe outra criança terráquea sequestrada por esse doido? — Quis saber Mark — Você avisou as autoridades?
— Pra quê? Eles irão resgatar Erick?
— Isso é uma afronta!
— Não se zangue senhor Mark — pedi. — O senhor Frene é amigável.
— Depois de tudo que lhe fez, você acha isso?
— Ele me ama. Apesar de tudo, só queria meu bem.
— Outro menino sequestrado! — Não aceitava Mark — Até quando? Dez anos?
— Acho que para sempre! Mas ele estará feliz. Garanto!
— Você garante? Se esquece da família na Terra? — Comentou nervoso Mark — Se quando você estava por lá, você se divertia e era feliz; saiba que seus pais choravam aqui na Terra.
Meu coração bateu assustado. Nervoso, comecei a chorar e arrancar todos os tais eletrodos de meu corpo.
— Eu não era feliz coisa nenhuma! Chorava todos os dias! E se estou aqui hoje, é porque batalhei por isso! Chorei, briguei, apanhei, fiquei amarrado, insisti e até Fuji! Quase morri na fuga e vem o senhor me dar lição de moral?
— Respeito comigo Regis — pediu Mark.
— Respeito comigo também! — Gritei.
— Posso mandar prendê-lo por desacato.
— Que desacato?
— Calma gente — pediu a doutora me dando um lenço de papel. — Só estamos conversando.
Devagar ela voltou a grudar os tais apetrechos elétricos em meu corpo.
— Regis: — prosseguiu Louis — você voltou pra Terra porque fugiu?
— Mais ou menos — Respondi ainda soluçando e limpando os olhos. — Consegui a ajuda de Luecy.
— Quem é Luecy? — Perguntou Jack.
— O robô. Fizemos uma aposta e ele me trouxe à Terra. Quando ele resolveu voltar à Suster sozinho, não conseguiu. Precisava de pelo menos um ser vivo na nave.
— Como assim? — Quis saber Louis.
— A nave só funciona com a presença de um ser vivo. Ela é semelhante à uma planta, aproveitando o gás carbônico que eliminamos. Dentro dela o clima é sempre agradável. A gente nem precisa tomar banho e não necessita de máscaras de oxigênio. Tudo é produzido pela nave. Com isto, um robô sozinho não é capaz de viajar com ela.
— Vou entender: — se concentrou Mark. — A insignificante quantidade de gás carbônico que apenas um humano elimina, se transforma em combustível suficiente, em um disco voador enorme; enquanto isso, ele nos fornece o oxigênio puro, pra nos manter vivo durante a viagem?
— É isso que os astronautas susterianos me disseram! — Confirmei com cara de poucos amigos, não querendo conversa com o tal Mark.
— Pra mim lançar uma pequena nave da Terra, levando por exemplo, um satélite em sua órbita, a energia que eu preciso, me consome mais de treze mil quilos de combustível por segundo e você vem me querer convencer de que com zero de nada, você faz uma viagem através do espaço distante!
— Eu não quero convencer o senhor de nada, senhor Mark — neguei fazendo careta. — Quem sabe eu estivera dormindo durante sete anos e agora venho aqui para brincar de cientista ou astrônomo com o senhor!
— Qual material não se desintegra à uma velocidade maior que a da luz? — Perguntou-me Louis.
— Parece níquel — respondi. — Mas não deve ser! A velocidade é muito além do que a da luz! Estes mistérios, eu não sei responder.
— Mas você chegou a viajar sozinho numa nave deles! — Insinuou Charles — Foi o que você disse da outra vez!
— Tentei fugir.
— Como você traçou sua rota? — Quis saber Charles.
— Não tracei! Tentei fugir pilotando a nave manualmente. Achava que sabia o caminho pra Terra. Pior besteira! Perdi-me por completo.
— E como você se encontrou?
— Virei a nave cento e oitenta graus e tentei voltar à Suster.
— Esperto você! — Riu a doutora.
— Burro eu! Acabei no planeta de gigantes. Depois de escapar da aranha gigante com a ajuda do pai de Mira e ser estudado por eles durante vários dias, consegui ir embora e depois de chorar muito, durante muitos dias perdido no espaço, o senhor Frene conseguiu me reencontrar por monitoramento e então me guiou de volta até ele.
— Puxa! — Suspirou a doutora.
— Puxa, digo eu! Não brinque com o espaço de Deus!
— Regis: — Insistiu Mark — o que faremos pra trazer Erick de volta?
— Acho que não podemos fazer nada! — Neguei — Acredito que a NASA não possui uma nave capaz de ir até Suster.
— Lógico que não! — Exclamou Jack — Nossas viagens tripuladas não vão alem da lua! Mesmo as não tripuladas como a Voyager, por exemplo, que foi lançada em mil novecentos e setenta e sete, só chegará a Plutão mais ou menos em dois mil e quinze.
— Mas você consegue falar com o tal senhor Frene! — Insistiu Mark.
— Até o senhor consegue! — confirmei rindo — É muito provável que ele esteja assistindo nossa entrevista.
— Como isso é possível? — Duvidou Charles — Que sistema seria capaz de nos ver ao vivo, oitenta e sete anos luz de distância?
— Ele me disse que foi instalado um satélite invisível, que monitora a Terra constantemente.
— Então é guerra! — Riu Jack — Eles estão nos espionando!
— O objetivo era de apenas me espionar. Eu sim nem tenho privacidade. Não posso nem ir ao banheiro, sem que eles estejam me vendo.
— Não pode fazer nadinha errado, garoto? — Riu Jack.
— Nem sexo! — Ri também, zombeteiro.
— Safadinho! — Caçoou a doutora.
— Brincadeira — corrigi. — Estou me acostumando com os gracejos dos adultos.
— Acho bom você construir um banheiro de chumbo! — Emendou Jack.
— Ãh! — Não entendi.
— O chumbo é resistível a muita coisa. Pode ser que ele te dê privacidade.
— É verdade? — Acho que me interessei.
— Nem a radiação atravessa as paredes de chumbo — confirmou o senhor Charles. — Já viu falar no grave acidente na usina nuclear de Chernobyl?
— Não! — Franzi o nariz.
— Ocorreu em mil novecentos e oitenta e seis. Você não estava na Terra. Ninguém sabe até hoje quantas mil pessoas morreram nesse acidente. Alguns falam em quatro mil, outros falam em cem mil. O fato é que todos foram enterrados em caixão de chumbo.
— Acho que vou pedir pra NASA construir um banheiro de chumbo, pra eu ter mais privacidade contra o olho eletrônico do senhor Frene.
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