Notas iniciais
Amigos leitores. Houve uma falha minha na inserção dos capítulos e eu teria deixado o capítulo 5 (Celebridade) de fora da trama. Por isso, tive que reeditar e bagunçar um pouco a sequência de quem já teria lido até este capítulo. Desculpe-me. Agora está tudo certo.

Embora os assuntos sempre saiam fora do foco principal, Mark, que anotava tudo, era muito esperto e tirava proveito de cada detalhe. Acho que o assunto satélite invisível foi o mais importante no seu conceito. Ele sabia que invisível era um termo para dizer que não seria captado pelos radares da Terra, mas que na verdade, o satélite espião estava lá, perdido junto aos milhares de outros terráqueos que existem no espaço, a uma distância aproximada de até trinta e seis mil quilômetros de altura, ou pior: sendo os susterianos avançados como eu dizia o satélite deles, poderia estar em outra órbita, bem superior (e realmente estava, a cinquenta mil quilômetros) e pior ainda: se eles realmente desejassem espionar toda a Terra, teria que ter pelo menos três satélites, chamados geoestacionários (e tinham). Se a ideia fosse realmente me espionar, bastava apenas um desse tipo de satélite, pendurado numa baixa órbita (cerca se quinhentos quilômetros), na região noroeste do estado de São Paulo, imaginando assim, que eu jamais estaria algum dia, em entrevista no Cabo Canaveral, em estação espacial da NASA.

— Acredito que ele não esteja nos vendo — insinuou Mark.

— Eles têm imagens gravadas, desde o dia em que nasci — adverti-os.

— Não acredito que eles pudessem esperar você aqui na NASA — negou Mark.

— E qual a diferença? — Quis saber a doutora.

— Uma coisa é instalar um satélite de monitoramento local — alegou Mark. — Outra é um de monitoramento global.

— Regis disse que ele instalou um destes, em altíssima órbita — afirmou Charles.

— Mesmo que os satélites existam e ele nos espiona — insistiu a doutora. — é impossível que ele o veja em tempo real, estando a oitenta e sete anos luz de distância.

— O senhor Frene criou um atalho virtual no espaço, capaz de nos ver e ouvir ao vivo — informei-os, fazendo gestos de sabido. — Em tempo zero.

Louis e Charles, que quase não falavam, estavam sempre acompanhando a tela do computador, que por sua vez estava ligado à máquina, que tinham seus fios, os tais eletrodos, grudados em meu corpo. Eram milhões de detalhes que se transferiam automaticamente para a tela daquele computador.

— O que significa todos aqueles detalhes no computador? — Perguntei.

— Isso é um polígrafo! — Explicou Louis.

— O que faz um... Polígrafo? — Me perdi.

— É um detector de mentiras! Todas as reações de seu cérebro são direcionadas pra lá. Cada detalhe que você omitir, mas seu cérebro pensar é automaticamente direcionado pra lá. Se aparecer detalhes em vermelho, é porque você mentiu.

— Vixi! — Caçoei — Vai esgotar a tinta vermelha de sua impressora!

— Nem tanto — riu Charles. — Você não mentiu muito até agora. Só o necessário.

Pensei um pouco e olhando para a tela do monitor, resolvi dizer:

— O senhor Frene é um monstro, que parece um sapo gigante e cospe veneno pela boca.

Mark se assustou e eu ri, quando percebi um monte de caracteres esquisitos em vermelho, que surgiu na tela do monitor. Não era brincadeira de Louis. Aquela máquina, realmente conseguia decifrar a verdade e a mentira.

— A polícia deveria usar essa máquina pra prender ladrões! — Insinuei rindo.

— E usa! Só que na polícia, a entrevista é mais estressante do que a que fazemos contigo.

— É? — Duvidei.

— Claro! — Exclamou Charles — É o objetivo do detector. E alem de que, você não é nenhum bandido.

— Sou a cobaia.

— Não! É o privilegiado.

Aquela conversa perdurou até às treze horas. Acho que contei tudo sobre minha viagem interplanetária. Acho que minha única omissão foi meu segredo revelado apenas à doutora Wendell. Espero que a máquina da verdade, não tenha conseguido identificá-lo. Nem sei por que desejava tanto omitir este fato. Acho que realmente temia por meus pais. Não queria que eles sofressem, imaginando um outro filho, preso no planeta Suster. Não entendia nada sobre clone. Não sabia e nem sei, como isso é produzido, através do DNA de algo vivo.

Às quatorze horas, já com meus irmãos e mamãe, seguimos para o almoço no restaurante do próprio hotel.

Na manhã de sexta-feira, às nove horas, estava novamente no consultório da doutora Wendell.

— Você falará com os engenheiros, ainda hoje?

— Disseram que sim! Às dez horas.

— Como você está se sentindo?

— Ainda sinto assustado.

— Por quê? Ninguém vai lhe fazer mal!

— Não sei! Sinto o coração apertado. Tenho vontade de estar em casa.

— Sua família está com você. Não tem o que temer.

— Doutora Wendell, como é feita a clonagem?

— Pergunta interessante e muito difícil de explicar! Mesmo eu sendo médica, não saberia explicar corretamente. O fato é que, tecnicamente é impossível clonar um ser humano. O que se pode clonar na verdade são embriões, que seria o mesmo processo de gêmeos idênticos, utilizando células do irmão, antes dele nascer. Teríamos que fazer o que a natureza já faz por nós.

— Como o senhor Frene conseguiu um clone meu?

— Como você não produz espermatozoides, acredito que ele tenha tirado uma ou várias células sua, congelado estas células e então, retirado um óvulo de uma mulher doadora, mesmo ela sendo estéril, como você disse, então ele deve ter tirado o núcleo desse óvulo, de alguma maneira praticamente micro cirúrgica, no lugar desse núcleo, eles implantaram uma de suas células. A partir daí, sua célula começou a se dividir, se multiplicando rapidamente; uma vira duas, que vira quatro e vai pra oito… Isso vai fazer com que esse óvulo se transforme em um embrião. A partir de então, eles implantam esse óvulo no útero de uma mulher; não necessariamente a doadora do óvulo e não importa que ela seja estéril. Eles só precisam do útero dela. A partir daí, o resto é idêntico ao desenvolvimento de um bebê normal.

— Como a célula nesse caso se dividiu, se as minhas células não se dividem mais? Como meu clone tem meu tamanho, se em Suster ele não pode envelhecer?

— Desculpe Regis — pediu ela. — O que eu lhe disse, é meu parecer. Nem deve ser assim que foi realizado seu clone. Vou estudar o caso. Se descobrir eu te conto.

— E sobre minha saúde? Tem alguma novidade?

— Você é o garoto mais saudável que já conheci!

— E meu futuro filho?

— Vou me dedicar à sua saúde com carinho. Vou apresentar sua infertilidade em um congresso e ver o que descubro. Prometo lhe deixar informado.

— Já que está tudo bem, estou indo ao encontro dos outros engenheiros.

— Pode ir. Não estarei lá e talvez não o veja até sua partida ao Brasil. Quando aparecer novidades entrarei em contato.

Deu-me um beijo e saí ao encontro dos demais engenheiros que estavam no mesmo prédio.

Ainda não eram dez horas, quando o senhor Mark, Charles e o doutor Marcelo, me convidaram a entrar na sala de entrevista.

— Pode se sentar — pediu Mark.

Sentei-me à frente deles, em uma confortável poltrona de tecidos. Louis e o astronauta Jack, não estavam presentes.

— Regis, na tarde de ontem estivemos analisando sua entrevista, gravada em nosso computador — alegou Mark. — Você não mentiu nenhuma vez, com exceção da hora em que chamou o senhor Frene de sapo; mas omitiu muita coisa. Talvez esteja receoso de colaborar conosco. Não se preocupe, nós não iremos declarar guerra ao planeta do senhor Frene. Mesmo porque, não temos tecnologia suficiente pra irmos até ele; nem mesmo de encontrar seu satélite invisível…

— Depois, ele não é tão inimigo assim! — Insinuou o doutor Marcelo.

— E eu não omiti nada! — Neguei. — Tudo o que me perguntaram, respondi do jeito que sei!

— Só o mínimo necessário! — Insinuou Mark.

— Detalhei até demais! — Insisti.

— Não se preocupe — articulou Mark. — Você omitiu, mas seu cérebro não! Neste computador, está gravado tudo o que aconteceu à você, desde o momento em que saiu da Terra, em mil novecentos e oitenta. Você sabe muito, garoto! Tem estudado muito! Principalmente em relação ao planeta Suster.

— Meu cérebro contou tudo?

— Não escondeu nada! — Exclamou Charles.

— É como se seu cérebro fosse um agá-de (HD) e nosso computador fizesse uma cópia dele — explicou Mark. — Sabemos, por exemplo, que você tentou fugir uma vez e a nave caiu, se incendiando. Verdade?

— Verdade — confirmei.

— O senhor Frene chegou a espancá-lo e amarrá-lo na cama.

— Verdade — confirmei. — Mas posso ter falado, da outra vez em que estive aqui.

— Você esteve num planeta, o qual batizou por nome de… Mark Três. Verdade?

— Concordo.

— Isso você não contou à ninguém!

— Concordo.

— O senhor Frene, pretende explodir nossa Terra, utilizando grande quantidade de raios gama.

— Quê? — Me espantei.

— Seu cérebro nos disse! — Insistiu Mark.

— Nem sei o que é raios gama! — Neguei com sinceridade.

— Estou brincando, garoto — continuou Mark. — mas sabemos tudo! Ou quase tudo! Ainda não tivemos tempo de analisar todas as informações geradas por seu cérebro.

— O fato Regis: — alegou Charles. — É que não precisamos mais entrevistar você. Isso é bom! Você terá o dia livre pra visitar nossas dependências e o parque, com sua família. Tudo que precisamos, está no computador e não será usado pro mal. Pode acreditar.

— Como prometemos: — prosseguiu o doutor Marcelo — Sábado e domingo, você e sua família terão os dias livres para um passeio à Disneylândia. Eu não estarei com vocês, mas Judith os levarão no carro dela.

— Não precisam mais de mim? — Perguntei.

— Está livre! — Riu Charles — A cópia de seu cérebro está conosco.

— Dá a impressão que vocês estão me roubando.

— Não temas — pediu Mark.

— O senhor Frene tira minha privacidade. Agora vocês roubam meus pensamentos. Pobre infeliz, de um menininho de nove anos de idade.

— Pelo menos você contribui pro futuro das viagens espaciais, administradas pela NASA.

— O que significa NASA? — Perguntei curioso.

— National Aeronautics and Space Administration. — Respondeu Charles. — Já te disse isso antes!

— Não sou tão bom de memória — dei de ombros.

— E você corre o risco de ir pra Genebra! — Alegou Mark. — Um belo passeio pela Suíça.

— Sai de mim! — Neguei assustado. — Vou pro Brasil.

— Acho que a CERN quer falar contigo!